quarta-feira, 28 de julho de 2010

De volta ao batente


Depois de quase 6 meses de buscas, currículos enviados, entrevistas, provas de inglês ("Please, choose the correct alternative: a) Am I an idiot? b) Are you an idiot? c) Are we all idiots? d) Even my American friends would fail in this fucking test e) What am I doing here?"), provas de lógica ("Marque a opção incorreta nas alternativas abaixo: a) Toda empresa explora estagiário b) Nem toda empresa explora estagiário c) Toda empresa que não explora estagiário paga mal pra caralho d) Estagiários ficam deprimidos quando assistem ao Profissão Repórter e descobrem que michês ganham num programa quase o seu futuro salário mensal, e nem precisam de graduação em faculdade de linha e experiência internacional para isso") e finalmente... o que aparece de concreto é uma vaga de temporário num projeto de escritório de consultoria. Great: foi pensando nisso que eu fiz intercâmbio, experiência de estágio no exterior, etc&tal. Enfim, projeto é até interessante, o contrato atual um teste de desempenho, o salário revoltante de tão baixo que é (sério, eu suspeito que as faxineiras do escritório ganham mais do que eu, e por muito pouco eu não estou pagando para trabalhar. Em horário integral nas férias, bien sûr!), mas como qualquer coisa é melhor do que ficar em casa assistindo 'Cabocla' enquanto me entupo de Doritos, aceitei o desafio. Afinal, "Arbeit macht Frei"* define perfeitamente o que é trabalhar, não é?

Claro, a oportunidade atual não é a única em vista: não posso deixar de lembrar a empresa de Rh que simplesmente perdeu o meu currículo na hora de me encaminhar para uma entrevista numa empresa (claro que quando eu liguei, a vaga já tinha sido ocupada), a multinacional na qual eu estou no meio daquele processo interminável de entrevistas e dinâmicas (todas sempre com variações da clássica "Vocês são um time de astronautas indo à uma missão em Marte / Escolham que porra vocês levariam e o que vocês deixariam", todas você sempre caindo no grupo que tem um imbecil prepotente que não deixa ninguém falar e quer comandar tudo e você sempre no dilema "Faço o babaca se por no seu lugar e mostro liderança, ou faço a phyna educada e mostro diplomacia?"), a outra multinacional que simplesmente responde que ficou extremamente interessada no meu currículo, mas que eu sou overqualified para a vaga em questão e que preferem guardar o meu currículo para uma vaga para um cargo mais elevado - que eles não fazem idéia de quando irá aparecere (#1: tipow... fico feliz ou fico triste? #2 Já faço uma Macumba Online para afastar os maus olhados do meu currículo nos setores que RH de empresas brasileiras que fazem com que ele simplesmente suma das mesas?). Ah, e amanhã ainda tem uma entrevista. As 8h da manhã (e a porra meu Eau Thermale - que normalmente me salvaria do visual Panda meets Ressaca em eventos que comecem antes das 10h - acabou de acabar, olha que legal!). Na Barra (cariocas entenderam o drama, não-cariocas que não conhecem o Rio: Barra é o equivalente daquele lugar muito longe que seguramente existe na sua cidade, no qual um dia uma construtora inventou que era "Premium" morar, membros da classe média compraram a idéia e foram realizar sonho da mansão-cafona-com-coluna-grega própria ou de morar num condomínio de troncentos e noventa e dois apartamentos pretensamente "de alto nível" porque conta com duas piscinas, algumas palmeiras e uma churrasqueira coletiva apelidada de "Espaço Gourmet" e onde o urbanista filho-da-puta que assinou o plano diretor para a região se esqueceu de que ruas precisam de conceitos básicos como "calçada" ou "sinal de trânsito" para serem minimamente utilizáveis).

