Mostrando postagens com marcador Je pense que. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Je pense que. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Só uma pausa

Muito bem produzido, inquestionável. O que são esses homens, mon dieu! (Apesar de quando eu vejo modelos sempre bate um questionamento "Será que ele é um daqueles que fica encolhendo a barriguinha - inexistente - por 30min na frente do espelho?" ou que diz com um ar acusador "Você vai comer mesmo isso? Se mim fosse você, eu não faria isso..." quando você pega um Cornetto Ultra Plus Fat e ele um Molico de Pêssego Xoxo.)

Mas... Made in Brazil? In Brazil? Really? Tem certeza que não é Made in Sweden ou Made in Italy não? Nej?

Ok, super sei que modelos não são representações fiéis da realidade (afinal, 99,999% da população mundial ou tem o look ou tem o brains), mas engraçado que esse vídeo veio de encontro com um pensamento que surgiu ontem quando eu fazia um rápido passeio na Galeries Laffayettes. Passeando pelas elegantes (algumas nem tão caras assim, sabia?!) seções, eu parei na elegante seção da Dior Hommes e vi algo que me fez parar. Um elegante vendedor vestindo um terno absolutamente fantástico para o corpo dele, como todos ali, mas algo me fez parar o olhar naquele vendedor em especial. Sabe quando algo chama a sua atenção? Logo eu entendi: o vendedor era negro. E a pele dele reluzia aquela incrível luz que a pele negra emite quando está bem hidratada. (Tipo P.Diddy, saca?)  E continuando o passeio pela minha loja, mais e mais vendedores negros e mestiços. E eu me peguei pensando porque eu tinha parado meu olhar naquele vendedor em especial. 

Provavelmente por que nós, brasileiros, rejeitamos a associação de negros com sofisticação? Soa um pouco pesado, não? Eu já tinha dado uma divagada sobre o assunto aqui. Enfim...

Rio de Janeiro


Engraçado como a sua perspectiva acaba mudando quando você sabe que são seus últimos momentos em um lugar. Tudo aquilo que era parte de uma irritante rotina acaba tomando uma cara de “Ah, é a última vez que eu...” (sim, eu continuo o mesmo dramático de sempre). Tudo o que faz a vida em uma determinada cidade completamente ordinária depois de um tempo que você mora nela começa a te provocar um sentimento de nostalgia antecipado.

Todo mundo que acompanha o blog há algum tempo meio que sabe: em 2009-10 eu tive o meu ano de intercâmbio na Alemanha. Ah, que incrível ano! Tantas coisas vividas, tantas novas experiências, tantos homem gato que eu pegu... tantos museus incríveis que eu conheci! :D
E que inferno foi voltar ao Brasil. Eu lembro como se fosse exatamente agora: meu voo era Zurique-São Paulo. Eu fui o último a sair do avião da Swiss, com o espírito mais “Neeeeeeeeeeeein, lass mir bleiben!” possível. Disse o meu último “Auf Wiedersehen” para a comissária com o sorriso sou-um­-brasileiro-simpático-e-sorrio-sem-motivos-mas-sei-que-você-acha-meu-sotaque-fofinho e, cabisbaixo, saí do avião. Meras 13 horas antes fazia 2°C em Zurique. Fazia 32°C naquela hora em Guarulhos. Eu olhava para aquela decoração bosta da Infraero e pensava “Não pode ser: eu estou de volta!”. (Parênteses: Por que a fixação do pessoal da Infraero que define os projetos de decoração dos aeroportos com vidro fumê, aço escovado e granito, hein? Caralho, os aeroportos brasileiros tem o mesmo clima amistoso e receptivo de um consultório de dentista da década de 80.) Saí do setor internacional e levei o baque duplo do calor (mesmo com o “ar condicionado” de Guarulhos – sim, eu fui irônico porque acho que o “ar condicionado” de Guarulhos sempre está desligado quando eu estou por lá.) e das pessoas ao meu redor falando português brasileiro. Entrei na fila de embarque da TAM para pegar o meu voo para o Rio, uma criancinha em direção ao Nordeste olhou para o meu bronzeado hamburguês e tocou no meu sobretudo de lã pesada com a cara mais “WTF is that?” possível. Vinha com um sobrepeso absurdo de viagem internacional, mas para o meu choque a funcionária da TAM mandou um “Relaxa, coloca tudo aí, o voo tá vazio...” e eu viajei com mais do que o dobro do limite de bagagem para um voo da Ponte Aérea sem pagar um centavo a mais. Quase dei uma sambadinha para agradecer.

De quando eu vi o Rio pela primeira vez, eu também lembro. Tinha uma argentina sentada do meu lado, indo conhecer a cidade pela primeira vez. Troquei uma ideia com ela sobre os locais que achava que ela deveria conhecer, as dicas para fugir dos golpes cariocas com turistas. E me virei pro lado e vi a Restinga da Marambaia aparecendo pela janela. Liguei o iPod no “Samba do Avião” (ainda não consigo decidir se é um clássico ou uma cafonalha escutar isso quando se volta ao Rio, mas acabo sempre o fazendo), apoiei a cabeça na janela e fui tentando adivinhar quais partes da cidade que eu via. Toda volta de viagem sempre provoca uma nostalgia (na verdade uma PUTA deprê, néam?) mas voltar pro Rio sempre tem algo de especial. É meio que um consolo olhar para Ipanema, para as montanhas, para os prédios históricos do Centro. Meio que um carinho na sua cabeça falando “Darling, tem gente que volta para Detroit! Olha para que lugar incrível você está voltando!”.

Escrevi tudo isso para dizer como é surreal estar deixando o Rio de Janeiro, em definitivo. Os motivos? Sinceramente falando? Estou indo morar com o meu namorado francês em Paris. Simples e direto assim. Para os outros, eu confesso que sempre floreava com um “Mas também estou com um projeto mega definido de fazer mestrado em Estratégias Matemáticas Avançadas!”. Na verdade foi um projeto puramente passional mesmo. Ok, não sai correndo de uma hora pra outra, larguei tudo e gritei para o meu namorado por telefone “Meet you in Paris!”. Planejamos isso por quase 2 anos – dois longos anos em que nos víamos sempre que dava um tempo na agenda. E como bom virginiano, me assegurei de todas as formas possíveis do que poderia dar errado. E claro que coisas que eu esperava que não fossem dar errado deram errado. Mas enfim, assunto para outro post.

