domingo, 28 de novembro de 2010

Weekly Report: Novembro, Semana 49

“Guerra ao Terror” no Rio
Inquestionável: uma das piores semanas que essa cidade já viu. Com eventos como a Copa do Mundo e Olimpíadas se aproximando, a sensação que todo carioca teve foi de humilhação e vergonha por tudo o que aconteceu. Mensagens no meu Facebook pipocando de amigos estrangeiros perguntando como estava a situação na cidade, eu tentando tranquiliza-los que Ipanema ainda era seguro, ao mesmo tempo que em que pensava em toda a minha família espalhada pela Zonas Oeste e Norte e pensava como essa cidade realmente é partida. Os carros de polícia se multiplicando pela cidade, numa escala em que eu jamais vi antes, com os policiais se escondendo atrás dos fuzis e estampando na cara a sensação de insegurança e medo que dominou a cidade. O pânico – que pelas facilidades modernas de e-mails, sites de notícias e twitters – se espalhando pela cidade, com as notícias de empresas liberando os funcionários mais cedo, planos de jantares e get togethers sendo cancelados por “motivos de insegurança” e a preocupação por todos os amigos que moram na Zona Norte.

Não tenho muito de novo a acrescentar – afinal tudo foi exaustivamente discutido, analisado e pensado. Mas sinceramente, três coisas me preocupam seriamente nessa questão. E sobre as quais vale a pena debater aqui.

Primeiro, o argumento mais dito e repetido pela classe média carioca nessa semana de “para fazer uma omelete precisamos quebrar alguns ovos”. 30 pessoas mortas não são “alguns ovos”, 30 pessoas mortas não são um efeito colateral necessário de algo que”tinha que ser feito”. São 30 pessoas mortas. Que não sabemos se eram chefes do tráfico, aviões ou gente honesta que levou um tiro dentro de casa tentando se esconder do conflito. Já perceberam que inexistem informações sobre quem eram essas pessoas? São 30 pessoas pelas quais não haverá “Abraço a Lagoa pela Paz” nem advogados processando o Estado porque eram... 30 pessoas, provavelmente negras, moradoras de favela e que por isso são “ovos necessários de serem quebrados” para a garantia da paz no Rio de Janeiro. Que não merecem nem a mínima dignidade de terem seus nomes mostrados ao público. Isso tudo combinado com o discurso clássico de “Direitos Humanos é o caralho” - como se realmente fossemos uma Suécia, onde os policiais ficam inertes por uma variada gama de restrições de ações

Segundo, a nomenclatura de “guerra” para o conflito que aconteceu no Rio. Me chegou via e-mail a excelente declaração do deputado Marcelo Freixo sobre a questão dos conflitos no Rio que vale a pena ser repetida.

... Primeiro, que as imagens, as armas, o número de mortos, tudo isso poderia nos levar a uma conclusão da ideia de uma guerra. Mas, qual é o problema de nós concluirmos que isso é uma guerra, de forma simplista? Não há elemento ideológico: não há nenhum grupo buscando conquistar o estado. Não há nenhum grupo organizado que busca a conquista do poder por trás de qualquer uma dessas atitudes. As atitudes são bárbaras, são violentas, precisam ser enfrentadas, mas daí a dizer que é uma guerra, traz uma concepção e uma reação do Estado que, em guerra, seria matar ou morrer. Numa guerra a consequência e as ações do Estado são previstas para uma guerra. Hoje, inevitavelmente, o grande objetivo é eliminar o inimigo e talvez as ações do Estado tenham que ser mais responsáveis e mais de longo prazo.

