domingo, 1 de agosto de 2010

Sobre a difícil arte de blogar (e comentar)


Teoricamente blogar é algo muito fácil. Escolhe-se um site de preferência (os que prezam pela praticidade e facilidade escolhem o Blogger, os que preferem a liberdade e conseguem entender como funciona aquela merda escolhem o Wordpress). Cria-se uma conta. Decide-se por um template (agora tem umas opções mega estilosas que não existiam quando eu resolvi criar o meu blog! E agora? E o medo de migrar para algo cool mas sem a essência Lost und Found de ser?!). Nomeia-se o blog (a hora mais complicada: quando você precisa ser criativo, mas sem ser babaca nem copiar algo que já existe. Mas claro, algo que represente você. Ou seja, um processo difícil pra caralho.). Clica-se em „Nova Postagem”. Dá-se um novo título ao que você quer escrever. Escreve-se o que vem a sua cabeça e voilá: você é um blogueiro.

No mundo real, claro que as coisas não tão fáceis assim. Entre escrever o que você pensa e clicar no “Postar” existe uma decisão de compartilhar as suas ideias com o mundo. De entender que aquilo que você escreveu vale a pena ser lido. De checar se aquilo foi algo que outras pessoas pensaram também. De saber se é relevante. E isso envolve ter uma coragem do caralho. E um certo grau de egocentrismo: todo blogueiro gosta de saber que é lido, que é apreciado, de que colocou em palavras o que pessoas não conseguiram colocar antes.

Mas para acontecer essa interação entre autor e leitor, precisa existir o botão “Comentar”. Li uma vez em um blog francês de uma adolescente mega antenada em moda uma discussão sobre o tema: depois de alguns posts gongativos e meio stalkers (contando detalhes da vida dela e de pessoas do seu grupo de amigos), ela resolveu acabar com a seção “Comentários” por acreditar que o blog é uma visão de mundo de uma pessoa, exposta para que outras possam acompanhar e tirar suas próprias conclusões. E que esse processo então prescinde dos comentários.

Eu discordo. Quem quer escrever e não escutar comentários e ideias e correr riscos escreve para si mesmo, num diário, guardado a sete chaves. Se for muito corajoso, organiza em textos e envia para uma editora, que se ele for tão brilhante mesmo, vai publicar. E ele não vai ler nenhuma crítica de jornal, nenhuma resenha, nada. E tapa os ouvidos para qualquer um que venha falando “Eu li o seu texto...”. Agir dessa forma tem suas vantagens, é claro (a ignorância pode ser uma benção, claro). Mas eu pessoalmente acho um tanto quanto... solitário agir assim.

Mas aceitar que comentários cheguem também tem sua dose de risco. O risco de ser desafiado. De chegar alguém e dizer que discorda do que você pensou, e questionar o seu escrito de uma forma que te atinja lá, bem no seu calcanhar de Aquiles. De alguma forma, provar para você que você está errado, ou de que o seu pensamento pode não ser o único válido. E aí as coisas complicam...

Todo blogueiro tem a sua lista de comentários ácidos, do tipo mais difícil de engolir. Daqueles que você passa algum tempo pensando em como responder, mostra para um amigo mais chegado e pergunta “Como respondo esse FDP?”. Estou excluindo dessa lista os puramente gongativos, afinal, gongar sem conteúdo é pura mediocridade auxiliada pela possibilidade de assinar como anônimo. Estou falando dos comentários que questionam o que você escreveu, o que você pensa. De que te fazem pensar por pelo menos 5 minutos, nem que sejam para te deixar puto. E fazer você escrever um outro post em resposta e esse comentário.

Todo mundo que acompanha o meu blog sabe mais ou menos como eu penso. Sabe da minha verve crítica, dos meus comentários irônicos com relação a tudo e a todos. Não sou assim o tempo todo, nem é esporte: é só mesmo o espaço que eu uso para me expressar assim. E falar o que eu penso. Compartilhar a minha visão de mundo. Trocar ideias, e chegar a uma conclusão diferente no final.

Por isso que eu acho que vale a pena blogar. E deixar o botão “Comentários” aí, ativo, funcionando. Para conseguir ter interação com os meus leitores críticos. Para que se alguém discorde do que eu escrevo, que essa discordância chegue até mim. E que isso me incomode, me deixe puto, sim. Mas que me faça pensar. E que me faça rever meus conceitos, ou só melhor fundamentar os meus conceitos preexistentes.