O foco aqui é mesmo o Rio de Janeiro. A estranheza que me causa quando eu olho para essa palavra e penso que ela não mais significará “casa” para mim. A ironia de quando eu penso em como eu odiei essa cidade quando voltei da Alemanha em cada uma das suas características – falta de pontualidade, falta de compromisso, falta de organização, calor infernal, provincianismo. E como nesses últimos dias eu sabia que cada uma dessas coisas iria me fazer falta. De como voltar da Alemanha foi essencial para que eu reavaliasse muito do que o Rio de Janeiro era, do muito do que eu tinha do Rio de Janeiro e de que eu finalmente compreendesse que não existem lugares perfeitos no mundo - só alguns que combinam mais com os seus valores e desejos. Como eu fiquei puto em voltar ao Rio de Janeiro daquela vez! E como hoje eu entendo perfeitamente que eu TINHA que passar por esse processo de readaptação que me fez seguramente ficar muito mais forte e maduro. E que me fez me reconectar com uma cidade que eu sabia que não seria a minha cidade para todo o sempre, mas que tinha definido a minha personalidade. Algumas vezes precisamos ir ao outro lado do mundo para entender o que está bem ali, na nossa frente.

Saudades do Rio de Janeiro. Eis a sina de todo carioca que escolhe sair dessa cidade em algum ponto da sua vida. :)

P.S.- Sobre os amigos... melhor nem começar a falar. Principalmente porque eu já passei um RevitaLift no rosto, o avião já começou a descida para Lisboa e as comissárias portuguesas tem cara que tiram o buço na pinça de tão macho que são, portanto nem rola chorar para depois ter que reaplicar o produto. Mas te falo: doí. Pra caralho.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

We will forget


Não sei bem o porquê, mas quando comecei a escrever essa primeira frase dessa postagem, lembrei do Hobsbawm falando  no 'Era dos Extremos' sobre como ele a tinha a exata lembrança de voltar da escola na Berlim dos anos 30 e ler nos jornais que Hitler havia sido nomeado chanceler. Eu lembro exatamente daquela manhã de 11 de Setembro de 2001. Eu estava doente, com uma irritante faringite, o Pedro II estava de greve (para variar) e tinha dormido muito mal. Minha mãe veio me dar remédio e falou com a maior naturalidade "Parece que os Estados Unidos estão sendo atacados.". Eu ri, falei que ela estava delirando e liguei a TV. E ficamos os dois completamente perplexos assistindo àquilo tudo. Horas e horas. Mais tarde acabei melhorando e fui para o meu curso de alemão, lá no Centro. Inútil. O clima no Instituto Cultural Brasil-Alemanha foi o mais soturno possível, a minha professora de alemão começou a falar sobre como aquilo tudo que tinha acontecido lembrava ela dos bombardeios aliados à cidade dela, Augsburg.

10 anos depois, lendo sobre os eventos de lembrança da fatídica data, vendo as reportagens no Fantástico (incrivelmente superficiais, incrivelmente óbvias - o quão chato é ouvir aquela voz da Patrícia Poeta de professora-de-biologia-boazinha-dando-uma-notícia-triste-mas-com-uma-mensagem-feliz-no-final) engraçado perceber que o tempo passa, as lembranças ficam mas os discursos acabam mudando. Bush hoje em dia é um mero coadjuvante, o discurso oficial do presidente é bem menos "O-estilo-de-vida-democrático-e-livre-da-América-foi-atacado/Let's NUKE them!", Obama encarna o discurso inspirador chatinho de presidente americano mas em um tom bem mais light e Bloomberg é seguramente bem menos carismático de que Giuliani (afinal somente um imbecil proporia cortar a leitura dos nomes das vítimas nas próximas cerimônias - aquela encheção de saco de um monte de adolescente americano dentuço mal vestido cantando aquele hino irritante pode ter, mas o único momento em que cada um dos mortos é relembrado... ah, pode esquecer?!). O Afeganistão foi devidamente introduzido à sociedade moderna (afinal, quem precisa de hospital quando se tem Subway?); o Iraque é praticamente um resort babilônico em termos de tranquilidade e liberdade e o Paquistão continua sendo o mesmo lugar complicado de sempre.

Ironias a parte, acompanhando a reação de alguns amigos (americanos e não americanos), não pude deixar de pensar em uma coisa. Em como nos preocupamos com o que aconteceu em Nova York naquela manhã de Setembro de 2001. Triste foi, triste sempre será ver imagens como a clássica "The Falling Man" e não pensar por ao menos um segundo no pânico em que 2.606 pessoas viveram, algumas delas ao perceberem que não conseguiriam sair do prédio, algumas delas ligando para seus parentes e dizendo a última coisa que elas sabiam que iriam dizer, algumas delas tendo que fazer a cruel escolha entre a morte por asfixiamento ou a a queda livre em direção ao fim. Mas ainda assim... como nós nos preocupamos com o que aconteceu ali, naquela manhã de Setembro de 2011, nos emocionamos com os documentários e reportagem sobre o tema. E nem sequer nos lembramos do que aconteceu no dia 11 de Julho de 1995, quando cerca de 8 mil homens e meninos deram adeus para suas mães e irmãs e foram levados pelos sérvios, sob o complacente olhar das forças holandesas para Srebrenica. Ou fazíamos, o que a imprensa internacional divulgava (os preparativos para a Copa do Mundo, talvez?) nos primeiros dias de Abril de 1994 enquanto o Tenente-General Roméo Dallaire tentava convencer algum burocrata de Nova York que a crise em Ruanda era séria e que desencadearia na morte de somente 800.000 mil pessoas.

Impossível chamar uma morte pior do que a outra - afinal, para algum parente, irmão, primo daquela pessoa, aquele evento foi a fonte da pior dor que pode existir. Mas me incomoda, enquanto cidadão brasileiro, ocidental, que assiste a TV Globo e vê documentários e filmes no Multishow/History Channel/Fashion TV pensar que algum tipo de voz foi dada a quem morreu no WTC (O que elas pensaram? Quais foram seus últimos minutos? Quem sobreviveu?) e tantas outras histórias foram absolutamente ignoradas. Por que nos identificamos mais com os americanos? Por que valorizamos mais a vida de um americano? Por que conseguimos nos relacionar mais com a "tragédia vivida pelo povo americano" do com o que aconteceu em um pais tão não-desenvolvido como o nosso?

