quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A crise dos 25

Certos cientistas defendem a teoria que o ser humano chega ao seu ápice vital por volta dos 25 anos. Um pouco mais, um pouco menos, mas quase sempre por volta dos 25 anos. Seria quando as capacidades sexual, física e intelectual atingem o seu nível máximo. E a partir de quando o organismo começa efetivamente a... envelhecer.

Pessoalmente eu tenho achado essa fase um saco. Primeiro, quando eu penso que com bem menos da minha idade Rimbaud já tinha escrito a maior parte da sua obra essencial, Toulouse-Lautrec já estava pintando fantasticamente e Neymar já tinha dinheiro suficiente para esbanjar com jóias idiotas de grama para jornalistas chatas, eu fico deprimido. Segundo, quando chega aquele pessoal de 40 e muitos mandando um “Ah, tão novinho! Tem tanta coisa pela frente ainda! Você ainda não viveu nada da vida!” bate um pânico meio “Porra, o que aconteceu até agora foi só um teaser?!”. E terceiro, ninguém lembra que essa fase coincide exatamente com a fase de tomar as decisões “que irão determinar o seu futuro por um longo prazo”. O que sinceramente me deprime para caralho. E aí é esquecer a dieta, comprar o Twix, o pacotão de 1kg de Doritos e uma garrafa giga de Fanta Uva (meu gosto para refrigerantes não evoluiu dos 5 anos - quanto mais corante e com mais gosto artificial, melhor) e ficar no sofá obcecado pensando “O que eu faço? O que eu faço?!”

Primeiro foi o intercâmbio – decisão de abandonar estágio onde eu estava, mudar de país por tempo indeterminado, na obrigação de ter que arranjar um emprego, viagem auto-sustentada, “e se der errado?”, “e se eu odiar a Europa?”, ter que voltar ao Brasil, ter que aturar a minha mãe me sustentado por tempo indeterminado – que acabou acontecendo, legal, aprendi para caralho, voltei, me readaptei à bagunça e a fingir que adoro sambinha na Lapa e “jamais consegui viver direito na Europa sem feijão”, conseguir estágio de novo no Brail, voltar para a Zona Sul. Ponto. Parágrafo.

Mas claro, as questões voltam. Os pontos de interrogação se colocam na sua frente. E você se sente como num daqueles programas de auditório, nos quais você tem um tempo determinado para responder uma pergunta. E aí? E aí?

Uma das facetas desse dilema veio bem forte nos últimos dias na parte pessoal. Amizade sempre foi uma das maiores prioridades na minha vida, e sempre me gabei de ter amigos simplesmente foda. Mas desde que eu voltei do meu intercâmbio na Europa parecia que algo tinha se modificado na minha relação com alguns amigos. Eu não sentia mais aquela conexão intensa que outros tempos, que me fazia querer procurar essas pessoas. Parecia que o papo tinha se tornado chato, não havia mais aquela transmissão de idéias e pensamentos que caracteriza uma boa amizade. Eles reclamavam que tudo o que eu sabia fazer era reclamar. E eu tinha vergonha de pensar que eu os achava chatos. MUITO chatos. E limitados. E cabeça fechada para a vidinha de estudante universitário de federal de classe média do Rio. E que tinha muitas saudades dos meus amigos dos tempos de Erasmus.

Enfim, a fase inicial de readaptação passou (na verdade, com alguns desses amigos nem essa fase existiu), mas com alguns amigos esse sentimento incômodo prosseguiu. E eu não soube lidar com isso, fiz algumas merdas (confesso), e com uma grande amiga em especial a amizade entrou em estado de “on hold”. E mesmo depois de “termos resolvido as coisas”, continuou a sensação de incômodo, de “formalidade informal” que sinceramente não sei se foi ocasionada pela merda que eu fiz ou por algo pior: a grande verdade de que não temos mais nada muito em comum. Nem interesses, nem idéias sobre grandes temas da vida, nem sobre como conduzir a vida. E uma frase da Danuza fica martelando na minha cabeça “Amigos são que nem banco – periodicamente necessitam passar por um recadastramento”. Mas aí então eu relembro dos grandes momentos que vivemos, das viagens e do mega carinho que ela já teve por mim e vem questões de lealdade e de “tentar pelo menos”. Que logo depois são sobrepostas pela pergunta “Quero realmente tentar? Quero continuar insistindo uma amizade verdadeira com amigos que não me entendem?”. Enfim...