Pouco vale a pena acrescentar a esse paragrafo. Talvez deixar registada a minha decepção (mesmo enquanto pirralho que não sentiu na pele o que era Ditadura, mas que todo dia quando entra na faculdade vê os nomes dos estudantes da minha faculdade assassinados pelo Governo Militar escritos numa placa numa das entradas de uma das minhas salas de aula) de ter o Exército e Marinha de volta as ruas, com o apoio popular, sem que as pessoas sequer questionassem coisas como “Forças Armadas não existem para meter em balas em brasileiros” ou sobre o perigo de estimular o orgulho de “Salvador da Pátria” de uma instituição que tomou o governo para si e só foi retirado faz meros 25 anos. E enfim... quem não pelo menos repensar duas vezes o que ouviu durante essa semana pode voltar para a leitura da sua Veja e me taxar de “defensor merdinha dos direitos humanos”.

E por último, a minha eterna crítica a adoração brasileira pelas “soluções práticas e fáceis”. Que nós realmente fossemos idiotas alienados e acreditassemos que o BOPE “iria vencer essa guerra” e que daqui para frente não existisse um bandido sequer, uma bala sendo disparada sequer no Complexo do Alemão e Morro do Cruzeiro – realmente dá para acreditar que essa situação não irá se repetir em nenhum outro morro carioca, em nenhum outro subúrbio brasileiro? Realmente precisa relembrar que essa situação é nada mais do que o pagamento tardio de uma divida social, de um modelo de desenvolvimento que provocou a geração de uma sociedade altamente desigual (again – década de 90, Brasil país mais desigual do mundo, superando qualquer país africano que jamais poríamos nossos pés por questões de segurança), da falta de alternativas e possibilidades de crescimento pessoal para uma massa significativa da população que foi ignorada pelo governo e pela sociedade enquanto elas “não causavam problemas”? Isso não é um jogo de “Counter Strike Rio – Real Life”, no qual quem vence a batalha solta um gritinho de “sou macho pra caralho” e vai tomar seu ovomaltine preparado pela empregada. Isso não é um joguinho de “Call of Duty” no qual o BOPE sai da favela carregando uma criança nos braços, transpirando dever e orgulho de “defender o que é certo” enquanto os favelados jogam flores, orgulhosos de terem sido “resgatados”.

A solução? Não sou especialista em segurança pública, não sou economista especializado em estudos da pobreza e muito menos tenho topete para sugerir fórmulas inovadoras de desenvolvimento urbano e social. O que eu sei? Que tudo começa pela construção de uma Polícia respeitada por toda uma população: da Vieira Souto ao Complexo do Alemão. E o modelo para essa polícia não é Batalhão de Operações Especiais, circulando pelas ruas num panzer blindado com uma caveira com duas armas e uma faca enfiada dentro dela. É uma Polícia eficiente, exata, cirúrgica, que prende, que atira na perna antes de tomar a decisão de enfiar uma bala na cabeça de um negro (lembram do caso do morador do Andaraí que levou um tiro na cabeça enquanto usava uma furadeira elétrica porque o policial do BOPE pensou que era uma submetralhadora? Ah claro... “efeitos colaterais”).

E o pior de tudo? Eu sei que essa polícia não vai existir tão cedo. Porque é mais fácil aumentar o número de recrutas do BOPE, porque é mais fácil meter porrada em morador de favela ao invés de investir em inteligência (no próprio discurso do Marcelo Freixo: sabe onde fica o órgão da inteligência da Polícia carioca? Na Polinter – e agora, cariocas me entendem), porque é mais fácil bater sem perguntar do que ser eficiente e deixar o julgamento nas mãos do Judiciário, como toda sociedade tolerante deve fazer.

E para nós, gays: a solução para esse problema, alternativa a questão de desenvolvimento e inclusão social desse mar de gente favelada e marginalizada, já está acontecendo: o fundamentalismo religioso. O entretinemento, o centro de direitos sociais, a escolinha nessas regiões de favela e subúrbio estão sempre concentradas na figura do Igreja e do Templo Religioso - que quase sempre propaga esse discurso conservador e reaça contra o qual nós temos “lutado”. E na hora em que essas instituições passarem a querer exercer o seu poder de mobilização de massas, o seu poder político... aí bees, vai ser a hora de empacotar as Aussie Bums e camisetas AX e ir morar lá pelas bandas do Primeiro Mundo, porque teremos perdido na “nossa” batalha.

