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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Elegance is about the way you cross your legs, not the label or the newest clothes from the latest collection

Raríssimas as vezes eu postei aqui um artigo ou entrevista na íntegra (aka. 'nome elegante e jornalisticamente sofisticado para o processo de ctrl v + ctrl c'). Mais raro ainda (ou inédito no blog?) um post sobre moda, um assunto que sinceramente me interessa bem mais do que eu deixo expressar pelos meus textos aqui no blog.

Mas algumas matérias necessitam ser divulgadas, necessitam ser espalhadas, necessitam ser lidas. Por que então eu acho que a entrevista de Carine Roitfeld para a Spiegel Online International merece isso?

#1: C'est Carine Roitfeld, chérie: Como?! Não sabe quem é ela? (Primeira reação choque + Pensamento 'Em que planeta você mora, dear? Planet Girls?!', Segunda reação: Respira fundo, ajeita a camisa social e vai) Sabe o 'Diabo veste Prada'? Sabe Miranda Priestly (meu sonho é virar um chefe e despachar os meus subalternos+estagiários com um seco 'That's all."), o papel da Meryl Streep? Então, ele foi inspirado em Anna Wintour, a toda-poderosa editora-chefe da Vogue Norte-Americana - uma excelente profissional, com um poder absurdo na mão, que catapultou as vendas da Vogue America para a estratosfera, bla bla bla. Mas que vamos combinar: ainda é a Vogue America - onde que americano é um povo conhecido pelo estilo de se vestir?! (Afinal, EUA é o país disso, disso e disso.) Carine Roitfeld é simplesmente a equivalente de Anna Wintour na Vogue Paris, petit. P-A-R-I-S. Primeiro, ocupou o cargo da principal revista de jornalismo de moda na capital de moda mundial (Paris, dã?!). Segundo, ela conseguiu catapultar as vendas da Vogue francesas em um momento de recessão das grandes editoras e ao mesmo tempo estabelecer a Vogue francesa como a publicação internacional quando se trata de inovação e originalidade em termos de jornalismo de moda. (Impossível comparar a o climinha "Quem Acontece meets Bloomingdale's" da Vogue America com os absurdos promovidos por Mme. Roitfeld na Vogue Paris.). Terceiro, ela é inteligente, ousada, fala merda e literalmente rocks. (Preciso realmente afirmar o quanto eu acho ela foda?). E quarto: assez.

#2: Sentir a essência do que é a moda da perspectiva de uma francesa: Primeiro que 'moda' é uma palavra que não faz sentido para um francês - eles preferem definitivamente usar o conceito de 'estilo'. Segundo, c'est bien: você pode argumentar que franceses não curtem um banho (falando francamente, até hoje eu ainda não encontrei um francês fedidinho - agora, meu querido, dá uma passada no trem ramal Japeri no horário de rush do final da tarde...), que já viu vários turistas de France absurdamente mal-vestidos dando pinta por Ipanema/Copacabana e até que Christian Audigier é francês. (Agora eu fico feliz se você não sabe quem é Christian Audigier: ele é o Cocô Chanel do creyçon fashion style no Primeiro Mundo, sua marca Ed Hardy é absolutamente idolatrada por todas as celebs Z-List Europa e EUA afora e suas roupas tem o maravilhoso pode de te deixar instantaneamente tão elegante quanto um integrante de gang de rua de subúrbio de San Diego. Resumindo: na hora em que chegar a primeira camisa no Brasil, será sucesso de vendas instantâneo.) Mas é inegável que a 'moda' é uma característica fundamental da cultura francesa. E indispensável da cultura urbana parisiense - eu não diria exatamente que os parisienses são os mais bem-vestidos (dentre as cidades que eu conheci na Europa, esse título segue fácil para Estocolmo - os escandinavos em geral tem um senso estético muito apurado para tudo o que envolve 'design', mas os suecos facilmente são os que mais aplicam isso em termos de 'estilo de se vestir': não é somente um 'usar roupas caras', mas um senso de saber escolher, saber combinar itens a primeira vista comuns e construir com o conjunto um visual essencialmente moderno e trendsetter), mas existe algo no jeito de vestir do parisiense em geral que atrai o olhar de qualquer um que visita a cidade. É um estilo clássico, simples, focado em peças básicas com acessórios de impacto, que quase sempre resulta num estilo que poderia ser classificado como 'casual sofisticado'. Descrevendo assim parece algo 'uniforme', eu sei, mas andando por Paris é incrível como você consegue ver isso em estilos/tribos tão absurdamente diversos, do bohemian ao gótico. Tudo relacionado à um equilíbrio: not too much (italiano demais) a ponto de transmitir informação demais sobre você, not way too less (americano por essência) a ponto de o que você vestir não passar impressão/imagem/idéia nenhuma sobre quem você é. Resumindo o paragráfo gigante que eu acabei de escrever: de forma geral, o francês tem uma noção de que moda é uma das formas mais efetivas de passar uma mensagem pessoal para o mundo - e eles pensam sobre isso.

#3: Para relembrar que jornalismo de qualidade consegue transformar um tema que tão facilmente desbanca para a futilidade tipo 'o-novo-preto-da-estação-é-o-oncinha'/'oh-como-somos-fúteis!' em algo realmente intelectualmente interessante de ser lido: Sendo muito sincero, desconheço qualquer meio de comunicação escrito no Brasil que teria a capacidade/coragem de fazer uma pergunta como 'Can anyone who has spent 20 years in the fashion industry still be normal?' e acho que temos que reconhecer: mídia escrita de grande circulação, no Brasil, com qualidade para ser lida deixou de exisitr há muito tempo. Depois que a Folha passou a 'Crise Árabe' inteira ridiculamente traduzindo textos das grandes agências internacionais de notícias e destacou um time de jornalistas/escritores para discutir o BBB, acho que ficou mais do que sublinhado o fim da Folha como um jornal efetivamente com conteúdo. Em fúcsia. E itálico.

#4 Deswegen habe ich fucking Deutsch gelernt: Dois anos indo estudar alemão no CLAC (toda segunda e quarta, as 7h30!) na ilha do Fundão (@For-não-cariocas: Uma ilha longe longe, muito longe, muito muito longe, praticamente com microclima próprio, impossível de se chegar nos horários de rush, onde ficam a maior parte dos cursos ds UFRJ) + 5 anos de Goethe Institut (#1: Para dar uma dimensão da coisa, quando eu comecei a estudar no Goethe a moeda alemã ainda era o marco; #2 Cinco anos aturando os alunos insuportáveis de Germanística, que ficavam competindo quem decorava a declinação de mais prepsições; #3 O curso inteiro dura 10 anos. D-E-Z-A-N-O-S. Deprimente pensar que em 10 anos quem aprendeu inglês consegue praticamente escrever uma tese de doutorado - quem aprendeu espanhol, uma tese de doutorado em estudos comparados da antropologia do século XVII - e quem aprendeu alemão... consegue falar bem alemão.) + 1 ano de Alemanha (Onde primeiro eu me deprimi ao perceber que 7 anos de alemão me ensinaram a basicamente gaguejar em alemão, depois comecei a decifrar razoavelmente o que a maioria das pessoas falavam - já participou de uma reunião de duas horas onde você tinha que escrever uma ata e basicamente conseguiu entender somente o "Bom dia, estamos aqui..."? Eu já. No meu primeiro dia do estágio novo. - e ao final eu conseguia... me comunicar em alemão... mas tinha finalmente entendido que Hitler não ganhou a Guerra porque alguma força superior existe e não deixou o alemão se tornar a língua franca mundial que falar aquela Scheiße de idioma fluentemente somente nascendo na Alemanha.) = Determinado conhecimento do idioma alemão. Por que? Eu também não sei explicar. Mas, sendo muito sincero, ter acesso à imprensa alemã justifica muito desse esforço: a qualidade e a profundidade das matérias dos semanários alemães é impressionante. São páginas e mais páginas (a Spiegel média quase sempre fica pelas 400 páginas) de matérias que vão a fundo em temas relevantes, colunas com especialistas que realmente entendem do tema dando opinões fundamentadas (alemão adora um "Argumentos a favor" e "Argumentos contra" para qualquer assunto) e entrevistas onde os jornalistas não se intimidam nem por um segundo em fazer as perguntas desconfortáveis que todo mundo quer saber as respostas. Obviamente também existe publicação no estilo 'Meia-Hora' na Alemanha (Bild, for sure) e o que todos os elogios escritos acima são para a chamada tríade-de-ouro da mídia impressa alemã (Die Zeit, Der Spiegel e Frankfurter Allgemeine - os dois primeiros publicados em Hamburgo :D). Mas mesmo entre os equivalentes nos outros países europeus (com a exceção do excelente The Guardian - onde eu li e fiquei sabendo dessa matéria através da coluna de Life & Style chamada Fashion Statement), os jornais alemães são insuperáveis. Assim como os automóveis. E a obsessão por pontualidade e eficiência. :D

E agora, chega de introdução e voilá a entrevista com Mme. Roitfeld (muita emoção, muita emoção):

SPIEGEL: Ms. Roitfeld, you were editor in chief of the French edition of Vogue, the fashion and lifestyle magazine, for 10 years. Before that, you worked for 10 years at Gucci alongside then-creative director Tom Ford. Can anyone who has spent 20 years in the fashion industry still be normal?

