quarta-feira, 6 de abril de 2011

It closet


Em idos de 2001, quando eu era apenas um pequeno rapaz campo-grandense (Campo Grande being subúrbio Far-Far-Far Away do Rio, não a capital sul-mato-grossense) do subúrbio do Rio de Janeiro, estudando de um tradicional colégio federal do Rio de Janeiro (meu uniforme era tão 'Baby one more time' feelings :D), provavelmente muito empolgado por estar no meu primeiro relacionamento sério com uma 'pessoa' (adoro quando aquelas caras obviamente gays vão dar entrevistas para Fantástico/Globo Repórter e ficam falando “Mas por que eu gosto de uma 'pessoa'...), provavelmente por estar cansado e triste de repetidamente estar dando balão na minha mãe (“Mas mãe, o pessoal do alemão resolveu marcar um grupo de estudos justamente para sexta-feira às 21h, acredita?!”), provavelmente louco de achar que minha mãe aceitaria 'a verdade' tão facilmente assim, eu resolvi fazer o meu coming-out. Isso mesmo: 16 anos de idade. Enquanto (nessa idade) muitos dos meus amigos gays ainda levavam fé nos seus amassos de matinê com menininhas na Prelude/El Turff, eu já tinha sacado o que eu realmente curtia, já tinha contado tu-di-nho para mamãe (e sofrendo como um condenado por isso – ainda conto a história completa desse acontecimento) e era um leitor costumaz das matérias estilo “10 dicas de como fazer seu homem enlouquecer na cama” das Nova Cosmopolitan e Marie Claire da vida. :D

Talvez por ter feito o coming out tão cedo, talvez por ter pago tão caro e ter que lidar com a frustração potência dois mil de uma mãe paranoica e obsessiva que não media esforços para tentar me colocar no 'caminho certo' (e que provavelmente deveria oferecer treinamento para a CIA e Mossad sobre técnicas de coerção e investigação estilo “O-que-eu-fiz-quando-falei-que-fui-para-tal-lugar”), talvez por ter passado boa parte da adolescência tendo que lidar com o fato de que a minha mãe jamais iria aprovar qualquer coisa de bom que eu fizesse (porque sempre existia a sombra de 'uma certa verdade' que fazia ela dizer que gostaria que eu fosse qualquer um dos rapazes da meu bairro, mas não eu), eu tive que compensar na valorização do fato de que foi bom eu ter sido sincero e ter contado a verdade. Nos piores momentos, onde tudo parecia incrivelmente difícil e eu começava a me culpar por ter sido tão idiota de acreditar que tinha valido a pena ter sido tão sincero tão cedo, eu jogava uma água fria na cara e repetia para mim mesmo que o preço de ter sido verdadeiro era imensurável. Eu não precisaria lidar com essa verdade mais tarde, e logo, quando eu fosse uma pessoa independente e autossuficiente em termos financeiros, minha mãe acabaria entendendo e me aceitando. (P.S.- Ai, esse parágrafo ficou uma coisa tão "Can't take that away"... Foi malz, hein...)

Sendo assim, eu confesso que tenho certo bloqueio de entender porque as outras pessoas não fizeram o mesmo. Entender porque pessoas, já autosuficientes, esclarecidas, seguras do que realmente são, não conseguem se assumir e falar “Eu gosto de moda, eu não uso bermuda cargo, eu sou viado”. Ok: eu entendo que cada um é um universo particular de condições, realidades e histórias, blablabla... Mas confesso que a história de alguns amigos desafia a minha compreensão e exigem certa dose de “sorriso amarelo”+“claro que eu te entendo!”, como a história de dois amigos que eu conto aqui abaixo.

O primeiro é um grande e queridíssimo amigo (que espero que não seja leitor do blog! :D). Advogado, bonito, um dos únicos homens cariocas realmente bem vestidos que eu conheço. Mora atualmente no Leblon, foi criado dentro da Jeunesse Dorée de Niteroí (para quem não é do Rio: Niteroí é um cruzamento de New Jersey com Hamptons, cidade da região metropolitana do Rio poder aquisitivo médio mais alto do que a média da cidade do Rio, mas que por um motivo obscuro... tem uma vida noturna e cultural próxima do zero, o que obriga a maioria da sua galera jovem a ter que partir para o Rio em busca de entretenimento nos finais de semana), atualmente completamente independente em termos financeiros dos pais. Enfim: he is got the looks, the brain, the personality. E apesar de “descoberta tardia”, já tem constando no seu currículo alguns bons relacionamentos de médio prazo, histórias realmente sérias (do tipo namorado fixo, que vai a cinema no final de semana, viaja para destininhos românticos em feriadões, etc&tal). Garotas? Segundo as contas dele, a última ficou para uma noite meio embaçada pela vodca no final de 2009, provavelmente em alguma night “Hetero moderninha”, provavelmente com alguma 'Fag Hag' mais atiradinha e entendiada pela viadice dominada pelo lugar. Mas, mesmo assim... a pessoa ainda se define como... “bi”. E simplesmente não consegue vislumbrar a menor possibilidade de, no médio prazo, se assumir realmente como é para família e amigos, e fica naquele estilo de vida estranho de ser uma coisa no Rio, outra coisa completamente diferente em Niteroí.