E o Rio
O cheiro do mar. O ar saudável e bronzeado das pessoas. A possibilidade de sempre contar com a praia como programa possível para uma tarde de sol livre. O mar de ressaca quebrando na praia. O sotaque – do carioquês ipanemense até o carioquês suburbano-favelado, todos com seus 's' transformados em 'x' e seus 'r' aspirados. O fato de que não importa o quão decadente economicamente nos tornamos sempre seremos identificados como a síntese, a imagem do país para o mundo. A vista da chegada a São Conrado pela Avenida Niemeyer. As lojas de sucos. Sempre se surpreender com uma vista fantástica e espetacular do Pão-de-Açúcar e do Cristo. O tempo bom e verão quase permanente no clima dessa cidade. Perceber o clima de excitação e de êxtase quando Dezembro chega e sabemos que mais um verão se inicia. Poder escolher entre a Praia ou as ruas internas (e quase sempre o trânsito fluir melhor... pela praia). A síntese de montanhas, cidade, floresta e mar. Sentir na pele o retumbar dos tambores e tamborins durante um desfile de escola de samba. Escutar Bossa Nova em qualquer lugar do mundo e ser automaticamente transportado para 'casa'.

O fato de ter 'Naturalidade: Rio de Janeiro' na minha carteira de identidade e passaporte. E pensar que tudo isso acima faz parte de um estilo de vida. O meu estilo de vida. E que independente do lugar onde eu vá morar, eu quero ter certeza de que tudo isso espera aqui, por mim.

Crise Econômica na Europa
Para todo os que curtem os meus posts “Economics for Bees”, um must read: essa coluna do Clóvis Rossi no Folha Online. Pequena lição de como a Economia realmente funciona. (E claro, estou aberto a perguntas!).

The Bitch is back
E para todos que ficaram inconformados depois que Mr. Daniel e o seu Chato no Ar resolveram pular fora do cyberspace (e se sentiram órfãos de blogs gays cariocas de altíssima qualidade), uma boa notícia: eles está de volta, mas agora sob o título “O Mundo em Meus Olhos”. Sim, queridos: o filho pródigo do Méier está de volta, com seus textos surpreendemente fodas (yes, honey: músculos, good look e inteligência podem conviver numa mesma pessoa!), senão numa pegada mais intimista. Direto para o blogroll, claro.

Agora: todo mundo sabe que o Daniel adora hidden messages, e que o ChatonoAr era ne verdade Chat Noir. Portanto, qual a hidden message de “O Mundo em Meus Olhos”? Algo tipo assim... Tom Zé? :D

(E para o Dan: Welcome back Bitch! Sentimos sua falta!)

12 comentários:

Daniel disse...

o 1o post tem hidden message e ninguém percebeu (cof cof, agora não tão hidden, né?)

obrigado! ;)

Daniel disse...

Ai, tava tão entusiasmado com o confete que esqueci de comentar o texto. Excelente! dá para contar nos dedos os amigos que não estão bradando a solução fácil do bandido bom é bandido morto.

beto disse...

Bom... a desigualdade brasileira não foi criada nos anos 90: acho que vc anda bebendo muito na fonte lulista da "herança maldita", onde tudo de ruim vem de FHC e tudo de bom é pós-2002... aliás, um dos fatores que agravava a desiguladade era a inflação, que só foi combatida de verdade na era FHC (e Lula & cia se opuseram frontalmente a isso na época...)

acho que, além de todos os problemas de desigualdade etc a nível nacional, o RJ sofreu mais ainda pela série de escolhas políticas feita pela população a partir de 1982 com Brizola e sucessores (casal Garotinho, etc), quando se institucionalizou uma política de "negociar" (haja eufemismo aqui...) com o narcotráfico e bandidagem em geral. e os resultados desastrosos estão aí. solução? estou junto com vc, não sei qual é.

sobre o texto do Clóvis Rossi: concordo que os bancos tem que pagar, mas o que ele coloca já foi feito em larga escala. ao resgatar os bancos britânicos, o governo virou grande acionista do Lloyds e majoritário no caso do Royal bank of Scotland. situação semelhante na Irlanda. ou seja, os proprietários dos bancos foram punidos, pois perderam suas posições acionárias.