Carine Roitfeld: My only drug is a small glass of vodka in the evening, if that's what you're asking. But I was fortunate because -- in addition to the very special world of fashion -- I also had a family, which is something probably rare in this business. I have also been married to the same man, the father of my two children, for more than 30 years. And that has helped me remain relatively normal.

SPIEGEL: For a former Vogue editor in chief, you also look remarkably normal.

Roitfeld: That's part of my newfound freedom. I always wore a tight skirt at Vogue; it was like a uniform.

SPIEGEL: Can you tell us what you're wearing today?

Roitfeld: A no-name T-shirt from Los Angeles, corduroy jeans by Current Elliot and satin shoes I had custom-made in violet. So the glamour's limited to my feet.

SPIEGEL: Does this world of vanity, in which fortunes are spent on trivial things, corrupt people?

Roitfeld: The fashion industry certainly has its obscene sides. The cost of a coat can be obscene. So can the cost of a photo shoot if you're working with a really good photographer. But when I see how good the photos have turned out or even how well the coat was made or how many people worked on it, it's not quite so obscene anymore. Of course, it's not like we're working in a hospital; we don't save lives every month. We just make decisions about skirt lengths, about an inch more or an inch less. That's all.

SPIEGEL: Did that ever seem pointless to you?

Roitfeld: For 10 years, it was a hell of a lot of fun. But, toward the end, it unfortunately got less and less fun. You used to be able to be more playful, but now it's all about money, results and big business. The prêt-à-porter shows have become terribly serious. The atmosphere isn't as electric as it once was, and they now have about as much charm as a medical conference. But it takes just one good fashion show to get things exciting again.

SPIEGEL: If fashion can tell us anything about the age it's created in, what do you think current fashions tell us?

Roitfeld: Today's fashions don't let people dream as much as they used to. Twenty years ago, fashion was a promise -- something that was part of your life and perhaps enriched it, something that reflected a particular era. If you look at advertisements these days, all you see are handbags. They aren't about dreams anymore; customers are buying objects now, not dreams.

SPIEGEL: Is that why you left Vogue in January?

Roitfeld: Ten years is a long time -- and especially 10 years in a gilded cage. They were wonderful years; but, sooner or later, birds want their freedom again.

SPIEGEL: Your French publisher said the time for being provocative and trashy was over.

Roitfeld: I'd put it this way: Fashion needs glamour, provocation and broken taboos.

SPIEGEL: Was it your decision to go?

Roitfeld: Absolutely. And at the perfect moment. The French edition of Vogue had never been more successful, had never had more readers or advertisers. And it had never made as much money. For 10 years, my American publisher, Jonathan Newhouse, let me do what I wanted, even when he thought it might be crazy. But it couldn't have gone on for much longer.

SPIEGEL: Is this the end of era?

Roitfeld: Creativity needs space and a willingness to take risks, but businessmen don't like risk. What's more, designers are coming under more and more pressure. Today, a dress can't just please the women in Paris; it also has to please those in Beijing, Tokyo, Moscow and New York.

SPIEGEL: Is globalization making fashion more boring?

Roitfeld: At the very least, it's leading to a lot of compromise. But globalization is only one factor. Today's designers no longer have to create two collections a year; they have to create four: spring, summer, fall and winter. And some fashion houses also add haute couture twice a year. Who can possibly manage all that? Good designers are artists; they're fragile people.

SPIEGEL: Two of the biggest stars in the Paris fashion world, Britons Alexander McQueen and John Galliano, both left this stage in a very dramatic way. McQueen committed suicide a year ago. And Galliano, the Dior designer, made his exit a few weeks ago after publicly professing his love for Adolf Hitler.

Roitfeld: McQueen's artistic creations always had a very dark side, but his death still came as a shock. After all, it's not like he was alone. He had a big team surrounding him, but it unfortunately wasn't able to protect him.

SPIEGEL: And Galliano?

Roitfeld: I had no idea how unhappy John Galliano must have been. You have to be very unhappy and lonely to praise Hitler in public while completely drunk. The House of Dior has always addressed a range of topics, for example, by having haute couture shows on homelessness where all the models look like people living on the street. But drunkenly shouting "I love Hitler" and calling people in a bar a "dirty Jew-face" is unacceptable. I don't think he really believes what he said; they were simply the actions of a drunk.

SPIEGEL: Are drugs an everyday part of life in the fashion industry?

Roitfeld: No more and no less than they are in other artistic circles. Yves Saint Laurent was the first person to openly admit to being a drug addict. Since I never touched drugs myself, I find it hard to tell whether people are taking them. But, of course, some people do. The industry has become faster and faster. People are constantly fighting jet lag and working through the night.

SPIEGEL: Now that Galliano and McQueen are gone, is German designer Karl Lagerfeld the only one left?

Roitfeld: Yes. Good old Karl. Superhuman Lagerfeld. I don't think he experiences this pressure in the same way. That's why he can put up with it.

SPIEGEL: And no one else can?

Roitfeld: He's not the only one. There's also Nicolas Ghesquière at Balenciaga, Riccardo Tisci at Givenchy, Miuccia Prada and, of course, Tom Ford. And then there are the up-and-coming talents. But they still need time. In a way, we've already seen everything. What else could they hope to invent?

SPIEGEL: And, in any case, copies of their designs soon turn up in Zara and H&M shops.

Roitfeld: Yes. At fashion shows, bloggers sit in the front rows and transmit new looks around the globe. It's all become terribly rapid. You're sitting in Paris, and people in Beijing already know what's going on. It's pretty crazy. But designers are probably really flattered that their looks are being copied.

SPIEGEL: But don't you think that this copying is still a problem?

Roitfeld: I don't see it that way. Fashion stopped being a matter of money a long time ago; it's a matter of taste. These days, even women with less money can dress well. I was always saddened by the idea that elegance was only something for a minority. It's about style. Karl was the first one to understand that. It was very smart of him to design this H&M collection, and very smart of Chanel to allow him to do so.

SPIEGEL: Today, it's mostly wealthy Russian and Chinese women who are buying expensive fashions. People working at many boutiques in Berlin speak Russian.

Roitfeld: That's right. This obsession with particular designers is somewhat strange. I think it's the safest way for these customers to find their feet when they first discover the world of fashion. You can't learn how to be elegant; you can only learn how to avoid mistakes. The rest is instinct. Elegance is about the way you cross your legs, not the label or the newest clothes from the latest collection.

SPIEGEL: Now you're undermining all the sales arguments your own industry makes.

Roitfeld: It's often the case that what a women reads makes her more attractive and more elegant than what she wears.

SPIEGEL: Do French women read more than German women?

Roitfeld: From a very early age, French women learn not to exaggerate. Yves Saint Laurent once said that the purpose of clothes is to make women more beautiful but that a coat must never attract more attention than the woman wearing it.

SPIEGEL: In France, you have a reputation for being the woman who invented "porn chic." Your photos were criticized because they showed young Lolita-type girls, pregnant women smoking and smooching seniors.

Roitfeld: Yes, of course. Fashion has to be given free rein and only a small number of restrictions. I never used any photos that my children shouldn't see; that was my benchmark. The little girls wearing makeup were never naked; it said "No Smoking" under the pregnant woman; and why shouldn't old people kiss? You must be allowed to play. Anything else is terribly boring. I've also painted white models black and later red, which (the French anti-racist NGO) SOS Racisme complained about.

SPIEGEL: Did you find that silly?

Roitfeld: It's absurd to accuse me of being racist. I dedicated an entire issue of Vogue to the black model Liya Kebede. I'm always looking for connections to real life. I once had a series of photos about fur; but, in these politically correct times, you can't even go out on the street in New York or London without getting a pie thrown in your face. The photos showed extras holding up posters of animal rights activists. It was meant to be ironic, but unfortunately not everyone got it. Why can't we wear the animals we also eat, such as sheep and rabbits?

SPIEGEL: You're 56 years old. How difficult is it for a woman to age in the fashion industry?

Roitfeld: Well, during photo shoots, you come across these beautiful 16- or 18-year-old women who have perfect bodies and not a single wrinkle -- but their pictures are retouched. Under these conditions, when you look in the mirror, you have to be happy with yourself, remain young at heart and keep that rock 'n' roll attitude. Otherwise, you won't be able to deal with it.

SPIEGEL: What will you do with your new life?

Roitfeld: I have numerous projects in the works: a book with Karl Lagerfeld, another about my own work, an ad campaign for Chanel and some consulting work for Barneys, the designer fashion store in New York. Who knows? Perhaps I'll become a muse for designers again.

SPIEGEL: So you won't take the place of your former colleague Anna Wintour at the head of the American edition of Vogue?

Roitfeld: That was never seriously under discussion. I like to provoke. I'm very French. In America, they're not even allowed to show a hint of nipple in photos. Anna Wintour is the most powerful woman in the global fashion industry, the first lady of fashion. She's a politician; I'm a stylist. They are two very different jobs. Incidentally, despite all the rumors, she is actually very nice.

SPIEGEL: Do you have any fashion principles?

Roitfeld: I don't change my handbag every season. I believe in the Yves Saint Laurent woman who either has her hands in the pockets of her pantsuit or is holding her lover's hand. She doesn't need a bag.

SPIEGEL: You also always wear high heels.

Roitfeld: Yes, they give you power. You move differently, sit differently and even speak differently.

