quarta-feira, 21 de abril de 2010

'Je pense que...': Belo Monte, Brasília

Belo Monte
É muito interessante a relação da opinião pública brasileira com a questão do Meio Ambiente. Todo mundo AMA ufanisticamente a Amazônia (lembra daquela história do livro didático americano mapeando a Amazônia como território internacional?), nos indignamos com a recusa dos EUA em assinar Kyoto, batemos no peito cheio de orgulho de qualquer projetinho ecologicamente sustentável do tipo “Produzindo Etanol a partir de Bosta de Vaca” como se estivéssemos salvando o planeta. Mas no primeiro ponto onde a questão do Meio Ambiente levanta o menor ponto de interrogação em qualquer projeto que seja, logo surge o discurso “Fuck Nature” e rotulam os ambientalistas de eco-chatos. Very interesting.

Colocando a implicância tupiniquim de lado (já ouviram que você só implica com aquilo que realmente importa para você?), impressiona perceber como o nosso pensamento ambiental ainda está tao atrasado. Todos concordamos que a construção da usina é criticamente necessária, que ela é essencial para resguardar o Brasil energeticamente nas próximas décadas para o tao-desejado crescimento econômico. Mas estamos falando da 3a maior usina hidroelétrica do mundo. Bem no coração da floresta Amazônica. Discutir um projeto desse porte sem levar em consideração todos os milhões de impactos e efeitos envolvidos é de uma irresponsabilidade monumental, que todos sabemos que os nossos políticos e empresários são capazes de cometer. Por que eles (os políticos) são nada mais que reflexo do pensamento brasileiro: que acredita que o Brasil é realmente um país ecologicamente “limpo”, que polui pouco, onde essas questões ambientais ainda "não são um problema tao grave assim". Por isso eu falo que meter o pau no Greenpeace e rotular os ambientalistas de eco-chatos é pensar curto, muito curto, I'm sorry to say it. São exatamente eles que enchem o saco para que se finalmente leve a sério algo super possível de ser feito: projeto de minimização de impactos ambientais. Algo fácil, possível de ser feito, e que NUNCA foi levado a sério em qualquer obra de grande porte no nosso país. Por que não é o do interesse de governos, indústrias, iniciativa privada, gastar dinheiro protegendo árvore e animalzinho (e gente pobre, claro, afinal rico jamais vai morar em área afetada por danos ambientais). Afinal, a gente tem tanto mesmo, né? Um pouco mais, um pouco a menos não vai fazer muita diferença, néam? (Ainda estou falando de gente pobre também).

A questão é entender que discurso ambientalista não é supérfluo, e muito menos contraproducente a questão do desenvolvimento. Dá para aliar os dois, aliás, seríamos burros de não aliar os dois num país com tanto potencial para um desenvolvimento limpo como tem o Brasil. Não precisamos repetir os erros da China, não precisamos repetir os erros da Rússia (sabe como os russos controlam vazamentos nos oleodutos provenientes das regiões petrolíferas as margens do oceano Ártico? Simples: não controlam. Afinal, é frio pra caramba, o petróleo acaba se misturando à neve e congelando mesmo. Isso vem acontecendo por décadas, sem grandes problemas afinal... ainda é frio pra caramba lá. Agora, imagina comigo: o que vai acontecer quando a temperatura subir um pouquinho mais no planeta, e o degelo de primavera se tornar um pouco mais intenso naquela regiao? Vai ser meio chato, néam?). Aliás, no final das contas sai muito mais barato não repetir os erros dos nossos companheiros de BRIC. Em Meio Ambiente a conta é fácil: prevenir sai razoavelmente barato, principalmente quando se compara com reparar grandes merdas já cometidas.

Para terminar: com o Brasil se tornando gradativamente mais importante na geopolítica mundial, chega a hora de a gente aprender a escutar crítica de gringo e viver com isso. Eu sei, depois de décadas de “Ai, todo mundo gosta de brasileiro!” e “Pelé! Football! Coffee!” é tentador esperar que todo mundo ame a gente. Mas o mundo não é o concurso de Miss Universe, e muito menos a gente está se candidatando ao cargo de Miss Congeniality. Se meter em praticamente todas as questões internacionais de relevância e realmente esperar que um gringo não meta o bedelho em algo que NÓS julgamos ser de relevância somente para NÓS é meio contraditório, hein?

Brasília
Como carioca, óbvio que nutro uma certa raiva, uma certa peitica, um certo sentimento de “eles roubaram a capital da gente”. Afinal, desde a ida da capital para Brasília, o Rio de Janeiro perdeu meio que “o sentido de existir” no cenário brasileiro e entrou nessa fase decadente que nos encontramos até os dias atuais. Mas como brasileiro, não posso negar: acho Brasília foda. Ok, eu sei: custou uma fortuna, encastelou a política brasileira numa verdadeira Versalhes do Cerrado, deve ser um saco viver numa cidade que parece ter sido planejada por aquela tia que sofre de TOC por organização e você sangra o dia inteiro pelo nariz porque o ar é seco demais. Mas mesmo assim, ter como capital uma obra-prima da arquitetura moderna é simplesmente fantástico. Niemeyer pode ser criticado pelo que seja (inclusive por dominar de forma tao “predatória” a arquitetura brasileira, correndo o risco de deixar a área numa crise de identidade insuperável no momento em que ele não se encontrar mais entre nós para desenhar grandes prédios públicos), mas o seu talento é estarrecedor, ainda mais quando se lembra há quanto tempo a cidade foi projetada, e como ainda permanece violentamente moderna (Berlim, agora, reconstrói seus palácios de governo num estilo demasiado moderno para os sensíveis e tradicionais europeus, mas que para nós nem parece nada tao surpreendedoramente moderno assim). A Praca dos Três Poderes, para mim, representa “ser uma capital de um país” de uma forma que nao acontece em nenhuma outra capital do mundo, e o Congresso Nacional consegue expressar magistralmente o sentido de “Política” em formas puramente abstratas.