Quando ele fala "às custas dos credores dos bancos", ele simplesmente esquece de mencionar quem são os credores dos bancos. Somos eu, vc e todo mundo que deposita $$$ num banco. Por isso que os governos se cagam de medo de deixar grandes bancos quebrarem pois sabem que no fim a conta vai estourar na mão dos milhões de depositantes que perderiam uma parte de seus depósitos - algo politicamente explosivo!

O cidadão comum acha que bancos emprestam o $$ do "banqueiro" e que se bancos quebrassem seriam os "banqueiros" que tomariam prejuízo. Isso está só muito parcialmente correto. Para cada R$8 que um banco empresta, uns bons R$7 provem dos depositantes etc e apenas R$1 dos "banqueiros" em si...

Outra coisa... bancos são supervisionados pelos governos... então... esses governos deixaram os bancos emprestarem loucamente, ajudar a criar bolhas etc... agora os governos (ou seja, a sociedade) estão pagando o pato pelo trabalho mal feito por esses próprios governos.

Fernando disse...

@Beto: Já que você comenta assíduamente o meu blog, vou tomar a liberdade de ser bem direto ao ponto com você.

Primeríssimo de tudo: ONDE eu falei que a desigualdade foi criada pelo governo FHC? Óbvio que a desigualdade não foi criada pelo governo FHC - não obstante o neoliberalismo pregado pelo governo dele não quisesse lá resolver isso muito não - e vem de uma situação histórica e de inserção da economia brasileira na economia mundial. É um resultado de um processo de séculos, agravado pela postura da ditadura de "Eu decido, vocês obedecem" em termos econômicos.

Sobre os bancos, acho que você entendeu o texto ligeiramente errado.

Uma das bases fundamentais do liberalismo (templo de adoração do seu adorado FHC) é o laissez faire. Quanto menos intervenção governamental, melhor. No setor financeiro, isso sempre foi seguido ao último grau, senão o país era considerado desinteressante para investimentos, virava um pária da economia mundial, bla bla bla.

O que está acontecendo nos países da Europa é um sinal de que a falta total de regulamentação desse setor pode ser catastrófica. Portugal e Grécia possuem sim sinais de mal gasto de dinheiro da UE, etcetal. A Irlanda não. O que a Irlanda fez foi tornar pública uma dívida absolutamente privada, causada pela busca dos bancos irlandeses por taxas de lucro cada vez maiores. O resultado disso será uma retração econômica séria. E o pulo do gato: segundo a cartilha da economia liberal, a Irlanda tinha feito tudo certo, e até ontem era chamada de Tigre Celta. Pq será que deu errado? :(

E sinceramente, Beto, os bancos que causaram esse tipo de crise na Europa e EUA dependem muito menos do meu ou seu depósito de salário e muito mais dos gigantes fundos de pensão privados ou dos grandes investidores, para os quais somente interessa quem fornece o maior retorno. Não importa como, onde e qual a técnica pela qual esse retorno tenha sido extraido.

É exatamente nesse ponto que a Europa tem discutido atualmente: a necessidade de um controle sobre o setor financeiro, e da participação dele na repartição dos custos gerado por uma crise com essas proporções.

beto disse...

fernando, é ótimo ser direto, é um saco os rodeios que se fazem aqui no Brasil para ser "agradável" com todo mundo. opiniões conflitantes não são uma ofensa, certo? lógico que tudo isso com boa educação, e acho que tanto eu como vc seguimos esse padrão.

bom, mea culpa primeiro: inferi na sua referência a "década perdida dos 90" uma crítica embutida aos governos da época (basicamente FHC). para mim, década perdida foram os 80s com crescimento pífio, inflação descontrolada etc.