SPIEGEL: So you never wear flat-soled shoes? Not even when going for a walk?

Roitfeld: I don't go for a walk very often. I wear flat-soled shoes on vacation, but I also travel in high heels, which is why I'm regularly stopped by customs officials at the airport. Wearing high heels in an airplane is suspicious. Nobody else does that.

SPIEGEL: Do you have any fashion tips for us?

Roitfeld: If you don't want to make any mistakes, buy black clothes. That's always good. And from age 50 on, you can slowly start adding a little beige. That's softer. Every five years, you should take a critical look at your own wardrobe and, if necessary, eventually swap your bikini for a one-piece swimsuit.

SPIEGEL: And, if necessary, eventually stop going swimming altogether?

Roitfeld: There comes a time in your life when you even have to consider that. You should always be one of the best, whatever your age group. That may mean staying away from the beach.

SPIEGEL: Ms. Roitfeld, we thank you for this interview.

Interview conducted by Claudia Voigt and Britta Sandberg

Fonte: Spiegel Online International > Zeitgeist

quarta-feira, 6 de abril de 2011

It closet


Em idos de 2001, quando eu era apenas um pequeno rapaz campo-grandense (Campo Grande being subúrbio Far-Far-Far Away do Rio, não a capital sul-mato-grossense) do subúrbio do Rio de Janeiro, estudando de um tradicional colégio federal do Rio de Janeiro (meu uniforme era tão 'Baby one more time' feelings :D), provavelmente muito empolgado por estar no meu primeiro relacionamento sério com uma 'pessoa' (adoro quando aquelas caras obviamente gays vão dar entrevistas para Fantástico/Globo Repórter e ficam falando “Mas por que eu gosto de uma 'pessoa'...), provavelmente por estar cansado e triste de repetidamente estar dando balão na minha mãe (“Mas mãe, o pessoal do alemão resolveu marcar um grupo de estudos justamente para sexta-feira às 21h, acredita?!”), provavelmente louco de achar que minha mãe aceitaria 'a verdade' tão facilmente assim, eu resolvi fazer o meu coming-out. Isso mesmo: 16 anos de idade. Enquanto (nessa idade) muitos dos meus amigos gays ainda levavam fé nos seus amassos de matinê com menininhas na Prelude/El Turff, eu já tinha sacado o que eu realmente curtia, já tinha contado tu-di-nho para mamãe (e sofrendo como um condenado por isso – ainda conto a história completa desse acontecimento) e era um leitor costumaz das matérias estilo “10 dicas de como fazer seu homem enlouquecer na cama” das Nova Cosmopolitan e Marie Claire da vida. :D

Talvez por ter feito o coming out tão cedo, talvez por ter pago tão caro e ter que lidar com a frustração potência dois mil de uma mãe paranoica e obsessiva que não media esforços para tentar me colocar no 'caminho certo' (e que provavelmente deveria oferecer treinamento para a CIA e Mossad sobre técnicas de coerção e investigação estilo “O-que-eu-fiz-quando-falei-que-fui-para-tal-lugar”), talvez por ter passado boa parte da adolescência tendo que lidar com o fato de que a minha mãe jamais iria aprovar qualquer coisa de bom que eu fizesse (porque sempre existia a sombra de 'uma certa verdade' que fazia ela dizer que gostaria que eu fosse qualquer um dos rapazes da meu bairro, mas não eu), eu tive que compensar na valorização do fato de que foi bom eu ter sido sincero e ter contado a verdade. Nos piores momentos, onde tudo parecia incrivelmente difícil e eu começava a me culpar por ter sido tão idiota de acreditar que tinha valido a pena ter sido tão sincero tão cedo, eu jogava uma água fria na cara e repetia para mim mesmo que o preço de ter sido verdadeiro era imensurável. Eu não precisaria lidar com essa verdade mais tarde, e logo, quando eu fosse uma pessoa independente e autossuficiente em termos financeiros, minha mãe acabaria entendendo e me aceitando. (P.S.- Ai, esse parágrafo ficou uma coisa tão "Can't take that away"... Foi malz, hein...)

Sendo assim, eu confesso que tenho certo bloqueio de entender porque as outras pessoas não fizeram o mesmo. Entender porque pessoas, já autosuficientes, esclarecidas, seguras do que realmente são, não conseguem se assumir e falar “Eu gosto de moda, eu não uso bermuda cargo, eu sou viado”. Ok: eu entendo que cada um é um universo particular de condições, realidades e histórias, blablabla... Mas confesso que a história de alguns amigos desafia a minha compreensão e exigem certa dose de “sorriso amarelo”+“claro que eu te entendo!”, como a história de dois amigos que eu conto aqui abaixo.

O primeiro é um grande e queridíssimo amigo (que espero que não seja leitor do blog! :D). Advogado, bonito, um dos únicos homens cariocas realmente bem vestidos que eu conheço. Mora atualmente no Leblon, foi criado dentro da Jeunesse Dorée de Niteroí (para quem não é do Rio: Niteroí é um cruzamento de New Jersey com Hamptons, cidade da região metropolitana do Rio poder aquisitivo médio mais alto do que a média da cidade do Rio, mas que por um motivo obscuro... tem uma vida noturna e cultural próxima do zero, o que obriga a maioria da sua galera jovem a ter que partir para o Rio em busca de entretenimento nos finais de semana), atualmente completamente independente em termos financeiros dos pais. Enfim: he is got the looks, the brain, the personality. E apesar de “descoberta tardia”, já tem constando no seu currículo alguns bons relacionamentos de médio prazo, histórias realmente sérias (do tipo namorado fixo, que vai a cinema no final de semana, viaja para destininhos românticos em feriadões, etc&tal). Garotas? Segundo as contas dele, a última ficou para uma noite meio embaçada pela vodca no final de 2009, provavelmente em alguma night “Hetero moderninha”, provavelmente com alguma 'Fag Hag' mais atiradinha e entendiada pela viadice dominada pelo lugar. Mas, mesmo assim... a pessoa ainda se define como... “bi”. E simplesmente não consegue vislumbrar a menor possibilidade de, no médio prazo, se assumir realmente como é para família e amigos, e fica naquele estilo de vida estranho de ser uma coisa no Rio, outra coisa completamente diferente em Niteroí.

Desafio maior à compreensão é o segundo caso. O cara é aquele clássico tipão de intercambista que veio da Alemanha para o Rio de Janeiro, ficou deslumbrado pela beleza da cidade, simpatia das pessoas (oi?!) e abertura em termos sexuais e sociais do carioca médio (hein?!) e criou uma relação especial com a cidade (e para quem eu, escutando ele listar todas as 3053 razões pelas quais ele acha que o Rio é muito melhor do que Berlim, somente sorrio pensando “Deixa ele morar aqui 1 ano para ver como ela vai amar tudo isso” e olho para o meu amigo inglês que está pensando a mesma coisa do que eu). Devido ao seu tipão “Sou-loiro-sou-alto-sou-fortinho-Sou-o-que-Hitler-sonhou-pro-mundo” provavelmente passou o rodo em um número considerável de meninas cariocas (que levam a merecida fama das brasileiras mais jogo-duro, mais “não vou dar assim fácil não!” entre os heteros - mas que abrem as pernas para os gringos, afinal... receber bem o turista é uma obrigação de cada carioca, néam? :D) até o inesperado acontecer: ele topar com um menino brasileiro e ploft!: rolar uma atração inexplicável (o “ploft!” fica à cargo da imaginação fértil de vocês). Curto demais o garoto (mas preciso mesmo bancar o Fernando “bonzinho, coelhinho-na-floresta, amo-o-mundo-só-vejo-o-lado-positivo-das-coisas?” com vocês? Não, néam...), mas preciso confessar que sinto demais aquela coisa de “Clássico caso de 'Porque alemães amam brasileiros'”: do alto dos seus 19 aninhos, morenão com corpão, inteligência definitivamente não é o forte (o que me faz suspeitar de... enormes qualidades não aparentes do ambiente de um restaurante ou sala de estar... :D), recém-saído do armário e com aquela idealização do mundo dos relacionamentos tão típica de quem acabou de sair dos 'teen years', tão típica de quem ainda assiste Bridget Jones e outros clássicos ingleses de comédia romântica e super acredita que dá para transportar isso para fora das telas e viverá uma história igualzinha no mundo gay contemporâneo. Os dois juntos chegam a ser uma coisa “Felícia-in-love”, uma coisa “Labrador-pulando-em-cima-do-dono” de tão Te-amo-te-quero-quero-ficar-todo-o-tempinho juntinho-e-coladinho-em-cima-de-você. Eu fico meio mal perto do garoto, porque sinceramente enxergo nele o inocente-romântico-e-cheio-de-ideais Fernando de alguns anos atrás (mentira: eu sempre fui consideravelmente cínico e cético – esses dias encontrei um dos meus antigos diários de adolescência e fiquei cho-ca-do como eu já era mau: eu metia pau nos meus amiguinhos de classe que me zoavam, nos professores, nos meus familiares e até em alguns dos meus amiguinhos menos próximos! Gente, por que eu sempre fui assim? #Criseinternafeelings) e tenho que me controlar ao máximo para não deixar o meu instinto “WAKE UP, SWEETHEART!” vir à tona e chocar o garoto com o fato de que os filmes para adolescentes da Disney e Malhação não  te preparam para o mundo dos relacionamentos gays no Rio de Janeiro contemporâneo (o máximo do meu autocontrole foi quando estávamos num get together, e ele disse para gente que curtia estar em relacionamentos porque relacionamentos são “um tipo especial de conexão com outra pessoa, essa coisa meio 'um fazendo a barba do outro, juntos de manhã depois de uma noite de amor dormindo juntinhos” - eu respirei fundo, segurei a minha cara de “WTF?” da melhor forma que pude, virei a taça de vinho na minha mão goela abaixo e fui acender um cigarro). Enfim, voltando ao caso inicial: o alemão parece ter se apaixonado de verdade pelo cara, os dois decidiram enfrentar um relacionamento a distância monogâmico, o alemão pega a Lufthansa de volta para o Brasil na primeira oportunidade que encontra pela frente, quando os dois juntos é aquela coisa linda, aquela coisa “Born to make you happy”, etc&tal. Por que diabos estou contando essa história? Por que somente esses dias, quando proferi um discurso “Por que nós, gays...” na frente do Deutscher, eu fui saber ficar com caras é uma coisa meio tipo “Ao Sul do Equador não existe pecado” por parte do alemão: o cara é gay no Brasil e hetero na Alemanha. (!!!) Hein?