Justamente o nome de cada uma dessas pessoas que morreu será gradativamente esquecido. E o que ficará será o discurso oficial. O simbolismo. O monumento grandioso. A data onde as pessoas pararão durante 1 minuto para pensar em como vivem na melhor nação do Planeta.

Quanta idiotice.

P.S.- Terminando de escrever a monografia, sorry pelo desaparecimento e em caso de saudade desesperadora, sempre tem as minhas colunas quinzenais no Aqui só tem Bafon.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

19h40 no Rio de Janeiro

Eu sou economista. Ou melhor dizendo, sou um soon-to-be economista – estou nas minhas semanais finais de faculdade. Eu gosto da minha faculdade, eu gosto do meu trabalho. Eu gosto de estudar Economia - é bem menos matemático do que as pessoas pensam e é uma faculdade que obriga você a pensar sob perspectivas diferentes (se você teve a chance de estudar na faculdade que ensina Economia e não Finanças). Eu gosto do meu trabalho – acho interessante a adrenalina que os negócios desperta, o exercício de ter que ser mais sucinto (algo que eu necessito bastante... e que definitivamente não sou nesse blog. :D).

Mas alguns dias parece que eu sou tomado por um sentimento de apatia. Não que eu esteja triste ou insatisfeito com algum aspecto da minha vida. É só um sentimento de 'boredom' com a previsibilidade do mundo ao meu redor. Algo momentâneo, algo que tende a acontecer muito especificamente em segundas e terças-feiras. Você olha para as pessoas ao redor, as conversas e atitudes parecem previsíveis e funcionais demais. Independe do lugar: pode acontecer num deslumbrante dia de outono no Rio de Janeiro, um domingo de verão em Hamburgo ou uma quinta-feira em Paris de férias. São dias em que o meu indomável humor me permite somente fazer o estritamente necessário: compromissos, tarefas do trabalho, estar presencialmente numa aula da faculdade. Estritamente o necessário, porque todas aquelas coisas necessárias e rotineiras que deveríamos fazer no tempo 'livre' se tornam mortalmente entediantes. E eu sei que eu não adianta sentar e 'pelo menos tentar'. Eu preciso de algum estímulo externo, de algum momento em que a minha atenção esteja totalmente focada em algo que me faça parar de pensar no 'o que eu deveria fazer' e me 'transporte' para algum outro lugar.

São nesses dias em que eu vou ao cinema.

Hoje, após sair do trabalho (e depois de cumprir a minha nobre parte enquanto membro do sistema capitalista de produção :D), comprei meu Doritos e minha Fanta Uva (gastronomicamente abominável, gastronomicamente delicioso :D), fui ao Espaço Unibanco e comprei meu ticket para 'Meia Noite em Paris'. Sentei numa cadeira entre dois casais, um tanto quanto ridículo no meu terno e na minha cara de entediado e esperei as luzes se apagarem. E simplesmente viajei.

O filme começa com uma 'cruel' combinação de jazz com cenas de Paris que conseguiram derrubar a minha apatia no primeiro instante. Não sei se foi o jazz ou Paris, mas a combinação dois dois conseguiu derrubar ridículas e incontroláveis lágrimas dos meus olhos. De novo, não por uma tristeza específica. Mas só pela beleza sensível que os filmes do Woody Allen tem a característica de começar. Talvez pela lembrança de estar naqueles locais que agora já me são familiares, de lembrar de mim incrivelmente triste na primeira vez, incrivelmente feliz na segunda e terceira. De pensar na pessoa que me espera lá, de como eu inconscientemente sinto mais falta dela do que conscientemente percebo e de como relacionamentos a distância são incrivelmente cruéis, mas incrivelmente fantásticos quando acontece de você estar junto da pessoa, mesmo que seja por alguns dias.

Uma das minhas maiores implicâncias com atores de Hollywood seguramente é com o Mr. Owen Wilson – o acho canastrão, piegas, o estereótipo do ator americano sem muito conteúdo dramático e profundidade. Precisou de Woody Allen para que ele (Wilson) conseguisse me transmitir alguma empatia com algum personagem que ele interpretasse. A história do escritor americano fascinado por Paris cercado de práticos americanos que logo se tornarão sua família é muito mais cativante do que uma resenha de jornal/blog pode transmitir. Woody Allen conseguiu capturar uma nuance de Paris incrivelmente específica, incrivelmente tênue e que infelizmente demora algum tempo para que se possa captar. Paris é uma cidade dolorosamente nostálgica (em oposição a Londres, onde tudo parece estar se transformando em algo excitante, algo mais moderno, algo mais cool). Tudo parece remeter a uma época, um estilo de vida, um Zeitgeist que não existe mais. Tentando explicar em termos mais práticos, a sensação é a de estar entrando em um salão de festas onde aconteceu uma festa notoriamente fantástica, mas na qual você não esteve. As pessoas, sorriem, as pessoas fumam, as pessoas conversam, enquanto você, turista solitário com tendências melancólicas que toda viagem sozinho sempre acaba despertando, inevitavelmente se pergunta como seria se você conhecesse aquelas pessoas, se você estivesse naquele lugar, se você tivesse estado ali naquele instante. Ao seu redor, a horda de turistas japoneses e americanos, tirando desesperadamente fotos e correndo de um ponto turístico para o outro. E você se achando um louco por não estar fazendo exatamente a mesma coisa, com tantos lugares 'que você tem que conhecer!' naquela cidade – mas o número infinito de páginas de possibilidades do guia desestimulam cada neurônio do seu cérebro, e você decide ficar andando e andando por aquelas ruas invariavelmente bonitas.

A mensagem do filme pode ser mesmo que tendemos irracionalmente mesmo a achar que seríamos mais incrivelmente em algum outro momento: da história, das nossas vidas (se elas tivessem seguido um rumo diferente). Na minha opinião? De que todo mundo precisa de um pouco de ficção, de um pouco de surrealidade para mudar a perspectiva do presente, do racional, do agora. (Ah, Adrien Brody de Salvador Dali, com o seu perfeitamente enorme e fantástico nariz que me fazem esquecer qualquer vontade que eu teria de um dia de mexer no meu...).

