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sábado, 3 de março de 2012

Lisboa, Portugal: A viagem, a cidade, o desastre #2

O avião realiza os seus últimos movimentos antes de parar definitivamente na pista do aeroporto de Portela. Os passageiros brasileiros, representando fielmente toda a etiqueta e finesse pela qual somos conhecidos no exterior, se atiram todos ao mesmo tempo aos bagageiros tentando tirar as 174 malas de mão Le Postiche como se o avião estivesse pegando fogo e formam aquela incompreensível fila que não vai andar porque os comissários ainda não abriram a porta do avião. A porta finalmente é aberta, a boiada começa a sair, quando a coisa começa a andar direito decido me levantar e depois que o seu Gérson de Araçatuba percebe que o meu sorriso não significa "Estou adorando ver você pescar as 8 malas de mão da sua família no bagageiro enquanto você impede que eu passe" finalmente saio do avião. O choque de temperatura que sempre acontece nas viagens em que você muda de hemisfério. Caralho, 7°C eram bem mais agradáveis na minha memória! E voilá, os primeiros passos em continente europeu itself.

Enquanto caminhava para a imigração, olhava ao redor e tentava comparar com a minha chegada em Frankfurt, primeira vez ever no exterior. Definitivamente a coisa perde a magia e o impacto depois da primeira vez. Agora eu estava bem agasalhado, seguindo tranquilamente meu caminho para a saída sem sobressaltos, em um aeroporto europeu razoavelmente bem sinalizado e organizado. (Tem uma coisa boa de ter a Infraero como administradora de aeroportos - a gente fica sempre preparado para o worst scenario case. Tenho sérias dúvida que o aeroporto de Jalalabad deva ser tão pior assim do que a pista de pouso que nomearam de "aeroporto" de Vitória...) Passei tranquilamente pela imigração, já que vinha para a Europa com um visto de longa duração para a França. No balcão do meu lado, um passageiro ainda de camisa de time de futebol, calça moletom e chinelos argumentava com o oficial português "Mas eu sou estudante de Direito da Universidade Federal da Paraíba, meu senhô!". O oficial português devolve o meu passaporte, revirando os olhos para a cena que se passa ao lado. Eu penso em como uma pessoa razoavelmente inteligente não consegue entender algo tão claro: você está viajando para o outro lado do mundo, você está viajando para um país que já nos colonizou (portanto com o qual sempre haverá algum tipo da herança do dominador x dominado - isso não acontece somente conosco, já vi acontecer com americanos na Inglaterra, mexicanos na Espanha e o mesmo com os habitantes dos territórios ultramarinos na França metropolitana), europeu é um povo chato que adorava analisar o outro pela forma de se vestir e você vai depende de um deles para entrar ou não entrar no continente. Custa meter um Converse, uma calça Jeans e uma camiseta branca e tentar ser educado sem dar carteirada?

Lisboa parecia Londres. 7°C, com uma neblina tão espessa como aquelas que costumam dar K.O. em Congonhas e Santos Dumont simultaneamente. Africanos, muitos africanos esperando na saída do desembarque internacional. Tudo exatamente igual, como da ultima vez que tinha vindo de Hamburgo. O aeroporto da Portela é pequeno em relação aos outros aeroportos de capitais europeias, as áreas comuns são mais compactas e a arquitetura interna lembra um centro comercial dos anos 90. E, apesar do considerável volume de passageiros, bastante confortável e visivelmente bem administrado. Achei facilmente o guarda-volumes, onde deixei a minha mala de mão por 3€ ou 4€ e peguei uma bolsa-carteiro, e parti para o ponto do Aerobus para ir para o centro de Lisboa.
Sentado em um autocarro que eu já conhecia. (Nunca me canso: por que o Rio de Janeiro não consegue seguir a bosta do exemplo, acabar com a concessão daquela bosta da Real Bus e montar um sistema minimamente funcional ligando os dois aeroportos à cidade?! 1,75€/R$2,30, regularidade de 10-15 minutos, ônibus normal com um bagageiro na frente. Simples assim. E melhor nem falar de Sao Paulo, porque ainda não consigo conter a gargalhada quando penso no Airport Bus Service cobrando R$33 para ligar Guarulhos à São Paulo.) Em uma cidade que eu já conhecia. Sem nenhum tipo de compromisso marcado. Olhando pela janela do ônibus e vendo os subúrbios de Lisboa passarem, as avenidas ligeiramente congestionadas durante o horário de rush matinal. Os azulejos e decorações dos prédios e casas de arquitetura portuguesa mais tradicional se alternando com as linhas retas, grandes espaços e concreto armado dos prédios de arquitetura moderna (International Style, Brutalismo, alguma coisa de Art Déco) que predominam fora do centro histórico de Lisboa. Engraçado como enquanto construimos Brasilia para tentar fugir da herança europeia carioca deixada por eles, eles faziam exatamente o mesmo nos seus subúrbios e colônias, e o resultado é algum tipo de sincronia entre os dois. Muitos prédios históricos que a crise condenou a algumas décadas à mais de negligência e descuido, mas que os criativos lisboetas decidiram intervir de alguma forma. A foto acima representa muito do que eu amo em Lisboa: uma decadência do clássico e do histórico, um não-conformismo e irreverência para a expressar a modernidade e criatividade inerente de uma cidade. 
Primeira parada em Lisboa obviamente tinha que ser na Praça do Comércio. Primeiro, porque justamente durante a minha primeira vez em Lisboa ela estava em reformas e eu mal consegui ver a estatua do D. José I por cima dos tapumes da obra. Segundo, porque a Praça do Comércio é aquele tipo de lugar que concentra a essência de uma cidade. O tom de amarelo tipicamente lisboeta dos edifícios ao redor da Praça. O arco triunfal da Rua Augusta, de onde se espreita o movimento elegante das pessoas pela rua mais importante do Centro. As longas arcadas, com as repartições publicas e os sapatos dos portugueses elegantes ecoando enquanto eles seguem apressados para algum outro destino. E o Cais das Colunas... O Cais das Colunas, com as suaves ondas do Tejo batendo contra as escadas, o vento com cheiro de sal, a sensação que o Atlântico não se encontra muito longe, as gaivotas, a vista deslumbrante para a Ponte 25 de Abril. Um lugar de onde fica fácil compreender a relação de reverência e amor dos lisboetas com relação ao Tejo, o rio que leva ao mar, que leva ao mundo, ao ultramar. Onde eu acho que todo brasileiro que se entenda como de origem portuguesa tem um arrepio ao perceber sua origem, sua ligação tão próxima com algo tão antigo, tão belo, tão majestoso.
Passeio pelas calçadas ainda vazias do Centro de Lisboa, um expresso em um dos inúmeros cafés da Rua Augusta. (Inesperadamente acompanhado de um Marlboro Light! Portugal deve ser um dos últimos países da Europa que ainda permitem restaurantes com áreas para "fumadores e não-fumadores" e pareceu uma viagem no tempo poder fumar sentado, num espaço fechado, tomando um café enquanto outras pessoas faziam o mesmo ao meu redor...) Com somente algumas horas em Lisboa, o que seria impossível não fazer? Um passeio ao esmo no Eléctrico 28. Da Baixa de Lisboa até Martim Moniz, passando pela Alfama. O histórico do histórico, o turístico do turístico passando pela sua janela. Sé de Lisboa, Castelo de São Jorge, os miradouros fantásticos dando para os telhados e para o Tejo, as ruelas da Alfama, o Palácio de São Bento. Tudo isso com você circundado por hordas e mais hordas de lisboetas, ainda maioria na linha que é essencial para os moradores desses bairros, quase todos idosos com pacotes e mais pacotes, equilibrando-se em bengalas, enfiados em seus sobretudos para aquecerem-se do inverno português. (Idosos, idosos, idosos... A impressão é que Lisboa é toda ocupada por idosos. Não sei se lá eles saem mais ou se Portugal é mesmo um pais tão idoso como os números dizem. Todos com aquele irresistível ar fofo de vovô/vovó que a gente deixou no Brasil...) Pelas janelas, Lisboa passando. Alguns poucos sinais da crise. Cartazes de partidos políticos conclamando à Rejeição do Pacto de Agressão, como alguns nomeiam o pacote de medidas da União Europeia, organismos internacionais e do Governo Português para sanar a economia. Pichações xingando os políticos e anunciando o inicio de um novo período de trevas e regresso econômico para Portugal. Excesso de pessimismo tipicamente europeu ou experiência da antiga metrópole de um império global que teve que se acostumar com o provincianismo? Difícil saber agora.
Desci do Eléctrico em um ponto absolutamente desconhecido (Ah, as emoções e perrengues de viajar!).  Peguei algumas informações dos invariavelmente simpáticos e atraentes, se você conseguir superar o fato de que eles batem no seu ombro policiais e desci para as imediações da Avenida 24 de Julho. Na hora de escolher a direção do eléctrico, oh duvida cruel! Para um lado, eu poderia voltar para o Centro de Lisboa e subir nos malditos elevadores que eu nem sequer tinha visto na primeira vez. Por outro, as docas de Alcântara e Belém. Claro que Belém. Mosteiro dos Jerônimos, Padrão dos Descobrimentos e Torre de Belém? Não. Belém e a Antiga Pastelaria de Belém. Ah, como eu esperei por esse momento! Descer do elétrico, atravessar a rua, passar pelas lojas de souvenires e restaurantes. Avistar os azulejos, o toldo azul da fachada. (E descobrir que alguma mente imbecil decidiu abrir um Starbucks dois números depois. O que merece o monstro português que, tendo acesso aos cafés, chás e os pastéis de nata quentinhos e fresquinhos da Antiga Pastelaria... decide voluntariamente ir a um Starbucks?! Começaria com 5 horas de um playlist composto unicamente de "Ai se eu te pego" no modo Repeat All/Repeat Always, só para louvar a herança lusófona deixada na antiga colônia da América do Sul.) Entrar na fila, pagar míseros euros, ver os atendentes polvilharem canela e açúcar nos pastéis quentinhos e os enfiarem na linda embalagem azul e branca de papelão. Escolher algum banco ao sol em frente ao Mosteiro dos Jerônimos, sentar e devorar os 4 pastéis como se fosse a primeira vez, vendo a vida em Lisboa seguir o seu curso. Lembrar dos dois anos que você sentiu tanta falta desse sabor, entrar em pânico, decidir voltar e comprar mais dois pastéis. Sentar de novo no mesmo banco e se sentir a pessoa mais gulosa do mundo, imaginando a quantidade colossal de açúcar e gemas de ovos que você acabou de consumir. Se sentir a pessoa mais gulosa do mundo, e rir de felicidade por ter origem portuguesa e culturalmente poder aproveitar sem culpa alguma toda essa felicidade que somente esse excesso de açúcar pode provocar.
Em Belém, encontrei com o B., que tinha me hospedado na sua casa na minha primeira vez em Lisboa. Fomos ao seu apartamento no calmo bairro do Restelo, almoçamos, conversamos sobre a vida, aproveitei para entender como os portugueses estavam reagindo à crise. (Ele também é economista.) "Os portugueses chegaram à conclusão que o pais simplesmente não é viável economicamente. Portugal jamais seguirá para frente.", disse ele. Ui! Pensei nostalgicamente na Lisboa da Alfama, dos bares do Bairro Alto, da Lux, dos restaurantes e prédios fantásticos de Alcântara, dos restaurantes e prédios fantásticos da Expo de 98 e me perguntei como estaria tudo da próxima vez que eu viesse a Portugal. Se teria eu visto Lisboa em um isolado momento historico de euforia e otimismo que teria servido de preambulo para um doloroso processo de decadência econômica. Enfim...