A minha capacidade rápida de pré-julgar as pessoas definiria esses dois casos como falta de coragem e culhões. A minha proximidade com eles me faz passar a mão na cabeça, e apesar das minhas pontuais tentativas de tentar mostrar que o mundo “Somewhere Over the Rainbow” tem uma riqueza e uma paz de espírito incomparáveis com o mundo dentro do armário, de tentar compreender os motivos e razões de caras tão... prontos para saírem do armário não o conseguirem fazer.

Mas enfim... o que fazer, néam?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Considerando o calor senegalês que tem feito no Rio...

Vocês dão um desconto se eu confessar que ainda estou sentido uma puta falta de Hamburgo?

Inacreditável pensar que logo vai fazer um ano eu voltei (e dois de que eu fui) e ainda toda vez em que eu vejo uma foto dessa... eu me lembro exatamente da excitação da minha chegada na Alemanha. Da aventura que era ir para a rua. De escutar alemão, de ter diálogos em alemão. De pensar "Caralho, estou no Norte da Europa!". De ficar feliz como uma criança idiota toda vez que via neve (e não, morar num país que tem um inverno real não me fez ficar de saco cheio de neve.).

E bate a saudade de vestir aqueles casacões antes de sair de casa, se sentir aquele gelado gostoso no rosto quando se abria a porta da rua, de pensar que tudo aquilo era tão surrealmente diferente do Rio.

(Ok, hora do estudo, só queria compartilhar a foto de um amigo com vocês. :D)

domingo, 10 de outubro de 2010

Sobre o Brazilian Style

Se “Brasil” fosse uma marca comercial, facilmente seria uma das mais valiosas do mercado atual. Por quê? Vamos fazer um exercício mental: você é uma criatura loira, branca (e com grande probabilidade de ser gordinha - vocês não entendem o dilema que é ir no mercado decidido a comprar maçãs e outras frutinhas sem graça e super faturadas e semelhantes, olhar para a gôndola das maças por €5,00/quilo e olhar para a gôndola dos sorvetes maravilhosos por €1,30... também o quilo, pensar "Tá frio pra caralho mesmo, tô cheio de roupa, ninguém vai notar se eu estiver um pouco mais gordinho.", e mandar pra dentro do carrinho os sorvetes), mora num país onde o início da primavera já significa temperaturas caindo abaixo dos 15°C e quer se matar quando lembra que verão mesmo só dali a 6 meses. Then você abre uma revista, olha para a foto acima e lê sobre o estilo de vida de um povo feliz-bronzeado-sarado-e-botocado (sim, Angela Bismarchi é super conhecida ao redor do mundo, e deve já ter dado entrevista até para a Nepal TV falando sobre a sua cirurgia de reconstituição do hímen) que flana por praias paradisíacas e praticamente sem fim, partying all the time e com o plus de terem a fama de serem ótimos na cama. E esse povo vive num país onde as oportunidades parecem multiplicar a cada momento (em enorme contraste com onde você mora, onde os anos dourados já se foram há muito tempo e "decadência" é a palavra mais usada para descrever a sua sociedade), com uma economia entre as que mais crescem no mundo, mas que ao mesmo tempo mantém um certo grau de civilização (relembrando: pode ser mesmo considerado democrático entre Rússia, Índia e China, hein? Thanks god que pelo menos Tiririca pode ser eleito!).

Impossível conter a euforia e a expectativa, não é? ;)

A questão que me preocupa é até onde nós, brasileiros, acreditamos e entramos nessa imagem que o Brasil anda projetando para o mundo.

O diretor da revista Monocle e colunista do FT, Tyler Brûlé (#1: Sim, o nome é escrito dessa maneira bicha; #2: Sim, ele é bee e é um Pokemón mistura de estoniano e franco-canadense; #3: Morry quando li na Wikipedia que parece que ele “inventou” esses acentos no sobrenome dele), considerado um dos maiores trendhunters (aka. gente que tem como rotina de trabalho viajar de um lado para o outro do mundo comendo, bebendo, vestindo o que ha de bom e de melhor para depois nos dizer o que nós deveriamos consumir) da imprensa internacional atual dedicou toda sua coluna no jornal inglês da semana passada a questão de como “Brazil is good to go”. A primeira vista? Fantástico! Elogios sempre são tão bem vindos e impossível não se sentir um pouco "Ai, pára, vai... Continua elogiando!" quando uma pessoa de fora cita tanta coisa boa sobre o Brasil.

Mas num segundo momento, depois topar acidentalmente com o post da Alexandra Forbes no blog “Boa Vida”, comecei a repensar o artigo. “Sou totalmente da torcida ao favor e fico super feliz quando leio elogios ao Brasil, mas desta vez fiquei meio incomodada... Sei lá, ando enjoada de ler mil e uma matérias estrangeiras puxando o saco da mesma gente, enchendo a bola dos mesmos lugares.” Red Alert: se um blog de estilo de vida já reage "Fasano? Trancoso? Atala? Ainda isso?", hora de o (futuro) economista-chato de plantão sair da bolha dourada e colocar a cabeça para pensar.

Muito se fala sobre o choque de se voltar de um país desenvolvido para o Brasil, mas poucas vezes eu li sobre aquilo que se sente ao se chegar lá fora. Como brasileiro, eu posso falar sem sombra de dúvida que o meu maior choque ao chegar em Hamburgo foi aprender a viver numa sociedade classe media. Ao mesmo tempo entender que muito estava agora ali, ao meu alcance financeiro, mas que ao mesmo tempo toda a gama de serviços e facilidades e privilégios que estamos mega acostumados não existe mais. (Meu melhor amigo alemão sempre se impressionava no Brasil com a quantidade enorme de caixas e atendentes em qualquer lojinha e restaurante, com pessoas empacotando suas compras e recolhendo suas bandejas nas praças de alimentação de shoppings, com os inúmeros serviços de delivery - isso inexiste na Alemanha) Adaptar-se a uma cultura "Trabalho humano é importante e caro demais para ser desperdiçado em tarefas tão imbecis / So do it yourself!", ter que pensar numa solução além da "Dá pra contratar alguém para fazer isso?" (juro, que por mais consciente socialmente, mais proto-intelectual economista da UFRJ que eu fosse, eu soltei uma cara de "WHAT?!" a la Marie-Antoinette-sendo-conduzida-para-a-prisão-pré-guilhotina quando a administradora da residência estudantil me deu um balde de tinta branca, pincéis e falou "Você tem dois dias para pintar todo o seu quarto.". Portanto, quatro dias antes de Fernando estar dando pinta no ICE/TGV a caminho da Paris, estava eu numa loja de produtos químicos em Hamburgo tentando transmutar a palavra "aguarrás" para o alemão e com uma mancha de tinta branca nos meus cabelos cacheados que não saía de jeito nenhum.), entender que não adianta se você tem grana para pagar duas, três ou vinte vezes o preço da entrada do clube: você vai ter que esperar na fila e passar pelo door control (que vai avaliar como você se vestiu e não quantos monogramas você expõe - escutar uma hostess falando para a minha amiga em sueco que não aguentava mais negar a entrada de turistas americanos que "achavam que camiseta Christian Audigier, jeans D&G e tênis Nike eram roupas adequadas para uma boate" enquanto nos deixava entrar - eu vestido de C&A brasileira + brechó Hamburgo + sapato, esse sim muito bom - me ensinou que sempre vale a pena tentar se vestir bem) pode ser bem mais difícil do que se parece.

Mas, um dos efeitos de se viver numa sociedade tão classe média (principalmente na Alemanha, onde o esporte nacional favorito - depois de falar mal dos holandeses - é criticar) é voltar chato, extremamente chato. Reclamando da comida, dos preços, das roupas, dos estilos oferecidos. De absolutamente tudo. A famosa síndrome (que o Alex Bez - que aliás, sumiu dos comentários - me alertou) da bicha "Fui-pra-Europa-e-voltei-chata-pra-caralho. 

Em minha defesa: criticar é fácil, o difícil é tentar entender. E como eu adoro escrever muito, esse blog nunca foi muito preocupado com a quantidade de linhas de um post e esse assunto me incomoda, vamos analisar a questão. 