sobre o FHC: sim, acho que fez muito pelo país e pisou na bola em outras coisas (pagar o preço que pagou pela reeleição, manter o câmbio artificialmente valorizado por muito tempo, bobeou com o apagão iminente). do mesmo jeito que acho que Lula fez coisas boas e ruins (entre elas, me incomoda muito o maniqueísmo e revisionismo histórico dele).

acho que vc errou na análise dos meus comentários. e, sendo muito honesto tb, vc não entende o funcionamento de bancos e do mercado financeiro (mas ninguém nasce sabendo e, se for do seu interesse, vc pode passar a entender). não tome isso como ofensa, tem zilhões de assuntos que eu não entendo nada e não me ofendo se alguém mostrar isso pra mim. e se continuo lendo seu blog é pq gosto de seus insights sobre vários assuntos. em outros, discordo e deixo minha opinião.

O modelo FHC não era laissez-faire e sim baseado em agências reguladoras para SUPERVISIONAR agentes privados na sua área de competência. Investidores não gostam de tudo ao deus-dará, pois isso gera incerteza. Investidores gostam de regras claras, com um arcabouço legal estável, bem definido e mecanismos imparciais e rápidos de resolução de conflitos (ou seja, nada de justiça que leva 10 anos pra julgar um processo - ou que some no banheiro do fórum se vc der $$$ pro cara certo).

Ao contrário do que parece achar, o "laissez-faire" do FHC foi o que restabeleceu a solidez do sistema bancário brasileiro que perdura até hoje, inclusive acabando com/forçando a venda de bancos privados mal-administrados/ quebrados de importantes figuras políticas, como foi o caso do Nacional, Bamerindus e Econômico. E os ex-donos não gostaram nadinha. Tb peitou e forçou a maioria dos governos (seus aliados ou não) a se desfazerem dos bancos estaduais (Banerj, Banespa, Banestado etc), que eram fontes de imensas maracutaias políticas, empréstimos apadrinhados, corrupção, e prejuízos enormes pro erário público.

A crise não foi causada apenas pelos bancos de investimentos que não captam recursos do grande público (e, mesmo esses bancos, estão mexendo indiretamente com $$$ do público em geral sim, através de zilhões de mecanismos). Deutsche Bank, Dresdner Bank, Commerzbank participam até o pescoço nesse mercado e captam depósitos tb. Os Landesbank estatais alemães (como WestLB e Bayerische) perderam muita $$$ nisso tudo. E de onde vem parte dos recursos dos Landesbank? Das instituições locais de poupança que recebem o $$$ dos salarios e aposentadorias do Fritz e da Helga. Tudo é extremamente conectado no mercado financeiro moderno.

Quem está na outra ponta de um fundo de pensão? Eu, vc e todo mundo que trabalha a vida inteira e usa um fundo de pensão para ter uma aposentadoria no futuro.

Por isso o receio político de qualquer governo de deixar isso tudo desmoronar. Pois eles sabem que na ponta desta cadeia está a população em geral, pequenas, grandes e médias empresas, e todo o setor produtivo.

Acho sua visão inocente e ideologicamente carregada ao achar que o $$$ no mercado financeiro pertence basicamente a Bill Gates, Richard Branson, bilionários russos e árabes e aos invisíveis "grandes investidores". Nada mais longe da realidade. Vc parece esquecer que bancos são meros INTERMEDIÁRIOS que fazem circular (de maneira cada vez mais complexa) recursos financeiros de toda a sociedade.

beto disse...

e sobre a Irlanda: é como se o BB, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander/Real e HSBC todos quebrassem ao mesmo tempo - por terem feito montanhas de empréstimos malfeitos, financiado a compra de imóveis cada vez mais caros (parece familiar?) e outros pecados. Ou seja, estamos falando sim do $$$ de TODA a população da Irlanda em jogo e não apenas dos donos da Guinness e RyanAir!

