terça-feira, 26 de janeiro de 2010

It's official: Banzo mode on

Existe um estudo do antropologista Kalervo Oberg, de por volta de 1960, que serviu de base para a elaboração da chamada "curva dos choques culturais". Mas o que seria a curva de choques culturais (adoro esse momento "auto-pergunta". Acho tao acadêmico-chato-mala :D)? Basicamente uma simplificação do sobe-e-desce de humores pelos quais passa uma pessoa quando mora em um país/cultura diferente por um período de médio ou longo prazo. 


(É queridoes, morar na Europa nao é só ficar pirigueteando de sobretudo e cachecol pelas ruas cobertas de neve, tomar um vanilla mocha chocolate crunchy venti no Starbucks dando pinta para os locais e cosméticos La Roche Posay por precinhos acessíveis nao... Foi muito difícil, táh! #draminhamodeon).

Basicamente again (amo "basicamente") a curva é a que os senhores acadêmicos podem encontrar aqui abaixo:
E as fases... sao muito fáceis de serem descritas por quem já morou fora. Quer ver só?
Fase 1 - Honeymoon (Lua-de-mel): Aquele momento que voce (brega, sem estilo, sem glamour, recém chegado do Third World) entra pela primeira vez na H&M. As portas se abrem. Seu queixo vai no chao, o rostinho quebra de lado. Brilhos, tachas, dourados, cintos com pele de cobra (tudo isso na secao masculina). Voce pega aquela calca skinny vermelho-sangue que praticamente grita "Eu sou viado SIIIM!" léeeeeeeenda mega-hype que voce viu no Sartorialist e olha o preco. A lágrima de emocao escorre pelo rosto, suas maos tremulam. SIM, voce enquanto estudante de intercambio fudido poderá ter glamour, ter estilo, ter brilho por um preco acessível! Adeus vida sem glamour; Salut estilo, charme, elegancia! Welcome to Europe. ;)

Fase 2 - Hostility (Hostilidade): O momento em que literalmente "Fudeu". A fase "voce rolando pela grama do Stadtpark, agarrado com as suas skinny jeans, Gola's e cachecóis gritando 'Obrigado G-zus, Abencoada seja Our Lady of Gaga!' " passou. A H&M se tornou... normal (táh, mentira: nunca se torna normal. Se voce é brasileiro eXperto, se lembra fácil de realidade que te espera no Brasil: C&A creiço fashion x Osklen cobrando uma fortuna por uma camisa proto-playsson-"Partiu Barô?"). As velhinhas alemas te xingam quando voce atravessa a rua no sinal vermelho - com nenhum carro a vista vindo dos dois lados. O Mac Escravo te dá um sermao (em voz alta) porque voce esqueceu de colocar a bandeja na prateleira de "Retorno", e o seu amigo alemao dá razao a ele, comentando que "latinos-americanos estao acostumados a terem pessoas fazendo tudo por eles" e "que as coisas nao sao assim na Alemanha" (me dava um ódio esse frase). Voce tá depre, liga para o seu amigo alemao pedindo para encontrar com ele e desabafar, ele vira e fala "Olha, agora eu to ocupado, mas eu tenho uma hora prum café daqui a duas semanas? Topa?". Nessa fase comeca a bater uma mágoa de cabocla fuderal, voce comeca a falar mal dos alemaes como se fosse a coisa mais normal do mundo (gente, detonei tanto a imagem dos alemaes Europa-wide... Tadinhos...) e tem horror de falar uma palavra sequer do idioma quando voce está fora do país (heehhe deixei tanto turista alemao se fuder em Portugal... hehehe).
Claro, e naquele dia que voce tá praticamente querendo se matar, voce vai receber aquela mensagem superfofa daquela amiga falando "E ai? Tá curtindo muito a Europa? Muita inveja! Aproveita muito, táh?". Ódio.

Fase 3 - At home: Um belo dia voce está em Londres e pensa "Ai, que desorganização!". Em Londres. Voce, do Rio de Janeiro. Logo depois, voce comeca a escutar alemao e ter certeza absoluta de que voce escutou portugues. Voce se frustra com cidades cujos os sistemas de onibus nao tem placares eletronicos mostrando em quantos minutos chega o próximo onibus (absurdo!), fica puto quando pessoas chegam 3 minutos atrasadas (como assim!) e comeca a beber cerveja a temperatura ambiente como se fosse a coisa mais natural do mundo (hmmm... lecker!). E pra terminar: uma hora, quando voce volta para a Alemanha de uma viagem, do nada comeca a surgir um sentimento completamente novo, um sentimento de "Ufa, cheguei em casa!".  Ai fudeu: voce se adaptou. E uma hora que voce se acostumou a vida boa...

