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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sobre a difícil arte de criticar

Tenho uma lembrança exata desse momento, logo nos meus primeiros dias de faculdade na Alemanha (Checklist do Projeto “Tornar-o-meu-blog-uma-vitrine-para-mostrar-como-sou-foda-inteligente-AND-jet-setter”: menção ao período em que eu morei na Alemanha + menção ao fato de que eu efetivamente estudei em uma universidade européia: DONE). Era aula de “Interação Cultural” com a professora Iken (o arquétipo da intelectual alemã: alta, vestida com roupas e tons sóbrios, cabelo eficientemente cortado em Chanel, morou por 5 anos em uma comunidade tribal no interior da Namíbia), ela sentada no final da sala de aula e uma aluna alemã (Hanna) na frente fazendo uma apresentação em PowerPoint sobre um texto da disciplina. Apresentação ligeiramente chata, depois de 15 minutos de luta contra o meu permanente sono daquela época (o lado nada legal de frio + falta total de luz solar que é o inverno báltico), batidinhas de madeira muito educadas, aluna agradece e senta.

Frau Iken levanta e diz que quer um comentário de estudante estrangeiro sobre a apresentação. Óbvio que ela aponta para o “aluno de cabelo encaracolado, o com cara de espanhol”. Eu obviamente era o único com cabelo encaracolado naquela maldita sala. Sorriso amarelo no rosto (afinal, uma das piores coisas do mundo é obrigar um estudante a criticar a apresentação de um outro estudante – qualquer comentário menos empolgado do que “Foi ótimo, achei muito bom!” ou com mais do que 10 segundos é passaporte sem volta para o clube dos Rejeitados&Odiados. Eu não queria entrar nesse clube. Eu não tinha amigos naquela droga de cidade, e aquele combo de frio e falta de luz estavam me deixando deprimido.), e eu comento “Foi ótimo, achei muito bom!” e olhei para a professora com aquela cara de “Mi English no es muy good!”. A professora ri como quem diz “Eu te entendo...” e diz que quer a opinião de uma estudante alemã. Escolhe Sarah, uma loirinha com suaves olhos azuis e carinha de camponesa inocente das planícies de Jutlândia. Sarah abre a boca e manda:

- O slide 4 estava mal explicado, o slide 5 estava mal estruturado, o slide 7 foi superficial demais e poderia ter sido bem melhor explicado com os textos que foram indicados para a apresentação, o slide 10 e 12 estavam confusos e não muito claros. No geral ela falou baixo e um pouco rápido demais, mas foi bem interessante a apresentação.

Eu ri nervoso de tão chocado que eu fiquei. Olho para frente e vejo Hanna anotando todas as sugestões da Sarah com a cara mais “Sim, muito bom seus comentários, obrigada!” e voltando para sua cadeira com aquela cara de tranqüilidade de quem não precisa fazer mais uma apresentação. Eu olho ao redor procurando alguém para comentar “BAFÃO! Caramba, você viu isso?!”. Todo mundo com a cara mais normal do mundo. Eu olho para a professora, ela ri e fala que esperava exatamente a minha cara de surpresa. E começa a falar sobre a diferença da forma de criticar entre alemães e latinos.

Depois de algum tempo na Alemanha, óbvio que comecei a pegar o ritmo local (mas claro, quando EU fiz a minha apresentação eu comecei com uma mensagem prévia onde disse “Eu sou latino, eu sou sensível, na minha cultura críticas em 90% dos casos são levadas para o pessoal. Por favor, PEGUEM LEVE!” e todos os alemães riram e obedeceram a minha ordem) e comecei a tentar ficar frio quando passava por situações como essas. Óbvio que nunca consegui 100% - se existe uma pessoa que escuta críticas, leva para o lado pessoal e fica mal com isso, essa pessoa sou eu. Mas só consegui efetivamente ficar bem com isso quando eu peguei a lógica dos alemães nesse aspecto: a crítica sincera é a forma mais eficaz de melhorar algo. E de você dizer que uma pessoa tem capacidade para fazer melhor.

No ano passado, no período imediatamente posterior a um comentário meu em um post do blog do Tony Goés (to be found here) que gerou uma pequena celeuma parecida a que ocorreu nos últimos dias, escrevi um post (this one) no qual eu comentei alguns pensamentos meus sobre como é difícil ter um blog e principalmente lidar com o inevitável: as críticas das pessoas que pensam diferente de você. Relendo o post, ainda percebo que sustento integralmente o que eu escrevi naquela época. Abrir um blog a comentários é praticamente instalar um telhado de vidro acima de você com LED's piscando "Atire aqui". Mas sem os comentários, blogar vira uma via de mão única, sem o inestimável benefício de ter a sua opinião contestada e de te dar a possibilidade de pensar sob óticas novas, perspectivas diferentes.

E quando falo comentários, falo de comentários que analisam o que você escreveu. Todo blogueiro adora escutar elogios, todo blogueiro adora receber comentários positivos e, com o tempo, todo blogueiro perigosamente cria uma necessidade dos comentários elogiosos dos leitores mais assíduos do blog - que obviamente são os que mais se identificam e pensam como você. 99% dos leitores que leram seu blog uma vez e não curtiram não vão voltar a ler o seu blog. Dentro desse 1% que leu, não gostou, ficou puto/ofendido com o que você escreveu e se motivou a apertar o botão de comentários, a esmagadora maioria vai assinar como 'Anônimo' e meter o pau com o objetivo de te ofender pessoalmente. Agora, a pequena minoria que não concordou e que vai meter o pau em você com argumentos válidos, contestando com base no que você escreveu... esse é o tipo de comentário que com certeza faz valer a pena ter um blog. Esse comentário é aquele que vai fazer o blogueiro parar por 1 minuto e pensar "Será que eu realmente podia ter pensado de forma diferente?".

Sinceramente, achei o post do Tony sobre a morte do Bin Laden uma análise rasa e superficial. Parei para ler o post depois de um dia de trabalho + faculdade intenso (como infelizmente a maioria dos meus dias são:  sabe como é, infelizmente não dá para fazer uma ponte aérea "Brasil-Europa" sempre que dá vontade - Checklist do Projeto “Tornar-o-meu-blog-uma-vitrine-para-mostrar-como-sou-foda-inteligente-AND-jet-setter”: menção ao fato de que eu viajei para o Exterior nos últimos meses independente do fato de que somente viajei DUAS vezes para o exterior em toda a minha vida: DONE) e discordei de quase tudo do que ele falou ali. Apertei o botão de comentários e escrevi tudo o que eu pensei sobre o que ele tinha escrito - em muitas linhas porque essa a forma que eu escrevo, relacionando com as coisas que eu já li/escutei/estudei porque foram coisas que eu li e eu veio na hora falar - e enviei o comentário. Sob o meu nome, sob o meu avatar porque foi isso realmente o que eu pensei e porque acho incrivelmente bobo e covarde entrar um blog e enviar uma opinião sob a máscara do "Anônimo" e porque sou inteligente o suficiente para saber o Tony saberia que eu escrevi aquele comentário.

Sobre a resposta do Tony (que gerou toda a discussão) em si, acho que vale muito pouco a pena comentar, ele deixou claro os argumentos e prerrogativas dele num post do blog dele que todo mundo leu e ponto final. Sobre o Tony as blogueiro, tirei cinco minutos do meu dia (quando poderia estar levando 'meia hora de rola' - Anônimo, você nem sabe o quanto faria bem pelo menos meia hora... :D) para comentar sobre aquele post porque achei e acho que ele tem capacidade intelectual de sobra, experiência de vida (que infelizmente eu não tenho - concordo plenamente que muita coisa só se aprende com o tempo: mas não tudo) e leitura de boas fontes o suficiente para ter escrito algo melhor e mais fundamentado. Já entrei em milhares de blogs, leio assiduamente os que estão no meu blogroll e comento nos quais acho que vou ter uma opinião diferente ou concordante sobre aspectos que me interessam e onde sei que o autor pode rebater a altura/mesmo nível. That is it. Foi isso que aconteceu naquele post, concordo quando Lucas T. disse que "Pensei que pela sua idade avançada (sorry, não resisti) fosse kind of imune a certos comentários e "retaliações".", acho que os comentários "Incrível seu texto! Muito bom!!!" redundantes e sinais de uma necessidade de atenção e carência desesperada por parte da figura do leitor que eu não consigo entender e ponto final. Continuarei lendo o blog 'Tony Goés', continuarei comentando nos posts em que eu discordar e achar que vale a pena mesmo falar alguma coisa, continuo achando o Tony um cara interessante por toda a experiência de vida (completamente diferente da minha) e (mais uma vez) ponto final.