E eu saí do cinema, caminhei para o ponto de ônibus na Praia de Botafogo, olhando para a vista fantástica que essa cidade sempre acaba proporcionando. Com o meu olhar ajustado, com o meu humor ajustado, com jazz ressoando na minha cabeça. E pensando em como um bom filme sempre acaba colocando qualquer mente inquieta de volta ao lugar, reequilibrando as doses necessárias de nostalgia, poesia e de ficção que precisamos tanto para levar nossas sérias vidas a frente. No Rio de Janeiro. Ou em Paris.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sobre a difícil arte de criticar

Tenho uma lembrança exata desse momento, logo nos meus primeiros dias de faculdade na Alemanha (Checklist do Projeto “Tornar-o-meu-blog-uma-vitrine-para-mostrar-como-sou-foda-inteligente-AND-jet-setter”: menção ao período em que eu morei na Alemanha + menção ao fato de que eu efetivamente estudei em uma universidade européia: DONE). Era aula de “Interação Cultural” com a professora Iken (o arquétipo da intelectual alemã: alta, vestida com roupas e tons sóbrios, cabelo eficientemente cortado em Chanel, morou por 5 anos em uma comunidade tribal no interior da Namíbia), ela sentada no final da sala de aula e uma aluna alemã (Hanna) na frente fazendo uma apresentação em PowerPoint sobre um texto da disciplina. Apresentação ligeiramente chata, depois de 15 minutos de luta contra o meu permanente sono daquela época (o lado nada legal de frio + falta total de luz solar que é o inverno báltico), batidinhas de madeira muito educadas, aluna agradece e senta.

Frau Iken levanta e diz que quer um comentário de estudante estrangeiro sobre a apresentação. Óbvio que ela aponta para o “aluno de cabelo encaracolado, o com cara de espanhol”. Eu obviamente era o único com cabelo encaracolado naquela maldita sala. Sorriso amarelo no rosto (afinal, uma das piores coisas do mundo é obrigar um estudante a criticar a apresentação de um outro estudante – qualquer comentário menos empolgado do que “Foi ótimo, achei muito bom!” ou com mais do que 10 segundos é passaporte sem volta para o clube dos Rejeitados&Odiados. Eu não queria entrar nesse clube. Eu não tinha amigos naquela droga de cidade, e aquele combo de frio e falta de luz estavam me deixando deprimido.), e eu comento “Foi ótimo, achei muito bom!” e olhei para a professora com aquela cara de “Mi English no es muy good!”. A professora ri como quem diz “Eu te entendo...” e diz que quer a opinião de uma estudante alemã. Escolhe Sarah, uma loirinha com suaves olhos azuis e carinha de camponesa inocente das planícies de Jutlândia. Sarah abre a boca e manda:

- O slide 4 estava mal explicado, o slide 5 estava mal estruturado, o slide 7 foi superficial demais e poderia ter sido bem melhor explicado com os textos que foram indicados para a apresentação, o slide 10 e 12 estavam confusos e não muito claros. No geral ela falou baixo e um pouco rápido demais, mas foi bem interessante a apresentação.

Eu ri nervoso de tão chocado que eu fiquei. Olho para frente e vejo Hanna anotando todas as sugestões da Sarah com a cara mais “Sim, muito bom seus comentários, obrigada!” e voltando para sua cadeira com aquela cara de tranqüilidade de quem não precisa fazer mais uma apresentação. Eu olho ao redor procurando alguém para comentar “BAFÃO! Caramba, você viu isso?!”. Todo mundo com a cara mais normal do mundo. Eu olho para a professora, ela ri e fala que esperava exatamente a minha cara de surpresa. E começa a falar sobre a diferença da forma de criticar entre alemães e latinos.

Depois de algum tempo na Alemanha, óbvio que comecei a pegar o ritmo local (mas claro, quando EU fiz a minha apresentação eu comecei com uma mensagem prévia onde disse “Eu sou latino, eu sou sensível, na minha cultura críticas em 90% dos casos são levadas para o pessoal. Por favor, PEGUEM LEVE!” e todos os alemães riram e obedeceram a minha ordem) e comecei a tentar ficar frio quando passava por situações como essas. Óbvio que nunca consegui 100% - se existe uma pessoa que escuta críticas, leva para o lado pessoal e fica mal com isso, essa pessoa sou eu. Mas só consegui efetivamente ficar bem com isso quando eu peguei a lógica dos alemães nesse aspecto: a crítica sincera é a forma mais eficaz de melhorar algo. E de você dizer que uma pessoa tem capacidade para fazer melhor.

No ano passado, no período imediatamente posterior a um comentário meu em um post do blog do Tony Goés (to be found here) que gerou uma pequena celeuma parecida a que ocorreu nos últimos dias, escrevi um post (this one) no qual eu comentei alguns pensamentos meus sobre como é difícil ter um blog e principalmente lidar com o inevitável: as críticas das pessoas que pensam diferente de você. Relendo o post, ainda percebo que sustento integralmente o que eu escrevi naquela época. Abrir um blog a comentários é praticamente instalar um telhado de vidro acima de você com LED's piscando "Atire aqui". Mas sem os comentários, blogar vira uma via de mão única, sem o inestimável benefício de ter a sua opinião contestada e de te dar a possibilidade de pensar sob óticas novas, perspectivas diferentes.

E quando falo comentários, falo de comentários que analisam o que você escreveu. Todo blogueiro adora escutar elogios, todo blogueiro adora receber comentários positivos e, com o tempo, todo blogueiro perigosamente cria uma necessidade dos comentários elogiosos dos leitores mais assíduos do blog - que obviamente são os que mais se identificam e pensam como você. 99% dos leitores que leram seu blog uma vez e não curtiram não vão voltar a ler o seu blog. Dentro desse 1% que leu, não gostou, ficou puto/ofendido com o que você escreveu e se motivou a apertar o botão de comentários, a esmagadora maioria vai assinar como 'Anônimo' e meter o pau com o objetivo de te ofender pessoalmente. Agora, a pequena minoria que não concordou e que vai meter o pau em você com argumentos válidos, contestando com base no que você escreveu... esse é o tipo de comentário que com certeza faz valer a pena ter um blog. Esse comentário é aquele que vai fazer o blogueiro parar por 1 minuto e pensar "Será que eu realmente podia ter pensado de forma diferente?".