Fernando disse...

Tovarish Beto,

Sem problemas em você questionar o meu conhecimento sobre mercado financeiro – eu não sei de tudo em Economia, e a área na qual eu poderia argumentar que tenho alguma especialização ou conhecimento mais profundo é a de Energia e Comércio Exterior. Acho área financeira um saco, e leio sobre o setor o que considero como essencial para um economista entender. Sem maiores motivações.

Agora, uma outra coisa é a questão de como nós enxergamos o sistema financeiro, e sinceramente, nesse ponto somos bastante discordantes. Você considera que realmente “o laissez faire do FHC restabeleceu a solidez do sistema bancário brasileiro” eu considero que qualquer sistema financeiro seria considerado sólido oferencendo a maior taxa de juros do mundo. Você realmente acredita que o modelo do FHC era baseado em liberdade vigiada através da agências reguladoras, enquanto eu acredito que liberdade vigiada inexiste, principalmente quando as agências reguladores são notoriamente falhas, como em alguns dos setores que foram privatizados no mundo. Em outras linhas, a sua abordagem com relação à Economia é ortodoxa, enquanto a minha é heterodoxa. Isso não quer dizer que um saiba menos do que o outro, somente que eu não concordo com as suas visões, valores e importâncias dadas a determinados aspectos.

Sobre a crise, claro que ela não foi somente causada pelos bancos de investimentos, claro que uma crise bancária precisa ser sanada por qualquer governo minimamente são e inteligente para evitar que seus efeitos se alastrem de forma ainda pior por uma economia (e no caso da Europa, por um grupo de países). Mais uma mais: jamais questionei isso, Beto. E se você entendeu isso dos meus textos e comentários, por favor, releia-os de novo porque acho que você vem tentando antecipar argumentos meus com base numa idéia de ideologia econômica que você acha o que eu sigo.

Fernando disse...

O que eu questiono, o que foi levantado pelo texto do Clóvis Rossi, o que tem sido discutido em inúmeros semanários e jornais especializados em Economia é a questão da necessidade de um aumento do controle sobre o mercado financeiro por parte dos governos. A crise americana, a derrocada da Islândia, crise grega, atual crise irlandesa, provável futura crise portuguesa e espanhola (e deus não queira uma eventual crise italiana) todas começaram por problemas causados por um sistema financeiro envolvido em operações de altíssimo risco que se provaram... como se altíssimo risco. Até então, durante toda a década de 90, a “doutrina econômica” pregava que mercados financeiros desregulamentados eram o objetivo a ser seguido – e disso você não pode discordar, senão eu retorno com qualquer Relatório do FMI dos anos 90 e as recomendações dadas as economias mundiais. O que estamos vendo agora pode ser o início de uma mudança com relação a esse aspecto, e isso eu acho importante atentar.

E sinceramente Beto, acho bem errada a sua tentativa de generalização com relação à importância e composição de sistemas bancários e financeiros. São imensamente diversificados, até mesmo dentro da própria Europa. Enquanto nos EUA o perfil do mercado financeiro é composto sim de pequenos investidores (que montaram seus clubes de investimento no Meio-Oeste americano, i.e.) na Europa Continental isso acontece de uma forma completamente diferente, principalmente na Alemanha, onde a participação direta em Bolsas por parte dos pequenos investidores sempre foi reduzidíssima. O surgimento dos grandes fundos de previdência privada tem sido inclusive frequentemente associado a instabilidades econômicas, e por isso as manifestações para a reforma previdenciária na França foram tão intensas (a percepção dos franceses que previdência tem que ser administrada pelo setor público é fortíssima, e recai no muito lógico argumento de que o governo jamais irá falir, enquanto o mesmo não pode se dizer do “muy estável” privado no qual você pode ter feito sua previdência privada).