Sobre os comentários gongativos em relação ao blog (que obviamente vocês sabem que eu li - e o melhor de todos, seguramente, é o do 'O Gato Comeu' e "...tony sinto que no fundo vc tem um coração, o fernando eu já não sei, parece que ele tem uma calculadora de milhas de viagem no peito." - Lieber, Ryanair é uma empresa onde as comissárias de bordo vendem bilhete de loteria durante o vôo e que tem planos de vender passagens onde os passageiros voarão em pé. Você realmente acha que eles tem programa de milhagem? Mesmo?!), claro que eu fiquei (por cinco segundos - tempo que a minha hiperatividade me permite ficar focado em alguma coisa) chateado, claro que eu repensei sobre a utilidade de realmente blogar e colocar a minha cara a tapa na blogsfera. Óbvio que ler "Não gosto do blog do tal Fernando. Posista, pernóstico, deslumbrado. Prolixo ao extremo. Despreza solenemente a inteligência de quem se interessa pelo que ele escreve." me faz pensar se eu levei o meu blog na direção correta, se realmente eu reflito quem eu sou e o que eu realmente penso no Lost und Found in Translation.

Mas e daí que eu sou considerado "prolixo ao extremo"? (Momento "Abrindo meu coração": fiquei durante anos grilado com o fato de eu sempre usar muitas palavras e informações para falar sobre qualquer coisa até o dia que, em um date com um russo, eu comentei que adorava Dostoievski e o FDP respondeu "Dá para ver. Você não pára de falar. Eu odeio Dostoievski.". Sorri amarelo, levei o date até o final da noite, deixei o cara visivelmente puto quando falei que queria ir para casa. E continuei lendo Dostoievski e seus calhamaços cheios de frases intermináveis.) E daí, por ser crítico ao capitalismo, eu sou considerado "comunista de butique"? (uma das minhas melhores amigas - uma das pessoas mais inteligentes e brilhantes que eu conheço, uma das poucas que leu Marx, conseguiu entender 5 linhas do que ele escreveu e que eu consigo sinceramente chamar de "comunista" - riu ALTO com essa. Justamente por saber a profundidade e conhecimento que eu tenho sobre qualquer coisa que Marx já escreveu. :D) E daí que eu sou considerado "esnobe" e eu seria "muito sabe-tudo, é muita finesse adquirida que essa gente (nós míseros leitores) não tem, muito conhecimento pronto e acabado, economia, enologia, linguística, história universal..."? (Bem, os posts sobre a minha crise de Mid-20's ou sobre o meu 'desconforto' por eu, na verdade, eu ser suburbano estão ainda no ar.) E daí que eu "endeusaria a minha experiência de intercâmbio na Europa"? (O primeiro post do blog também ainda está no ar e explica muito do que me motivou a começar isso daqui)

No fundo, é como um grande amigo resumiu hoje em um email para mim. "Mas esse é o preço de se expor na internet. Deixar que alguém que só enxerga uma moldura sua te imagine por completo.". E o que eu posso fazer? Convidar cada um dos anônimos a ler os posts que eu linkei acima e meter o pau em cada um deles - com argumentos, bien sur. E that's all.

E continuemos com a programação de sempre.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

It closet


Em idos de 2001, quando eu era apenas um pequeno rapaz campo-grandense (Campo Grande being subúrbio Far-Far-Far Away do Rio, não a capital sul-mato-grossense) do subúrbio do Rio de Janeiro, estudando de um tradicional colégio federal do Rio de Janeiro (meu uniforme era tão 'Baby one more time' feelings :D), provavelmente muito empolgado por estar no meu primeiro relacionamento sério com uma 'pessoa' (adoro quando aquelas caras obviamente gays vão dar entrevistas para Fantástico/Globo Repórter e ficam falando “Mas por que eu gosto de uma 'pessoa'...), provavelmente por estar cansado e triste de repetidamente estar dando balão na minha mãe (“Mas mãe, o pessoal do alemão resolveu marcar um grupo de estudos justamente para sexta-feira às 21h, acredita?!”), provavelmente louco de achar que minha mãe aceitaria 'a verdade' tão facilmente assim, eu resolvi fazer o meu coming-out. Isso mesmo: 16 anos de idade. Enquanto (nessa idade) muitos dos meus amigos gays ainda levavam fé nos seus amassos de matinê com menininhas na Prelude/El Turff, eu já tinha sacado o que eu realmente curtia, já tinha contado tu-di-nho para mamãe (e sofrendo como um condenado por isso – ainda conto a história completa desse acontecimento) e era um leitor costumaz das matérias estilo “10 dicas de como fazer seu homem enlouquecer na cama” das Nova Cosmopolitan e Marie Claire da vida. :D

Talvez por ter feito o coming out tão cedo, talvez por ter pago tão caro e ter que lidar com a frustração potência dois mil de uma mãe paranoica e obsessiva que não media esforços para tentar me colocar no 'caminho certo' (e que provavelmente deveria oferecer treinamento para a CIA e Mossad sobre técnicas de coerção e investigação estilo “O-que-eu-fiz-quando-falei-que-fui-para-tal-lugar”), talvez por ter passado boa parte da adolescência tendo que lidar com o fato de que a minha mãe jamais iria aprovar qualquer coisa de bom que eu fizesse (porque sempre existia a sombra de 'uma certa verdade' que fazia ela dizer que gostaria que eu fosse qualquer um dos rapazes da meu bairro, mas não eu), eu tive que compensar na valorização do fato de que foi bom eu ter sido sincero e ter contado a verdade. Nos piores momentos, onde tudo parecia incrivelmente difícil e eu começava a me culpar por ter sido tão idiota de acreditar que tinha valido a pena ter sido tão sincero tão cedo, eu jogava uma água fria na cara e repetia para mim mesmo que o preço de ter sido verdadeiro era imensurável. Eu não precisaria lidar com essa verdade mais tarde, e logo, quando eu fosse uma pessoa independente e autossuficiente em termos financeiros, minha mãe acabaria entendendo e me aceitando. (P.S.- Ai, esse parágrafo ficou uma coisa tão "Can't take that away"... Foi malz, hein...)

Sendo assim, eu confesso que tenho certo bloqueio de entender porque as outras pessoas não fizeram o mesmo. Entender porque pessoas, já autosuficientes, esclarecidas, seguras do que realmente são, não conseguem se assumir e falar “Eu gosto de moda, eu não uso bermuda cargo, eu sou viado”. Ok: eu entendo que cada um é um universo particular de condições, realidades e histórias, blablabla... Mas confesso que a história de alguns amigos desafia a minha compreensão e exigem certa dose de “sorriso amarelo”+“claro que eu te entendo!”, como a história de dois amigos que eu conto aqui abaixo.

O primeiro é um grande e queridíssimo amigo (que espero que não seja leitor do blog! :D). Advogado, bonito, um dos únicos homens cariocas realmente bem vestidos que eu conheço. Mora atualmente no Leblon, foi criado dentro da Jeunesse Dorée de Niteroí (para quem não é do Rio: Niteroí é um cruzamento de New Jersey com Hamptons, cidade da região metropolitana do Rio poder aquisitivo médio mais alto do que a média da cidade do Rio, mas que por um motivo obscuro... tem uma vida noturna e cultural próxima do zero, o que obriga a maioria da sua galera jovem a ter que partir para o Rio em busca de entretenimento nos finais de semana), atualmente completamente independente em termos financeiros dos pais. Enfim: he is got the looks, the brain, the personality. E apesar de “descoberta tardia”, já tem constando no seu currículo alguns bons relacionamentos de médio prazo, histórias realmente sérias (do tipo namorado fixo, que vai a cinema no final de semana, viaja para destininhos românticos em feriadões, etc&tal). Garotas? Segundo as contas dele, a última ficou para uma noite meio embaçada pela vodca no final de 2009, provavelmente em alguma night “Hetero moderninha”, provavelmente com alguma 'Fag Hag' mais atiradinha e entendiada pela viadice dominada pelo lugar. Mas, mesmo assim... a pessoa ainda se define como... “bi”. E simplesmente não consegue vislumbrar a menor possibilidade de, no médio prazo, se assumir realmente como é para família e amigos, e fica naquele estilo de vida estranho de ser uma coisa no Rio, outra coisa completamente diferente em Niteroí.