Uma passada na loja do Nespresso do El Corte Inglés para o B. pegar sua encomenda de capsulas. (Os elegantes portugueses saboreando expressos, lindos vendedores de meio metro de altura enfiados em ternos seguindo de um lado para o outro servindo xícaras e entregando capsulas, um sol de final de tarde de inverno entrando pela loja. Tão bizarro, uma cena tão europeia se passando na minha frente... em português.) E o B. me leva ao aeroporto de Lisboa, mais uma vez, onde nos despedimos até à proxima vez.

Duas horas para o horário de embarque, retiro a mala do guarda-volumes, faço o checkin e passo na revistaria. Compro alguns postais e na hora de pagar olho para a prateleira de livros. Bate uma puta nostalgia. Percebi que aquela seria a ultima vez, em seguramente muito tempo, na qual eu poderia ter o prazer de escolher um livro, ao meu gosto, para ler no meu idioma materno. Agarro a edição portuguesa de "A Primeira Aldeia Global: Como Portugal mudou o mundo" de Martin Page e "S.O.S. Angola", relatos e depoimentos da fuga dos portugueses e imensa ponte aérea organizada para evacuar todos os colonizadores às vésperas da independência de Angola, reunidos pela jornalista Rita Garcia. (Dois comentarios. #1: 200 mil portugueses se amontoando no aeroporto de Luanda para conseguirem embarcar em qualquer coisa, Portugal tendo que organizar a maior evacuação aérea da história, até os EUA enviaram aviões da American Airlines para ajudar e os FDP dos suíços cobram pelo uso da Swissair e deixam os portugueses passando fome de Luanda até Angola. Que eles eram o povo mais chato do mundo eu já sabia, mas mesquinho? FDP's! #2: Incrível que comentemos tao pouco sobre esse tema no Brasil. Em Portugal, contei 12 livros sobre o tema somente nas poucas prateleiras da revistaria.)  Sento numa cadeira para escrever um cartão-postal para a vovó, o cansaço de uma noite mal-dormida, 3 horas de jet-lag, mudança de temperatura e o drama de estar 24 horas sem um banho começam a bater, coloco o cartão no correio e checo o relógio. Uma hora para o embarque no portão. Já que estamos em Portugal, bate a segunda nostalgia do dia e penso "Poxa, tão chato ir embora daqui... Gosto tanto de Tugal!". Supero a nostalgia pensando no meu namorado me esperando em Paris e na Boulevard Haussmann, Printemps, H&M da Champs, H&M da Haussmann, H&M do Les Halles. "Melhor ir agora... Caso sobre tempo, posso ficar olhando aquele bando de coisa cara nos duty free que nunca compro mesmo...", pensei. Inocentemente.

A maior fila para passar pela segurança em aeroporto que eu já vi na minha vida. Juro. Três raios-X para uma fila que tinha fácil umas 300 pessoas. Gelei. Mas pensei "Ah, deve andar rápido... Não é possível que eu vá ficar 45 minutos nessa fila!" e resolvi esperar na fila. 45 minutos para o embarque e eu devia ter andando 2cm. Os oficiais portugueses tocando o terror nas bagagens de mão da galera. ("Como assim vou ter que jogar fora meu Victoria's Secret?! Ju, te falei pra enfiar essa merda na mala, CARALHO!" ressoou pelo longa sala da checagem de segurança.) A porra da fila simplesmente não andava. Olhei para o relógio, 35 minutos para o embarque. Comecei a entrar em pânico. Olhei para o lado e vi uma fila separada que dava direto numa funcionária da TAP segurando um comunicador. Peguei a fila especial e educadamente falei para a funcionária que precisava embarcar no voo para Paris que ja estava sendo anunciado. "Nao é possível passar à frente no controlo de segurança. Ainda há tempo mais do que suficiente, podes esperar na fila." falou a portuguesa FDP bigoduda do caralho. Olhei para o relógio, olhei para ela com cara de "Será?", pensei que ela deveria saber mais do que eu, voltei para o meu lugar na fila e continuei esperando. 30 minutos para o embarque. 25 minutos para o embarque. A fila não andava. Simplesmente não andava. Começam a chamar os passageiros do voo no alto falante. Começo a chorar dentro da minha cabeça "Eu queeeero ir pro norte da Eurooopaaaaa! Me deeeeixa passaaar!". 20 minutos para o embarque. E vejo uns passageiros gringos tão em pânico quanto eu indo falar com a funcionária, que vira e responde falando em inglês que eles vão ter que pedir para passar na frente de algum passageiro. (E obvio que o passageiro aleatório deixa, porque dizer um não nessa hora provavelmente equivale à reencarnar como mulher muito gostosa, com a libido sexual da Valesca Popozuda. Na Arabia Saudita.) Lembrei das minhas origens e pensei "Qualé a dessa vacilona bigoduda aê, mermao? Deixando a galera passar a fila para entrar aê no baile, e eu aqui no maior vácuo? Ta de zoação com a minha cara? Vambora resolver essa parada aê!". Cheguei chegando e já mandei um "Olá, preciso passar AGORA!" para a bonitinha, que me devolveu que tinha que pedir para passar na frente de algum passageiro. Suspirei lembrando dessa maldita mania europeia de fazer você se sentir culpado por não ter chegado 749 horas mais cedo e querer te dar lição de moral justamente no momento que você não tem tempo para uma lição de moral caralho!. Cacei o primeiro passageiro com passaporte azul, fiz a cara mais Chat Potté possivel, entrei na fila, tirei cinto, tirei sobretudo, passei pela segurança opa, oficial de segurança gato!, coloquei cinto, coloquei sobretudo e lá foi Fernando correr como um louco pelo aeroporto da Portela. Um homem, um destino, uma meta. 

(Será que Fernando conseguiu pegar o avião? Será que ele se lembrou de fechar o cinto e quase-nao ficar pelado no setor de salas de embarque do aeroporto de Lisboa? Será que a funcionária portuguesa da TAP irá conseguir encontrar uma solução para o hirsutismo que tanto a aflige? Mais, em um proximo post. :P)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

19h40 no Rio de Janeiro

Eu sou economista. Ou melhor dizendo, sou um soon-to-be economista – estou nas minhas semanais finais de faculdade. Eu gosto da minha faculdade, eu gosto do meu trabalho. Eu gosto de estudar Economia - é bem menos matemático do que as pessoas pensam e é uma faculdade que obriga você a pensar sob perspectivas diferentes (se você teve a chance de estudar na faculdade que ensina Economia e não Finanças). Eu gosto do meu trabalho – acho interessante a adrenalina que os negócios desperta, o exercício de ter que ser mais sucinto (algo que eu necessito bastante... e que definitivamente não sou nesse blog. :D).