Porque só assim vou extrair alguma vantagem real de blogar.

A de ser um pouco menos ignorante. E aprender um pouco mais com os outros. Seja blogando. Seja comentando. Seja comentando e percebendo que o mundo pode não ser muito bem da forma como você pensa.

14 comentários:

Fernando L disse...

Concordo em algumas coisas e discordo de várias, até pela experiência que venho tendo com blogs.

Acho que blogar é realmente um negócio simples. Criar o blog e começar a postar o que der na cabeça, com o mínimo de lucidez do que se está fazendo. Nem sempre que se bloga se espera comentário, nem sempre queremos divulgar nosso blog. As vezes só se quer lançar no mundo as coisas e ver o que acontece. No meu blog aconteceu assim, tanto que a pouco tive uma crise com o blog, não a ponto de fechá-lo, mas a ponto de encerrar a seção de comentários pois vi que, quando começou a ter postagens, comecei a ficar na espectativa de ter mais, coisa que não era pra ser, e sim, só um diário aberto pra quem cruzar com ele. Tanto que várias postagens não acho que valham a pena ser lidas, mas tinha que escrevê-las, e escrevi, simples assim.

Essa postura tem seu peso, claro. Tenho poucos seguidores e leitores efetivos, mas to feliz assim, escrever no blog e correr o risco de ser um idiota completo, mas sincero me faz feliz, hehe

Acho que determinar uma etiqueta pra uma estrutura tão aberta quanto o blogger tão brochante e uma coisa tão pessoal de cada blogueiro, afinal, as motivações de cada um são diferentes entre si.

Abs

Alex Bez disse...

Fernando,
...engraçado/interessante esse seu post!
sabe que por outro lado quando eu faço um comentário num blog e o blogger não dá um reply a sensação é de que o comentário não teve nenhuma importãncia! sei lá, estabeleci uma conexão com a leitura dos meus blogs preferidos, hoje esta leitura faz parte da minha rotina, é phoda quando voces ficam semanas e semanas sem atualizar o blog, rsrsr. Lembro uma vez que o DANIEL do CHATO NO AR, certa vez faz um post a partir de uma sugestão minha, mas não citou meu nome, apenas disse "um leitor sugeriu este post"
Pensei: "caralho, um leitor??? como assim, tou aqui neste blog todos os dias, tenho nome e sobrenome, e o cara me chama de leitor???!!!"
Entendeu a relação que os "leitores" desenvolvem com os blogs e a responsabilidade de vcs?

abs,

Introspective disse...

Vc descreveu bem a dor e a delícia de ser blogueiro! No fim das contas, ainda acho que vale a pena, mas vira e mexe vejo algum colega surtando e cometendo o suicídio virtual...

E Alex: nem sempre a gente consegue dar um reply nos comentários... especialmente qdo o leitor não se identifica e nem deixa uma forma de contato! (não é o seu caso, mas é o de muitos!)

tommie disse...

Blog é feito dark room, vc pode ter muito prazer lá, uma orgia com quem frequenta, mas tem sempre uns anônimos querendo te f*der, e tem os que ficam de fora tentando queimar sua imagem falando que "blogar" é coisa de carente. Não seremos todos?

Alex Bez disse...

...eu entendo que é impossível responder todos os comentários do blog, mas na minha opinião o que me faz acessar duas vezes por dia o INTROSPECTIVE, por exemplo, é saber que meu comentário foi aceito e que eventualmente fui replicado...whatever! Existe uma troca quando isso acontece, torna essa leitura menos contemplativa e mais interativa.
abs,

Don Diego De La Vega disse...

Concordo com seu xará Fernando: vc está cerebral demais! RELAXA!

E eu escrevi um comentário enorme pra vc no post abaixo, pra te deixar bem putinho mesmo e fazer vc pensar no quão sua vida é boa e vc está aqui reclamando feito uma velha que não fode.

Sobre os comentários, concordo, é por isso, pra estabelecer um debate, que eu tenho um blog. Fico muito feliz quando alguém me dá um feedback de que foi ajudado por algo q eu escrevi. :)

Carol S. disse...