Desafio maior à compreensão é o segundo caso. O cara é aquele clássico tipão de intercambista que veio da Alemanha para o Rio de Janeiro, ficou deslumbrado pela beleza da cidade, simpatia das pessoas (oi?!) e abertura em termos sexuais e sociais do carioca médio (hein?!) e criou uma relação especial com a cidade (e para quem eu, escutando ele listar todas as 3053 razões pelas quais ele acha que o Rio é muito melhor do que Berlim, somente sorrio pensando “Deixa ele morar aqui 1 ano para ver como ela vai amar tudo isso” e olho para o meu amigo inglês que está pensando a mesma coisa do que eu). Devido ao seu tipão “Sou-loiro-sou-alto-sou-fortinho-Sou-o-que-Hitler-sonhou-pro-mundo” provavelmente passou o rodo em um número considerável de meninas cariocas (que levam a merecida fama das brasileiras mais jogo-duro, mais “não vou dar assim fácil não!” entre os heteros - mas que abrem as pernas para os gringos, afinal... receber bem o turista é uma obrigação de cada carioca, néam? :D) até o inesperado acontecer: ele topar com um menino brasileiro e ploft!: rolar uma atração inexplicável (o “ploft!” fica à cargo da imaginação fértil de vocês). Curto demais o garoto (mas preciso mesmo bancar o Fernando “bonzinho, coelhinho-na-floresta, amo-o-mundo-só-vejo-o-lado-positivo-das-coisas?” com vocês? Não, néam...), mas preciso confessar que sinto demais aquela coisa de “Clássico caso de 'Porque alemães amam brasileiros'”: do alto dos seus 19 aninhos, morenão com corpão, inteligência definitivamente não é o forte (o que me faz suspeitar de... enormes qualidades não aparentes do ambiente de um restaurante ou sala de estar... :D), recém-saído do armário e com aquela idealização do mundo dos relacionamentos tão típica de quem acabou de sair dos 'teen years', tão típica de quem ainda assiste Bridget Jones e outros clássicos ingleses de comédia romântica e super acredita que dá para transportar isso para fora das telas e viverá uma história igualzinha no mundo gay contemporâneo. Os dois juntos chegam a ser uma coisa “Felícia-in-love”, uma coisa “Labrador-pulando-em-cima-do-dono” de tão Te-amo-te-quero-quero-ficar-todo-o-tempinho juntinho-e-coladinho-em-cima-de-você. Eu fico meio mal perto do garoto, porque sinceramente enxergo nele o inocente-romântico-e-cheio-de-ideais Fernando de alguns anos atrás (mentira: eu sempre fui consideravelmente cínico e cético – esses dias encontrei um dos meus antigos diários de adolescência e fiquei cho-ca-do como eu já era mau: eu metia pau nos meus amiguinhos de classe que me zoavam, nos professores, nos meus familiares e até em alguns dos meus amiguinhos menos próximos! Gente, por que eu sempre fui assim? #Criseinternafeelings) e tenho que me controlar ao máximo para não deixar o meu instinto “WAKE UP, SWEETHEART!” vir à tona e chocar o garoto com o fato de que os filmes para adolescentes da Disney e Malhação não  te preparam para o mundo dos relacionamentos gays no Rio de Janeiro contemporâneo (o máximo do meu autocontrole foi quando estávamos num get together, e ele disse para gente que curtia estar em relacionamentos porque relacionamentos são “um tipo especial de conexão com outra pessoa, essa coisa meio 'um fazendo a barba do outro, juntos de manhã depois de uma noite de amor dormindo juntinhos” - eu respirei fundo, segurei a minha cara de “WTF?” da melhor forma que pude, virei a taça de vinho na minha mão goela abaixo e fui acender um cigarro). Enfim, voltando ao caso inicial: o alemão parece ter se apaixonado de verdade pelo cara, os dois decidiram enfrentar um relacionamento a distância monogâmico, o alemão pega a Lufthansa de volta para o Brasil na primeira oportunidade que encontra pela frente, quando os dois juntos é aquela coisa linda, aquela coisa “Born to make you happy”, etc&tal. Por que diabos estou contando essa história? Por que somente esses dias, quando proferi um discurso “Por que nós, gays...” na frente do Deutscher, eu fui saber ficar com caras é uma coisa meio tipo “Ao Sul do Equador não existe pecado” por parte do alemão: o cara é gay no Brasil e hetero na Alemanha. (!!!) Hein?

A minha capacidade rápida de pré-julgar as pessoas definiria esses dois casos como falta de coragem e culhões. A minha proximidade com eles me faz passar a mão na cabeça, e apesar das minhas pontuais tentativas de tentar mostrar que o mundo “Somewhere Over the Rainbow” tem uma riqueza e uma paz de espírito incomparáveis com o mundo dentro do armário, de tentar compreender os motivos e razões de caras tão... prontos para saírem do armário não o conseguirem fazer.

Mas enfim... o que fazer, néam?

segunda-feira, 28 de março de 2011

我々は世界です (金持ち、少なくとも)


Eu sei. Eu também fiquei chocado com as imagens do terremoto + tsunami no Japão. Eu também fiquei impressionado com as imagens de satélite das regiões mais afetadas, do tipo "Antes e Depois", mostradas no site do TheGuardian. Eu também fiquei com o coração partido com as imagens das criancinhas japonesas afetadas por toda a inacreditável desgraça da ameaça de meltdown em Fukushima. (Juro que eu sou das pessoas que mais detestam crianças, meu instinto paternal é simplesmente inexistente e sou felicíssimo por ser gay por não correr o risco de ter esse subproduto das relações sexuais chamado filho... mas imagem de criancinha asiática me desmonta. Dá vontade de apertar até dizer chega, dar um Tamagochi e mandar ela ir brincar com os amiguinhos no parquinho. Fofo demais, néam?).

Mas... "Campanha para auxiliar as vítimas do terremoto no Japão"? Mega concerto para arrecadação de fundos para as vítimas do tsunami? Afeganistão doando US$50 mil dólares, Sri Lanka doando US$2 mi + equipamentos de resgate e medicamentos para o Japão?

Alguns pensamentos (cruéis, é claro) vem a minha mente agora:

1) Japão é a terceira maior economia mundial: Sério, o Japão é uma economia tão chique, tão desenvolvida, tão rykah que eles se dão direito de ter deflação, honey. Não sabe o que é deflação? Pausa no texto para você, pessoa moderna e incluída digitalmente jogar a palavra no Wikipedia É quando o preço dos produtos cai porque simplesmente não existe demanda suficiente para atender a oferta (entre outros motivos, claro, mas eu estou dramatizando a teoria econômica para efeitos textuais :D). Em outras palavras, o povinho de olho puxado comprou tanto Toyota, tanta Louis Vuitton e tanto celular Sony que não tem mais o que comprar. (Enquanto você aí ferrado em 17x com muitos juros para comprar aquela mesinha da Tok&Stok feita de madeira compensada...)

2) Japão é o maior welfare state que equilibra qualidade x população atendida: Por que vamos combinar que fornecer hospital, escola, transporte público eficiente, tratamento psicológico (por que desenvolvimento e falta de problema real equals distúrbios psicológicos), moradia decente e estímulos financeiros para as pessoas procriarem para uma população de 9 milhões de pessoas altas, magras, loiras, lindas e suicidas é muito fácil. Outra é você estender esses benefícios para 130 milhões de pessoas.

3) Japoneses são os turistas que mais gastam ao redor do mundo: Todo mundo que já visitou as grandes capitais do mundo sabe – dá muito ódio e inveja ver turista japonês. Eles sempre andam em bando. Mas é um bando diferente dos outros grupos de turistas asiáticos. Nada de casaquinho “Vou pro Pólo Norte” de novo rico chinês. É trenchcoat Burberry, é bolsa Ferragamo, é sapatinho Prada - e tudo isso com aquela pele de porcelana impecável devidamente hidratada com produtos Shiseido. E não é só um: são MUITOS. Todos juntos. Saindo felizes e contentes carregando sacolas e sacolas da Louis Vuitton. Justamente enquanto você sai da H&M carregando uma sacolinha e decide se vai comer no Mac Donalds ou um Döner Kebab na esquina. Mundo injusto. Mundo muito injusto.
P.S.- Fiquei sabendo por um amigo francês uma história de que as lojas da Louis Vuitton em Paris simplesmente recusam-se a vender mais do que duas bolsas da marca para qualquer turista japonês. Segundo ele, mesmo indo de contra às 2542 leis antidiscriminação existentes na França, a Louis Vuitton faz isso como uma tentativa de proteger as filiais japonesas da marca, que em média cobram um preço mais alto pelas bolsas do que as filiais francesas. O que os japoneses fizeram? Já é absolutamente normal para os parisienses serem parados na Champs Elysees por japoneses ensandecidos com centenas de euros nas mãos e implorando para que eles entrem e comprem uma bolsa para eles! (Claro: França não é Escandinávia, e a polícia parisiense já atendeu não-sei-quantos-casos de turistas japoneses que perderam sua grana depois de pararem um estranho na rua e o estranho simplesmente desaparecer com o dinheiro deles.)

4) Japão é um dos principais mercados de luxo do mundo: Senão for o principal mercado de luxo do mundo. Claro, por motivos de status, as grandes maisons tem que filiais em Paris, Londres, Nova York, Milão... (E claro, na Oscar Freire e Garcia D'Ávila, néam? :D) Mas o principal mercado, considerado o mais estratégico para o sucesso ou derrocada de uma marca, seguramente é o japonês. E do tipo, não é só abrir uma flagship store na Omotesandō em Tóquio e acabou - tem que ser um prédio fodástico, assinado pelo baladérrimo escritório de arquitetura Fulaninho&DeSicranon, painéis de vidro que reclinam conforme o momento zen budista do universo e luzes em LED em toda a fachada emitindo a mensagem “Rykeza, Rykeza”. Afinal, toda aquela história de 'cerimônia do chá' (coloca aguinha no copinho com mãozinha em posição de 'lótus-reverenciando-a-cegonha-desafiadora', deixa descansar por 15 minutos – nos quais você deve ficar absolutamente imóvel sentadinho naquela posição de gueixa em cima daquele tatame duro – reverencia a cegonha-desafiadora de novo, dá um micro golinho e coloco o copinho de volta na bandejinha) reflete o apreço nipônico pela “whole experience”, e para eles comprar um produto de grife é mais do que um mero ato de compra, mas todo um processo simbólico de representação do status ocidental.