Quando eu trabalhava na Alemanha com trendforecasting uma das questões mais discutidas no escritório (e que as grandes empresas mais buscavam saber) era a formação dos novos padrões de consumo das chamadas nações emergentes. Explicando: os padrões de consumo de uma nação (principalmente ligados aos serviços denominados de "premium") são relacionados com a maturidade da classe média que esse país conseguiu formar. Em linhas gerais, os mercados europeus são considerados "alta maturidade", onde não somente o produto, mas todos os seus "efeitos" são de relevância para o consumidor no processo de decisão de compra (questões relacionadas desde ao consumo verde, consumo consciente até a questão de como esses produtos são produzidos - Nike e a marca alemã Sprit sofreram sérios danos de imagem quando foi divulgado pela imprensa que seus produtos eram produzidos sob condições consideradas desumanas em países de terceiro mundo) e os mercados norte-americanos/japoneses de "média maturidade" (onde, por razões culturais, existe uma grande pressão cultural pelo consumo, um grande "fetiche" pelo produto em si muito mais do que a preocupação com a qualidade e como ele é produzidos - mas onde também as questões relacionadas a um consumo consciente já estão inseridas e ganhando espaço). 

E os países emergentes? Países emergentes são basicamente países com classe média em formação, que saíram de um estado inicial de relativa desigualdade social (no caso brasileiro, relativa é um eufemismo dos mais extremos) e que atualmente vivenciam um período de "ascensão social". E que se reflete nos padrões de consumo: a tentativa ainda é de copiar os padrões de consumo dos países desenvolvidos, com grande fetiche pelo produto em si, e sem nenhuma grande reflexão sobre ele - o que é importa é o status que ele irá me trazer ("Estou usando um esmalte Chanel / Estou vestindo uma calça Diesel - sou parte de uma elite"), muito mais do que questões relacionadas ao custo e qualidade dessa mercadoria ofertada.

Retornando ao que eu quero falar: quando se muda de sociedade por uma quantidade considerável de tempo, impossível não "pegar" certas características da sociedade nova e internaliza-las. Sendo uma dessas características o "padrão de consumo", sair de uma sociedade onde o consumidor enxerga o produto ofertado de forma absurdamente crítica (uma das maiores influências na hora da compra para os alemães são as revistas especializadas em comparar produtos e classificá-los por desempenho, qualidade, necessidade e preço - nenhum alemão sai para uma compra maior do que 100€ sem ler pelo menos um artigo na internet de uma dessas revistas sobre o produto que quer e todos os vendedores sempre sabem exatamente listar todas as características do produto que estão vendendo) e voltar para uma sociedade onde o produto é enxergado pelo consumidor como uma chave para aceitação e felicidade dentro de um exclusivo e seleto grupo de escolhidos é no mínimo enlouquecedor, para não dizer frustrante.

E sinceramente, isso me incomoda. A falta de questionamento com o que se consume aqui no Brasil é absurda, principalmente no que diz respeito ao preço. Formação de preços é um tema mega complexo, envolve uma série de outras questões (como, por exemplo, a questão dos impostos), mas o meu objetivo aqui é questionar o ponto de como aceitamos serviços ruins por preços altos. De desde uma Zara (que encaminha o que o Primeiro Mundo não quis consumir - produtos essencialmente de baixíssima qualidade - cobrando preços exorbitantes para ser vendido numa loja onde os vendedores ignoram você e se sentem como parte da elite do "consumer retail" só porque trabalham vestidos de ternos fabricados na Tunísia) até restaurantes (que no Rio de Janeiro, sinceramente, são uma calamidade: uma viagem até SP deixa claro como o atendimento no Rio é nada menos que péssimo, pratos ruins e caros - tudo isso pago com o ar cool tipicamente carioca de quem considera mal educado reclamar de que o serviço foi ruim e decide não pagar os 10%). Consumo, claro, parcelado em 10x no cartão, com taxas igualmente absurdas, mas que no final das contas damos um jeito de pagar e tudo continua exatamente do jeito que está.

Enfim, a leitura do artigo do Tyler Brûlé me faz pensar em que tipo de brasileiros ciceronearam esse cara por aqui, e que tipo de brasileiro ciceronearam vários europeus que eu encontrava pelas capitais européias e que vinham com esse discurso "Brazil is just wonderful / Ipanema is simply THE paradise!", permeados por The Weeks, Reservas, Osklens e Spots da vida. De como realmente, cada vez mais, nos aproximamos daquela imagem do empresário chinês/russo com sua mulher a tiracolo que entra na Louis Vuitton em Paris e pede para descer a bolsa com o monograma mais exposto, mais berrante possível. E como, cada vez mais, eu vejo pessoas ao meu redor pagando preços absurdos e olhando para a minha cara, quando eu reclamo do preço desses produtos, com um certo olhar de "Ou ele é muito judeu, ou isso é síndrome de quem não pode pagar e fica reclamando".

Temos muito mais de Vera Loyola, de nouveau riche do que queremos imaginar. E sinceramente, não quero me conformar com um Brasil onde os serviços, restaurantes e lojas são absolutamente maravilhosos pagando três vezes do que eles custam realmente.

Enfim, tudo se resume a questão de se queremos continuar acreditando que vivemos no lugar mais cool do mundo (e continuar tendo que parcelar absolutamente tudo no cartão, continuar tendo que ir para o exterior para "comer num lugar decente" ou "comprar roupas por preços decentes") ou realmente colocar um pouco dos pés no chão, criar um pouco mais de consciência crítica e quem sabe começar a demandar um pouco mais daquilo que nós é oferecido. (Exemplos? Os infames 10% cobrados por restaurantes e casas noturnas. Gratificação extra é a remuneração por um serviço muito bom - porque o básico necessário, sorry to say, é mais do que a obrigação. Não se sentiu tocado pelo serviço e simpatia do garçom, o prato demorou, o pedido veio errado? Sem 10%, sorriso na cara, obrigado - porque ser educado é fundamental - e ponto final.)

(Enfim, é isso. Opiniões dos leitores, por favor.)

P.S.- Fundamental para a execução desse post também foi a leitura do excelente blog "De Chanel na Laje", principalmente dos posts 1, 2 e 3. Super recomendo.

sábado, 9 de outubro de 2010

A Europa vista a partir da....

Nessa era de paz mundial, todos os países se amando, "Eu amo o mundo, eu sou um cidadão global!" o discurso oficial (válido em todos os países do mundo, menos na França, onde eles abertamente pensam que o resto do mundo se encontra num patamar inferior ao deles - e os que estão economicamente acima se vestem e comem mal, portanto são irrelevantes) é de paz e amor global, de que as nações se amam, blablabla.

Mas nada como um pouquinho de álcool e criatividade para o nacionalismo emergir realmente e apimentar as coisas, néam? :)

O estúdio londrino de design gráfico Alfagraphic fez um mapa estilizado da União Européia para o jornal alemão Süddeutsche Zeitung em Junho de 2009, em meio a crise energética do continente, negociações tensas sobre o gás com os russos e tudo mais. O mapa original (o primeiro dessa série) ficou tão bom, mas tão bom que o pessoal do escritório resolveu fazer uma série mais extensa, com a visão do continente sob a perspectiva de alguns países europeus. O resultado? Confiram aí abaixo:

A União Européia vista pelos próprios europeus
(Destaque para Mar Báltico = Meh Sea, Golfo de Bótnia = Gulf of Abba)

A Europa vista pelos americanos

A Europa vista pelos britânicos

A Europa vista pelos franceses
(Destaque para: Bélgica = Semi-France, Suíça = Semi-France, Hungria = Sarko's Land)

A Europa vista pelos alemães
(Destaque para: Ilhas Baleares = Balearic Germany + Ajudinha para os não familiarizados com o deutsch: Sparkasse = Caixa de Poupança, Proletariat = Proletariado, Schokolade = Chocolate, Schinitzelreich = Reino do Porco empanado, prato típico austríaco que na Alemanha eles acham que veio de Viena e nós de Milão, Eiffelreich = Reino de Eiffel, Schnaps = Álcool extraído de batata e semelhantes).

A Europa vista pelos italianos
(Destaque para: Croácia = Dalmatia, Bulgária = Babysitters, Romênia = Thieves)

A Itália vista pelos italianos
Acabou? Claro que não! No site da para ver as interessantes "A Europa vista..." pelos russos, búlgaros e poloneses. Aliás, ainda tem duas que acho que vale super a pena mostrar. Quais?

A Europa vista pelos gays
(Destaque para: Barcelona = Dancelona, Paris = Mall, Londres = XXL, Berlin = Pobre mas sexy)

E... a América do Sul vista pelos americanos(!)
P.S.- Se alguém der uma gargalhada nível 5 ao ver isso, diz aí, porque é ou não é hilário?! (Ou realmente eu sou tão nerd assim?) :D

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Enquanto isso, em Hamburgo...