De qualquer forma, o interessante hoje foi relembrar que... a última vez em que eu efetivamente trabalhei foi em Hamburgo, em alemão (ou seja: mesmo com o salário rídiculo, pelo menos eu trabalho em português agora. Ou acham que foi fácil chegar no seu primeiro dia de trabalho numa reunião onde você teria que teoricamente escrever uma ata e depois de duas horas ter que confessar para o seu chefe que você não entendeu absolutamente NADA do que foi dito porque nas fitas cassete do Goethe Institut as pessoas falavam bem mais pausadamente?). E perceber as pequenas-grandes diferenças do estilo de trabalho dos países, e como de alguma forma eu ainda fiquei programado no estilo de trabalho alemão. Exemplo? Por que as pessoas se beijam ao se cumprimentarem num ambiente de trabalho? (Juro que eu não consegui conter o sentimento de invasão-do-meu-espaço quando a minha chefe foi me apresentar para as pessoas do time, e as mulheres vieram me beijar!) Por que os chefes não falam que precisam de tal coisa no início da tarefa, mas somente no final - quando você vai ter que refazer tudo? Como as pessoas não sabem onde encontrar cada simples coisinha dentro de escritório? Como não existe um guia de 3 mil páginas para apresentar a empresa para os novos contratados, explicando chata e minuciosamente todos os detalhes inúteis da empresa? E o mais chocante: por que as pessoas ficam surpresas quando marcam uma reunião às 15h... e eu chego às 15h?!

Enfim, eu sei: processo natural de readaptação à minha cultura. Vai ser assim, tudo de novo no dia em que eu trabalhar em outro país (que Deus-Pai-Todo-Poderoso me dê a graça de pular a etapa São Paulo, e me permita realizar o sonho da bicha de negócios internacional o mais cedo possível!), etc&tal. Mas difícil de não relembrar de tudo o que eu passei por terras germânicas quando a primeira tarefa do seu dia é fazer um briefing de uma empresa que você descobre ficar... duas estações de metrô de distância da sua antiga casa, 7 do seu antigo local de trabalho. ;)

* Para os não versados no idioma germânico, bem... essa não é uma frase para se repetir para um alemão ou judeu, e definitivamente uma frase que tem uma aplicação um pouco além do que você irá encontrar no Google Translator. Warum?  Melhor clicar aqui para entender.

P.S.- E pensar que eu perdi uma exposíção do Hopper em Hamburgo por simples saco de enfrentar fila no Bucerius Museum... :/

5 comentários:

Lobo Cinzento disse...

Deprimi lendo esse post. Acabou de me lembrar que meu estágio acabou e preciso encontrar outra fonte de meia renda o mais rápido possível =/

Daniel disse...

Bom, quando o assunto é colocação no mercado do Direito, a minha dica é: por mais foda que pareça agora, é muito mais fácil catar um estágio e se fazer naquele escritório do que ir procurar depois de formado (ou trocar depois de formado). :/

Alex Bez disse...

Apesar de sua "aparente" resistência, vc deveria começar a pensar na possibilidade de vir morar em SP. Temos um mercado de trabalho mais promissor (quase metade do PIB nacional) e vc poderá todas os seus cachecóis e calças skinny sem ninguém te olhar torto (ok,ok,contando que vc more no circuito paulista-jardins-zonaoeste).
Com um diploma de Economia da UFRJ e falando alemão aqui em SP??? Com toda certeza vc consegue um excelente trampo!
abs,

Don Diego De La Vega disse...

Caralho, como vc reclama. :)

Tá vendo como namoro a distância não funciona? Vc tá precisando fuder muito pra relaxar.

RELAXA!!

Já te falei, o mais difícil vc já fez q é se mandar SOZINHO pro exterior e se VIRAR em Hamburgo e nos trocentos outros lugares q vc foi!

Vc conheceu pessoas, teve experiências, perspectivas e vai com certeza voltar pra lá. Agora encare isso q vc passa como algo momentâneo.

Vc não foi feito pra Brasil, muito menos pra Campo Grande.