Será que realmente o Japão precisa tanto de ajuda assim, hein? Sofrimento humano é imensurável e sempre impossível de ser comparado, sempre tem que despertar o espírito de solidariedade que temos na gente... mas sejamos um pouco mais pragmáticos, não é?

Só para terminar: alguém aí sabe o que foi feito do Haiti, hein?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

All I want for Christmas


Pisa, última parte do meu European Bitch-and-Lonely Tour. Última parte daquele tipo de viagem que você sabe que sempre você irá lembrar como o auge da sua vida (viajar pela Europa, óbvio que iria rolar outra vez - mas com vinte e poucos anos na cara, sozinho, pouco dinheiro no bolso e a incomparável e indescrítivel sensação de first timer, infelizmente nunca mais :D). Ainda sob o efeito Roma (um misto de sentir-se um nada perante toda a história humana bem ali na sua frente, sentir-se em êxtase e do tamanho do mundo pela capacidade absurda de criatividade e realização humana), não necessariamente triste, mas um tanto quanto melancólico. Sentimento natalino? Ficou lá em Frankfurt - os mercados de Natais chic et fashion de Paris não me convenceram, com suas casinhas brancas, luzes azuis e pretenso elegante estilo off-white; muito menos conseguiria sentir qualquer Christmas feeling em Madrid (onde o máximo que dá para conseguir é um hangover feeling).

E lá estava eu, em Pisa, para passar o Natal com uma amiga de uma tia. Família brasileira: rabanadas, peru e tudo mais o que pudesse se adaptado a um Natale Italiano. Inclusive compra dos últimos produtos exatamente no último dia de Natal.

Até aquele momento o Christmas Feeling não tinha batido direito. Vinte e Quatro Natais com verão, calor insuportável, ida à comércio popular para comprar o fatídico modelito para a véspera da Natal, bermudinhas, mais calor insuportável na cozinha enquanto minhas trocentas tias cozinhavam os clássicos de qualquer ceia de Natal (minha tia preferida fazendo a minha all favorite torta de limão) e passar a noite de Natal no jardim da casa da minha avó, reclamando do calor absurdo e fofocando sobre os últimos assuntos da família. E um Natal com frio, neve, roupas de inverno, cachecóis com motivos natalinos, pinheiros genuínos de Natal decorados com luzes brilhantes e coloridas, quentão (clássico do Natal na Europa, com alemães proclamando que é uma tradição natalina alemã, húngaros orgulhosos falando que a sua versão é a correta e franceses tentando terminar a discussão utilizando o argumento que vinho aceitável e bebível inexiste no além-fronteiras de Republique). Claro que ainda não havia rolado a sinapse que aquilo era o Natal.

E lá pelas 13h fomos ao hipermercado comprar os últimos ingredientes para a nossa ceia. Ana, realmente não acreditando que a capacidade de comunicação internacional (assim com a minha cara-de-pau de estabelecer uma comunicação em qualquer idioma) não tinham limites, me delega a tarefa de comprar azeitonas a granel e me deixa na fila enquanto vai procurar outra coisa qualquer.

Enquanto espero a minha vez na fila (esperando na fila - já se via que eu estava completamente adaptado à cultura alemã :D), eu olho ao redor. E vejo um supermercado típico de véspera de Natal: mamas comprando os últimos ingredientes para a ceia, nonas carregando peças enormes de carnes, crianças pentelhando tentando conseguir a última extorsão pré-presente de Natal... Engraçado: tão longe de casa, tão igual à casa...

E bem nessa hora eu sinto um cheiro. Tender assado. Saindo do forno, no setor de pratos prontos. Tender assado. Tender assado. Tender assado. E vem na memória aquela sensação de calor absurda, minha tia gritando "Jesus, que calor é esse!" enquanto coloca o prato saído forno em cima da pia...

E ao meu redor somente famílias italianas gritando. E massas Barilla. E proseccos. E a vista dos Apeninos pelas janelas do supermercado. E mais famílias italianas gritando (deus, como italiano fala alto!).

E no fundo daquela gritaria todo, sons de sininhos. Sininhos natalinos. E uma voz feminina acapella cantando "Iiiiiiiiiiiiii... don't want a lot for Christmas... There is just one thing I neeeeeeeeed...". Cantando que não liga para os presentes debaixo da árvore de Natal, porque só tem uma coisa que ela quer.

Sim. O meu espírito natalino de 2009 decidiu dar as caras num hipermercado nos subúrbios de Pisa com Mariah Carey cantando "All I want for Christmas". O primeiro Natal longe da minha família. Do outro lado do mundo. Num frio do caralho. Sem presentes. Sem tender assado. Sem calor absurdo. Sem presentes. Sem presentes. Sem presentes.

Meia hora depois estourava lindamente o meu orçamento diário de viagem comprando um lindo-mas-inútil-para-o-clima-tropical-do-Rio suéter lilás na Benetton. Uma hora depois começava a chorar ridiculamente num cybercafé administrado por uns paquistaneses assim que a minha mãe atendera o telefone na casa da minha avó e eu escutara aquele som de bagunça que só quem tem família muito grande sabe como é e pensava que estava todo mundo lá, menos eu. Chorei ainda mais assim que liguei para Hamburgo e percebi que o meu amigo mexicano-americano realmente sentia a minha falta naquela noite. E chorei ainda mais (haja lágrima) quando liguei para o francês que tinha conhecido na última noite em Paris (e que me stalkeava desde então) porque estava muito carente e ele tinha reagido muito estranhamente à minha ligação (cette FDP se tornaria posteriormente meu namorado e alvo da chantagem "Você atendeu estranho aquela minha ligação de Natal!", a qual ele pagaria cada franco pela atitude demi-bombe dele :D).

Saí do cybercafé para o carro da amiga da minha tia secando as lágrimas. Ajeitei o cinto do trenchcoat, arrumei meu cachecol de lã de alpaca enquanto ela dirigia às margens do rio Arno. "Com cara inchada, mas elegante" pensei eu. E olhei para a mistura de prédios renascentistas e barrocos na Lungarno Mediceo. E pensei na sorte que tinha. E voltamos para casa, tive meu Natal italiano, passei o dia de Natal mais fantástico da minha vida passeando pelas ruas vazias de Florença (e o resto vocês sabem porque contei aqui no blog).

E o que talvez vocês não saibam é que mais uma vez Fernando foi vítima do late Christmas Feeling. Em pleno horário de almoço do estágio, em frente à vila de Natal do shopping RioSul, olhando toda aquela decoração fake com pinheiros e casinhas de Natal e pensando como ao vivo era tão mais fantástico, mais colorido, mais mágico. Quando na Renner, ao lado, começa a tocar "All I want for Christmas". Thanks Mariah, again. Obrigado por me relembrar da longa lista de pessoas com as quais eu gostaria de estar nessa noite de Natal juntinho, dentro de um chalé qualquer bem no meio dos Alpes. E obrigado por me relembrar que isso é praticamente impossível de acontecer! :)

Lição de Natal aprendida? Não importa o lugar do mundo em que você esteja, você sempre irá ficar deprimido porque aquilo que você realmente quer você não vai ter. :D De desde ao Ferrorama que sua mãe substituira pelo Autorama, Barbie Sonhos de Princesa Rosa substituída pela Susy Veterinária, Jogo Imobiliário substituído pelo idiota Imagem e Ação... Até todos os amigos ao redor do mundo que você gostaria de dar uma abraço bem forte e falar que tem saudades pra caralho deles.

Mas não adianta. Porque todo Natal a gente continua esperando que vai dar certo. Que vamos ganhar o presente que a gente quer. O presente perfeito.

E lá vamos. Colocando o maldito sapatinho na janela. Continuando com a tradição, mantendo a esperança. :D

Feliz Natal para vocês.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Weekly Report: Novembro, Semana 48

(Uma tentativa... de manter o contato com vocês. E de falar algumas besteiras, bien sûr. :D)


Crise do Euro, Irlanda, Portugal, Grécia (e todos os outros países-peludos) se ferrando
Primeiro: estava óbvio que legal não tava... mas também ninguém não queria muito acordar para a realidade, não. Dublin infelizemente eu não conheci, mas Portugal e Espanha pareciam way wealthier do que eu jamais imaginei – isso depois de eu ter conhecido a Escandinávia e ter morado na Alemanha (ou seja, nada de choque “subdesenvolvido goes to Europe”). Em Portugal discutiam seriamente um projeto de reconstrução da linha de comboios rápidos Alfa Pendular que custaria uma fortuna absurda em euros e que reduziria o tempo de viagem entre Lisboa e o Porto em enormes... 20 minutos. Já na Espanha, ainda hoje comento do aspecto palaciano do sistema de trens urbanos de Madrid – estações e túneis gigantes quase que inteiramente subterrâneos, trens que faziam seus equivalentes dos serviços urbanos de Paris e Berlim parecerem ter sido doados pela Supervia/CPTM – e de como aquilo devia doer um pouquinho no espírito de alemães e franceses quando pensavam que aquilo estava tudo sendo financiado com dinheiro da UE.