Desafio maior à compreensão é o segundo caso. O cara é aquele clássico tipão de intercambista que veio da Alemanha para o Rio de Janeiro, ficou deslumbrado pela beleza da cidade, simpatia das pessoas (oi?!) e abertura em termos sexuais e sociais do carioca médio (hein?!) e criou uma relação especial com a cidade (e para quem eu, escutando ele listar todas as 3053 razões pelas quais ele acha que o Rio é muito melhor do que Berlim, somente sorrio pensando “Deixa ele morar aqui 1 ano para ver como ela vai amar tudo isso” e olho para o meu amigo inglês que está pensando a mesma coisa do que eu). Devido ao seu tipão “Sou-loiro-sou-alto-sou-fortinho-Sou-o-que-Hitler-sonhou-pro-mundo” provavelmente passou o rodo em um número considerável de meninas cariocas (que levam a merecida fama das brasileiras mais jogo-duro, mais “não vou dar assim fácil não!” entre os heteros - mas que abrem as pernas para os gringos, afinal... receber bem o turista é uma obrigação de cada carioca, néam? :D) até o inesperado acontecer: ele topar com um menino brasileiro e ploft!: rolar uma atração inexplicável (o “ploft!” fica à cargo da imaginação fértil de vocês). Curto demais o garoto (mas preciso mesmo bancar o Fernando “bonzinho, coelhinho-na-floresta, amo-o-mundo-só-vejo-o-lado-positivo-das-coisas?” com vocês? Não, néam...), mas preciso confessar que sinto demais aquela coisa de “Clássico caso de 'Porque alemães amam brasileiros'”: do alto dos seus 19 aninhos, morenão com corpão, inteligência definitivamente não é o forte (o que me faz suspeitar de... enormes qualidades não aparentes do ambiente de um restaurante ou sala de estar... :D), recém-saído do armário e com aquela idealização do mundo dos relacionamentos tão típica de quem acabou de sair dos 'teen years', tão típica de quem ainda assiste Bridget Jones e outros clássicos ingleses de comédia romântica e super acredita que dá para transportar isso para fora das telas e viverá uma história igualzinha no mundo gay contemporâneo. Os dois juntos chegam a ser uma coisa “Felícia-in-love”, uma coisa “Labrador-pulando-em-cima-do-dono” de tão Te-amo-te-quero-quero-ficar-todo-o-tempinho juntinho-e-coladinho-em-cima-de-você. Eu fico meio mal perto do garoto, porque sinceramente enxergo nele o inocente-romântico-e-cheio-de-ideais Fernando de alguns anos atrás (mentira: eu sempre fui consideravelmente cínico e cético – esses dias encontrei um dos meus antigos diários de adolescência e fiquei cho-ca-do como eu já era mau: eu metia pau nos meus amiguinhos de classe que me zoavam, nos professores, nos meus familiares e até em alguns dos meus amiguinhos menos próximos! Gente, por que eu sempre fui assim? #Criseinternafeelings) e tenho que me controlar ao máximo para não deixar o meu instinto “WAKE UP, SWEETHEART!” vir à tona e chocar o garoto com o fato de que os filmes para adolescentes da Disney e Malhação não  te preparam para o mundo dos relacionamentos gays no Rio de Janeiro contemporâneo (o máximo do meu autocontrole foi quando estávamos num get together, e ele disse para gente que curtia estar em relacionamentos porque relacionamentos são “um tipo especial de conexão com outra pessoa, essa coisa meio 'um fazendo a barba do outro, juntos de manhã depois de uma noite de amor dormindo juntinhos” - eu respirei fundo, segurei a minha cara de “WTF?” da melhor forma que pude, virei a taça de vinho na minha mão goela abaixo e fui acender um cigarro). Enfim, voltando ao caso inicial: o alemão parece ter se apaixonado de verdade pelo cara, os dois decidiram enfrentar um relacionamento a distância monogâmico, o alemão pega a Lufthansa de volta para o Brasil na primeira oportunidade que encontra pela frente, quando os dois juntos é aquela coisa linda, aquela coisa “Born to make you happy”, etc&tal. Por que diabos estou contando essa história? Por que somente esses dias, quando proferi um discurso “Por que nós, gays...” na frente do Deutscher, eu fui saber ficar com caras é uma coisa meio tipo “Ao Sul do Equador não existe pecado” por parte do alemão: o cara é gay no Brasil e hetero na Alemanha. (!!!) Hein?