E para terminar, acho um tanto quanto irônico (para não devolver o “inocente e raso”) você chamar a minha visão econômica de “ideologicamente carregada”, porque isso dá a entender que a sua é isente de ideologia (ou eu entendi errado?). Sinceramente, Beto? Você realmente acredita que a ciência econômica é composta de uma verdade universal e absoluta, e que os debates teóricos são meras punhetagens sobre o óbvio?

:)

Saudações Petistas,
Fernando.

Fernando disse...

@Beto: P.S.- Não sou comunista, muito menos petista. Mas acho que valeu a pena deixar você pensar isso. Nem que fosse por 3 linhas. :D

Gustavo Miranda disse...

Correção devidamente feita
;-D

beto disse...

primeiro: tovarish foi muito bom. fiquei na dúvida se era hebraico (por causa do tov) ou russo (o "ish" me soou assim). o google sanou minha curiosidade.

segundo: acho que, infelizmente, é inerente a um papo via blog que ocorram ruídos nas interpretações do que um escreveu, de como outro leu etc etc. por isso a cordialidade e boa vontade é essencial.

terceiro: concordo 100% com vc que economia está longe de ser monolítica. minha visão (leiga) é que é uma mistura de ciências sociais (inexatas, por natureza) com instrumentos de ciências exatas no meio. sempre tive bronca dos caras que acham que podem construir modelos econométricos "ultra sofisticados e precisos"; que é só entrar X dados no modelo que isto te dará o infalível resultado Y, como se o mundo real não fosse bem mais complexo e imprevisível. [se tiver interesse, olha o caso do hedge fund Long Term Capital Management, entre seus diretores estavam os ganhadores do Prêmio Nobel de Economia de 97].

quarto: debates teóricos são punhetação? basicamente acho que não, mas um pouco de sim tb. óbvio que grandes avanços pra humanidade surgiram desses debates. mas, um mundo acadêmico numa torre de marfim, fechado em si mesmo, sem dar retorno algum para a sociedade que banca essa torre, é um luxo que poucos países podem se dar. afinal, faria sentido gastarmos recursos escassos pra formar 1 milhão de filósofos ou hermeneutas por ano no Brasil? {é uma pergunta retórica, ok?}

quinto: não me acho isento de ideologia, aliás, não sou isento pra nada né? qualquer opinião minha é baseada em ideias e convicções. mas tento sempre me colocar na posição do outro pra entender outras maneiras de pensar (nem sempre consigo). e, sim, respeito opiniões divergentes, mas preciso perceber que elas são baseadas em fatos e não em mitos. Eu e vc podemos olhar o mesmo fato (ou problema etc), podemos concordar 100% em qual é a situação, sairmos com opiniões diametralmente opostas sobre isso e acreditarmos que as soluções sejam distintas. acho muito natural. nesses casos, quem estará certo no fim? talvez o tempo diga, mas, muitas vezes, nunca vamos saber. e, se eu for o errado, darei o braço a torcer.

sexto: tb acho regulamentação de mercados financeiros necessária. qual o grau? aí vem o debate, a diferença entre remédio e veneno é só a dose. não tenho a pretensão de ter a resposta e desconfio que mesmo os maiores conhecedores do tema não sabem muito bem o que dá certo no fim. minha analogia é que os mercados são como um bando de jovens potencialmente talentosos: se vc sufocar, vc perde a oportunidade de um deles criar um, digamos, Google ou Skype... se deixar soltos demais, eles podem resolver criar vírus pra sacanear todo mundo. acho que são ciclos, tem épocas onde uma visão favorável a mais controle predomina, outras o contrário.

sétimo: se eu lesse só partes desses seus comentários recentes sobre mercado financeiro, não conseguiria saber se vc é tovarish do Oscar Niemeyer ou BFF da Sarah Palin, pois às vezes me remeteram ao que fala a extrema-direita populista americana. Tea Party, anyone?{agora, posso ter lido errado, ou vc pode não ter sido claro, ou os dois, certo?}

beto disse...