Segundo: Sinceramente, não faço a mínima ideia se Portugal escapa dessa vez. Difícil mesmo prever uma coisa que vai acontecer. Mas uma coisa é certa: entrando Portugal e Itália declarando que não vai muito bem das pernas, F-U-D-E-U. Se eu consigo imaginar a Europa sem o euro e voltando às suas moedas nacionais? Não. Economicamente, por mais que a Alemanha reclame de ter que pagar a conta da má administração de meio continente, o euro foi uma das melhores coisas que aconteceu para a combalida economia alemã. E politicamente... a parceria França-Alemanha já chegou num nível sem volta, e tanto Berlim quanto Paris sabem que enfrentar EUA e China uma sem a outra definitivamente vai ser muito pior.

E terceiro: eu juro que super imagino Betinha deitada num confortável sofá com seu MacAir no colo, num live chat com as amigas Silvinha, Margô e Soninha enquanto assiste Frau Merkel tentando explicar para os eleitores alemães porque eles deveriam financiar a dívida dos “povos do sul” (“Liebe Volk, eu sei que eles são bagunceiros, gastadores, incompetentes, só querem saber de festa e desconhecem qualquer conceito de ordem e disciplina... mas se eles quebrarem tamos com o salsichón no Kuh! E já que a gente não pode invadir, então só resta ajudar financeiramente, néam?”). Betinha digita no computador “And they thought we needed them, didn't they, girls?” e seu riso ecoa pelo Mar do Norte. :D

Homofobia não
Absolutamente me decepciona o que aconteceu tanto na Paulista como no Arpoador (e eu quero é mais ver cada um dos culpados pelos dois casos dentro da cadeia, servindo de mulherzinha pra geral).

Mas sinceramente? A indignação, a mobilização geral, o “Temos que fazer alguma coisa” acontece somente quando os casos acontecem dentro da bolha de Ipanema e Jardins? Eu sei: é onde a imprensa está, é onde a imprensa cobre, bla bla bla. Mas minha “experiência de subúrbio” (A-ham) lembra que viadinho e travesti morto são fatos absolutamente comuns, assim como Polícia e Exército fazendo suas merdas eventualmente sem que ninguém falasse de nada.

Afinal, não custa lembrar que o Brasil é o país onde mais se matam homossexuais fora do mundo islâmico, não é?

Parada do Rio
Não fui. Porque sinceramente... #1 odeio multidões, #2 odeio música alta + multidões, #3 odeio música alta + multidões + vinho barato que pode manchar qualquer uma das minhas roupas, #4 porque meu amigo não topou participar do programa de índio e me convenceu ficar vendo “Esquadrão da Moda” no Discovery Home & Health. Mas lá pelas 21h fomos tomar um chopp por Ipanema, demos uma passada na praia e fizemos a Celina-e-Odete (“Mon dieu Celina, mas o que é isso?!”) com a cena da praia na altura da Farme tomada por Pokemóns adolescentes vestidos de Restart e falando o mais autêntico Katylenês – calças jeans skinny em tons berrantes em profusão (eu sempre defendi a Skinny, mas porra: amarelo ovo? Roxo? Verde-limão?! Não dá, néam!) e muito “Ai bee, tô locaám, me passa esse Ice aquieám!”. Mas passado o choque inicial (de ver tantos projetos-travecos juntos – gente, na minha época não era liberado assim não e viadinho tomava coió no colégio!), sabe que eu fiquei até um pouco feliz? Para muitos dali era uma das raras oportunidades de darem pinta, serem o máximo de viados que pudessem ser, de se sentirem incluídos dentro da categoria “Sou Gay”. E dessa galera nova, mega afetada e mega BEEESHA! é que nós precisamos.

E a reflexão Pós-After-da-Parada...
Quando as bees cariocas vão entender que barra de cueca Calvin Klein não é chique, muito menos cool e longe de ser estilo, hein? (Porque sinceramente, a visão permamente-de-todo-e-em-qualquer-lugar daquela camisa pólo com aquele pica-pau absurdamente gigante já considerei como dada para o próximo verão carioca).

Palavrinha Nova
Pensa num 'Bear'. (Não bee, tô falando num homem gordinho e peludo mesmo, não num Urso Polar.) Tira a gordura mas mantém os pêlos. Um Wolf, certo? Ok, agora tira ainda um pouco mais de gordura. Skinneou, certo? Sabecomoéonomedisso? Squirrel. :D

Cena da Semana
Última quinta-feira de noite, amigo chama para um chopp no “Tô nem Aí” (eu sei: é tipowz aquele programa que você sabe que vai ser furado, mas que você vai... porque no fundo acha legalzinho. Total tensão no ar tipo “Gringo seeks a local / Local seeks a gringo”). Abro o guarda-roupa, boto uma camiseta social-but-casual (Oi?), bermuda, Converse cano longo vermelho e olho para os meus cachecóis europeus. Como tava um vento estranho no ar (e no Rio toda vez em que você quer fazer a linha “Puta-não-sente-frio” você acaba batendo queixo com um vento gelado vindo do mar), resolvi arramatar o look com um dos meus preferidos – um laranja – praticamente um companheiro de viagem. Me olhei no espelho, aprovei o look depois da auto-pergunta “Eu me pegava?” e saí feliz e contente de casa.

Um chopp se tornou dois chopps que se tornaram cinco chopps, toca Pitbull no ambiente, “Ai, eu quero dançar... Vamos pro Galeria?!” (sim, uma alma reagattonera existe debaixo dessa imagem eu-amo-Europa), e voilá Galeria. Small performance ao som de “In my arms” (“How do you describe a feeling?... I've only dreamt of this... WOW!”). Voltando para o bar para encontrar o meu amigo (o que no Galeria significa... 20 cm de distância ocupados por 15 cacuras e pessoas estranhas) quando uma coisa me para. Gordinho, usando uma camiseta preta justinha no corpo (quando as pessoas vão entender que “camisa justinha” só funciona quando você tem a quase impossível combinação de corpo magro/longilíneo mas sem NADA gordura, porra?) com uma clássica idiota mensagem em glitter, segurando um drink coloridinho com uma das mãos (odeio drink “coloridinho”: drink tem que ser transparente, opaco e no máximo a intervenção de uma grenadine. Mais do que isso, pra quê?). Ele para, pega no meu cachocol. E numa voz proto-diva me solta “Too much.”. E saí.

Durante 1 segundo (hiperativo: a gente pensa rápido demais mesmo), minha cabeça processa a informação. Um cara deselegante, gordinho, usando “camisa justinha” tentando passar lição de “How to get dressed” para mim? No Rio de Janeiro, uma das cidades mais legais do mundo? Rá. Rá Rá. Rá Rá Rá.

Eu viro de lado. Faço a minha melhor cara “Blair Waldorf's Über-Bitch Face”. Sorrio o mais tender dos meus sorrisos. E mando:“ 'Too much of fat' you meant, darling?”

A criatura faz aquela cara atônita de “Oi?”. Eu viro as costas. E jogo o cachecol pelo ombro da forma mais nonchalant possível que eu sei que consigo fazer – com a certeza de a ponta foi na cara dele. E continuo conversando com o meu amigo.

E decidido: o visual do verão? Qualquer coisa com cachecol. Eles já passaram 9 meses dentro do guarda-roupa, precisam de uma diversão, coitadinhos. E se todo mundo (meaning TODO MUNDO MESMO) pode sair exatamente igual de pólo da Reserva, porque eu não posso fazer a linha “Verão na Costa Amalfi”? :D

E a última
Contei para vocês que estou morando em Ipanema?

(É, eu sei: um passo crucial para a transformação numa “bicha phyna” foi dado. Agora só falta comprar a minha coleção de livros de mesinha de centro Taschen e fazer minha filiação no PSDB*. :D)

*Prometo ficar sem alfinetadas políticas por um bom tempo, tsá? :D

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Eleições e "O que queremos?"

“Contradição” é realmente uma palavra que define a sociedade brasileira. O conservadorismo de uma classe média “orgulhosamente branca e católica” sempre conviveu sem maiores problemas com a devassidão e loucura que imperam durante festas como o Carnaval no país. A mesma nação que forma o maior grupo de católicos é a que apresentou uma das maiores taxas de aceitação das pílulas anticoncepcionais no mundo. E assim a sociedade brasileira sempre continuou seguindo em frente: hipócrita e santa-do-pau-oco por fora, mas sempre devassa por dentro e por isso, com algum grau de tolerância às modernidades e evoluções que aconteciam ao redor do mundo.

Isso mudou. O debate para o segundo turno nessas eleições deixou bem claro que, não obstante o “crescimento econômico do país” e “expansão da classe média”, estamos caminhando para o conservadorismo. A passos largos. Os dois estados mais importantes, cosmopolitas, educados, desenvolvidos e modernos do país (Rio de Janeiro e a world city de São Paulo) tiveram suas campanhas para senadores dominadas diretamente pela questão religiosa. De novo: não estamos falando de regiões rurais, conservadoras e tradicionais por natureza – estamos falando das duas metrópoles nacionais, declarando o que pensam.