Mas alguns dias parece que eu sou tomado por um sentimento de apatia. Não que eu esteja triste ou insatisfeito com algum aspecto da minha vida. É só um sentimento de 'boredom' com a previsibilidade do mundo ao meu redor. Algo momentâneo, algo que tende a acontecer muito especificamente em segundas e terças-feiras. Você olha para as pessoas ao redor, as conversas e atitudes parecem previsíveis e funcionais demais. Independe do lugar: pode acontecer num deslumbrante dia de outono no Rio de Janeiro, um domingo de verão em Hamburgo ou uma quinta-feira em Paris de férias. São dias em que o meu indomável humor me permite somente fazer o estritamente necessário: compromissos, tarefas do trabalho, estar presencialmente numa aula da faculdade. Estritamente o necessário, porque todas aquelas coisas necessárias e rotineiras que deveríamos fazer no tempo 'livre' se tornam mortalmente entediantes. E eu sei que eu não adianta sentar e 'pelo menos tentar'. Eu preciso de algum estímulo externo, de algum momento em que a minha atenção esteja totalmente focada em algo que me faça parar de pensar no 'o que eu deveria fazer' e me 'transporte' para algum outro lugar.

São nesses dias em que eu vou ao cinema.

Hoje, após sair do trabalho (e depois de cumprir a minha nobre parte enquanto membro do sistema capitalista de produção :D), comprei meu Doritos e minha Fanta Uva (gastronomicamente abominável, gastronomicamente delicioso :D), fui ao Espaço Unibanco e comprei meu ticket para 'Meia Noite em Paris'. Sentei numa cadeira entre dois casais, um tanto quanto ridículo no meu terno e na minha cara de entediado e esperei as luzes se apagarem. E simplesmente viajei.

O filme começa com uma 'cruel' combinação de jazz com cenas de Paris que conseguiram derrubar a minha apatia no primeiro instante. Não sei se foi o jazz ou Paris, mas a combinação dois dois conseguiu derrubar ridículas e incontroláveis lágrimas dos meus olhos. De novo, não por uma tristeza específica. Mas só pela beleza sensível que os filmes do Woody Allen tem a característica de começar. Talvez pela lembrança de estar naqueles locais que agora já me são familiares, de lembrar de mim incrivelmente triste na primeira vez, incrivelmente feliz na segunda e terceira. De pensar na pessoa que me espera lá, de como eu inconscientemente sinto mais falta dela do que conscientemente percebo e de como relacionamentos a distância são incrivelmente cruéis, mas incrivelmente fantásticos quando acontece de você estar junto da pessoa, mesmo que seja por alguns dias.

Uma das minhas maiores implicâncias com atores de Hollywood seguramente é com o Mr. Owen Wilson – o acho canastrão, piegas, o estereótipo do ator americano sem muito conteúdo dramático e profundidade. Precisou de Woody Allen para que ele (Wilson) conseguisse me transmitir alguma empatia com algum personagem que ele interpretasse. A história do escritor americano fascinado por Paris cercado de práticos americanos que logo se tornarão sua família é muito mais cativante do que uma resenha de jornal/blog pode transmitir. Woody Allen conseguiu capturar uma nuance de Paris incrivelmente específica, incrivelmente tênue e que infelizmente demora algum tempo para que se possa captar. Paris é uma cidade dolorosamente nostálgica (em oposição a Londres, onde tudo parece estar se transformando em algo excitante, algo mais moderno, algo mais cool). Tudo parece remeter a uma época, um estilo de vida, um Zeitgeist que não existe mais. Tentando explicar em termos mais práticos, a sensação é a de estar entrando em um salão de festas onde aconteceu uma festa notoriamente fantástica, mas na qual você não esteve. As pessoas, sorriem, as pessoas fumam, as pessoas conversam, enquanto você, turista solitário com tendências melancólicas que toda viagem sozinho sempre acaba despertando, inevitavelmente se pergunta como seria se você conhecesse aquelas pessoas, se você estivesse naquele lugar, se você tivesse estado ali naquele instante. Ao seu redor, a horda de turistas japoneses e americanos, tirando desesperadamente fotos e correndo de um ponto turístico para o outro. E você se achando um louco por não estar fazendo exatamente a mesma coisa, com tantos lugares 'que você tem que conhecer!' naquela cidade – mas o número infinito de páginas de possibilidades do guia desestimulam cada neurônio do seu cérebro, e você decide ficar andando e andando por aquelas ruas invariavelmente bonitas.

A mensagem do filme pode ser mesmo que tendemos irracionalmente mesmo a achar que seríamos mais incrivelmente em algum outro momento: da história, das nossas vidas (se elas tivessem seguido um rumo diferente). Na minha opinião? De que todo mundo precisa de um pouco de ficção, de um pouco de surrealidade para mudar a perspectiva do presente, do racional, do agora. (Ah, Adrien Brody de Salvador Dali, com o seu perfeitamente enorme e fantástico nariz que me fazem esquecer qualquer vontade que eu teria de um dia de mexer no meu...).

E eu saí do cinema, caminhei para o ponto de ônibus na Praia de Botafogo, olhando para a vista fantástica que essa cidade sempre acaba proporcionando. Com o meu olhar ajustado, com o meu humor ajustado, com jazz ressoando na minha cabeça. E pensando em como um bom filme sempre acaba colocando qualquer mente inquieta de volta ao lugar, reequilibrando as doses necessárias de nostalgia, poesia e de ficção que precisamos tanto para levar nossas sérias vidas a frente. No Rio de Janeiro. Ou em Paris.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Elegance is about the way you cross your legs, not the label or the newest clothes from the latest collection

Raríssimas as vezes eu postei aqui um artigo ou entrevista na íntegra (aka. 'nome elegante e jornalisticamente sofisticado para o processo de ctrl v + ctrl c'). Mais raro ainda (ou inédito no blog?) um post sobre moda, um assunto que sinceramente me interessa bem mais do que eu deixo expressar pelos meus textos aqui no blog.

Mas algumas matérias necessitam ser divulgadas, necessitam ser espalhadas, necessitam ser lidas. Por que então eu acho que a entrevista de Carine Roitfeld para a Spiegel Online International merece isso?

#1: C'est Carine Roitfeld, chérie: Como?! Não sabe quem é ela? (Primeira reação choque + Pensamento 'Em que planeta você mora, dear? Planet Girls?!', Segunda reação: Respira fundo, ajeita a camisa social e vai) Sabe o 'Diabo veste Prada'? Sabe Miranda Priestly (meu sonho é virar um chefe e despachar os meus subalternos+estagiários com um seco 'That's all."), o papel da Meryl Streep? Então, ele foi inspirado em Anna Wintour, a toda-poderosa editora-chefe da Vogue Norte-Americana - uma excelente profissional, com um poder absurdo na mão, que catapultou as vendas da Vogue America para a estratosfera, bla bla bla. Mas que vamos combinar: ainda é a Vogue America - onde que americano é um povo conhecido pelo estilo de se vestir?! (Afinal, EUA é o país disso, disso e disso.) Carine Roitfeld é simplesmente a equivalente de Anna Wintour na Vogue Paris, petit. P-A-R-I-S. Primeiro, ocupou o cargo da principal revista de jornalismo de moda na capital de moda mundial (Paris, dã?!). Segundo, ela conseguiu catapultar as vendas da Vogue francesas em um momento de recessão das grandes editoras e ao mesmo tempo estabelecer a Vogue francesa como a publicação internacional quando se trata de inovação e originalidade em termos de jornalismo de moda. (Impossível comparar a o climinha "Quem Acontece meets Bloomingdale's" da Vogue America com os absurdos promovidos por Mme. Roitfeld na Vogue Paris.). Terceiro, ela é inteligente, ousada, fala merda e literalmente rocks. (Preciso realmente afirmar o quanto eu acho ela foda?). E quarto: assez.