Sinceramente, achei o post do Tony sobre a morte do Bin Laden uma análise rasa e superficial. Parei para ler o post depois de um dia de trabalho + faculdade intenso (como infelizmente a maioria dos meus dias são:  sabe como é, infelizmente não dá para fazer uma ponte aérea "Brasil-Europa" sempre que dá vontade - Checklist do Projeto “Tornar-o-meu-blog-uma-vitrine-para-mostrar-como-sou-foda-inteligente-AND-jet-setter”: menção ao fato de que eu viajei para o Exterior nos últimos meses independente do fato de que somente viajei DUAS vezes para o exterior em toda a minha vida: DONE) e discordei de quase tudo do que ele falou ali. Apertei o botão de comentários e escrevi tudo o que eu pensei sobre o que ele tinha escrito - em muitas linhas porque essa a forma que eu escrevo, relacionando com as coisas que eu já li/escutei/estudei porque foram coisas que eu li e eu veio na hora falar - e enviei o comentário. Sob o meu nome, sob o meu avatar porque foi isso realmente o que eu pensei e porque acho incrivelmente bobo e covarde entrar um blog e enviar uma opinião sob a máscara do "Anônimo" e porque sou inteligente o suficiente para saber o Tony saberia que eu escrevi aquele comentário.

Sobre a resposta do Tony (que gerou toda a discussão) em si, acho que vale muito pouco a pena comentar, ele deixou claro os argumentos e prerrogativas dele num post do blog dele que todo mundo leu e ponto final. Sobre o Tony as blogueiro, tirei cinco minutos do meu dia (quando poderia estar levando 'meia hora de rola' - Anônimo, você nem sabe o quanto faria bem pelo menos meia hora... :D) para comentar sobre aquele post porque achei e acho que ele tem capacidade intelectual de sobra, experiência de vida (que infelizmente eu não tenho - concordo plenamente que muita coisa só se aprende com o tempo: mas não tudo) e leitura de boas fontes o suficiente para ter escrito algo melhor e mais fundamentado. Já entrei em milhares de blogs, leio assiduamente os que estão no meu blogroll e comento nos quais acho que vou ter uma opinião diferente ou concordante sobre aspectos que me interessam e onde sei que o autor pode rebater a altura/mesmo nível. That is it. Foi isso que aconteceu naquele post, concordo quando Lucas T. disse que "Pensei que pela sua idade avançada (sorry, não resisti) fosse kind of imune a certos comentários e "retaliações".", acho que os comentários "Incrível seu texto! Muito bom!!!" redundantes e sinais de uma necessidade de atenção e carência desesperada por parte da figura do leitor que eu não consigo entender e ponto final. Continuarei lendo o blog 'Tony Goés', continuarei comentando nos posts em que eu discordar e achar que vale a pena mesmo falar alguma coisa, continuo achando o Tony um cara interessante por toda a experiência de vida (completamente diferente da minha) e (mais uma vez) ponto final.

Sobre os comentários gongativos em relação ao blog (que obviamente vocês sabem que eu li - e o melhor de todos, seguramente, é o do 'O Gato Comeu' e "...tony sinto que no fundo vc tem um coração, o fernando eu já não sei, parece que ele tem uma calculadora de milhas de viagem no peito." - Lieber, Ryanair é uma empresa onde as comissárias de bordo vendem bilhete de loteria durante o vôo e que tem planos de vender passagens onde os passageiros voarão em pé. Você realmente acha que eles tem programa de milhagem? Mesmo?!), claro que eu fiquei (por cinco segundos - tempo que a minha hiperatividade me permite ficar focado em alguma coisa) chateado, claro que eu repensei sobre a utilidade de realmente blogar e colocar a minha cara a tapa na blogsfera. Óbvio que ler "Não gosto do blog do tal Fernando. Posista, pernóstico, deslumbrado. Prolixo ao extremo. Despreza solenemente a inteligência de quem se interessa pelo que ele escreve." me faz pensar se eu levei o meu blog na direção correta, se realmente eu reflito quem eu sou e o que eu realmente penso no Lost und Found in Translation.

Mas e daí que eu sou considerado "prolixo ao extremo"? (Momento "Abrindo meu coração": fiquei durante anos grilado com o fato de eu sempre usar muitas palavras e informações para falar sobre qualquer coisa até o dia que, em um date com um russo, eu comentei que adorava Dostoievski e o FDP respondeu "Dá para ver. Você não pára de falar. Eu odeio Dostoievski.". Sorri amarelo, levei o date até o final da noite, deixei o cara visivelmente puto quando falei que queria ir para casa. E continuei lendo Dostoievski e seus calhamaços cheios de frases intermináveis.) E daí, por ser crítico ao capitalismo, eu sou considerado "comunista de butique"? (uma das minhas melhores amigas - uma das pessoas mais inteligentes e brilhantes que eu conheço, uma das poucas que leu Marx, conseguiu entender 5 linhas do que ele escreveu e que eu consigo sinceramente chamar de "comunista" - riu ALTO com essa. Justamente por saber a profundidade e conhecimento que eu tenho sobre qualquer coisa que Marx já escreveu. :D) E daí que eu sou considerado "esnobe" e eu seria "muito sabe-tudo, é muita finesse adquirida que essa gente (nós míseros leitores) não tem, muito conhecimento pronto e acabado, economia, enologia, linguística, história universal..."? (Bem, os posts sobre a minha crise de Mid-20's ou sobre o meu 'desconforto' por eu, na verdade, eu ser suburbano estão ainda no ar.) E daí que eu "endeusaria a minha experiência de intercâmbio na Europa"? (O primeiro post do blog também ainda está no ar e explica muito do que me motivou a começar isso daqui)

No fundo, é como um grande amigo resumiu hoje em um email para mim. "Mas esse é o preço de se expor na internet. Deixar que alguém que só enxerga uma moldura sua te imagine por completo.". E o que eu posso fazer? Convidar cada um dos anônimos a ler os posts que eu linkei acima e meter o pau em cada um deles - com argumentos, bien sur. E that's all.