quando falo de inocência sobre mercado é por frases que atrelam a solidez do sistema bancário à taxas de juros altas. Mesmo com taxas no espaço, se um banco fizer empréstimos ruins(e sem falar de fraudes e roubalheira interna à la Panamericano), ele vai quebrar. Aliás, vários quebraram no Brasil. Sistema sólido é aquele onde o depositante sabe que o seu $$ estará disponível na hora que ele resolver sacar.

vc está certo que existem variações sobre a penetração do mercado financeiro atual, mas está enganado/desatualizado sobre a europa. usemos a Alemanha, pois acho que concordamos que é bem classe média, boa distribuição de renda, os ativos financeiros não estão na mão de meia-dúzia de bilionários. como as famílias ("households", me corrija se esse é o termo certo em português) alocam esses ativos? (uma ordem de grandeza: isso corresponde a 190% do PIB alemão; os caras tem muita $$$ guardada).
se fosse do jeito que vc fala, Karl teria um $$ no banco/poupança e muito longe dos turbulentos mercados financeiros. sabe qual é o dado real? só 35% nisso. uns 25% estão em ações, 7% em outros instrumentos e, voilà, 31% em "reservas técnicas de seguro" (fundo de pensão + apólices de seguros de vida {em países ricos seguro é visto como investimento financeiro e não apenas algo "pra se eu morrer"}). Pra onde essas reservas técnicas vão? no mercado financeiro - os fundos de pensão e seguradoras estão entre os grandes investidores sem face "na busca de lucros cada vez maiores" e "para os quais somente interessa quem fornece o maior retorno". Esses caras quebrando, desfrutar aquela aposentadoria em Marbella vira pó. Os 35% de $$ no banco dos alemães, é menos ainda na França 29%, UK e Itália 27%.

Estado reduzido (mínino, se vc preferir) não é o mesmo que Estado ausente. Acredito em "carreiras de Estado" e num corpo burocrático técnico, estável (algo como na França), onde pode mudar o governo, com novos ministros, mas não tem a farra de dezenas de milhares de "cargos de confiança" (vamos por o nosso pessoal nos cargos comissionados!). Nisso se encaixariam agências reguladoras. São fracas? O governo atual fez questão de enfraquecer. Porque não poderiam ser fortes? E, se hj em dia tem um orelhão na mais remota parte do país, foi pq uma agência impôs, já que não há retorno nesse investimento. Será que elas são sempre tão ruins?

E se liberdade vigiada não existe, qual a alternativa? me esclareça: o Estado é o melhor dono para empresas de telecomunicações, eletricidade, mineração, siderúrgica? Entregar a Eletrobrás e seu enorme orçamento pro pessoal do Sarney é a melhor escolha para a sociedade? Dada a realidade brasileira e não uma visão utópica, como se tivéssemos índices de corrupção da Noruega, como fica?

França: acho que, mais que ser privado um fundo de pensão, o motivo das manifestações foram as mudanças na idade da aposentadoria. mexe com todo mundo, é extremamente impopular. como indivíduo, ninguém vai querer ficar mais tempo trabalhando, mas a pergunta certa é: a sociedade tem como manter esses benefícios? é melhor ir acertando aos poucos ou, de repente, fazer cortes como na Grécia? Como a França terá logo eleiçoes presidenciais, será bom ver o resultado. Pois, numa democracia, a sociedade escolhe seu rumo através de eleições livres e não num concurso de quem grita mais alto na rua. Acho interessante o fato que as quatro maiores economias da europa ocidental (alemanha, frança, UK, itália) tenham governos mais à direita no espectro político local. Estou curioso como será depois do próximo ciclo de eleições.

imagino que vc esteja cansado desse papo, então encare meus questionamentos às suas posições apenas como food for thought. mera pretensão minha mas agora já escrevi tudo mesmo e vou apertar Send! e, tenho tanto interesse quando vc fala sobre "piranha versace", cachecóis, Galeria Café quanto sobre assuntos "sérios e áridos". um alívio ver gente que consegue transitar de um tema pro outro.