Obviamente como economista não dá para ignorar o fato de que a exclusão social gera o horrível fenômeno de dentro dessas duas cidades existirem mundos tão distintos, que pensem de forma tão absurdamente discrepante sobre temas tão “so last decade”. E nas parcas ocasiões onde temos que pensar “conjuntamente” sobre determinado tema, não é nada inesperado pensar que o Rio e SP, em sua maioria, sejam muito mais conservadores do que Ipanema e os Jardins deixam transparecer.

Acho que essas eleições deixaram bem claro que nós, gays brasileiros informados e emancipados, falhamos enormemente na busca pelos nossos direitos. Falhamos enormemente em realmente acreditar que conseguiríamos visibilidade sem associação à movimentos políticos, realmente acreditando nessa besteira imbecil de apoliticidade e apartidarismo que o neoliberalismo e o pós-modernismo tão intelectualmente pregou nas últimas décadas. Falhamos enormemente em nos isolar nos nossos clusters de desenvolvimento e tolerância, e nos gabar com títulos imbecis como “Principal destino gay do mundo” sem pensar no que estávamos efetivamente fazendo para mudar a mentalidade da população brasileira.

Hora de acordar. A sociedade está mudando e não estamos fazendo nada. Absolutamente nada.

Adendo: E como esse blog tem (ainda) uma temática essencialmente germânica, impossível não mencionar o exemplo de Berlim em 1920 e relembrar que uma simples década foi o tempo que para que o “inofensivo movimento nacional-socialista” levou para esvaziar a capital cultural e liberal da Europa moderna e civilizada para enfileirar boa parte dos seus integrantes em Buchenwald e Neuengamme. Uma década.

O tempo passa e sociedades mudam muito mais rápido do que podemos imaginar. E com certeza muitos dos integrantes da primeira foto pagaram caro por não entenderem isso.

domingo, 10 de outubro de 2010

Sobre o Brazilian Style

Se “Brasil” fosse uma marca comercial, facilmente seria uma das mais valiosas do mercado atual. Por quê? Vamos fazer um exercício mental: você é uma criatura loira, branca (e com grande probabilidade de ser gordinha - vocês não entendem o dilema que é ir no mercado decidido a comprar maçãs e outras frutinhas sem graça e super faturadas e semelhantes, olhar para a gôndola das maças por €5,00/quilo e olhar para a gôndola dos sorvetes maravilhosos por €1,30... também o quilo, pensar "Tá frio pra caralho mesmo, tô cheio de roupa, ninguém vai notar se eu estiver um pouco mais gordinho.", e mandar pra dentro do carrinho os sorvetes), mora num país onde o início da primavera já significa temperaturas caindo abaixo dos 15°C e quer se matar quando lembra que verão mesmo só dali a 6 meses. Then você abre uma revista, olha para a foto acima e lê sobre o estilo de vida de um povo feliz-bronzeado-sarado-e-botocado (sim, Angela Bismarchi é super conhecida ao redor do mundo, e deve já ter dado entrevista até para a Nepal TV falando sobre a sua cirurgia de reconstituição do hímen) que flana por praias paradisíacas e praticamente sem fim, partying all the time e com o plus de terem a fama de serem ótimos na cama. E esse povo vive num país onde as oportunidades parecem multiplicar a cada momento (em enorme contraste com onde você mora, onde os anos dourados já se foram há muito tempo e "decadência" é a palavra mais usada para descrever a sua sociedade), com uma economia entre as que mais crescem no mundo, mas que ao mesmo tempo mantém um certo grau de civilização (relembrando: pode ser mesmo considerado democrático entre Rússia, Índia e China, hein? Thanks god que pelo menos Tiririca pode ser eleito!).

Impossível conter a euforia e a expectativa, não é? ;)

A questão que me preocupa é até onde nós, brasileiros, acreditamos e entramos nessa imagem que o Brasil anda projetando para o mundo.

O diretor da revista Monocle e colunista do FT, Tyler Brûlé (#1: Sim, o nome é escrito dessa maneira bicha; #2: Sim, ele é bee e é um Pokemón mistura de estoniano e franco-canadense; #3: Morry quando li na Wikipedia que parece que ele “inventou” esses acentos no sobrenome dele), considerado um dos maiores trendhunters (aka. gente que tem como rotina de trabalho viajar de um lado para o outro do mundo comendo, bebendo, vestindo o que ha de bom e de melhor para depois nos dizer o que nós deveriamos consumir) da imprensa internacional atual dedicou toda sua coluna no jornal inglês da semana passada a questão de como “Brazil is good to go”. A primeira vista? Fantástico! Elogios sempre são tão bem vindos e impossível não se sentir um pouco "Ai, pára, vai... Continua elogiando!" quando uma pessoa de fora cita tanta coisa boa sobre o Brasil.

Mas num segundo momento, depois topar acidentalmente com o post da Alexandra Forbes no blog “Boa Vida”, comecei a repensar o artigo. “Sou totalmente da torcida ao favor e fico super feliz quando leio elogios ao Brasil, mas desta vez fiquei meio incomodada... Sei lá, ando enjoada de ler mil e uma matérias estrangeiras puxando o saco da mesma gente, enchendo a bola dos mesmos lugares.” Red Alert: se um blog de estilo de vida já reage "Fasano? Trancoso? Atala? Ainda isso?", hora de o (futuro) economista-chato de plantão sair da bolha dourada e colocar a cabeça para pensar.

Muito se fala sobre o choque de se voltar de um país desenvolvido para o Brasil, mas poucas vezes eu li sobre aquilo que se sente ao se chegar lá fora. Como brasileiro, eu posso falar sem sombra de dúvida que o meu maior choque ao chegar em Hamburgo foi aprender a viver numa sociedade classe media. Ao mesmo tempo entender que muito estava agora ali, ao meu alcance financeiro, mas que ao mesmo tempo toda a gama de serviços e facilidades e privilégios que estamos mega acostumados não existe mais. (Meu melhor amigo alemão sempre se impressionava no Brasil com a quantidade enorme de caixas e atendentes em qualquer lojinha e restaurante, com pessoas empacotando suas compras e recolhendo suas bandejas nas praças de alimentação de shoppings, com os inúmeros serviços de delivery - isso inexiste na Alemanha) Adaptar-se a uma cultura "Trabalho humano é importante e caro demais para ser desperdiçado em tarefas tão imbecis / So do it yourself!", ter que pensar numa solução além da "Dá pra contratar alguém para fazer isso?" (juro, que por mais consciente socialmente, mais proto-intelectual economista da UFRJ que eu fosse, eu soltei uma cara de "WHAT?!" a la Marie-Antoinette-sendo-conduzida-para-a-prisão-pré-guilhotina quando a administradora da residência estudantil me deu um balde de tinta branca, pincéis e falou "Você tem dois dias para pintar todo o seu quarto.". Portanto, quatro dias antes de Fernando estar dando pinta no ICE/TGV a caminho da Paris, estava eu numa loja de produtos químicos em Hamburgo tentando transmutar a palavra "aguarrás" para o alemão e com uma mancha de tinta branca nos meus cabelos cacheados que não saía de jeito nenhum.), entender que não adianta se você tem grana para pagar duas, três ou vinte vezes o preço da entrada do clube: você vai ter que esperar na fila e passar pelo door control (que vai avaliar como você se vestiu e não quantos monogramas você expõe - escutar uma hostess falando para a minha amiga em sueco que não aguentava mais negar a entrada de turistas americanos que "achavam que camiseta Christian Audigier, jeans D&G e tênis Nike eram roupas adequadas para uma boate" enquanto nos deixava entrar - eu vestido de C&A brasileira + brechó Hamburgo + sapato, esse sim muito bom - me ensinou que sempre vale a pena tentar se vestir bem) pode ser bem mais difícil do que se parece.

Mas, um dos efeitos de se viver numa sociedade tão classe média (principalmente na Alemanha, onde o esporte nacional favorito - depois de falar mal dos holandeses - é criticar) é voltar chato, extremamente chato. Reclamando da comida, dos preços, das roupas, dos estilos oferecidos. De absolutamente tudo. A famosa síndrome (que o Alex Bez - que aliás, sumiu dos comentários - me alertou) da bicha "Fui-pra-Europa-e-voltei-chata-pra-caralho. 

Em minha defesa: criticar é fácil, o difícil é tentar entender. E como eu adoro escrever muito, esse blog nunca foi muito preocupado com a quantidade de linhas de um post e esse assunto me incomoda, vamos analisar a questão. 

Quando eu trabalhava na Alemanha com trendforecasting uma das questões mais discutidas no escritório (e que as grandes empresas mais buscavam saber) era a formação dos novos padrões de consumo das chamadas nações emergentes. Explicando: os padrões de consumo de uma nação (principalmente ligados aos serviços denominados de "premium") são relacionados com a maturidade da classe média que esse país conseguiu formar. Em linhas gerais, os mercados europeus são considerados "alta maturidade", onde não somente o produto, mas todos os seus "efeitos" são de relevância para o consumidor no processo de decisão de compra (questões relacionadas desde ao consumo verde, consumo consciente até a questão de como esses produtos são produzidos - Nike e a marca alemã Sprit sofreram sérios danos de imagem quando foi divulgado pela imprensa que seus produtos eram produzidos sob condições consideradas desumanas em países de terceiro mundo) e os mercados norte-americanos/japoneses de "média maturidade" (onde, por razões culturais, existe uma grande pressão cultural pelo consumo, um grande "fetiche" pelo produto em si muito mais do que a preocupação com a qualidade e como ele é produzidos - mas onde também as questões relacionadas a um consumo consciente já estão inseridas e ganhando espaço). 

