quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Eleições e "O que queremos?"

“Contradição” é realmente uma palavra que define a sociedade brasileira. O conservadorismo de uma classe média “orgulhosamente branca e católica” sempre conviveu sem maiores problemas com a devassidão e loucura que imperam durante festas como o Carnaval no país. A mesma nação que forma o maior grupo de católicos é a que apresentou uma das maiores taxas de aceitação das pílulas anticoncepcionais no mundo. E assim a sociedade brasileira sempre continuou seguindo em frente: hipócrita e santa-do-pau-oco por fora, mas sempre devassa por dentro e por isso, com algum grau de tolerância às modernidades e evoluções que aconteciam ao redor do mundo.

Isso mudou. O debate para o segundo turno nessas eleições deixou bem claro que, não obstante o “crescimento econômico do país” e “expansão da classe média”, estamos caminhando para o conservadorismo. A passos largos. Os dois estados mais importantes, cosmopolitas, educados, desenvolvidos e modernos do país (Rio de Janeiro e a world city de São Paulo) tiveram suas campanhas para senadores dominadas diretamente pela questão religiosa. De novo: não estamos falando de regiões rurais, conservadoras e tradicionais por natureza – estamos falando das duas metrópoles nacionais, declarando o que pensam.

Obviamente como economista não dá para ignorar o fato de que a exclusão social gera o horrível fenômeno de dentro dessas duas cidades existirem mundos tão distintos, que pensem de forma tão absurdamente discrepante sobre temas tão “so last decade”. E nas parcas ocasiões onde temos que pensar “conjuntamente” sobre determinado tema, não é nada inesperado pensar que o Rio e SP, em sua maioria, sejam muito mais conservadores do que Ipanema e os Jardins deixam transparecer.

Acho que essas eleições deixaram bem claro que nós, gays brasileiros informados e emancipados, falhamos enormemente na busca pelos nossos direitos. Falhamos enormemente em realmente acreditar que conseguiríamos visibilidade sem associação à movimentos políticos, realmente acreditando nessa besteira imbecil de apoliticidade e apartidarismo que o neoliberalismo e o pós-modernismo tão intelectualmente pregou nas últimas décadas. Falhamos enormemente em nos isolar nos nossos clusters de desenvolvimento e tolerância, e nos gabar com títulos imbecis como “Principal destino gay do mundo” sem pensar no que estávamos efetivamente fazendo para mudar a mentalidade da população brasileira.

Hora de acordar. A sociedade está mudando e não estamos fazendo nada. Absolutamente nada.

Adendo: E como esse blog tem (ainda) uma temática essencialmente germânica, impossível não mencionar o exemplo de Berlim em 1920 e relembrar que uma simples década foi o tempo que para que o “inofensivo movimento nacional-socialista” levou para esvaziar a capital cultural e liberal da Europa moderna e civilizada para enfileirar boa parte dos seus integrantes em Buchenwald e Neuengamme. Uma década.

O tempo passa e sociedades mudam muito mais rápido do que podemos imaginar. E com certeza muitos dos integrantes da primeira foto pagaram caro por não entenderem isso.

6 comentários:

Rafa disse...

Texto excelente! Evangélicos falando de nós, candidatos, a mídia. Cade a nossa voz (política!)?

Diego disse...

"acreditando nessa besteira imbecil de apoliticidade e apartidarismo que o neoliberalismo e o pós-modernismo tão intelectualmente pregou nas últimas décadas. Falhamos enormemente em nos isolar nos nossos clusters de desenvolvimento e tolerância"

Você me fez pensar.

Tico disse...

Muito importante esse teu texto. Precisamos q outros textos como esse sejam escritos sempre. Em qq ocasião.
Como vc disse, É HORA DE ACORDAR!!!
Parabéns!

Edu disse...

Acho que passou um pouco da hora de acordar. Deputados e senadores, nem mesmo a fantástica Fátima Cleide reelegemos. Agora é tarde. Mas seu texto é supimpa!

tommie disse...

Vc assistiu Paragraph 175? Tem uma hora que um dos velhinhos gays fala (em alemão): "and much remains untold", se referindo ao massacre dos gays. Me lembrei disso quando vc falou sobre nosso silêncio.

beto disse...

acho que temos que aprender com os evangélicos na sua capacidade de mobilização e pragmatismo político.

não sei no RJ, mas em SP as bibas achavam que Santa Marta Suplicy era sua paladina e que quem votasse em candidatos de outros partidos estava cometendo uma heresia. Até que Santa Marta preferiu os evangélicos na campanha de 2008 e fez campanha homofóbica contra o Kassab.

qual a lição? é uma que os evangélicos já aprenderam há muito tempo. nada de por todos os ovos numa cesta (partido) só. os evangélicos espalham candidatos por todo o espectro político, tem no PT, PSDB e naqueles partidos fisiológicos todos. assim, eles tem contatos bem azeitados com quer que esteja no poder... e, mais importante, nenhum partido pode contar com os votos deles automaticamente... tem que reconquistar em cada eleição...