E sobre o lado profissional, vieram as famosas escolhas. Passei 6 meses pensando em entrevistas de emprego chatérrimas para finalmente conseguir o sonho dourado de todo estudante de Economia do país: cargo de estagiário (com chances de efetivação!) numa verdadeira multinacional brasileira em um dos setores mais promissores que a Você S/A poderia imaginar. Salário digno (com alguns benefícios), rotina de trabalho motivante, equipe de trabalho legal pra caralho e com o plus do gerente da área simplesmente ir com a minha cara já na primeira semana. E quando sento na minha mesinha, ligo o meu computador com o meu papel de parede já escolhido (muito pode-se dizer sobre a personalidade de uma pessoa com relação no papel de parede que ela escolhe para o seu desktop – o meu era uma foto da estação central de Hamburgo que já usei num post, e do meu colega de trabalho mais próximo era de um carro americano que ele queria terzzzzzzzzzzzzzz) e penso “Tudo indo bem!”, toca o telefone e surprise: uma outra empresa oferece uma vaga de emprego. E-M-P-R-E-G-O. Multinacional européia com escritório no Rio. Dobro do salário, benefícios que me fazem imaginar fazendo a Scarlett O'Hara. Chance de carreira realmente internacional. (A volta dos meus posts de viagem!!!) Usar o alemão no meu dia-a-dia profissional (Atóro quando eu recebo elogios “O seu alemão é tão bom!”, e eu faço aquela carinha de “Ai, pára... Fala mais, vai!”). Flexiblidade de horários do escritório para me permitir terminar a (maldita) faculdade de Economia.

E o que escolher? Qual dos dois caminhos tomar? O que realmente vai me fazer chegar aos 40, olhar para trás e pensar “Eu fiz certo: era isso que eu queria!”? Ou será que momento de reflexão aos 40 é uma das maiores besteiras do mundo, afinal 40 representa quase ainda metade de uma vida inteira pela frente? (Sempre lembro das velhinhas alemãs em estações de trem, com suas malas de viagem, camisetas pólo e aquele ar saudável de quem viajava muito de férias em contraste aos alemães engravatados de 30 e poucos anos, estressados e permanentemente culpados pelo excesso de trabalho e falta de tempo para aproveitar a vida)

Definitivamente a resposta universal aos 20 e alguns anos é: “Não sei.”.

Mas a gente tem outra opção, a não ser continuar tentando?

(Mas lembrando-se: caindo sim - mas carão forever.)

P.S.- Provas, provas, muitas provas.
P.S.2 – Não se preocupem, as escolhas já foram tomadas. :D
P.S.3 – Boring, parte 2. :D

14 comentários:

Introspective disse...

"Crise dos 25"?! Falta de um bom tanque de roupa suja pra lavar, isso sim.

Fernando disse...

Guardarei esse comentário para os SEUS momentos de crise existencial, tá Sr. Introspective!

Gui disse...

Finalmente o jejum blogueiro acabou.

Acho que esse tipo de crise é uma coisa que nunca é resolvida afinal - falou o garoto de 19 anos, né? - você tem elas em tantas etapas da vida...

Penso que o maior problema não é fazer as escolhas em si, mas sim ficar pensando no que você estará pensando daqui a algum tempo. Você já pensou como você se imaginava com 25 anos a 1 ano atrás? 2? 3? 5? 10?

Ficar nessa indagação não facilita, apenas dificulta e torna uma decisão ainda mais dolorida. Você tem maturidade, avalia bem as possibilidades, é um cara com talento e perspicaz. Suas escolhas serão adequadas de um modo ou de outro.

Não é um momento de puxa-saquismo, mas saiba que você é um dos blogueiros - como te conheço, pessoas - que eu mais admiro em vários aspectos. Pense menos e faça mais.

Beijos

beto disse...

como o Thiago já fez a parte "bad cop" nos comentários, posso ficar com a parte "good cop"?

o que vc chama de "crise dos 25", nada mais é que... começar a virar adulto.

eu digo que homem em geral só vira "homem" mesmo lá pelos 28-30 anos (uns nunca viram, mas deixa pra lá, estou no lado otimista hj). pois aí o cara já se formou, já saiu do mundo da fantasia da faculdade, já tem nas costas uns anos de lidar com a vida real... e, toma essa decisões que vc fala, que tem consequências pro resto da vida. (aliás, vc virou redator de Lost e fica soltando as informações picadas por vários episódios?).

sobre amizades. sei muito bem o q vc escreveu, especialmente nessa fase da vida que deixamos de ser estudantes e passamos a ser trabalhadores. imagina o mesmo depois de 4 anos e meio fora. posso te dizer o que aconteceu no meu caso: as amizades prévias todas acabaram (no meu caso, a cariocada), sobraram 2 irmãs que tenho algum contato, mas não somos mais BFF. mas... outros círculos de amizades apareceram no início da vida profissional e formam, até hj, o meu "núcleo duro" de amigos. como, no meu caso, esse rolo todo ainda envolveu mudança pra SP, saíram os cariocas e entraram os paulistanos [os gringos continuam ótimos amigos, mas eles lá e eu cá, não é a mesma coisa]

Alex Bez disse...

as velhinhas européias de camisa polo e cara de quem viaja muito de férias já ralaram pracaralho my dear, pode ter certeza...
Ja bati nos 35anos e ainda sinto a mesma coisa que voce, será que estou fazendo as escolhas certas?
O foda é que somos cobrados de tanta coisa: vc tem q ser bem sucedido profissionalmente, magro, viajar bastante, ter ingles fluente, MBA, previdencia privada, casa própria....putaquepariu, dá uma vontade de desistir de tudo e ir vender coco na praia!!! mas só se tiver wi-fi e café espresso, rsrsrs

Um grande abraço,
boa sorte com as provas

Carlos disse...