Talvez a nossa capital seja mesmo uma Versalhes do Cerrado, encerrada em sua decadência moral e datada enquanto projeto de capital de um Brasil moderno. Mas eu respondo isso com um trecho do livro “A Arquitetura da Felicidade”, do filósofo-pop suíço Alain de Botton: “ O propósito da sua arte e das suas construções (dos defensores da tradicao idealizadora) não era lembrar como a vida normalmente é, mas sim nos mostrar como ela poderia ser, nos aproximando pouco a pouco da satisfacao e virtude. Esculturas e prédios deveriam nos ajudar a ressucitar o melhor de nós mesmos. Elas deveriam preservar do esquecimento as nossas mais nobres aspirações.”

That is it. Nada mais a dizer. Parabéns Brasília.

9 comentários:

Anônimo disse...

nature não pede artigo -> Fuck nature

Alex Bez disse...

Fernando, para um economista vc escreve muitissimo bem quando o assunto é arquitetura...já pensou em estudar mais a fundo o assunto? tipo a influência de Le Corbusier na obra de Niemeyer (sim é assim q escreve: Niemeyer).
Se o vulcão não resolver dar chilique novamente, semana q vem sigo para a "sua" amada Europa, com direito a bate-e-volta em Hamburgo.
abs,

Fernando disse...

Anonimo e Alex: Thanks a LOT! O blogueiro que vos fala tem um ligeiro (enorme) déficit de atencao, e um computador com editor de texto programado para o alemao (nao adianta, tentei mudar essa porra, nao consegui) nao ajuda.

Alex: Alex, eu já coloquei esse aviso num outro comentário - me enviar o teu email ou escreve para lostundfoundintranslation@gmail.com para eu te passar as dicas de Hamburgo, ok?

E você sabia que o editor daquela colecao da Taschen, a Architecture Now, também é um economista e nao um arquiteto? :)

Visão disse...

Fernando, pelo visto você é um grande conhecedor de mundo e sua visão me deixou encantado. Não vamos abandonar a esperança, essa vadia mentirosa que alimenta nossa alma, e esperar que um dia, os políticos brasileiros tomem vergonha na cara e faça algo real pelo nosso país. A natureza grita por socorro e enquanto não fizermos nada -sim, nós, o povo -o descaso será constante. Parabéns. Abraço

Anônimo disse...

Perfeição o que você escreveu!

tommie disse...

Por enquanto, essa arquitetura do comunista milionário é sem história, ou pelo menos tem uma história tão patética que nem merece ser relembrada. Quem sabe daqui cem anos sejam monumentos e tributos a algo grandioso, mas por enquanto é tributo a engenharia do concreto e ao lema ´é lindo mas viver aqui dentro é horrível´, jã que não oferece nem um tipo de possibilidade de conforto.

Fernando disse...

@tommie: Bem, gostar ou nao da arquitetura do comunista milionário é algo estritamente pessoal. Dizem que em artes e arquitetura, você é atraído por aquilo que você busca. Talvez eu tenha mesmo uma necessidade de organizacao, estrutura, amplitude que existe nos prédios do Niemeyer. :D

Mas discordo com o argumento que a arquitetura do Niemeyer seja desprovida de história. Pelo contrário, ele é o maior representante de uma época em que pelo menos tentávamos construir, produzir algo inédito - e nao copiar descaradamente tudo aquilo que vem dos EUA e Europa. Niemeyer deu um movimento, uma curva a arquitetura contemporânea que é inegável.

E sobre conforto, realmente, pode ser que seja verdade. Os prédios construídos nessa época tem a característica de serem bastante incômodos para se viver. Mas ao mesmo tempo, era um tempo histórico onde tinha que se achar uma solucao habitacional para um mundo que se multiplicava. Uma solucao Haussmaniana (prédios lindos para os ricos, os pobres que se virem) nao era mais possível.

E enfim, pessoalmente, eu adoro os pilotis. Todo dia quando ia para a Firjan trabalhar, passava embaixo do prédio do Ministério da Cultura, recebia aquela rajada de vento fresco vinda do mar, e pensava na maravilha que seria se os prédios do Centro do Rio fossem todos construídos sobre pilotis, deixando o ar circular...

Tiago disse...

Parabéns, Fernando, você é um dos primeiros "não-brasilienses" que fez uma análise da cidade que retrata bem o que muita gente aqui pensa. Não achamos que nossa cidade é melhor que as outras nem que está livre de problemas, mas também não gostamos de ouvir que ela é um fracasso. Vejo as pessoas falando que é horrível viver aqui, mas talvez tenham esquecido de perguntar a quem realmente mora na cidade. Acredito que a maioria das respostas surpreenderia.
O lance do clima ultra seco é meio lenda, OK? Chove bastante, principalmente de setembro a abril. Há períodos de seca bem severa, realmente, mas só sangram os narizes dos forasteiros recém-chegados. Quem está aqui há algum tempo não costuma ter esse tipo de sintoma.
Sinta-se à vontade para vir conhecer a cidade e ver in loco o que você escreveu. Küsse.

Diego disse...

Boas palavras de Allain de Botton. (É com dois "l" mesmo?)