E os países emergentes? Países emergentes são basicamente países com classe média em formação, que saíram de um estado inicial de relativa desigualdade social (no caso brasileiro, relativa é um eufemismo dos mais extremos) e que atualmente vivenciam um período de "ascensão social". E que se reflete nos padrões de consumo: a tentativa ainda é de copiar os padrões de consumo dos países desenvolvidos, com grande fetiche pelo produto em si, e sem nenhuma grande reflexão sobre ele - o que é importa é o status que ele irá me trazer ("Estou usando um esmalte Chanel / Estou vestindo uma calça Diesel - sou parte de uma elite"), muito mais do que questões relacionadas ao custo e qualidade dessa mercadoria ofertada.

Retornando ao que eu quero falar: quando se muda de sociedade por uma quantidade considerável de tempo, impossível não "pegar" certas características da sociedade nova e internaliza-las. Sendo uma dessas características o "padrão de consumo", sair de uma sociedade onde o consumidor enxerga o produto ofertado de forma absurdamente crítica (uma das maiores influências na hora da compra para os alemães são as revistas especializadas em comparar produtos e classificá-los por desempenho, qualidade, necessidade e preço - nenhum alemão sai para uma compra maior do que 100€ sem ler pelo menos um artigo na internet de uma dessas revistas sobre o produto que quer e todos os vendedores sempre sabem exatamente listar todas as características do produto que estão vendendo) e voltar para uma sociedade onde o produto é enxergado pelo consumidor como uma chave para aceitação e felicidade dentro de um exclusivo e seleto grupo de escolhidos é no mínimo enlouquecedor, para não dizer frustrante.

E sinceramente, isso me incomoda. A falta de questionamento com o que se consume aqui no Brasil é absurda, principalmente no que diz respeito ao preço. Formação de preços é um tema mega complexo, envolve uma série de outras questões (como, por exemplo, a questão dos impostos), mas o meu objetivo aqui é questionar o ponto de como aceitamos serviços ruins por preços altos. De desde uma Zara (que encaminha o que o Primeiro Mundo não quis consumir - produtos essencialmente de baixíssima qualidade - cobrando preços exorbitantes para ser vendido numa loja onde os vendedores ignoram você e se sentem como parte da elite do "consumer retail" só porque trabalham vestidos de ternos fabricados na Tunísia) até restaurantes (que no Rio de Janeiro, sinceramente, são uma calamidade: uma viagem até SP deixa claro como o atendimento no Rio é nada menos que péssimo, pratos ruins e caros - tudo isso pago com o ar cool tipicamente carioca de quem considera mal educado reclamar de que o serviço foi ruim e decide não pagar os 10%). Consumo, claro, parcelado em 10x no cartão, com taxas igualmente absurdas, mas que no final das contas damos um jeito de pagar e tudo continua exatamente do jeito que está.

Enfim, a leitura do artigo do Tyler Brûlé me faz pensar em que tipo de brasileiros ciceronearam esse cara por aqui, e que tipo de brasileiro ciceronearam vários europeus que eu encontrava pelas capitais européias e que vinham com esse discurso "Brazil is just wonderful / Ipanema is simply THE paradise!", permeados por The Weeks, Reservas, Osklens e Spots da vida. De como realmente, cada vez mais, nos aproximamos daquela imagem do empresário chinês/russo com sua mulher a tiracolo que entra na Louis Vuitton em Paris e pede para descer a bolsa com o monograma mais exposto, mais berrante possível. E como, cada vez mais, eu vejo pessoas ao meu redor pagando preços absurdos e olhando para a minha cara, quando eu reclamo do preço desses produtos, com um certo olhar de "Ou ele é muito judeu, ou isso é síndrome de quem não pode pagar e fica reclamando".

Temos muito mais de Vera Loyola, de nouveau riche do que queremos imaginar. E sinceramente, não quero me conformar com um Brasil onde os serviços, restaurantes e lojas são absolutamente maravilhosos pagando três vezes do que eles custam realmente.

Enfim, tudo se resume a questão de se queremos continuar acreditando que vivemos no lugar mais cool do mundo (e continuar tendo que parcelar absolutamente tudo no cartão, continuar tendo que ir para o exterior para "comer num lugar decente" ou "comprar roupas por preços decentes") ou realmente colocar um pouco dos pés no chão, criar um pouco mais de consciência crítica e quem sabe começar a demandar um pouco mais daquilo que nós é oferecido. (Exemplos? Os infames 10% cobrados por restaurantes e casas noturnas. Gratificação extra é a remuneração por um serviço muito bom - porque o básico necessário, sorry to say, é mais do que a obrigação. Não se sentiu tocado pelo serviço e simpatia do garçom, o prato demorou, o pedido veio errado? Sem 10%, sorriso na cara, obrigado - porque ser educado é fundamental - e ponto final.)

(Enfim, é isso. Opiniões dos leitores, por favor.)

P.S.- Fundamental para a execução desse post também foi a leitura do excelente blog "De Chanel na Laje", principalmente dos posts 1, 2 e 3. Super recomendo.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Eu sou da Capital do Melhor e do Pior do País

Eu sei que Política é chato pra caralho. Eu sei que provavelmente você, assim como eu, no exato momento em que Will Bonner anuncia que o JN será interrompido pelo horário político, desliga a TV e vai fazer algo de muito mais útil da sua vida (aka mandar aquela máscara facial de argila na fuça, aparar os pelinhos que essa porra de gene português insiste em continuar mandar crescer, passar aquele La Roche Posay Active C na rostinho não mais under 25). Afinal, pra que assistir aquela porra e ver que maravilhas como Romário e Wagner Montes estão disputando sua atenção e o seu voto pra se reelegerem e fazerem porra nenhuma?

Mas como Democracia é que nem Creme Hidratante Avon (é uma bosta, mas na falta de algo melhor, melhor ir com ela mesmo), desenvolvimento não chega sozinho nem de uma hora pra outra (meaning: a cosmetologia francesa vai continuar cara pra caralho por um bom tempo) e muito menos ninguém vai lutar pelos seus direitos além de você, a única alternativa é se informar e tentar minimizar as merdas na hora de apertar o “Sim” naquela merda de urna eletrônica (eu sei, eu também não aguento mais aquela ladainha dos comerciais do TRE vangloriando as maravilhas da nossa moderníssima “máquina da democracia”.- Aquela porra parece com um PenseBem, my ass se a gente pode saber quem foi eleito para governar Roraima em 2h e 50 min e eu ODEIO aquele barulhinho de voto computado e ponto final!).

Porque cá entre nós, cariocas: a nossa cidade é incrível, as nossas praias fodas, o nosso lifestyle amazing... mas tá foda de sustentar o carón “Sou do Rio de Janeiro meRmo” quando a gente pensa nas maravilhas que escolhemos para nos representar pelos cargos políticos afora.

Portanto, dá uma olhada ae na lista (thanks Tony!) e veja em quem não votar. Porque eu ainda acredito nessa porra de cidade, nessa porra de estado e em toda a enorme herança de inteligência e vanguarda intelectual que essa cidade sempre representou.

E porque tá mais do que na hora de mostrar que mais do que um rostinho bonito, o Rio tem conteúdo pra caralho. ;)

domingo, 1 de agosto de 2010

Sobre a difícil arte de blogar (e comentar)


Teoricamente blogar é algo muito fácil. Escolhe-se um site de preferência (os que prezam pela praticidade e facilidade escolhem o Blogger, os que preferem a liberdade e conseguem entender como funciona aquela merda escolhem o Wordpress). Cria-se uma conta. Decide-se por um template (agora tem umas opções mega estilosas que não existiam quando eu resolvi criar o meu blog! E agora? E o medo de migrar para algo cool mas sem a essência Lost und Found de ser?!). Nomeia-se o blog (a hora mais complicada: quando você precisa ser criativo, mas sem ser babaca nem copiar algo que já existe. Mas claro, algo que represente você. Ou seja, um processo difícil pra caralho.). Clica-se em „Nova Postagem”. Dá-se um novo título ao que você quer escrever. Escreve-se o que vem a sua cabeça e voilá: você é um blogueiro.

No mundo real, claro que as coisas não tão fáceis assim. Entre escrever o que você pensa e clicar no “Postar” existe uma decisão de compartilhar as suas ideias com o mundo. De entender que aquilo que você escreveu vale a pena ser lido. De checar se aquilo foi algo que outras pessoas pensaram também. De saber se é relevante. E isso envolve ter uma coragem do caralho. E um certo grau de egocentrismo: todo blogueiro gosta de saber que é lido, que é apreciado, de que colocou em palavras o que pessoas não conseguiram colocar antes.