A minha capacidade rápida de pré-julgar as pessoas definiria esses dois casos como falta de coragem e culhões. A minha proximidade com eles me faz passar a mão na cabeça, e apesar das minhas pontuais tentativas de tentar mostrar que o mundo “Somewhere Over the Rainbow” tem uma riqueza e uma paz de espírito incomparáveis com o mundo dentro do armário, de tentar compreender os motivos e razões de caras tão... prontos para saírem do armário não o conseguirem fazer.

Mas enfim... o que fazer, néam?

11 comentários:

AD disse...

eu até entendo não sair oficialmente do armário, mas se considerar bi é mais complicado na situação exposta.

Lobo disse...

O preço de ser verdadeiro É imensurável.

Meu outing foi um pouco mais tarde, mas apesar de todos os problemas (e não poucos), todo dia me pergunto porque diabos eu não fiz isso mais cedo.

E adorei a definição de Niterói! ahauahauahaua. Aqui até tem algum evento de vez em nunca, mas sempre caem em datas exdrúxulas. Por exemplo, essa semana tem show do Móveis Colonais de Acaju... NA QUINTA! Pqp, e quinta é dia de ter show onde?!

Fran Alves disse...

Achei interessante o seu seu ponto de vista. E engraçado a sua definição de Niterói mesmo eu não conhecendo o Rio de Janeiro.

Lucas T. disse...

Também tinha 16 anos qdo fiz meu outing pra minha mãe. hi5

Gui disse...

Ixi, fiz com 18, sou atrasado?

Acho que eu também já tinha a facilidade de 'morar' sozinho - vulgo niterói - então aconteceu numa briga.

Petra disse...

Oi!!! Mto bacana seu blog... acho q é bem sofrido não fazer um outing logo... ri muito com a comparação e o 'somewhere over the rainbow'.
Vou te seguir!
Bjosssssssss
petrassecret.blogspot.com

Fernando disse...

@Gui: Totally not, honey. Vai soar como conselho Capricho ("Não tem hora certa - somente perca a sua virgindade na hora em que se sentir confortável consigo mesma para isso!"), mas... cada um tem uma hora certa.

E post não foi para exemplificar que o que eu fiz é "A COISA CERTA", mas somente uma divagação sobre o tema.

tommie disse...

O problema do armário é que ele dá a (ilusão?) sensação do melhor dos dois mundos.

Daniel disse...

Me apresenta esse amigo de Nikit aí!!! To reconsiderando a minha posição de não ser psicólogo de bee no armário que eu tinha.

E caso o namoro monogâmico do amigo alemão também não vingue por motivos óbvios, você também me apresenta pra ele. Eu sou romântico e topo fazer a barba junto depois de uma noite de amor dormindo abraçadinhos.

Nicolas disse...

bom, eu tenho 20 anos e ainda não saí do armário. mas confesso que é por puro comodismo (e covardia tb), não vejo necessidade de contar agora, sei que to deixando de viver muito mais coisas do que se fosse completamente sincero, mas sei la. ainda não juntei toda a coragem pra contar, ja tem umas 5 vezes que eu falo "agora eu conto" e nada rsrsrs. =\

mas me aceitar ja me aceitei, e não me dou o trabalho de ficar pagando de HT, fico meio que na esperança de que comecem a pegar no ar (ja nem perguntam mais das namoradas, ó a evolução ai) e assim role uma aceitação mais fácil.

Anônimo disse...

O meu foi só aos 25, e com ajuda(e por causa) do meu irmão mais velho, que eu amo e serei sempre grato, por isso.

E se assumir na adolescência, na nossa geração(acabei de fazer 29) é para quem é fodão, é por isso que vocês blogueiros são a alma do momento em que vivemos. Se tem algo que eu pudesse mudar na minha vida, seria meu outing, não havia porque de tanto medo, mas tudo bem, vamos em frente que atrás vem gente(ui!).

Acredito que a próxima geração, a da minha sobrinha, será uma geração mais segura, confiante, e isso talvez nem seja mais um momento crucial na vida de um gay.

Abraço,
do seu leitor de Salvador/BA.