Enfim, tudo isso para explicar que (afinal, Murphy nao é pai, é padrasto) depois de tuuuuudo isso, quando voce tá lá, quietinho, acostumado com a sua vidinha européia escura-friazinha-mas-legal-pra-caramba, bem na hora que voce tá bem feliz, chega a hora de voltar. E chuta só? Existe o choque cultural de reentrada (gentém, eu nao sei essas coisas de CDF que eu sou nao. Isso foi uma das únicas coisas que eu prestei atenção nas minhas aulas na Alemanha), que acontece quando voce volta para o seu país de origem depois de um tempo fora. Sao basicamente as mesmas fases, nos mesmos meses do choque cultural de entrada. Mas chuta só de novo: a amplitude da curva é maior, ou seja, o choque é ainda pior do que o se tem ao entrar em uma nova cultura. Olha só que legal!
----
E por isso o título do post de hoje: estava lá eu, quietinho, escutando música. Tenho covardemente evitado ficar muito no Facebook para nao falar com os meus amigos alemaes, tenho covardemente evitado abrir as fotos de Hamburgo, mexer nas coisas de Hamburgo, ver qualquer coisa que me lembrasse Hamburgo. Os amigos do Brasil... já encontrei quase todos, entao novidade mais nao é, Fernando já está no Brasil, isso é fato. A fase inicial do "Wow, Brasil!" já meio que passou: é calor mesmo, é desorganizado mesmo, é informal mesmo.

E aí a porra do iTunes shuffleia para Krieger des Lichts - Silbermond, uma música que eu escutei horrores na hora de voltar para o Brasil. E ai fudeu: welcome segunda fase do choque de reentrada. A fase onde voce olha ao redor e pensa "Que porra eu to fazendo aqui?", onde voce tem a incomoda sensacao de se sentir estrangeiro no seu próprio país. Aí veio a coragem de abrir as mensagens de amigos queridos que ficaram lá e saber que o lago Alster congelou e as pessoas estao caminhando e patinando em cima dele. Que as festas e jantares dos estudantes do Erasmus continuam, com todo mundo se encontrando e comentando como voce faz falta.

E voce, aqui, do outro lado do mundo, olhando ao redor e se perguntando "Que porra eu to fazendo aqui?.
Saudades de Hamburgo. Saudades da neve, da cerveja barata e quente, da H&M, da Hauptbahnhof (Estacao Central), de andar na Jungfernstieg sábado a tarde com os meus amigos portugueses. De escutar alemao. De sair sábado a noite com amigos para a Reeperbahn e me divertir sem me preocupar com seguranca, dinheiro, como vou chegar em casa, com nada. Saudades dos amigos.
Saudades de me sentir em casa - fora de casa. Talvez seja isso que aconteca quando voce viaja muito - o estranho se torne o familiar. E daí a dificuldade de se acostumar ao que é normal, conhecido, esperado. :/

Mas enfim (again)...Odeio terminar posts de bad mood. Nao fazia na Alemanha isso, nem farei no Rio. Procurei olhar ao redor e ver algo para me fazer sentir um pouco melhor e poder compartilhar. Só precisei olhar para a janela em frente. E perceber que tem horas... que morar no Rio é incomparável...
Things will get better! (E eu responderei os comentários, prometo!).

7 comentários:

Introspective disse...

Não sei como vc ainda fica dizendo que queria escrever como eu. Vc escreve bem pra caralho, e esse deve ter sido um dos seus 5 melhores posts! Tá delicioso de ler, tá superverdadeiro, e demonstra uma maturidade incrível, de verdade. Parabéns!

Alex Bez disse...

faço coro com o Thiago.
na maioria da vezes, lendo seus posts, eu consigo me informar, me divertir, e me emocionar...
farei um bate-e-volta para Hamburgo por sua "culpa", rsrs
achei este último post um fernando mais "sereno", na verdade acho que este post merece um "PART 2".

Algo me diz que vc voltará a escrever seus lindos textos no velho continente e NÃO vai demorar...rsrsr
Bora apostar???!!!

Don Diego De La Vega disse...

Ué...tem uma coisa q eu não entendi e acho q não consegui perguntar direito no jantar....não foi vc mesmo q DECIDIU voltar? Não poderia ter arrumado outro estágio ou emprego ou sei lá e continuar lá por mais tempo? Isso não ficou muito claro pra mim....

E sobre vc responder aos comentários...snif.
Escrevi um IMENSO no post abaixo e vc nem tchum. Snif. rs rs

Viu os especiais do Sex And The City?

Fernando disse...

@Thi: Aham, então anda lendo meeesmo o blog, hein! :)

Danke, lieber! :) Obrigado pelo elogio!

Fernando disse...

@Alex: Bem... tecnicamente tecnicamente, os posts no Velho Continente talvez não demorem muito a se repetir não mesmo... :) Enfim, veremos...

Quando você vai fazer o bate-e-volta em Hamburgtown?

Fernando disse...

@Don Diego: Então Diego, eu voltei ao Brasil porque precisava terminar a faculdade...

Existe um limite de 1 ano para intercâmbio acadêmicos, além disso se eu quisesse terminar a minha faculdade na Europa, teria que recomeçar do zero. E não custa lembrar que Universidade na Alemanha leva 7 anos: ou seja, me graduar com 31 anos, no way. :)

E eu to respondendo agora os comentários! :)

E sim, vi os especiais do Sex and The City. Amo Sex and The City, mas acho a SJC uma bitch egoista (porra, tudo ela em primeiro lugar, em destaque?!).

Alex Bez disse...

Fernando, estarei em Berlim e Hamburgo no inicio de maio...até lá espero q vc me ajude com dicas valiosas sobre estes lugares!
Vou tomar muitas becks lemon, aquela cerveja q o Thiago adooora, rsrsr.
Abs,