Fernando, esse foi um dos seus posts mais interessantes!
Realmente eu acho que bloggar é meio que uma arte; e a pessoa decide se expõe isso ao mundo ou não, sabendo que a exposição pode ser apreciada ou não, rendendo comentários, ou não...
Quando fiz meu blog o objetivo era deixar minha mente livre pra criar qualquer coisa e jogar por aí, mas logo depois da primeira postagem eu já ansiava por comentários! Acaba que a gente pensa que simplesmente jogando nossa mente online nada vai acontecer, ninguém deve se interessar pela vida de pessoas comuns, mas quando surge um comentariozinho já dá aquela vontade de corresponder.
Acho que o mais importante é dar liberdade pros pensamentos, expor o ponto de vista pessoal, se expressar de uma maneira que não faz normalmente. E é ótimo também quando percebemos que há gente que pensa como nós, que compartilha as mesmas opiniões, e também que tem alguns que discordam e nos ajudam a ver as coisas de outro ângulo.
Adoro vir aqui e já é minha rotina checar o que você tem de novo pra falar! =D
Beijão

Introspective disse...

"E eu escrevi um comentário enorme pra vc no post abaixo, pra te deixar bem putinho mesmo e fazer vc pensar no quão sua vida é boa e vc está aqui reclamando feito uma velha que não fode." - Hahahaha, ri muito com o coió do Diego! ;D

Lucas T. disse...

Fernando, eu acho que tudo faz parte disso mesmo que você falou. Comenta, rebate-se, posta um contra-argumento, e assim vai.

Acho que não tem nada de NORMAL em publicar textos e receberem comentários. Não para pessoas comuns. Essa história de blog começou fazem quantos anos? 10? no máximo uns 15! Antes disso era só diário mesmo, acho que o ser-humano não tá preparado para esse tipo de coisa (escrever sobre coisas complexas em pouco tempo, publicar e ler críticas a respeito). Não acho uma coisa NATURAL, é isso que eu quero dizer.

Dito isso, acho que vai de cada um escolher se quer ou não disponibilizar a opção de comments. Mas concordo contigo, se eu tivesse um blog com certeza deixaria o povo comentar e bateria boca numa boa :D

Fernando disse...

@Todos: O que eu mais adoro no meu blog é que antes até de eu me pronunciar, já recebo um monte de comentários, dentre os quais:
- Gente concordando
- Gente discordando
- Gente me dando coió
- Gente apoiando quem me deu coió

Amo vocês, queridos leitores. ;)

E aviso: Fernando sensível. E sensível. = Fernando mau, irônico e ácido ao seu nível mais extremo. Tentarei me controlar. Prometo.

@Fernando L: A minha ideia não era tentar estabelecer uma etiqueta para se escrever um blog. Até concordo com o argumento da blogueira francesa (que argumentou que o blog era um visão de mundo dela, e que sendo assim ela prescindia da interação dos leitores para continuar expressando o que ela já expressava), e sendo sincero, 90% dos blogs estão recheados daqueles comentários tipo “Ai, sou tão teu fã!” que no fundo não acrescentam em nada, e acabam sendo a versão blogueira daqueles votos de Feliz Aniversário que te dão por Orkut e Facebook por preguiça de pensar em algo mais original e elaborado. No meu caso, na minha opinião, os comentários são mega bem-vindos. Gosto da interação com o leitor, de saber o que as pessoas estão pensando, porque sou um cara que curte diálogo por natureza. E felizmente, apesar de não ser o blog mais bombante da blogaysfera, eu posso dizer que eu tenho uma alta taxa de comentários com conteúdo e que eu tenho prazer em ler e rebater.

@Alex: Daniel, você leu isso? :) Vai pro teu SAC, lieber... :) (E Alex, eu também fico ligeiramente puto quando desenvolvo uma mega resposta e o autor simplesmente ignora o que eu escrevi, o aceita e nem se dá ao trabalho de responder...)

@Introspective: Cara, já fez uma conta de quantas vezes você pensou em fechar a conta do teu blog? Cara, eu já pensei INÚMERAS... :D

@Tommie: Acho que todos somos carentes. Uns escondem melhor, outros não ligam em deixar isso claro.

@Diego: Mwah. Responderei no post relacionado a sua resposta. Verás, Don Diego, verás... :D

@Carol S: Cara, eu lembro até hoje do meu primeiro comentário. Foi do Daniel, do Chatonoar (Surprise? Daniel devia ser contratado para ser Blog Trendhunter...). Fiquei tão em choque, tão “God, alguém se interessa mesmo pelo que eu escrevo?”. Até hoje não tenho coragem de ficar divulgando o meu blog por aí, aos quatro ventos não. Mas é bom saber que se escreve e se é lido.