#2: Sentir a essência do que é a moda da perspectiva de uma francesa: Primeiro que 'moda' é uma palavra que não faz sentido para um francês - eles preferem definitivamente usar o conceito de 'estilo'. Segundo, c'est bien: você pode argumentar que franceses não curtem um banho (falando francamente, até hoje eu ainda não encontrei um francês fedidinho - agora, meu querido, dá uma passada no trem ramal Japeri no horário de rush do final da tarde...), que já viu vários turistas de France absurdamente mal-vestidos dando pinta por Ipanema/Copacabana e até que Christian Audigier é francês. (Agora eu fico feliz se você não sabe quem é Christian Audigier: ele é o Cocô Chanel do creyçon fashion style no Primeiro Mundo, sua marca Ed Hardy é absolutamente idolatrada por todas as celebs Z-List Europa e EUA afora e suas roupas tem o maravilhoso pode de te deixar instantaneamente tão elegante quanto um integrante de gang de rua de subúrbio de San Diego. Resumindo: na hora em que chegar a primeira camisa no Brasil, será sucesso de vendas instantâneo.) Mas é inegável que a 'moda' é uma característica fundamental da cultura francesa. E indispensável da cultura urbana parisiense - eu não diria exatamente que os parisienses são os mais bem-vestidos (dentre as cidades que eu conheci na Europa, esse título segue fácil para Estocolmo - os escandinavos em geral tem um senso estético muito apurado para tudo o que envolve 'design', mas os suecos facilmente são os que mais aplicam isso em termos de 'estilo de se vestir': não é somente um 'usar roupas caras', mas um senso de saber escolher, saber combinar itens a primeira vista comuns e construir com o conjunto um visual essencialmente moderno e trendsetter), mas existe algo no jeito de vestir do parisiense em geral que atrai o olhar de qualquer um que visita a cidade. É um estilo clássico, simples, focado em peças básicas com acessórios de impacto, que quase sempre resulta num estilo que poderia ser classificado como 'casual sofisticado'. Descrevendo assim parece algo 'uniforme', eu sei, mas andando por Paris é incrível como você consegue ver isso em estilos/tribos tão absurdamente diversos, do bohemian ao gótico. Tudo relacionado à um equilíbrio: not too much (italiano demais) a ponto de transmitir informação demais sobre você, not way too less (americano por essência) a ponto de o que você vestir não passar impressão/imagem/idéia nenhuma sobre quem você é. Resumindo o paragráfo gigante que eu acabei de escrever: de forma geral, o francês tem uma noção de que moda é uma das formas mais efetivas de passar uma mensagem pessoal para o mundo - e eles pensam sobre isso.

#3: Para relembrar que jornalismo de qualidade consegue transformar um tema que tão facilmente desbanca para a futilidade tipo 'o-novo-preto-da-estação-é-o-oncinha'/'oh-como-somos-fúteis!' em algo realmente intelectualmente interessante de ser lido: Sendo muito sincero, desconheço qualquer meio de comunicação escrito no Brasil que teria a capacidade/coragem de fazer uma pergunta como 'Can anyone who has spent 20 years in the fashion industry still be normal?' e acho que temos que reconhecer: mídia escrita de grande circulação, no Brasil, com qualidade para ser lida deixou de exisitr há muito tempo. Depois que a Folha passou a 'Crise Árabe' inteira ridiculamente traduzindo textos das grandes agências internacionais de notícias e destacou um time de jornalistas/escritores para discutir o BBB, acho que ficou mais do que sublinhado o fim da Folha como um jornal efetivamente com conteúdo. Em fúcsia. E itálico.

#4 Deswegen habe ich fucking Deutsch gelernt: Dois anos indo estudar alemão no CLAC (toda segunda e quarta, as 7h30!) na ilha do Fundão (@For-não-cariocas: Uma ilha longe longe, muito longe, muito muito longe, praticamente com microclima próprio, impossível de se chegar nos horários de rush, onde ficam a maior parte dos cursos ds UFRJ) + 5 anos de Goethe Institut (#1: Para dar uma dimensão da coisa, quando eu comecei a estudar no Goethe a moeda alemã ainda era o marco; #2 Cinco anos aturando os alunos insuportáveis de Germanística, que ficavam competindo quem decorava a declinação de mais prepsições; #3 O curso inteiro dura 10 anos. D-E-Z-A-N-O-S. Deprimente pensar que em 10 anos quem aprendeu inglês consegue praticamente escrever uma tese de doutorado - quem aprendeu espanhol, uma tese de doutorado em estudos comparados da antropologia do século XVII - e quem aprendeu alemão... consegue falar bem alemão.) + 1 ano de Alemanha (Onde primeiro eu me deprimi ao perceber que 7 anos de alemão me ensinaram a basicamente gaguejar em alemão, depois comecei a decifrar razoavelmente o que a maioria das pessoas falavam - já participou de uma reunião de duas horas onde você tinha que escrever uma ata e basicamente conseguiu entender somente o "Bom dia, estamos aqui..."? Eu já. No meu primeiro dia do estágio novo. - e ao final eu conseguia... me comunicar em alemão... mas tinha finalmente entendido que Hitler não ganhou a Guerra porque alguma força superior existe e não deixou o alemão se tornar a língua franca mundial que falar aquela Scheiße de idioma fluentemente somente nascendo na Alemanha.) = Determinado conhecimento do idioma alemão. Por que? Eu também não sei explicar. Mas, sendo muito sincero, ter acesso à imprensa alemã justifica muito desse esforço: a qualidade e a profundidade das matérias dos semanários alemães é impressionante. São páginas e mais páginas (a Spiegel média quase sempre fica pelas 400 páginas) de matérias que vão a fundo em temas relevantes, colunas com especialistas que realmente entendem do tema dando opinões fundamentadas (alemão adora um "Argumentos a favor" e "Argumentos contra" para qualquer assunto) e entrevistas onde os jornalistas não se intimidam nem por um segundo em fazer as perguntas desconfortáveis que todo mundo quer saber as respostas. Obviamente também existe publicação no estilo 'Meia-Hora' na Alemanha (Bild, for sure) e o que todos os elogios escritos acima são para a chamada tríade-de-ouro da mídia impressa alemã (Die Zeit, Der Spiegel e Frankfurter Allgemeine - os dois primeiros publicados em Hamburgo :D). Mas mesmo entre os equivalentes nos outros países europeus (com a exceção do excelente The Guardian - onde eu li e fiquei sabendo dessa matéria através da coluna de Life & Style chamada Fashion Statement), os jornais alemães são insuperáveis. Assim como os automóveis. E a obsessão por pontualidade e eficiência. :D

E agora, chega de introdução e voilá a entrevista com Mme. Roitfeld (muita emoção, muita emoção):

SPIEGEL: Ms. Roitfeld, you were editor in chief of the French edition of Vogue, the fashion and lifestyle magazine, for 10 years. Before that, you worked for 10 years at Gucci alongside then-creative director Tom Ford. Can anyone who has spent 20 years in the fashion industry still be normal?

Carine Roitfeld: My only drug is a small glass of vodka in the evening, if that's what you're asking. But I was fortunate because -- in addition to the very special world of fashion -- I also had a family, which is something probably rare in this business. I have also been married to the same man, the father of my two children, for more than 30 years. And that has helped me remain relatively normal.

SPIEGEL: For a former Vogue editor in chief, you also look remarkably normal.

Roitfeld: That's part of my newfound freedom. I always wore a tight skirt at Vogue; it was like a uniform.

SPIEGEL: Can you tell us what you're wearing today?

Roitfeld: A no-name T-shirt from Los Angeles, corduroy jeans by Current Elliot and satin shoes I had custom-made in violet. So the glamour's limited to my feet.

SPIEGEL: Does this world of vanity, in which fortunes are spent on trivial things, corrupt people?

Roitfeld: The fashion industry certainly has its obscene sides. The cost of a coat can be obscene. So can the cost of a photo shoot if you're working with a really good photographer. But when I see how good the photos have turned out or even how well the coat was made or how many people worked on it, it's not quite so obscene anymore. Of course, it's not like we're working in a hospital; we don't save lives every month. We just make decisions about skirt lengths, about an inch more or an inch less. That's all.

SPIEGEL: Did that ever seem pointless to you?

Roitfeld: For 10 years, it was a hell of a lot of fun. But, toward the end, it unfortunately got less and less fun. You used to be able to be more playful, but now it's all about money, results and big business. The prêt-à-porter shows have become terribly serious. The atmosphere isn't as electric as it once was, and they now have about as much charm as a medical conference. But it takes just one good fashion show to get things exciting again.

SPIEGEL: If fashion can tell us anything about the age it's created in, what do you think current fashions tell us?

Roitfeld: Today's fashions don't let people dream as much as they used to. Twenty years ago, fashion was a promise -- something that was part of your life and perhaps enriched it, something that reflected a particular era. If you look at advertisements these days, all you see are handbags. They aren't about dreams anymore; customers are buying objects now, not dreams.

SPIEGEL: Is that why you left Vogue in January?

Roitfeld: Ten years is a long time -- and especially 10 years in a gilded cage. They were wonderful years; but, sooner or later, birds want their freedom again.

SPIEGEL: Your French publisher said the time for being provocative and trashy was over.

Roitfeld: I'd put it this way: Fashion needs glamour, provocation and broken taboos.

SPIEGEL: Was it your decision to go?

Roitfeld: Absolutely. And at the perfect moment. The French edition of Vogue had never been more successful, had never had more readers or advertisers. And it had never made as much money. For 10 years, my American publisher, Jonathan Newhouse, let me do what I wanted, even when he thought it might be crazy. But it couldn't have gone on for much longer.

SPIEGEL: Is this the end of era?

Roitfeld: Creativity needs space and a willingness to take risks, but businessmen don't like risk. What's more, designers are coming under more and more pressure. Today, a dress can't just please the women in Paris; it also has to please those in Beijing, Tokyo, Moscow and New York.