E tb acho q não foi feito pra economia. Sua área é outra, já te disse isso tb.

Pare de reclamar como uma velha, porra.:)

Vc é um cara NOVO, BONITO, com pouca idade já tem uma PUTA EXPERIÊNCIA de vida e logo logo vai ter um diploma de uma faculdade sensacional.

Minha sugestão profissional é a mesma q eu penso (e vou aplicar) pra mim: seja empreendedor. Vc é inteligente e tá se desesperando pq não tá vendo na sua frente nada que não siga aquele trilho de trem tradicional: faculdade/estágio/emprego/escravatura no emprego/aposentadoria.

Olhe pra outros lugares q não esses que vc está olhando agora.

Se vê feliz sendo economista o resto da sua vida?

Primeiro pense nisso.

Fernando disse...

@Lobo: Ah, não foi a minha intenção deprimir! Ok, na verdade foi um pouco sim: cariocas, migrem para SP! Não tem emprego na iniciativa privada para todo mundo nessa porra de cidade. Ou pelo menos se você não é loira, 1,80m, fala com sotaque do interior do Rio Grande do Sul e tá pretendendo se candidatar para uma vaga na próxima temporada de Malhação. Carajos!

@Daniel: Explicado porque os estagiários de direito no meu estágio antigo praticamente lambiam o chão que o chefe andava para conseguir ficar no escritório. Olha, depois que eu vi estagiário de direito trabalhar... revi os meus conceitos de trabalhar MUITO. Peninha...

@Alex: Preciso me formar antes de tudo, né Alex? Não tenho uma resistência a SP (apesar de que os engarrafamentos monstros e a sensação de que se está permanentemente perdido de SP me assustam ligeiramente), e quando a gente estuda Economia acaba se preparando para o inevitável que é... mudar para SP em algum ponto da carreira. Na verdade, acho isso até saudável: o que eu definitivamente não quero é viver a minha vida toda num lugar só. Rio de Janeiro sempre vai ser a minha maravilhosa e querida hometown, mas não preciso ficar aqui mais 30 anos para reforçar ainda mais a minha carioquice (e as minhas falta-de-saco com várias coisas na cidade).

@Don Diego:

Ok, a gente sabe quando os amigos começam a compreender a gente quando os esporros que eles dão... fazem todo o sentido. :D

Sim, estou chato. Pra caralho. Por que? Porque bateu uma MEGA insegurança na última semana. Tô vendo meus amigos encaminhados em bons estágios, mestrado, ganhando a vida com o salário (que por mais furreca que ainda seja, é vezes maior do que eu ganho como estagiário) e bateu a insegurança. De ficar para sempre no subúrbio (gente, as pessoas não me compreendem aqui! A começar pela minha mãe e irmã!), de não conseguir um emprego que me desafie, de ser medíocre demais. Sei lá, bateu essa porra de insegurança. E uma mini-revolta de estar buscando um estágio que me permita um nível mínimo de independência (do tipo pagar contas, comer em restaurante a quilo, coisas básicas, nada muito premium não!) e saco cheio da vidinha com restrições que eu estou levando agora.

O lado bom de tudo é que o estágio realmente é interessante. E se é mal pago, pelo menos no intelectual tem me desafiado bastante. E me mostrou uma área que envolve Economia, mas que envolve um certo grau de criatividade pelo qual eu estava procurando. Eu curto negócios, eu curto projetos, eu curto trabalhar em time, Diego. Só o criativo não funcionaria para mim. E nesse estágio, tá dando para usar os dois, e pode servir como uma ideia de uma área mega interessante para se seguir. Só resta ver até quando esse projeto vai. Mas acho que desenvolvendo um trabalho bem legal.

E obrigado pelo NOVO e BONITO. ;) Aniversário de 25 anos chegando, bateu uma deprê em perceber que já tô virando público-alvo do Reniew.