Mas para acontecer essa interação entre autor e leitor, precisa existir o botão “Comentar”. Li uma vez em um blog francês de uma adolescente mega antenada em moda uma discussão sobre o tema: depois de alguns posts gongativos e meio stalkers (contando detalhes da vida dela e de pessoas do seu grupo de amigos), ela resolveu acabar com a seção “Comentários” por acreditar que o blog é uma visão de mundo de uma pessoa, exposta para que outras possam acompanhar e tirar suas próprias conclusões. E que esse processo então prescinde dos comentários.

Eu discordo. Quem quer escrever e não escutar comentários e ideias e correr riscos escreve para si mesmo, num diário, guardado a sete chaves. Se for muito corajoso, organiza em textos e envia para uma editora, que se ele for tão brilhante mesmo, vai publicar. E ele não vai ler nenhuma crítica de jornal, nenhuma resenha, nada. E tapa os ouvidos para qualquer um que venha falando “Eu li o seu texto...”. Agir dessa forma tem suas vantagens, é claro (a ignorância pode ser uma benção, claro). Mas eu pessoalmente acho um tanto quanto... solitário agir assim.

Mas aceitar que comentários cheguem também tem sua dose de risco. O risco de ser desafiado. De chegar alguém e dizer que discorda do que você pensou, e questionar o seu escrito de uma forma que te atinja lá, bem no seu calcanhar de Aquiles. De alguma forma, provar para você que você está errado, ou de que o seu pensamento pode não ser o único válido. E aí as coisas complicam...

Todo blogueiro tem a sua lista de comentários ácidos, do tipo mais difícil de engolir. Daqueles que você passa algum tempo pensando em como responder, mostra para um amigo mais chegado e pergunta “Como respondo esse FDP?”. Estou excluindo dessa lista os puramente gongativos, afinal, gongar sem conteúdo é pura mediocridade auxiliada pela possibilidade de assinar como anônimo. Estou falando dos comentários que questionam o que você escreveu, o que você pensa. De que te fazem pensar por pelo menos 5 minutos, nem que sejam para te deixar puto. E fazer você escrever um outro post em resposta e esse comentário.

Todo mundo que acompanha o meu blog sabe mais ou menos como eu penso. Sabe da minha verve crítica, dos meus comentários irônicos com relação a tudo e a todos. Não sou assim o tempo todo, nem é esporte: é só mesmo o espaço que eu uso para me expressar assim. E falar o que eu penso. Compartilhar a minha visão de mundo. Trocar ideias, e chegar a uma conclusão diferente no final.

Por isso que eu acho que vale a pena blogar. E deixar o botão “Comentários” aí, ativo, funcionando. Para conseguir ter interação com os meus leitores críticos. Para que se alguém discorde do que eu escrevo, que essa discordância chegue até mim. E que isso me incomode, me deixe puto, sim. Mas que me faça pensar. E que me faça rever meus conceitos, ou só melhor fundamentar os meus conceitos preexistentes.

Porque só assim vou extrair alguma vantagem real de blogar.

A de ser um pouco menos ignorante. E aprender um pouco mais com os outros. Seja blogando. Seja comentando. Seja comentando e percebendo que o mundo pode não ser muito bem da forma como você pensa.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Well...


Melhor vocês lerem por vocês mesmos... Aqui.

#Tenso.

P.S.1- Provas acabando... QUASE acabando!
P.S.2- Leitores que queiram em entrar em contato, fazer perguntas ou tirar dúvidas podem escrever para o lostundfoundintranslation@googlemail.com que assim que der eu respondo, certo?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

E sinceramente, quer saber de uma coisa?

Acho esse discurso de “Que bom que a gente perdeu a Copa / Agora a gente pode ser um país sério”... terceiro mundista demais. Veja demais. Classe média feelings demais, sabe?

Por que segunda-feira, ganhando ou não a Copa, iria continuar tudo exatamente igual: a mesma merda. Empregada ganhando o que muita bee gasta em UMA cueca para trabalhar 12h/dia – 25dias/mês. Dilma e Serra (com vozinha mansa e algum slogan idiota) até Outubro tentando convencer eleitores de que irão revolucionar a economia brasileira em 4 anos de governo. Os evangélicos falando que tá todo mundo endemoniado, cientes de que estão do lado da razão e da justiça divina. Eu tendo que acordar 4:45h para chegar 7:30h na faculdade e pegar um trânsito cada vez pior porque o sistema de tráfego e transportes de qualquer capital brasileira parece ter sido planejado por uma criança de 4 anos de idade (moradora da Leblon, claro).

Mas pelo menos, tendo ganhado a porra dessa Copa, daria para fazer isso tudo com algum sorriso no rosto. Que durasse alguns dias, vá lá. Mas o que há de errado nisso? A gente não paga terapeuta para ficar falando da nossa vida, sobre tudo aquilo que a gente sabe, e no final se sai completamente aliviado, motivado? Não gasta fortunas com treinamentos empresariais idiotas, para aumentar a integração entre “gerentes” e “equipe”? Que nomeemos esse sentimento “besta” de motivação. Pronto. Motivação. É isso que ajuda a ter que enfrentar a batalha diária. E torna o sacal bem mais aceitável, palatável.

Por que sinceramente, como economista e cientista social, eu estudei demais para continuar acreditando nessa besteira simplista de que todos os problemas do Brasil tem sua fonte em nossa predileção por futebol e carnaval.

E por que como filho de nordestinos posso imaginar como ganhar esse joguinho, essa Copa iria pelo menos dar um motivo de alegria para aquele bando de gente que olha para aquele monte de lama e ruína e pensa "E agora?".

Panis et circenses? Pode ser. Mas é fácil falar quando o nosso pão e circo tá garantido, néam?

Dito.

Por que sou brasileiro, com muito orgulho, 5 vezes campeão do mundo. E se é isso que a gente sabe fazer bem, é disso que eu vou me orgulhar lá fora.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Até quando?

Acabei de ler a notícia da morte estúpida do cartunista Glauco, agorinha mesmo, antes de sair para o aeroporto. O que passa pela cabeça? Primeiro, vontade de rasgar o passaporte na hora em que chegar em Paris e pedir asilo ao governo francês alegando que o meu próprio governo nao tem condicoes mínimas de garantir a minha segurança. Segundo, cansaço e temor por perceber que cada vez mais, pouco a pouco, nós brasileiros nos acostumamos a esse estilo de vida meio faroeste, meio sem lei, aceitando isso tudo como parte normal da nossa vida cotidiana e perdendo a capacidade de indignacao e revolta - algo vital se nós queremos algum dia sair desse buraco que nós nos metemos.

E terceiro? O economista/cientista social falando alto dentro de mim, e relembrando que o desafio é grande sim... mas tem que ser enfrentado. E será. Pelo menos da minha parte. A gente merece mais, bem mais do que esse estilo de vida que estamos levando aqui no Brasil...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Wake up call!


Voce é daqueles que acham que a Europa é "nooossa, um lugar tao civilizado, tao tolerante..."? Fica encantado com os todos os direitos que as bess daqui usufruem: casamento, poder adotar criancas, poderem até se casar na mais tradicional das igrejas (como na Suécia)?

Pois entao amigo: eles batalharam (e muito) por tudo isso. Afinal, enquanto estavamos tomando sol nas praias de Copacabana, há 60 anos atrás os gays de Hamburgo estavam sendo deportados para campos de concentracao e exterminados pelos nazistas. Isso no mesmíssimo local onde hoje gays andam de maos dadas enquanto casais turcos passeiam pela rua, criancas vao a escola, e senhores mais idosos vao as compras.

Direito nao se conquista, direito se batalha. Portanto, se movimenta ae, entra aqui no site no Senado Federal e vota na enquete sobre a lei que criminaliza a homofobia no Brasil. É um sim pelo nosso direito de sermos respeitados como cidadaos que somos.

Porque a Europa é fantástica sim (e os europeus, nossa, wunderbar...). Mas nada vai me dar mais prazer do que poder fazer tudo aquilo que eu faco aqui aí em casa, na minha terra, no meu país. Somos conhecidos por sermos um povo liberal e tolerante, nao é? Chegou a hora de cobrarmos isso!

P.S.1- Para os que ainda nao se convenceram do absurdo que essa enquete vive, dá uma passada no site do Celso Dossi. Se mesmo depois disso voce ainda for contra essa lei... honey, entra no site da Universal e AVOA daqui!

P.S.2- E para voce, bee phyna que acha que essa lei nao vai afetar em nada a sua vida... melhor lembrar que viado nao é um fenomeno surgido em conjunto com patricinhas, que só dá em condomínio de classe média nao, honey... Get out of the bubble, darling: afinal, dar pinta na Farme de Amoedo ou na Frei Caneca naquela sua Diesel skinny nova é muito fácil, mas vai ser assumido e causar em Santarém ou Campina Grande. Bem menos cool, néam?

P.S.3- Saiu do Brasil por mais de 1 mes, e a língua portuguesa anda dando um meltdown na sua cabeca e misturando com o seu espanhol/italiano/frances? Corretor ortográfico always. Conselho do amigo daqui... ;)