SPIEGEL: Is globalization making fashion more boring?

Roitfeld: At the very least, it's leading to a lot of compromise. But globalization is only one factor. Today's designers no longer have to create two collections a year; they have to create four: spring, summer, fall and winter. And some fashion houses also add haute couture twice a year. Who can possibly manage all that? Good designers are artists; they're fragile people.

SPIEGEL: Two of the biggest stars in the Paris fashion world, Britons Alexander McQueen and John Galliano, both left this stage in a very dramatic way. McQueen committed suicide a year ago. And Galliano, the Dior designer, made his exit a few weeks ago after publicly professing his love for Adolf Hitler.

Roitfeld: McQueen's artistic creations always had a very dark side, but his death still came as a shock. After all, it's not like he was alone. He had a big team surrounding him, but it unfortunately wasn't able to protect him.

SPIEGEL: And Galliano?

Roitfeld: I had no idea how unhappy John Galliano must have been. You have to be very unhappy and lonely to praise Hitler in public while completely drunk. The House of Dior has always addressed a range of topics, for example, by having haute couture shows on homelessness where all the models look like people living on the street. But drunkenly shouting "I love Hitler" and calling people in a bar a "dirty Jew-face" is unacceptable. I don't think he really believes what he said; they were simply the actions of a drunk.

SPIEGEL: Are drugs an everyday part of life in the fashion industry?

Roitfeld: No more and no less than they are in other artistic circles. Yves Saint Laurent was the first person to openly admit to being a drug addict. Since I never touched drugs myself, I find it hard to tell whether people are taking them. But, of course, some people do. The industry has become faster and faster. People are constantly fighting jet lag and working through the night.

SPIEGEL: Now that Galliano and McQueen are gone, is German designer Karl Lagerfeld the only one left?

Roitfeld: Yes. Good old Karl. Superhuman Lagerfeld. I don't think he experiences this pressure in the same way. That's why he can put up with it.

SPIEGEL: And no one else can?

Roitfeld: He's not the only one. There's also Nicolas Ghesquière at Balenciaga, Riccardo Tisci at Givenchy, Miuccia Prada and, of course, Tom Ford. And then there are the up-and-coming talents. But they still need time. In a way, we've already seen everything. What else could they hope to invent?

SPIEGEL: And, in any case, copies of their designs soon turn up in Zara and H&M shops.

Roitfeld: Yes. At fashion shows, bloggers sit in the front rows and transmit new looks around the globe. It's all become terribly rapid. You're sitting in Paris, and people in Beijing already know what's going on. It's pretty crazy. But designers are probably really flattered that their looks are being copied.

SPIEGEL: But don't you think that this copying is still a problem?

Roitfeld: I don't see it that way. Fashion stopped being a matter of money a long time ago; it's a matter of taste. These days, even women with less money can dress well. I was always saddened by the idea that elegance was only something for a minority. It's about style. Karl was the first one to understand that. It was very smart of him to design this H&M collection, and very smart of Chanel to allow him to do so.

SPIEGEL: Today, it's mostly wealthy Russian and Chinese women who are buying expensive fashions. People working at many boutiques in Berlin speak Russian.

Roitfeld: That's right. This obsession with particular designers is somewhat strange. I think it's the safest way for these customers to find their feet when they first discover the world of fashion. You can't learn how to be elegant; you can only learn how to avoid mistakes. The rest is instinct. Elegance is about the way you cross your legs, not the label or the newest clothes from the latest collection.

SPIEGEL: Now you're undermining all the sales arguments your own industry makes.

Roitfeld: It's often the case that what a women reads makes her more attractive and more elegant than what she wears.

SPIEGEL: Do French women read more than German women?

Roitfeld: From a very early age, French women learn not to exaggerate. Yves Saint Laurent once said that the purpose of clothes is to make women more beautiful but that a coat must never attract more attention than the woman wearing it.

SPIEGEL: In France, you have a reputation for being the woman who invented "porn chic." Your photos were criticized because they showed young Lolita-type girls, pregnant women smoking and smooching seniors.

Roitfeld: Yes, of course. Fashion has to be given free rein and only a small number of restrictions. I never used any photos that my children shouldn't see; that was my benchmark. The little girls wearing makeup were never naked; it said "No Smoking" under the pregnant woman; and why shouldn't old people kiss? You must be allowed to play. Anything else is terribly boring. I've also painted white models black and later red, which (the French anti-racist NGO) SOS Racisme complained about.

SPIEGEL: Did you find that silly?

Roitfeld: It's absurd to accuse me of being racist. I dedicated an entire issue of Vogue to the black model Liya Kebede. I'm always looking for connections to real life. I once had a series of photos about fur; but, in these politically correct times, you can't even go out on the street in New York or London without getting a pie thrown in your face. The photos showed extras holding up posters of animal rights activists. It was meant to be ironic, but unfortunately not everyone got it. Why can't we wear the animals we also eat, such as sheep and rabbits?

SPIEGEL: You're 56 years old. How difficult is it for a woman to age in the fashion industry?

Roitfeld: Well, during photo shoots, you come across these beautiful 16- or 18-year-old women who have perfect bodies and not a single wrinkle -- but their pictures are retouched. Under these conditions, when you look in the mirror, you have to be happy with yourself, remain young at heart and keep that rock 'n' roll attitude. Otherwise, you won't be able to deal with it.

SPIEGEL: What will you do with your new life?

Roitfeld: I have numerous projects in the works: a book with Karl Lagerfeld, another about my own work, an ad campaign for Chanel and some consulting work for Barneys, the designer fashion store in New York. Who knows? Perhaps I'll become a muse for designers again.

SPIEGEL: So you won't take the place of your former colleague Anna Wintour at the head of the American edition of Vogue?

Roitfeld: That was never seriously under discussion. I like to provoke. I'm very French. In America, they're not even allowed to show a hint of nipple in photos. Anna Wintour is the most powerful woman in the global fashion industry, the first lady of fashion. She's a politician; I'm a stylist. They are two very different jobs. Incidentally, despite all the rumors, she is actually very nice.

SPIEGEL: Do you have any fashion principles?

Roitfeld: I don't change my handbag every season. I believe in the Yves Saint Laurent woman who either has her hands in the pockets of her pantsuit or is holding her lover's hand. She doesn't need a bag.

SPIEGEL: You also always wear high heels.

Roitfeld: Yes, they give you power. You move differently, sit differently and even speak differently.

SPIEGEL: So you never wear flat-soled shoes? Not even when going for a walk?

Roitfeld: I don't go for a walk very often. I wear flat-soled shoes on vacation, but I also travel in high heels, which is why I'm regularly stopped by customs officials at the airport. Wearing high heels in an airplane is suspicious. Nobody else does that.

SPIEGEL: Do you have any fashion tips for us?

Roitfeld: If you don't want to make any mistakes, buy black clothes. That's always good. And from age 50 on, you can slowly start adding a little beige. That's softer. Every five years, you should take a critical look at your own wardrobe and, if necessary, eventually swap your bikini for a one-piece swimsuit.

SPIEGEL: And, if necessary, eventually stop going swimming altogether?

Roitfeld: There comes a time in your life when you even have to consider that. You should always be one of the best, whatever your age group. That may mean staying away from the beach.

SPIEGEL: Ms. Roitfeld, we thank you for this interview.

Interview conducted by Claudia Voigt and Britta Sandberg

Fonte: Spiegel Online International > Zeitgeist

domingo, 10 de outubro de 2010

Sobre o Brazilian Style

Se “Brasil” fosse uma marca comercial, facilmente seria uma das mais valiosas do mercado atual. Por quê? Vamos fazer um exercício mental: você é uma criatura loira, branca (e com grande probabilidade de ser gordinha - vocês não entendem o dilema que é ir no mercado decidido a comprar maçãs e outras frutinhas sem graça e super faturadas e semelhantes, olhar para a gôndola das maças por €5,00/quilo e olhar para a gôndola dos sorvetes maravilhosos por €1,30... também o quilo, pensar "Tá frio pra caralho mesmo, tô cheio de roupa, ninguém vai notar se eu estiver um pouco mais gordinho.", e mandar pra dentro do carrinho os sorvetes), mora num país onde o início da primavera já significa temperaturas caindo abaixo dos 15°C e quer se matar quando lembra que verão mesmo só dali a 6 meses. Then você abre uma revista, olha para a foto acima e lê sobre o estilo de vida de um povo feliz-bronzeado-sarado-e-botocado (sim, Angela Bismarchi é super conhecida ao redor do mundo, e deve já ter dado entrevista até para a Nepal TV falando sobre a sua cirurgia de reconstituição do hímen) que flana por praias paradisíacas e praticamente sem fim, partying all the time e com o plus de terem a fama de serem ótimos na cama. E esse povo vive num país onde as oportunidades parecem multiplicar a cada momento (em enorme contraste com onde você mora, onde os anos dourados já se foram há muito tempo e "decadência" é a palavra mais usada para descrever a sua sociedade), com uma economia entre as que mais crescem no mundo, mas que ao mesmo tempo mantém um certo grau de civilização (relembrando: pode ser mesmo considerado democrático entre Rússia, Índia e China, hein? Thanks god que pelo menos Tiririca pode ser eleito!).