Xi Fernando! Acho que essas crises não passam não. Aos 25 acabei minha primeira faculdade e pensei: "Acho que não gostei". Comecei a segunda faculdade: economia. Agora aos 30, acabando a segunda faculdade e dessa gostei. Mas não gostava do meu emprego e entrei em crise: "Nossa! Como a vida passa rápido! Os primeiros 30 anos passaram voando! Preciso fazer algo!". Lá vai eu. Largo emprego "bacana"(salário bom, mas chato) e volto a morar com meu pai, depois de 4 anos morando sozinho. Entendo essa sua aflição.

Pensando pelo lado da galera mais velha, olha só. Quando digo pro meu namorado que tô me sentindo velho, ele com seus 18 aninhos a mais do que eu, sempre me retruca: "Quer trocar?". Minha resposta: "Não!". Como diria minha senadora querida: "Relaxa e goza!"

Beijo.

railer disse...

cara, as escolhas que a gente faz em cada fase da vida são aquelas que a nossa maturidade permite naquele momento. não são boas ou más, mas são as melhores que poderíamos fazer.

quanto a amizades, eu sou de fora do rio e posso dizer que aqui a coisa é difícil. quando você tem conhecimento na bagagem, então realmente a coisa complica um pouco mais. mas aqueles que são amigos de verdade estarão sempre ali. você pode ficar um bom tempo sem notícias, mas quando fala com eles é como se fosse ontem. eu tenho muitos assim, infelizmente a maioria fora do rio.

no topo do meu blog tem o link de email. escreve pra gente entrar em contato. abraços.

Luciano disse...

Quando você chegar aos 50 vai descobrir que esta história de ficar atribuindo fases à vida é pura lenda. Mas é uma coisa que a gente não conta pra ninguém - precisa chegar lá para descobrir.
Muque de Peão

Daniel disse...

E a minha crise dos 29? Mal posso esperar (not) pelo dia que as pessoas vão parar de dizer "mas você ainda é novo".

Ah! E o alemão foi superútil este final de semana em SP. Digamos que kassler foi o prato do dia no sábado...

Lucas T. disse...

E eu que tenho 23a e uma carteira de trabalho toda em branco?

¬¬

Fernando disse...

@Gui: Ai, quantos elogios! :) Se tivesse comentado assim no meu blog antes, teria desligado o "modo bitch on" no último encontro de blogueiros do Rio.

#NOT. :D

@Beto: Obrigado por fazer o good cop, porque o Thiago me traumatizou! E é, realmente acho que é a história de virar adulto. Decisões complicam pra caralho, néam?

E não, eu não sou redator do Lost. Só sei que hoje em dia não é demais esperar que alguém que eu não queira que leia este blog (chefe do trabalho, professor de faculdade, amigos nos quais eu meto o pau - metaforicamente), portanto achar um equilíbrio entre falar o que eu penso e preservar a minha privacidade é essencial.

@Alex: Coco na praia não porque envelhece e protetor solar é caro ( e meu cú que eu vou ficar enrugado - já estou na paranóia "Xô Sol" e substitui o hidratante pelo protetor solar todo dia aqui no Rio).

@Carlos: Porque sempre quando a gente termina a faculdade a gente conclui que teria se dado MUITO melhor se tivesse cursado outra faculdade, hein?

@Railer: Nem é uma carência de amigos em si, mas a questão é com um amigo em específico. Sou amigo do tipo Felícia: quero todos, felizes e juntos COMIGO.

@Luciano: Combinado. Mas tem que esperar até chegar aos 50 para concluir isso mesmo, hein? :(

@Daniel: Só espero que o senhor supere esse hábito HORRENDO de "Ai, tenho 32 mas falo que tenho 29" tão comum por aqui. Sempre falei: mil vezes um trinta e muitos seguro e que sabe que manda bem do que um fake tween com medinho de assumir o que é.

@Lucas: Você não tem crise, só é rico. Ou sustentado pelos pais (SORTUDO!). :D

Alex Bez disse...

Fernando, vc sabe o que houve com o blog CHATO NO AR? novo endereço?
faz algum tempo q não consigo acessá-lo...
abs,

Daniel disse...

@Alex:
o blog estará de volta em novembro, mas com novo endereço. Fique de olho no Lost und found, no do Tony e todos os outros para saber o novo endereço.

Mulher Asterísco disse...

Emprego e namorado seguem a mesma regra: ou não parece nenhum ou aparecem vários ao mesmo tempo!!