"Do Começo ao Fim" representando o Brasil no Foco Internacional (olha a moral!) do Festival de Cinema Gay e Lésbico 2010 que sempre antecede a CSD de Hamburgo. ;)

MERDA. Qualquer mostra de cinema na Alemanha sempre tem um debate no final onde o povo very academicamente discute o filme, as impressões, etc&tal. Perdi a melhor oportunidade EVER de levantar o meu dedinho numa dessas discussões, soltar em perfeito alemão um "Porque eu sou e moro no Rio de Janeiro..." e ter imediatamente 45 pares de olhinhos azuis virando para mim e brilhando ao perceber que eu sou minimamente pegável & tenho cabelos cacheados & tenho olhos castanhos & tenho uma pele com algum resquício de melanina. :)

Ah, meus tempos na Europa...*suspiros

P.S.- Fiz mal de descrever o filme para meus amigos alemães como "Telenovela meets Brokeback Mountain in The Fantastic World of Apple"?
P.S.2- Ah, falei que tinha nú frontal do morenão gostosão pra compensar.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Networking is everything

Lassen Sie mich Ihnen vorstellen (Tenham o prazer se serem apresentados), Herr FDP Germânico. Jawohl: ele, o responsável por metade dos posts "estou-deprimido-quero-voltar-para-casa" in Deutschland do início desse blog. O primeiro cara pelo qual eu realmente posso falar "estive apaixonado". E que claro, no melhor estilo "o destino te ferra", me aprontou uma das maiores decepções que eu já vivi na minha vida. Exatamente no momento mais difícil e complicado da minha estadia na Alemanha. :/

O título do post? Foto tirada por um amigo que por acaso esbarrou por ele no metrô de Hamburgo.

E os pensamentos? Na boa?

De que Hamburgo, assim tudo o que eu vivi naquela cidade, parecem pertencer a uma outra encarnação. De que eu quase posso escutar o alerta sonoro de "Zurückbleiben, Bitte" do metrô de Hamburgo, e o calor infernal que faz lá dentro quando chega o verão e a temperatura sobe acima dos 23ºC. De que eu consigo saber em que linha eles estavam só olhando para os bancos e design do trem do metrô que eles estão.

E de que é incompreensível como pessoas que foram tão importantes, com as quais você viveu momentos tão importantes e que você vai levar fácil para o resto da sua vida... se tornaram completos desconhecidos. Por uma mera incapacidade... de saber terminar as coisas.

Como isso acontece, néam? Alguém com quem você é tão feliz, tão realizado em um momento... e no outro "That's it, it's over", cada um pro seu lado e acabou. Nada.

Mas enfim... tem horas que olhar para o passado ajuda a entender e valorizar ainda mais o presente. Principalmente quando o presente é alguém que chega daqui a cinco dias da França, e cruzou o Atlântico somente pela vontade de te ver.

E você percebe que enquanto perde algumas coisas, você (quase sempre) acaba ganhando muitas outras.

(E claro, elogios aos Herr FDP Germânico estão terminantemente proibidos - sob pena de deportação e encarceramento dentro um ônibus "Brasileiros pelo mundo" da CVC em viagem pelo Meio-Oeste americano e eu iniciar a escrever postagens nesse blog no dialeto "Miguxo"/"Tiamuuuuamiguuuu!". Assim como elogios "You're so much better, Fer!" serão bem-vindos, claro :D)

P.S.- "I just feel like being in your arms. Quiet. Hope you will get this message, petit Je t'aime. Beijos, Ton S" . #1 8 meses de mensagens, atitudes e comportamento flawless. #2 Francês é TÃO mais romântico. heeheh :D

quarta-feira, 28 de julho de 2010

De volta ao batente


Depois de quase 6 meses de buscas, currículos enviados, entrevistas, provas de inglês ("Please, choose the correct alternative: a) Am I an idiot? b) Are you an idiot? c) Are we all idiots? d) Even my American friends would fail in this fucking test e) What am I doing here?"), provas de lógica ("Marque a opção incorreta nas alternativas abaixo: a) Toda empresa explora estagiário b) Nem toda empresa explora estagiário c) Toda empresa que não explora estagiário paga mal pra caralho d) Estagiários ficam deprimidos quando assistem ao Profissão Repórter e descobrem que michês ganham num programa quase o seu futuro salário mensal, e nem precisam de graduação em faculdade de linha e experiência internacional para isso") e finalmente... o que aparece de concreto é uma vaga de temporário num projeto de escritório de consultoria. Great: foi pensando nisso que eu fiz intercâmbio, experiência de estágio no exterior, etc&tal. Enfim, projeto é até interessante, o contrato atual um teste de desempenho, o salário revoltante de tão baixo que é (sério, eu suspeito que as faxineiras do escritório ganham mais do que eu, e por muito pouco eu não estou pagando para trabalhar. Em horário integral nas férias, bien sûr!), mas como qualquer coisa é melhor do que ficar em casa assistindo 'Cabocla' enquanto me entupo de Doritos, aceitei o desafio. Afinal, "Arbeit macht Frei"* define perfeitamente o que é trabalhar, não é?

Claro, a oportunidade atual não é a única em vista: não posso deixar de lembrar a empresa de Rh que simplesmente perdeu o meu currículo na hora de me encaminhar para uma entrevista numa empresa (claro que quando eu liguei, a vaga já tinha sido ocupada), a multinacional na qual eu estou no meio daquele processo interminável de entrevistas e dinâmicas (todas sempre com variações da clássica "Vocês são um time de astronautas indo à uma missão em Marte / Escolham que porra vocês levariam e o que vocês deixariam", todas você sempre caindo no grupo que tem um imbecil prepotente que não deixa ninguém falar e quer comandar tudo e você sempre no dilema "Faço o babaca se por no seu lugar e mostro liderança, ou faço a phyna educada e mostro diplomacia?"), a outra multinacional que simplesmente responde que ficou extremamente interessada no meu currículo, mas que eu sou overqualified para a vaga em questão e que preferem guardar o meu currículo para uma vaga para um cargo mais elevado - que eles não fazem idéia de quando irá aparecere (#1: tipow... fico feliz ou fico triste? #2 Já faço uma Macumba Online para afastar os maus olhados do meu currículo nos setores que RH de empresas brasileiras que fazem com que ele simplesmente suma das mesas?). Ah, e amanhã ainda tem uma entrevista. As 8h da manhã (e a porra meu Eau Thermale - que normalmente me salvaria do visual Panda meets Ressaca em eventos que comecem antes das 10h - acabou de acabar, olha que legal!). Na Barra (cariocas entenderam o drama, não-cariocas que não conhecem o Rio: Barra é o equivalente daquele lugar muito longe que seguramente existe na sua cidade, no qual um dia uma construtora inventou que era "Premium" morar, membros da classe média compraram a idéia e foram realizar sonho da mansão-cafona-com-coluna-grega própria ou de morar num condomínio de troncentos e noventa e dois apartamentos pretensamente "de alto nível" porque conta com duas piscinas, algumas palmeiras e uma churrasqueira coletiva apelidada de "Espaço Gourmet" e onde o urbanista filho-da-puta que assinou o plano diretor para a região se esqueceu de que ruas precisam de conceitos básicos como "calçada" ou "sinal de trânsito" para serem minimamente utilizáveis).

De qualquer forma, o interessante hoje foi relembrar que... a última vez em que eu efetivamente trabalhei foi em Hamburgo, em alemão (ou seja: mesmo com o salário rídiculo, pelo menos eu trabalho em português agora. Ou acham que foi fácil chegar no seu primeiro dia de trabalho numa reunião onde você teria que teoricamente escrever uma ata e depois de duas horas ter que confessar para o seu chefe que você não entendeu absolutamente NADA do que foi dito porque nas fitas cassete do Goethe Institut as pessoas falavam bem mais pausadamente?). E perceber as pequenas-grandes diferenças do estilo de trabalho dos países, e como de alguma forma eu ainda fiquei programado no estilo de trabalho alemão. Exemplo? Por que as pessoas se beijam ao se cumprimentarem num ambiente de trabalho? (Juro que eu não consegui conter o sentimento de invasão-do-meu-espaço quando a minha chefe foi me apresentar para as pessoas do time, e as mulheres vieram me beijar!) Por que os chefes não falam que precisam de tal coisa no início da tarefa, mas somente no final - quando você vai ter que refazer tudo? Como as pessoas não sabem onde encontrar cada simples coisinha dentro de escritório? Como não existe um guia de 3 mil páginas para apresentar a empresa para os novos contratados, explicando chata e minuciosamente todos os detalhes inúteis da empresa? E o mais chocante: por que as pessoas ficam surpresas quando marcam uma reunião às 15h... e eu chego às 15h?!

Enfim, eu sei: processo natural de readaptação à minha cultura. Vai ser assim, tudo de novo no dia em que eu trabalhar em outro país (que Deus-Pai-Todo-Poderoso me dê a graça de pular a etapa São Paulo, e me permita realizar o sonho da bicha de negócios internacional o mais cedo possível!), etc&tal. Mas difícil de não relembrar de tudo o que eu passei por terras germânicas quando a primeira tarefa do seu dia é fazer um briefing de uma empresa que você descobre ficar... duas estações de metrô de distância da sua antiga casa, 7 do seu antigo local de trabalho. ;)

* Para os não versados no idioma germânico, bem... essa não é uma frase para se repetir para um alemão ou judeu, e definitivamente uma frase que tem uma aplicação um pouco além do que você irá encontrar no Google Translator. Warum?  Melhor clicar aqui para entender.