Impossível conter a euforia e a expectativa, não é? ;)

A questão que me preocupa é até onde nós, brasileiros, acreditamos e entramos nessa imagem que o Brasil anda projetando para o mundo.

O diretor da revista Monocle e colunista do FT, Tyler Brûlé (#1: Sim, o nome é escrito dessa maneira bicha; #2: Sim, ele é bee e é um Pokemón mistura de estoniano e franco-canadense; #3: Morry quando li na Wikipedia que parece que ele “inventou” esses acentos no sobrenome dele), considerado um dos maiores trendhunters (aka. gente que tem como rotina de trabalho viajar de um lado para o outro do mundo comendo, bebendo, vestindo o que ha de bom e de melhor para depois nos dizer o que nós deveriamos consumir) da imprensa internacional atual dedicou toda sua coluna no jornal inglês da semana passada a questão de como “Brazil is good to go”. A primeira vista? Fantástico! Elogios sempre são tão bem vindos e impossível não se sentir um pouco "Ai, pára, vai... Continua elogiando!" quando uma pessoa de fora cita tanta coisa boa sobre o Brasil.

Mas num segundo momento, depois topar acidentalmente com o post da Alexandra Forbes no blog “Boa Vida”, comecei a repensar o artigo. “Sou totalmente da torcida ao favor e fico super feliz quando leio elogios ao Brasil, mas desta vez fiquei meio incomodada... Sei lá, ando enjoada de ler mil e uma matérias estrangeiras puxando o saco da mesma gente, enchendo a bola dos mesmos lugares.” Red Alert: se um blog de estilo de vida já reage "Fasano? Trancoso? Atala? Ainda isso?", hora de o (futuro) economista-chato de plantão sair da bolha dourada e colocar a cabeça para pensar.

Muito se fala sobre o choque de se voltar de um país desenvolvido para o Brasil, mas poucas vezes eu li sobre aquilo que se sente ao se chegar lá fora. Como brasileiro, eu posso falar sem sombra de dúvida que o meu maior choque ao chegar em Hamburgo foi aprender a viver numa sociedade classe media. Ao mesmo tempo entender que muito estava agora ali, ao meu alcance financeiro, mas que ao mesmo tempo toda a gama de serviços e facilidades e privilégios que estamos mega acostumados não existe mais. (Meu melhor amigo alemão sempre se impressionava no Brasil com a quantidade enorme de caixas e atendentes em qualquer lojinha e restaurante, com pessoas empacotando suas compras e recolhendo suas bandejas nas praças de alimentação de shoppings, com os inúmeros serviços de delivery - isso inexiste na Alemanha) Adaptar-se a uma cultura "Trabalho humano é importante e caro demais para ser desperdiçado em tarefas tão imbecis / So do it yourself!", ter que pensar numa solução além da "Dá pra contratar alguém para fazer isso?" (juro, que por mais consciente socialmente, mais proto-intelectual economista da UFRJ que eu fosse, eu soltei uma cara de "WHAT?!" a la Marie-Antoinette-sendo-conduzida-para-a-prisão-pré-guilhotina quando a administradora da residência estudantil me deu um balde de tinta branca, pincéis e falou "Você tem dois dias para pintar todo o seu quarto.". Portanto, quatro dias antes de Fernando estar dando pinta no ICE/TGV a caminho da Paris, estava eu numa loja de produtos químicos em Hamburgo tentando transmutar a palavra "aguarrás" para o alemão e com uma mancha de tinta branca nos meus cabelos cacheados que não saía de jeito nenhum.), entender que não adianta se você tem grana para pagar duas, três ou vinte vezes o preço da entrada do clube: você vai ter que esperar na fila e passar pelo door control (que vai avaliar como você se vestiu e não quantos monogramas você expõe - escutar uma hostess falando para a minha amiga em sueco que não aguentava mais negar a entrada de turistas americanos que "achavam que camiseta Christian Audigier, jeans D&G e tênis Nike eram roupas adequadas para uma boate" enquanto nos deixava entrar - eu vestido de C&A brasileira + brechó Hamburgo + sapato, esse sim muito bom - me ensinou que sempre vale a pena tentar se vestir bem) pode ser bem mais difícil do que se parece.

Mas, um dos efeitos de se viver numa sociedade tão classe média (principalmente na Alemanha, onde o esporte nacional favorito - depois de falar mal dos holandeses - é criticar) é voltar chato, extremamente chato. Reclamando da comida, dos preços, das roupas, dos estilos oferecidos. De absolutamente tudo. A famosa síndrome (que o Alex Bez - que aliás, sumiu dos comentários - me alertou) da bicha "Fui-pra-Europa-e-voltei-chata-pra-caralho. 

Em minha defesa: criticar é fácil, o difícil é tentar entender. E como eu adoro escrever muito, esse blog nunca foi muito preocupado com a quantidade de linhas de um post e esse assunto me incomoda, vamos analisar a questão. 

Quando eu trabalhava na Alemanha com trendforecasting uma das questões mais discutidas no escritório (e que as grandes empresas mais buscavam saber) era a formação dos novos padrões de consumo das chamadas nações emergentes. Explicando: os padrões de consumo de uma nação (principalmente ligados aos serviços denominados de "premium") são relacionados com a maturidade da classe média que esse país conseguiu formar. Em linhas gerais, os mercados europeus são considerados "alta maturidade", onde não somente o produto, mas todos os seus "efeitos" são de relevância para o consumidor no processo de decisão de compra (questões relacionadas desde ao consumo verde, consumo consciente até a questão de como esses produtos são produzidos - Nike e a marca alemã Sprit sofreram sérios danos de imagem quando foi divulgado pela imprensa que seus produtos eram produzidos sob condições consideradas desumanas em países de terceiro mundo) e os mercados norte-americanos/japoneses de "média maturidade" (onde, por razões culturais, existe uma grande pressão cultural pelo consumo, um grande "fetiche" pelo produto em si muito mais do que a preocupação com a qualidade e como ele é produzidos - mas onde também as questões relacionadas a um consumo consciente já estão inseridas e ganhando espaço). 

E os países emergentes? Países emergentes são basicamente países com classe média em formação, que saíram de um estado inicial de relativa desigualdade social (no caso brasileiro, relativa é um eufemismo dos mais extremos) e que atualmente vivenciam um período de "ascensão social". E que se reflete nos padrões de consumo: a tentativa ainda é de copiar os padrões de consumo dos países desenvolvidos, com grande fetiche pelo produto em si, e sem nenhuma grande reflexão sobre ele - o que é importa é o status que ele irá me trazer ("Estou usando um esmalte Chanel / Estou vestindo uma calça Diesel - sou parte de uma elite"), muito mais do que questões relacionadas ao custo e qualidade dessa mercadoria ofertada.

Retornando ao que eu quero falar: quando se muda de sociedade por uma quantidade considerável de tempo, impossível não "pegar" certas características da sociedade nova e internaliza-las. Sendo uma dessas características o "padrão de consumo", sair de uma sociedade onde o consumidor enxerga o produto ofertado de forma absurdamente crítica (uma das maiores influências na hora da compra para os alemães são as revistas especializadas em comparar produtos e classificá-los por desempenho, qualidade, necessidade e preço - nenhum alemão sai para uma compra maior do que 100€ sem ler pelo menos um artigo na internet de uma dessas revistas sobre o produto que quer e todos os vendedores sempre sabem exatamente listar todas as características do produto que estão vendendo) e voltar para uma sociedade onde o produto é enxergado pelo consumidor como uma chave para aceitação e felicidade dentro de um exclusivo e seleto grupo de escolhidos é no mínimo enlouquecedor, para não dizer frustrante.

E sinceramente, isso me incomoda. A falta de questionamento com o que se consume aqui no Brasil é absurda, principalmente no que diz respeito ao preço. Formação de preços é um tema mega complexo, envolve uma série de outras questões (como, por exemplo, a questão dos impostos), mas o meu objetivo aqui é questionar o ponto de como aceitamos serviços ruins por preços altos. De desde uma Zara (que encaminha o que o Primeiro Mundo não quis consumir - produtos essencialmente de baixíssima qualidade - cobrando preços exorbitantes para ser vendido numa loja onde os vendedores ignoram você e se sentem como parte da elite do "consumer retail" só porque trabalham vestidos de ternos fabricados na Tunísia) até restaurantes (que no Rio de Janeiro, sinceramente, são uma calamidade: uma viagem até SP deixa claro como o atendimento no Rio é nada menos que péssimo, pratos ruins e caros - tudo isso pago com o ar cool tipicamente carioca de quem considera mal educado reclamar de que o serviço foi ruim e decide não pagar os 10%). Consumo, claro, parcelado em 10x no cartão, com taxas igualmente absurdas, mas que no final das contas damos um jeito de pagar e tudo continua exatamente do jeito que está.