E continuemos com a programação de sempre.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

The English Dream

Antes de escrever esse post, eu me peguei pensando em como eu poderia introduzir o assunto que eu quero falar. Eu poderia fazer um enorme post descrevendo o surgimento do conceito de nacionalismo como doutrina e ideologia no final do século XVIII, citar alguns grandes autores e ensaístas da época para dar um respaldo intelectual, puxar um gancho para meter o pau em algum aspecto que supostamente considero decadente da sociedade brasileira contemporânea (acho que alguns leitores mais erráticos do blog realmente acreditam que eu tenho um globo terrestre na minha casa onde todo dia antes de dormir eu espeto uma agulha no mapa brasileiro falando "Terrinha maldita! Deuses da Economia, mandem uma crise para esse país de quinta e façam com que essa classe média medíocre passe a não ter dinheiro nem para passar um final de semana em Pedro Juan Cabellero!", passo a mão suspirando "Um dia eu volto, um dia eu volto..." por todas as estrelinhas douradas coladas sob as capitais européias que eu conheci, desligo a luz do quarto e vou dormir abraçado com um travesseirinho com fronha "I (heart) Europe"), fazer alguma previsão pessimista-deprimente-catastrófica sobre os próximos acontecimentos e terminar o post com uma mensagem de esperança para não deixar os meus leitores muito deprimidos e tentar aliviar um pouco a minha fama de "chato-corta-barato".

Mas obviamente a forma informal de começar a falar o que quero é BEM mais interessante. E enrolar lingüiça para tentar pagar uma de intelectual 'meu-maior-sonho-é-fazer-mestrado-sobre-os-trabalhos-de-(inserir nome de autor de nome difícil, com trabalhos controversos e textos absolutamente impossíveis de ler)' é algo que eu já faço diariamente na minha querida faculdade de Economia, portanto... não preciso fazer isso aqui no blog e... lá vai!

(Primeiro, imagina uma coisa 'campo florido', uma coisa Grieg, uma coisa 'comercial de perfume floral francês'. Foi? Não! Não rola imaginar Holambra porque interior de São Paulo logo vai desembocar em Monteiro Lobato, Sítio de Picapau Amarelo com aquela dona Benta chata entupindo todo mundo de comida gordurosa, tradições do interior brasileiro e quando você menos esperar Barretos vai aparecer e vai foder com o que eu quero que você pense. Tem que ser campo florido de região de clima temperado. Rola imaginar Rio Grande do Sul - se na cidade próxima não tiver Festival da Uva/Maçã/Lichia Fúcsia nem Rainha/Princesa do Festival tentando convencer que vale super a pena viajar até Porto Alegre/Curitiba/Florianópolis, se enfiar num carro por 20503 horas para chegar numa cidade perdida no meio do nada e comer 20504 variações do mesmo legume/fruta nas mais diversas e calóricas possibilidades.)

Em algum momento do século XVIII, as grandes nações européias caíram na real que a lânguida-virgem-e-frágil-camponesa-louca-para-dormir-com-o-tratador-de-cavalos-do-vilarejo era absolutamente iguais na Normandia, na Baviera e na Jutlândia - impossíveis de distinguir uma da outra. Perceberam que precisam denominar uma fronteira, um idioma, uma capital para cada um dos países que eles tinham na cabeça. E claro, o mais importante: inventar uma série de tradições, lendas, mitos e valores que cada uma das queridas nações européias deveria representar.

E nisso os franceses saíram pegando logo o conceito de luxo, sofisticação e finesse (confessa que não dá para imaginar que um lugar com um nome tão chique como "Noisy-Le-Sec dans Seine-Saint Denis" é isso); os alemães, o conceito de burguesia intelectualizada, esclarecida e filosófica (rá-rá-rá); os italianos, a tradição representada pelo Império Romano e a sofisticazione representatta per il idioma italiano; e daí para frente.

Obviamente os ingleses não ficaram para trás. Olharam para o diabo daquelas ilhas chuvosas-e-cheias-de-ovelhinhas, pensaram na bosta que era ainda ter que dividir aquilo tudo com povos super civilizados como escoceses, irlandeses e galeses e ter que fingir que Edimburgo, Dublin e Cardiff super eram tão importantes como Londres. Olharam para o outro lado do Canal da Mancha, viram os franceses dando uma esnobada para eles, pensaram "Isso vai dar merda, temos que unificar essa porra aqui.", até que... provavelmente algum Lorde em alguma sessão levantou a mão e disse "Já sei! Vamos complicar ao nível do absurdo qualquer aparição daquele inútil do Hampton Court Palace! O símbolo britânico vai ser a Família Real! O símbolo britânico vai ser o protocolo!".

Daí já viu: algum inglês perdido em alguma manufatura inventou alguma máquina a vapor que deu meio certo, a Inglaterra ganhou rios de dinheiro, percebeu que o maravilhoso exemplo de administração das próprias Ilhas Britânicas tinha que ser repetido em outros lugares do mundo, simpaticamente convidou a Índia e metade de África para tomar chá todo dia com eles, começou a arranjar quizumba com os franceses, começou a arranjar quizumba ainda maior com os alemães, se fudeu porque o povo missionário-mala do Mayflower copiou todas as máquinas deles e ficou ainda mais bafônico e rych do que eles, metade das colônias resolveram ser pobres e miseráveis sem o passaporte britânico (e ter a emoção de poder imigrar legalmente para o Reino Unido!), Londres passou a ser uma cidade cool-but-not-so-cool-as-NYC e ponto final.

Mas depois de todo esse tempo a merda já estava feita, e o mundo estava convencido: os britânicos eram os representantes mais fleumáticos do protocolo. E as imagens de uma família britânica branca-loirinha-e-dentucinha (absolutamente indistinguível da Família Real da Áustria, Rússia, Espanha ou Alemanha) acenando da sacada do Buckingham Palace, roboticamente impecável-simpática-e-grata-pelos-contribuintes-não-terem-os-decapitado (França tá ali do outro lado, gente!), cerimônias cheias de firulas e sem o menor sentido prático e funcional em democracias modernas e esclarecidas mas que supostamente remetem a tradições milenares criadas no século XVIII e banquetes onde Lordes e Ladies de Cheddarham ou Fuckinghamshire comparecem e as mulheres sustentam absurdos-e-cafonérrimos chapéus correm o mundo. Em nossas simples repúblicas, semelhantes farras faraônicas com o dinheiro público levariam a processos, provocariam indignação popular, impeachments ou derrota do presidente nas próximas eleições. No reino encantado das Ilhas Britânicas? Provocam um suspirinho de "Ah, como é romântico ter uma Família Real como os ingleses tem...".