P.S.- E pensar que eu perdi uma exposíção do Hopper em Hamburgo por simples saco de enfrentar fila no Bucerius Museum... :/

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Páginas da Vida... Ups, Facebook

F e T são dois grandes amigos alemães que eu fiz em Hamburgo. T foi o meu primeiro peguete em terras hamburguesas. Lembro como se fosse hoje: eu chegando para uma mega festa num antigo bunker da Segunda Guerra em Heiligengeistfeld, completamente bêbado (meu melhor amigo alemão tinha o péssimo hábito de imediatamente reabastecer todo e qualquer copo vazio na minha mão. Resultado: em qualquer festa, uma hora depois eu já estava completamente insano). Sabe quando você chega todo trabalhado na vibe Pussycat Dolls num lugar? Eu naquela noite. Olhei para um lado, olhei para o outro, encontrei a vítima: T, lindo, corpo perfeito, parado num lugar escutando a música (somente na Alemanha cara gato fica parado, sozinho em boate sem ninguém chegando). Já cheguei todo no charme Katia Flavia, todo no „Hallo, ich ser Fernando, aus Rio de Janeirrro, Brasilien“ (ja falei: a nossa nacionalidade é um asset em terras européias, que como qualquer asset tem que ser bem gerenciado. Pra que fazer a linha da „piranha-latina-um-pouco-acima-da-linha-da-prostituição“? TAO melhor fazer a linha do „latino-inteligente-E-que-fode-bem“. Resultados garantidos. :D). Resultado: uma hora e meia depois estava na cama daquilo tudo, fazendo aquelas coisas, com aquilo tudo olhando para minha cara com cara de “Nossa, que GATO” (e eu pensando “Quanta merda na Galeria Café eu tive que pegar para chegar a ISSO, hein...”). Saímos mais algumas vezes, eu me envolvi com outros (outros meaning metade de Hamburgo), ele se envolveu com outros, começamos a sair como amigos, rolavam umas recaídas mais esporádicas, e no final de tudo acabamos virando aquele tipo de amigo com quem se tem uma intimidade enorme e um carinho fraternal genuíno.

Já F foi o meu rebound guy depois do FDP germânico. (Rebound guy means aquele cara legal, inteligente, bonitinho, bom de cama com quem você sai logo depois de se fuder em algum grande relacionamento. Você fica com ele um, dois meses, trepa trepa trepa até chegar a conclusão de que você não sente nada mais especial pelo cara. Só que nessa altura o cara inevitavelmente vai completamente louco de amor por você, e você claro, vai ligar o cara perfeito por um outro FDP. Life sucks.) Inteligente, grandão, loirão, jogador de tênis compulsivo. Eu adorava ir pra casa dele: o cara preparava uns mega jantares super fodas (enquanto isso, na minha geladeira na residência estudantil: duas garrafas de vinho tinto macedônio vagabundo, mozzarella di bufala de €0,99 do Aldi, Nutella e água. E cozinhar não é um dos meus dotes. Escolha difícil, hein?), depois a gente ficava tomando vinho (não-macedônio), conversando (ou melhor, eu falava e ele escutava. Rebound guy não tem opinião, não tem vida. Ele vive os seus dilemas. E no final ainda te dá apoio), jogando Nintendo Wii (eu tenho um lado nerd SIM, TÁ?). E no final de tudo ainda tinha ainda a cama dele, GIGANTE, com um edredom fofíssimo. E claro, altas partidas de tênis (gente, tênis faz um BEM pra saúde!). Enfim, acabou que eu enjoei, tava confuso demais pela história do FDP germânico, não tava conseguindo me envolver na história (claro: o cara é legal, bonitinho, trepa bem e... a gente não se apaixona. Tem que ter uma merda no meio pra dar uma emoção na história), resolvi seguir em frente. Acabou que com o tempo acabamos virando amigos também, e ainda hoje a gente sempre se fala.

Enfim, F resolve ver que é esse tal de T no meu Facebook, T tem uma irritante capacidade de sair perfeito em TODAS as fotos (odeio muito gente assim), F fica fascinado por T e resolve adicionar T como amigo. F e T fazem comentários engraçadinhos no meu perfil , depois começam a comentar no perfil um do outro, até que resolvem “tomar um café juntos para se conhecer” (gente, mais Hamburgo que isso impossível). Aí que eu agora eu fico sabendo por um deles que eles se encontram, se adoraram, e agora simplesmente são BFF. E claro, que sempre falam do assunto preferido deles: EU. Vocês acreditam que até sobre os meus “golpes sexuais” (que nem golpes são: eu JURO que eu esqueci a chave do meu quarto nas noites em que eu sai com cada um deles!) os dois comentaram?!

Eu fiquei meio com vergonha. Ah, tá, eu sei, eu dormi com metade de Hamburgo mesmo (numa das minhas últimas nights por lá fui para um bar friendly com um amigo/ex-peguete. Chegando lá, surprise: aniversário de um outro ex-peguete! E um dos amigos dele também tinha sido um ex-peguete! E nessa noite acabei jogando charme com um outro cara que acabou se tornando o meu último peguete em terras hamburguesas! Juro, naquela noite eu constatei: ou eu saía de Hamburgo ou eu ia logo ficar sem gente nova pra pegar). Mas poxa, é demais pedir para ter uma vida piranhal privada? Hein?!

(Bem, eles ainda falam que me adoram, que estão morrendo de saudades e que eu faço uma falta danada da vida deles (adoro elogio assim. Tô carente, estressado e sem H&M). Eu também adoro eles. Legal ver que coisas legais sairam de Hamburgo. Eu sei, meloso. Eu tenho esse lado meio "episódio do Chaves de Acapulco").

P.S.- E o meu Facebook tá quase uma novela do Manoel Carlos: amigo do meu namorado francês me adiciona no Facebook. Abro o perfil e voilá: além de ser amigo do meu namorado, o cara é amigo de outro francês que eu cansei de pegar ainda em terras cariocas. #tenso Preparando o meu discurso "Sim, eu fui cortesã, mas hoje eu sou NOBRE, tá?".

terça-feira, 8 de junho de 2010

A Parada

Domingo passado (ou seja, ontem!) aconteceu a Megga, a Ultra, a superlativa Parada Gay de São Paulo. Se eu estive lá? Of course not: quebrado financeiramente, tomando créu velocité 5 na faculdade (todo dia quando chego naquela merda de campus e vejo o pessoal intelectualizado, todo trabalhado no tênis Vans e chapinha “From UK” de Jornalismo discutindo seriamente se Hori é melhor do que Restart no corredor da faculdade eu juro que dá ódio por ter marcado Economia naquela merda de cartão do vestibular e uma felicidade que aquele bando de incompetente vai ficar desempregado mesmo porque qualquer merda pode assinar como jornalista hoje em dia!) e RÁ que eu me mandaria para SP justamente na época de migração em massa da homo bombadius-ipanemensis para o habitat Jardins-Consolação, transformando os meus queridos locais tão paulistanos (Bella Paulista: teu brunch humilha qualquer boulangerie de Paris, qualquer padariazinha organico-vegan-low-fat-low-fun do Leblon. Meus ataques bulímicos são só teus, tsá? :D) em um Farme de Amoedo menos protetor solar/sunga da Aussiebum (como alguém consegue usar aquela coisa cafona, meodeos?) e mais roupa preta. (Afinal, carioca acha que é urbano, é cosmopolita, é São Paulo usar preto. E não dá para usar preto no Rio. Sem parecer uma galinha d'angola morta de despacho derretendo sob o implacável sol de meio-dia de Bangú). E como eu tenho um mundo de fotos atravancando a porra do meu HD, não aguento mais ler-discutir-falar-pensar sobre Economia, porque não falar do meu assunto mais preferido de todos : o meu tempo na Alemanha?! (*leitores fazem “Ah naaaão!!! Ainda esse tema?!”, Fernando vira, toma um golinho do seu Söderblanding Tea, joga o cachecol para trás e digita com o indicador “A porra do blog é meu.”). Vamos tomar o Porsche do tempo e voltar para... a minha experiência na Parada Gay de Hamburgo! :D

Situando no Tempo-Espaço
Era Julho, era verão alemão (ou seja, o povo deficiente na melanina tudo pirando no salsichão, tudo louco pra estocar vitamina E e topando QUALQUER programa ao ar livre para curtir os dias de sol), era o meu quinto mês em território alemão. Tava numa bad mood FUDIDA: trabalhando horrores no grande escritório da grande empresa alemã, tinha acabado de terminar com o deutscher FDP (Rest in Peace, Hurensohn!) e sem amigo nenhum pra encher a cara e chorar as mágoas porque todo o povo do Erasmus tinha voltado pra casa depois do final do semestre (e eu demorei uns 7 meses para entender que até pra enfiar o pé na jaca com alemão tem que marcar com 2 semanas de antecedência e ligar no dia anterior confirmando). Resumindo: tava carente, tava piriguete, tava querendo ser-solteiro-em-Salvador. Em Hamburgo. (*RÁ irônico).