Enfim, a leitura do artigo do Tyler Brûlé me faz pensar em que tipo de brasileiros ciceronearam esse cara por aqui, e que tipo de brasileiro ciceronearam vários europeus que eu encontrava pelas capitais européias e que vinham com esse discurso "Brazil is just wonderful / Ipanema is simply THE paradise!", permeados por The Weeks, Reservas, Osklens e Spots da vida. De como realmente, cada vez mais, nos aproximamos daquela imagem do empresário chinês/russo com sua mulher a tiracolo que entra na Louis Vuitton em Paris e pede para descer a bolsa com o monograma mais exposto, mais berrante possível. E como, cada vez mais, eu vejo pessoas ao meu redor pagando preços absurdos e olhando para a minha cara, quando eu reclamo do preço desses produtos, com um certo olhar de "Ou ele é muito judeu, ou isso é síndrome de quem não pode pagar e fica reclamando".

Temos muito mais de Vera Loyola, de nouveau riche do que queremos imaginar. E sinceramente, não quero me conformar com um Brasil onde os serviços, restaurantes e lojas são absolutamente maravilhosos pagando três vezes do que eles custam realmente.

Enfim, tudo se resume a questão de se queremos continuar acreditando que vivemos no lugar mais cool do mundo (e continuar tendo que parcelar absolutamente tudo no cartão, continuar tendo que ir para o exterior para "comer num lugar decente" ou "comprar roupas por preços decentes") ou realmente colocar um pouco dos pés no chão, criar um pouco mais de consciência crítica e quem sabe começar a demandar um pouco mais daquilo que nós é oferecido. (Exemplos? Os infames 10% cobrados por restaurantes e casas noturnas. Gratificação extra é a remuneração por um serviço muito bom - porque o básico necessário, sorry to say, é mais do que a obrigação. Não se sentiu tocado pelo serviço e simpatia do garçom, o prato demorou, o pedido veio errado? Sem 10%, sorriso na cara, obrigado - porque ser educado é fundamental - e ponto final.)

(Enfim, é isso. Opiniões dos leitores, por favor.)

P.S.- Fundamental para a execução desse post também foi a leitura do excelente blog "De Chanel na Laje", principalmente dos posts 1, 2 e 3. Super recomendo.

sábado, 9 de outubro de 2010

A Europa vista a partir da....

Nessa era de paz mundial, todos os países se amando, "Eu amo o mundo, eu sou um cidadão global!" o discurso oficial (válido em todos os países do mundo, menos na França, onde eles abertamente pensam que o resto do mundo se encontra num patamar inferior ao deles - e os que estão economicamente acima se vestem e comem mal, portanto são irrelevantes) é de paz e amor global, de que as nações se amam, blablabla.

Mas nada como um pouquinho de álcool e criatividade para o nacionalismo emergir realmente e apimentar as coisas, néam? :)

O estúdio londrino de design gráfico Alfagraphic fez um mapa estilizado da União Européia para o jornal alemão Süddeutsche Zeitung em Junho de 2009, em meio a crise energética do continente, negociações tensas sobre o gás com os russos e tudo mais. O mapa original (o primeiro dessa série) ficou tão bom, mas tão bom que o pessoal do escritório resolveu fazer uma série mais extensa, com a visão do continente sob a perspectiva de alguns países europeus. O resultado? Confiram aí abaixo:

A União Européia vista pelos próprios europeus
(Destaque para Mar Báltico = Meh Sea, Golfo de Bótnia = Gulf of Abba)

A Europa vista pelos americanos

A Europa vista pelos britânicos

A Europa vista pelos franceses
(Destaque para: Bélgica = Semi-France, Suíça = Semi-France, Hungria = Sarko's Land)

A Europa vista pelos alemães
(Destaque para: Ilhas Baleares = Balearic Germany + Ajudinha para os não familiarizados com o deutsch: Sparkasse = Caixa de Poupança, Proletariat = Proletariado, Schokolade = Chocolate, Schinitzelreich = Reino do Porco empanado, prato típico austríaco que na Alemanha eles acham que veio de Viena e nós de Milão, Eiffelreich = Reino de Eiffel, Schnaps = Álcool extraído de batata e semelhantes).

A Europa vista pelos italianos
(Destaque para: Croácia = Dalmatia, Bulgária = Babysitters, Romênia = Thieves)

A Itália vista pelos italianos
Acabou? Claro que não! No site da para ver as interessantes "A Europa vista..." pelos russos, búlgaros e poloneses. Aliás, ainda tem duas que acho que vale super a pena mostrar. Quais?

A Europa vista pelos gays
(Destaque para: Barcelona = Dancelona, Paris = Mall, Londres = XXL, Berlin = Pobre mas sexy)

E... a América do Sul vista pelos americanos(!)
P.S.- Se alguém der uma gargalhada nível 5 ao ver isso, diz aí, porque é ou não é hilário?! (Ou realmente eu sou tão nerd assim?) :D

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Eu juro que eu tento me controlar...

Mas tem horas que a maldade e um espírito mau me dominam. Por que? Posso começar?

Algumas coisas eu não compreendo

Noitinha de sexta-feira, cansado do trabalho (o dia inteiro no salto, sabecomoé...), xícara de tea with milk na minha frente, dando uma zapeada nos canais antes de planejar o que fazer da noite, paro no simpático “Vai pra onde?” do Multishow. Li a descrição, achei fofo (viagens no estilo estudante, roteirinho out of the beaten track). Simpático. A não ser por um detalhe.

Bruno de Luca.

Momentos de maldade de Fernando:

#1: Bruno de Luca: Bruno de Luca. (Precisa elaborar mesmo?)

#2: O sotaque carioca do Bruno de Luca: Exageradóan, até para um cariocáan. E em inglês, então... Provavelmente o mesmo dialeto falado por muitos... "jovens de origem monetariamente desfavorecida em busca de pessoas mais maduras que saibam reconhecer o potencial que eles tem". (Semana passada tive uma crise de riso no "Tô nem Aí" ao escutar a conversa de um falando *alemão* com um alemão de uns 45 anos, gordinho e usando uma daquelas camisas furadinhas - cor nude. Foda: duas caipirinhas, Fernando alegrinho, alegrinho...).

#3: Bruno de Luca é o tipo de brasileiro... que grita para as pessoas na rua, aleatoriamente, “Brasil! Brasil!”: Eu ODEIO isso. ODEIO! Porra, porque essa necessidade patriótica de exibir a sua nacionalidade, caralho? Por isso que eu sou fortemente partidário da ideia de que a Policia Federal ministre um curso estilo “O mundo tá se fodendo para o fato de você ser brasileiro: como superar a crise Futebol+Carnaval+Eu sou VIP/Sou brasileiro durante suas viagens no exterior”. As pessoas tão se fodendo para o fato de você ser do Brasil, honey. E stay the tip: os únicos que fazem também isso? Americanos. ;)

#4 Bruno de Luca é o tipo de brasileiro... que fica falando para as pessoas aprenderem português: Honey, você é um gringo, você fala um idioma louco e exótico, você mora no frio e desenvolvido Hemisfério Norte. What automaticamente means que você já foi ou vai regularmente para a Espanha (Espanha é o Cabo Frio/Ubatuba dos países desenvolvidos #FATO). Você tem duas opções: aprende Espanhol e pode viajar para 953 países no mundo + fazer um enrolación e se comunicar com brasileiros e portugueses... ou pode aprender português! E poder falar mal para caralho esse idioma falado por Brasil, Portugal, Angola e... algumas ilhotas mega importantes ao redor do mundo. Uau! (Sorry to say it, mas português na Europa é considerado algo tao útil de se aprender como dinamarquês ou bielorusso).

#5 Bruno de Luca é o tipo de brasileiro... que anda de casaquinho de moletom transadinho da Oskley: Porra, você tá na Europa, com milhares de brechós e lojinhas de moda e grandes cadeias de moda vendendo todos os tipos mais transados e legais de roupa que você possa imaginar. Só o fato de pisar fora de casa e olhar para a montação das pessoas é uma aula de moda fodástica via osmose. O que você escolhe? Visual “Leske do Posto Sete sobre Serra para Terê Fantasy”. Exatamente o que você veste num dia frio no Rio de Janeiro. E depois vem me falar da representatividade de moda brasileira no exterior? Oskley e um monte de bíquni asa-delta vendido em uns corners-shops em Miami? Please...

Eu juro que eu tento parar de ser mau... mas dá?