Semana passada em Paris eu me deparei com um dos periódicos mais lidos das terras gaulesas estampando na capa uma foto de Kate e William e uma manchete "British so Cool". Basicamente uma lista, escrita por jornalistas franceses, dos motivos pelos quais os britânicos eram muito mais cool do que os franceses. Dois minutos de choque (Francês elogiando inglês? Que porra é essa?!) precedidos de uma rápida olhadela ao redor para uma Rue des Martyrs absolutamente deslumbrante sob um céu completamente azul de primavera e parisienses casualmente bem-vestidos comendo+fumando do lado de fora de elegantes pequenos bistrôs e a minha cara de "Como os ingleses são mais cool que os franceses?!". Tudo bem, eu sei: auto-flagelação e reclamar da 'decadência da sociedade francesa contemporânea' são atividades nacionais francesas favoritas e a França não se restringe ao arrondissements elegantes de Paris. Mas ao mesmo tempo (e todo mundo que teve amigos ingleses pode confirmar), por que diabos sempre acabamos associado ao conceito "Britânico" uma imagem fina-refinada-e-trenchcoatiada e nunca a imagem que todo mundo sempre mais vê em Londres?!

Enfim, tudo isso para dizer que acho muito bonitinho as thousands Union Flags espalhadas por Londres, muito simpático todo aquele povo farofeiro-cheio-de-dente-mal-tratado acampando em frente ao Palácio de Buckingham para ver um monte de batedor da Polícia Inglesa cobrindo o Rolls-Royce da noiva, muito interessante o fato de que o vestido que Katherine Middleton irá utilizar é um assunto mais importante para a Folha (e pelo que parece, para o mundo) do que o massacre que as tropas do Gaddafi estão provocando em Misrata. But, engolir soft power britânico e ficar bradando bandeira britânica e suspirando pela pompa e tradição britânicas não rola. Londres é absolutamente imperdível, a Inglaterra é fofissimamente vários dos clichês que eu tinha criado na minha cabeça antes de ir e toda a tradição imperial realmente é legal e vale a pena ser vista e compreendida. Mas comprar esse idéia de que britânico ainda é um povo educado que toma chá às cinco e que é aquela imagem inatingível de formalidade e sofisticação... no way. Não tenho paciência nem saco.

(Que sobrevivemos ao dia de amanhã, dear Lord...)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

It closet


Em idos de 2001, quando eu era apenas um pequeno rapaz campo-grandense (Campo Grande being subúrbio Far-Far-Far Away do Rio, não a capital sul-mato-grossense) do subúrbio do Rio de Janeiro, estudando de um tradicional colégio federal do Rio de Janeiro (meu uniforme era tão 'Baby one more time' feelings :D), provavelmente muito empolgado por estar no meu primeiro relacionamento sério com uma 'pessoa' (adoro quando aquelas caras obviamente gays vão dar entrevistas para Fantástico/Globo Repórter e ficam falando “Mas por que eu gosto de uma 'pessoa'...), provavelmente por estar cansado e triste de repetidamente estar dando balão na minha mãe (“Mas mãe, o pessoal do alemão resolveu marcar um grupo de estudos justamente para sexta-feira às 21h, acredita?!”), provavelmente louco de achar que minha mãe aceitaria 'a verdade' tão facilmente assim, eu resolvi fazer o meu coming-out. Isso mesmo: 16 anos de idade. Enquanto (nessa idade) muitos dos meus amigos gays ainda levavam fé nos seus amassos de matinê com menininhas na Prelude/El Turff, eu já tinha sacado o que eu realmente curtia, já tinha contado tu-di-nho para mamãe (e sofrendo como um condenado por isso – ainda conto a história completa desse acontecimento) e era um leitor costumaz das matérias estilo “10 dicas de como fazer seu homem enlouquecer na cama” das Nova Cosmopolitan e Marie Claire da vida. :D

Talvez por ter feito o coming out tão cedo, talvez por ter pago tão caro e ter que lidar com a frustração potência dois mil de uma mãe paranoica e obsessiva que não media esforços para tentar me colocar no 'caminho certo' (e que provavelmente deveria oferecer treinamento para a CIA e Mossad sobre técnicas de coerção e investigação estilo “O-que-eu-fiz-quando-falei-que-fui-para-tal-lugar”), talvez por ter passado boa parte da adolescência tendo que lidar com o fato de que a minha mãe jamais iria aprovar qualquer coisa de bom que eu fizesse (porque sempre existia a sombra de 'uma certa verdade' que fazia ela dizer que gostaria que eu fosse qualquer um dos rapazes da meu bairro, mas não eu), eu tive que compensar na valorização do fato de que foi bom eu ter sido sincero e ter contado a verdade. Nos piores momentos, onde tudo parecia incrivelmente difícil e eu começava a me culpar por ter sido tão idiota de acreditar que tinha valido a pena ter sido tão sincero tão cedo, eu jogava uma água fria na cara e repetia para mim mesmo que o preço de ter sido verdadeiro era imensurável. Eu não precisaria lidar com essa verdade mais tarde, e logo, quando eu fosse uma pessoa independente e autossuficiente em termos financeiros, minha mãe acabaria entendendo e me aceitando. (P.S.- Ai, esse parágrafo ficou uma coisa tão "Can't take that away"... Foi malz, hein...)

Sendo assim, eu confesso que tenho certo bloqueio de entender porque as outras pessoas não fizeram o mesmo. Entender porque pessoas, já autosuficientes, esclarecidas, seguras do que realmente são, não conseguem se assumir e falar “Eu gosto de moda, eu não uso bermuda cargo, eu sou viado”. Ok: eu entendo que cada um é um universo particular de condições, realidades e histórias, blablabla... Mas confesso que a história de alguns amigos desafia a minha compreensão e exigem certa dose de “sorriso amarelo”+“claro que eu te entendo!”, como a história de dois amigos que eu conto aqui abaixo.