E eu acho que blogar é algum tipo de terapia, sabia?

@Introspective: Zoar o autor não pode! Cuidado para não virar persona non-grata em mais um espaço, HEIN!

@Lucas T.: Ah Lucas, mas tem tanta novidade no mundo, que pensar o que é normal e no que não é normal é mega difícil. Sei lá, as vezes eu imagino o que autores brilhantes que sofreram com a dúvida de serem realmente brilhantes ou não (tipo Dostoievski, sei lá) criariam se tivessem um blog e a possibilidade de acompanhar a reação dos leitores a sua obra assim que ele colocasse um ponto final, sabe? Imagina se dedicar a um projeto durante meses sem se saber se o público vai realmente gostar ou não? Ainda mais algo que você escreveu?! Algo tão íntimo? Ah, não sei se teria preparo para isso não.

beto disse...

vim no seu blog responder pq achei que já tinha usado demais o espaço do Tony pro assunto GOL...

[aliás, veio bem na hora que a logística de empresa entrou em colapso; isso leva uma semana pra resolver. já aconteceu nos EUA antes, tanto com cia aérea como com uma ferrovia de carga]

agora entendi qdo vc falou sobre Gol e premium na mesma frase...sim, preços às vezes (mas não muito frequente) mais caros que a TAM. isso encaixa no que falei lá... ela não PRECISA ser uma verdadeira low-cost-low-fare pq a concorrência por aqui ainda é muito pequena (WebJet, Avianca, Azul etc são ainda muito pequenas pra realmente incomodar).

Vc errou a ilha holandesa, mas chegou perto. Não é pra St.Maarten, mas pras bem mais populares Aruba e Curaçao que a Gol voa. E agora começou pra Barbados tb.

O serviço internacional é marginalmente (põe marginal nisso) melhor que o doméstico. Ao invés de crackers, goiabinha Bauducco ou semelhantes, vc recebe um sanduichinho para um voo de 6 horas (Bogotá) ou de 5 horas (Lima, esse ela nem tem mais). E dá até vergonha alheia de 99% dos tripulantes lendo os avisos num portunhol digno de Sarney e/ou Collor.

Na verdade, nenhuma empresa low-cost conseguiu emplacar com sucesso voos mais longos. O modelo funciona bem até um certo número de horas de voo, depois disso a coisa não dá certo nem pros passageiros nem pra própria cia aérea.

Fernando disse...

@Beto: Você trabalha no setor aéreo? Digo isso porque você parece entender bastante disso. E porque queria muito que alguém me explicasse porque o sistema aéreo no Brasil é a bosta que é. Tipo, é uma junção de RUIM e CARO que é difícil de entender, saca? Depois de voar para Paris via TAM eu até me tornei um pouco mais simpático a empresa (claro, depois de a mulher deixar me embarcar num voo internacional faltando 15 minutos para o avião decolar), mas ainda acho que eles precisam de uma reestruturação de imagem séria.

E eu sei, hoje em dia todo mundo voa, os preços baixos permitiram isso... mas não existiria espaço para uma VARIG não? Ah, era tão legal ver aqueles pilotos e comissários elegantes em azul marinho, levando suas bagagens pelos saguões dos aeroportos...

Lucas T. disse...

Também tenho muita curiosidade de saber porque a aviação brasileira é tão caótica, e as empresas atuais tão ruins.

A Tam tem demonstrado mais esforço do que a Gol no quesito qualidade e profissionalismo, mas já teve problemas semelhantes a esse da Gol de hoje, se não estou enganado.

Quando fui pra Europa voei com a KLM e tenho milhas deles, são ótimos, uma vibe Air France, alias a Air France comprou a KLM, creio eu.

Mas foquemos na parte OPERACIONAL, e não tratamento ao cliente e qualidade geral. Pq o MÍNIMo que se espera de uma cia aérea é pontualidade. Esse caso da GOL pode ser isolado mas sei lá...não é de hoje que o Brasil sofre com isso.

A RyanAir, por exemplo, usa ônibus que voam e o atendimento é DO PAVOR, mas acho que é uma das cias aereas mais pontuais da Europa.

Daniel disse...

Eu, Blog trendhunter?
ruborizei :D

@ Alex, agora você vai ter que dizer qual era o post para eu ir lá desfazer a injustiça!

Blogar é um aprendizado. Para eu não ter citado você é simplesmente porque eu ainda não tinha aprendido essa regra de etiqueta.