Santa Madre do Capitalismo do Real Forte, que os finais de semana prolongados em Buenos Aires e Punta del Este eduquem o meu querido povo e evitem futuros momentos de vergonha alheia nacional como esse.

sábado, 8 de maio de 2010

Explicando o conceito: Être estagiário dans Brasil

Quando eu morava na Europa (*snif, peraí, deixa eu secar a pequena lágrima que escorreu pelo rosto), tive a maravilhosa oportunidade de estagiar em 2 (duas, two, zwei, deux, dos) empresas diferentes. Um era num pequeno escritório de tendências (o estágio mais gay ever que eu já estive, trabalho incrível, mas pagava maaaaal), o outro numa tradicionalissíma empresa alema (onde o trabalho era meio sacal, mas contava horrores no currículo porque os alemaes se estapeavam para estagiar lá e porque tinha uma loja especial para os trabalhadores com mercadorias tipo calcas Diesel, tênis Adidas e todos os produtos da linha Apple com 50% de desconto). Ah gente, foi TAO legal: trabalhar em um idioma estrangeiro, aprender uma nova rotina de trabalho, todo mundo te perguntando o tempo todo "Mas como é isso no Brasil...?", eu fazendo os meus colegas de trabalho se sentirem culpados toda vez que eles mandavam eu fazer uma tarefa mais slave (" Mas só porque eu sou do... Terceiro Mundo?"). E o melhor: no final do mês, o salário era em €UROS! Muitos €UROS!

Bem, depois de torrar cada centavo desses salários nas viagens pela Europa, voltar do "Meu Ano de Princesa" e cair na minha glamurosa realidade toda "A Grande Família" de ser, hora de procurar um estágio por terras brasileiras! Ok: disso vocês já sabiam. O que vocês nao sabiam é que ontem eu fiz uma entrevista numa empresa de Rh (empresa de Rh me deprime: todo mundo com aquela cara de "Tenho que ser bonzinho preciso desse emprego, as criancas já tao sem leite Ninho!". Ontem a FDP de uma secretária já virou toda "Ih, você mora NESSE lugar? Nao sei se a empresa vai querer pagar tanto VT assim nao, hein..." para um cara se candidatando para uma vaga de auxiliar administrativo... Foda, néam?), ontem já ligaram marcando uma entrevista, e segunda vai ser a hora do "Vamuver". Pensei em nao contar, afinal da última vez que eu contei aqui no blog sobre uma vaga, Iemanjá (aka. sereia de regioes desfavorecidas financeiramente POBRES! do globo) resolveu me sacanear, perdi a vaga no último instante e continuei fazendo figuracao na "A Grande Família". Mas eu tive que contar agora! Por que?

Email de um querido amigo europeu:
"Cool the company called u back.
And if they want u soon that's cool.
You know if the money issue is an issue for you, why not trying to negociate it? Well I mean if you feel like they need someone very soon and that you're profile is perfect for them and only if they don't have many candidates....(that's just a thought)..."

*Suspiros.... Sintam a inocência, a pureza de mente de um habitante de um país de welfare state. Nada de "Queridóam, SEM benefícios: é só VT, dois busoes por dia e olhe LÁ!". Nada de "O QUÊ? Esticar o feriadao? Problema é seu se você já tá há dois anos sem tirar férias! Tu é estagiário, MERMAO!". Ah... Dá até pena explicar para ele que ser estagiário no Brasil define conceito de alienacao do trabalho... ;(

#Momentinho Economics for bees: Ah, você-nao-economista nao sabe o conceito de alienacao do trabalho? Liga nao: metade dos economistas chega ao final da faculdade sem ter idéia a outra fica vendo os músculos, pernas e bracos maravilhosamente esculpidos dos estudantes do primeiro grupo. Tem duas formas de entender isso: dá para ir na teoria (aqui) ou... entender isso de uma forma BEM prática, aqui. ;)

P.S.1- #1 Isso nao foi a discussao econômica, e #2 Já que vocês apoiam, prosseguirei com os meus planos de subtituir Míriam Leitao no Bom Dia Brésil e dominar o mundo... :D

terça-feira, 27 de abril de 2010

'Ik denk, dat...': Amigo é importante, porque...

...mesmo quando você chega em casa depois de um dia daqueles, tipo busão lotado, trânsito infernal de manhã, calor infernal já de manhã também, criança gorda+chata atrás de você comendo Fofura (#Momento Non-Carioca Friendly: infétido biscoito/bolacha/whatever, daqueles tipo “isopor amarelo”, sempre disponível num very disgusting sabor tipo Churrasco de Gato ou Cebola Mofada, consumido preferencialmente por crianças monetariamente desfavorecidas pobres, faveladas e semi-faveladas do munícipio do Rio, que tem a curiosidade propriedade de contaminar todo um ambiente com o seu simpático e agradável aroma. Ou seja: não importa que você esteja usando Chanel N°5 ou Prada Infusion Fleur d'Oranger - se tiver um simpático infante consumindo esse produto a menos de 500m de você, o cheiro de Fofura vai grudar em você), única aula do dia inútil na faculdade logo no primeiro tempo (mas que você tem que ir, afinal como grande ser organizado que você é, precisa confirmar se o trabalho é mesmo para a semana que vem... Ou para hoje?!) e... vê que as suas suas lindas, desenvolvidas, ricas (porque não dá para ser pobre de verdade em país norte-europeu. Muito ódio de países com welfare state.) e muito amadas amigas se encontraram em Amsterdã (que era, tipo assim, ali do lado para você também até outro dia) para botar o papo em dia, fazer compras, passear pelos canais e fazer sabe-se lá mais o quê (enquanto a sua vida anda numa animação e aventura tipo “Cara, meu dia foi IRADO hoje: achei uma bibliografia para a minha monografia!!!”) e...
... elas conseguem colocar um sorriso no teu rosto no momento em que você percebe que elas ainda se lembram de te mandar um fofíssimo cartão-postal mostrando que sentem a sua falta. E te chamando de “Bitch”, naturally. ;)

Amigo é bom demais mesmo, néam?

P.S.1- By the way, pequeno díalogo do dia:

Mae: Filho, o que quer dizer “Bitch”?
Eu (com cara mais inocente do mundo): Amigo em sueco, mamãe.

(Hehehehehe)

P.S.2- Alex Bez, querido leitor, manda um e-mail para lostundfoundintranslation@gmail.com que eu te envio todas as dicas do que fazer em Hamburger Town. Jawohl? :)

sábado, 13 de março de 2010

Chez Mac Do' dans CDG

Na boa... alguém lá em cima gosta de me sacanear bonito. Tava tudo redondo demais para essa viagem. Tinha que acontecer uma merda. Por que? Cara... o pacote Murphy-te-sacaneia foi tao completo dessa vez que ele merece um post completo contando toda a saga que eu percorri para chegar até aqui. Agora só direi que paguei a minha língua total, e que a partir de hoje eu simplesmente AMO a TAM, e prometo nunca mais zoar as práticas corporativas de bom gosto duvidoso dessa adorável companhia pelo menos até esquecer tudo o que o staff incrível dessa empresa fez por mim e ser vencido pela minha necessidade permanente de reclamar e falar mal das coisas.

Agora só conto que a porra da minha mala atrasou e tá vindo num vôo mais tarde de Londres (#1 FUCK British Airways #2  gente, MEDA quando anunciaram o meu nome + meus trinta e sete sobrenomes - eu tenho um nome meio grandinho - nos altofalantes. Poxa, eu to com barba por fazer + cabelo completamente desgrenhado da viagem + cara junkie total. Se eu tivesse vindo de um vôo do Oriente Médio, tava FUDIDO!). Tô praticamente um zumbi de sono (vôo do continente americano para a Europa é sempre uma maravilha: quatro horas do seu dia simplesmente SOMEM, você chega no seu destino sempre parecendo um zumbi e fica por semanas sentindo essa merda de jetlag), e cambaleando fui procurar algo de interessante para fazer e matar essa merda de 1.30h de espera. Praticamente um panda de olheiras rastejando pelo saguao quando eu enxergo... os dois arcos amarelos (!!!). E ai, a maldicao 'Ronald McDonald do Fernando-na-Europa' mais uma vez se realiza: hamburger por 1€ + wifi grátis + cadeirinha confortável e com vista legal = Fernando McFeliz. Foda, eu sei. Mais de 10.000km viajados, no lugar mais cool e chic do mundo... e eu sou praticamente um americano obeso do interior do Kentucky (aliás, tem um casal de americanos na minha frente bem assim. Por que americano consegue sempre ser especialmente MUITO gordo, hein?). Mas tudo bem: eu estou com o meu trenchcoat, estou com o meu pullover lilás, estou com a minha skinny E... com o meu cachecol, portanto... algum glamour ainda me resta. ;)

Brincadeiras a parte, muito estranho estar de volta à Europa. Eu sei que vai soar mega 'brasileiro-viado-chato-dando-uma-de-europeu" (e juro que nao é isso), mas a sensacao é de "Welcome back home", sabe? O céu cinzento, as pessoas vestidas para o inverno que ainda nao acabou, tudo organizado, tudo funcionando, eu me virando nos idiomas para poder me comunicar. Muito diferente da sensacao que bateu quando eu cheguei na Europa pela primeira vez (a primeira viagem internacional sempre é inesquecível, né? Lembro do cheiro das coisas, e do panico que senti quando desembarquei em Frankfurt). Dessa vez parece tudo muito... normal. Como se eu estivesse me reconectando com o Fernando que eu deixei em Zurique. Louco, muito louco.

Ih, merda! A minha mala já chegou! Até +!