Preparações
Meu melhor amigo alemão me vendeu a Parada como O evento gay da cidade. E até que parecia: primeiro, uma mega campanha de mídia (com atores alemães brincando com a questão de gênero sexual e mostrando o tema da parada, que em 2009 era a queda da definição de gênero sexual que consta na constituição alemã), mega cartazes pela cidade divulgando as palestras temáticas da semana que antecedia o evento (viado alemão é muito intelectual: AMAM um simpósio, uma palestra, um colóquio – tudo sentadinho, com oculozinho de croco , discutindo por duas horas as “idiossincrasias de dar ou não dar pinta no período nazista” muito polidamente, mas tudo louco para sair dali, entrar logo no primeiro clube SM e dar para 30 turcos bem-dotados todo trabalhado numa burca de couro). Na Lange Reihe (a rua da gay de Hamburgo que tem o sugestivo nome de “GRANDE Fila” :D), todas as lojinhas (incluindo inocentes pet-shops, lojinhas de chá e produtos naturais e o restaurante tibetano) devidamente decoradas, e as revistas Schwulissimo (AMO esse nome. Poderia ser traduzido como “Viadíssimo”) e Hinnerk eufóricas listando mil e uma coisas para se fazer no dia da CSD hamburguesa. Portanto, eu criei expectativas. Eu achei que iria ser o máximo. Eu achei que seria uma excelente oportunidade de superar de forma madura e saudável a minha bad mood alemã: pegando um monte de pessoas completamente desconhecidas, com as quais eu não teria absolutamente nada em comum, mas teriam a importante função de me fazer sentir gostoso pra caralho.

Coitado de mim.

A Parada em si
Carros de som tinham aos montes. Bicha muito feia supersiachando também (sabe a melhor maneira de identificar uma legítima bee chucrute-com-ovo? Cabelinho moicano descolorido + bronze “Valentino says Hallo”. Aliás, bronze nein: ALARANJADO. Sério, não sei de onde aquele povo tirou que Oompa-Lumpa é fashion trend a ser seguida). Decoração mega blaster toda trabalhada no arco-íris, natürlich. Bebida por todos os lados? Claro (Alemanha sem álcool não funciona, lieber!). Mas o clima? Completamente diferente de tudo o que eu tinha visto de Parada Gay até então.
Primeiro, é bom explicar que a Parada é um evento dentro todo um calendário de uma semana de atividades montado por uma comissão que passa o ano inteiro focada em só realizar a CSD Hamburg. Claro, a Parada é o ponto alto da semana, quando todo mundo quer ir pra rua paquerar, se divertir, pegar um sol, e para isso é montada uma mega estrutura digna de Carnaval no centrão da cidade (bares, festas acontecendo nos barcos ancorados no lago, cafés com programação especial, restaurantes com bandeiras do arco-íris). E para curtir essa estrutura toda, o dia anterior a Parada e o dia posterior a Parada continuam sendo dias de Straßenfest (Festa de Rua), mas o momento da Parada é absolutamente e essencialmente político. Como assim? Melhor explicar usando a minha experiência na parada.
Assim que eu cheguei, deu para ver que tinham algumas coisas bem semelhantes com o que rolava no Brasil: tinha os trios elétricos (inclusive o trio elétrico da minha boate preferida, a Moondoo, veio com a poderosérrima travadoor brasileira-mas-nao-gosto-de-latinos lá no topo, toda bafônica e trabalhada na atitude “Eu sou muito foda!”), tinha muita bebida por todos os lados (Alemanha sem álcool não é Alemanha: se faltar cerveja em qualquer evento público naquele país é capaz de eles cometerem uma chacina até liberarem um tonel pra cada um), tinha gente toda trabalhada no piriguetismo e no glitter boom típicos do nosso querido mundo gay. Tava animado, tava legal. Mas aos poucos, as diferenças e os choques culturais iam aparecendo. O primeiro? Ver o carro do FDP (Freie Demokratische Partei – Partido Democrático Liberal) e ver que um PARTIDO POLÍTICO tinha metido um carro no meio da Parada. O segundo? Receber de um dos cabos eleitorais que vinham no chão esse simpaticíssimo sticker aí acima (que sim, significa o que vocês entenderam!) e ficar com a cara de “WAS?” enquanto ninguém ligava muito, afinal aquilo tudo era sehr normal para eles (5 minutos depois, quem vem? O carro do CDU – Uniao Democrata-CRISTA – distribuindo adesivos semelhantes, com políticos sorridentes distribuindo folhetos sobre os grupos de defesa dos direitos gays existentes no partido).
E daí pra frente, a surpresa só continuou: os trios elétricos estavam lá, mas eram 10% dentro de um mar de 90% de gente no chão, carregando plaquinha mesmo, cada um defendendo o seu quinhão. De memória, que eu consiga lembrar, tinham coisas como o Grupo de Jovens Gays de Hamburg-Nord (por sinal, eu morava do lado do escritório dessa instituição, e sempre passava pela porta justamente quando todo mundo esperava a sessão semanal de quarta-feira começar. Como bom piriguete carioca, sempre passava trabalhado na Pokerface, sempre levava uns bons olhares e como eu acredito que a gente tem que apoiar a bee do futuro, sempre respondia com um sorriso e seguia em frente :D), Policiais Gays da Polícia de Hamburgo (ninguém muito gostosão, mas todo mundo devidamente fardado), Grupo de Pais e Mães de Gays (momento mais fofo da parada: todo mundo aplaudindo as mães/pais com os seus filhos carregando placas com mensagens anti-homofobia). Ah, tinha o lado spice da Parada: os grupos de defesa dos praticantes de “atividades sexuais heterodoxas” (meaning: SM, Fist Fucking, Role Play, Pet Play, e todo o “etecetera” que na Alemanha se estende por uma longuíssima lista). Confesso: nesse momento o meu lado “latino-conservador-querendo-bancar-o-santinho” abriu a boca e não conseguia fechá-la, e o meu lado mais liberal ficou absolutamente passado com a coragem do pessoal de meter a cara e vir pra rua fantasiado de cavalo, porco, cachorrinho sexy, carregando cartaz “Eu quero ter direito a exercer a minha sexualidade da forma que eu quiser!”.
Enquanto isso, você se pergunta: e na platéia? E no povão? E a pegação? Bem, durante todo o trajeto da Parada, eu só vi dois casais se beijando. DOIS. Todo mundo tava bem alegre, todo mundo curtia horrores os trios, as tendas de música eletrônica, mas todo mundo parava e prestava atenção nos grupinhos mais politizados que passavam, entre goles de espumante e/ou cerveja. E isso durou todo o trajeto da Parada. Nada de gente vomitando, nada de tumulto, nada de gente quase transando em público. Nada. Durante a Parada. A Parada termina no endereço mais nobre da cidade (a Jungfernstieg, tipo a Oscar Freire/Avenue Montaigne do Comércio de Luxo da Alemanha), onde vários mini-bares estão montados, e onde a galera começa a relaxar mais um pouco, tirar a camisa (mas nem tanto: a maioria acha essa hábito The Week meio sem educação por aquelas bandas, mesmo que você tenha o corpo perfeito) e curtir o dia de sol (se estiver sol, é claro). Alguns barcos promovem festas particulares, mas sinceramente, o melhor acaba sendo mesmo ficar na rua, indo de um stand de boate para outro, tomando uma boa cerveja, curtindo o visual, porque todo mundo tá fazendo o mesmo. A paquera? Não rola, afinal alemão é em geral bastante tímido, bastante reservado, responde mal ao approach brasileiro-argentino de “Vemcáputão”, não curte dar show em público (ao menos que eles tenham pago para entrar num clube de pessoas que curtem isso :D), portanto piriguetismo não rola. No meu caso: terminei a parada no maior 0x0, agarrado a minha terceira garrafa de espumante, todo colado de stickers Aktiv/Passiv, conversando civilizadamente com os meus amigos alemães (mas para não dizer que também sai completamente liso acabei me fazendo de difícil e trocando telefones com um dinamarquês que trocava olhares comigo há séculos em vários lugares da cidade que por coincidência calhávamos de estar ao mesmo tempo, tsá?!). Mas sinceramente, completamente fascinado ao pensar que onde cerca de 60 anos atrás bandeiras nazistas tremulavam (e gays eram enviados para campos de concentração) acontecia uma manifestação tao moderna e liberal de expressão da sexualidade humana.

Conclusões
Falando sério, não espero que as Paradas brasileiras se tornem exatamente o que as alemãs são. A cultura, a forma de batalhar por direitos, de se expressar, de conseguir evoluções na sociedade são completamente diferentes, e acho que o nosso natural dom de fazer festa, de animar qualquer ambiente, o nosso joie de vivre é um ponto forte que define quem somos, que não pode ser mudado, não deve ser mudado. Não é algo natural da nossa cultura se reunir em pequenas organizações e a partir daí batalhar por direitos, e ponto final. Mas ao mesmo tempo, acho que a fórmula atual das paradas gays brasileiras (megas festas populares) é muito pouco para as ambições que estão na hora de termos dentro do movimento gay brasileiro. Chega a ser irônico pensar que a maior parada do mundo tem efeitos políticos quase irrisórios - acho que isso explica o esvaziamento quase total dos “gays mais esclarecidos” da parada, que sinceramente não tem saco para ver aquele bando de gente caindo de bêbada enquanto gritam “Eu respeito o amor livre!” e ter alguma esperança que aquilo adianta alguma coisa na defesa dos direitos. Como eu falei acima, é uma questão de ambição: seja talvez a hora de parar de ficar surpreso e estupefato com o espaço que nos foi cedido, com a possibilidade de realizar UMA parada gay e pensar na parada que realmente é melhor para os nossos interesses.