O primeiro é um grande e queridíssimo amigo (que espero que não seja leitor do blog! :D). Advogado, bonito, um dos únicos homens cariocas realmente bem vestidos que eu conheço. Mora atualmente no Leblon, foi criado dentro da Jeunesse Dorée de Niteroí (para quem não é do Rio: Niteroí é um cruzamento de New Jersey com Hamptons, cidade da região metropolitana do Rio poder aquisitivo médio mais alto do que a média da cidade do Rio, mas que por um motivo obscuro... tem uma vida noturna e cultural próxima do zero, o que obriga a maioria da sua galera jovem a ter que partir para o Rio em busca de entretenimento nos finais de semana), atualmente completamente independente em termos financeiros dos pais. Enfim: he is got the looks, the brain, the personality. E apesar de “descoberta tardia”, já tem constando no seu currículo alguns bons relacionamentos de médio prazo, histórias realmente sérias (do tipo namorado fixo, que vai a cinema no final de semana, viaja para destininhos românticos em feriadões, etc&tal). Garotas? Segundo as contas dele, a última ficou para uma noite meio embaçada pela vodca no final de 2009, provavelmente em alguma night “Hetero moderninha”, provavelmente com alguma 'Fag Hag' mais atiradinha e entendiada pela viadice dominada pelo lugar. Mas, mesmo assim... a pessoa ainda se define como... “bi”. E simplesmente não consegue vislumbrar a menor possibilidade de, no médio prazo, se assumir realmente como é para família e amigos, e fica naquele estilo de vida estranho de ser uma coisa no Rio, outra coisa completamente diferente em Niteroí.

Desafio maior à compreensão é o segundo caso. O cara é aquele clássico tipão de intercambista que veio da Alemanha para o Rio de Janeiro, ficou deslumbrado pela beleza da cidade, simpatia das pessoas (oi?!) e abertura em termos sexuais e sociais do carioca médio (hein?!) e criou uma relação especial com a cidade (e para quem eu, escutando ele listar todas as 3053 razões pelas quais ele acha que o Rio é muito melhor do que Berlim, somente sorrio pensando “Deixa ele morar aqui 1 ano para ver como ela vai amar tudo isso” e olho para o meu amigo inglês que está pensando a mesma coisa do que eu). Devido ao seu tipão “Sou-loiro-sou-alto-sou-fortinho-Sou-o-que-Hitler-sonhou-pro-mundo” provavelmente passou o rodo em um número considerável de meninas cariocas (que levam a merecida fama das brasileiras mais jogo-duro, mais “não vou dar assim fácil não!” entre os heteros - mas que abrem as pernas para os gringos, afinal... receber bem o turista é uma obrigação de cada carioca, néam? :D) até o inesperado acontecer: ele topar com um menino brasileiro e ploft!: rolar uma atração inexplicável (o “ploft!” fica à cargo da imaginação fértil de vocês). Curto demais o garoto (mas preciso mesmo bancar o Fernando “bonzinho, coelhinho-na-floresta, amo-o-mundo-só-vejo-o-lado-positivo-das-coisas?” com vocês? Não, néam...), mas preciso confessar que sinto demais aquela coisa de “Clássico caso de 'Porque alemães amam brasileiros'”: do alto dos seus 19 aninhos, morenão com corpão, inteligência definitivamente não é o forte (o que me faz suspeitar de... enormes qualidades não aparentes do ambiente de um restaurante ou sala de estar... :D), recém-saído do armário e com aquela idealização do mundo dos relacionamentos tão típica de quem acabou de sair dos 'teen years', tão típica de quem ainda assiste Bridget Jones e outros clássicos ingleses de comédia romântica e super acredita que dá para transportar isso para fora das telas e viverá uma história igualzinha no mundo gay contemporâneo. Os dois juntos chegam a ser uma coisa “Felícia-in-love”, uma coisa “Labrador-pulando-em-cima-do-dono” de tão Te-amo-te-quero-quero-ficar-todo-o-tempinho juntinho-e-coladinho-em-cima-de-você. Eu fico meio mal perto do garoto, porque sinceramente enxergo nele o inocente-romântico-e-cheio-de-ideais Fernando de alguns anos atrás (mentira: eu sempre fui consideravelmente cínico e cético – esses dias encontrei um dos meus antigos diários de adolescência e fiquei cho-ca-do como eu já era mau: eu metia pau nos meus amiguinhos de classe que me zoavam, nos professores, nos meus familiares e até em alguns dos meus amiguinhos menos próximos! Gente, por que eu sempre fui assim? #Criseinternafeelings) e tenho que me controlar ao máximo para não deixar o meu instinto “WAKE UP, SWEETHEART!” vir à tona e chocar o garoto com o fato de que os filmes para adolescentes da Disney e Malhação não  te preparam para o mundo dos relacionamentos gays no Rio de Janeiro contemporâneo (o máximo do meu autocontrole foi quando estávamos num get together, e ele disse para gente que curtia estar em relacionamentos porque relacionamentos são “um tipo especial de conexão com outra pessoa, essa coisa meio 'um fazendo a barba do outro, juntos de manhã depois de uma noite de amor dormindo juntinhos” - eu respirei fundo, segurei a minha cara de “WTF?” da melhor forma que pude, virei a taça de vinho na minha mão goela abaixo e fui acender um cigarro). Enfim, voltando ao caso inicial: o alemão parece ter se apaixonado de verdade pelo cara, os dois decidiram enfrentar um relacionamento a distância monogâmico, o alemão pega a Lufthansa de volta para o Brasil na primeira oportunidade que encontra pela frente, quando os dois juntos é aquela coisa linda, aquela coisa “Born to make you happy”, etc&tal. Por que diabos estou contando essa história? Por que somente esses dias, quando proferi um discurso “Por que nós, gays...” na frente do Deutscher, eu fui saber ficar com caras é uma coisa meio tipo “Ao Sul do Equador não existe pecado” por parte do alemão: o cara é gay no Brasil e hetero na Alemanha. (!!!) Hein?

A minha capacidade rápida de pré-julgar as pessoas definiria esses dois casos como falta de coragem e culhões. A minha proximidade com eles me faz passar a mão na cabeça, e apesar das minhas pontuais tentativas de tentar mostrar que o mundo “Somewhere Over the Rainbow” tem uma riqueza e uma paz de espírito incomparáveis com o mundo dentro do armário, de tentar compreender os motivos e razões de caras tão... prontos para saírem do armário não o conseguirem fazer.

Mas enfim... o que fazer, néam?

segunda-feira, 28 de março de 2011

我々は世界です (金持ち、少なくとも)


Eu sei. Eu também fiquei chocado com as imagens do terremoto + tsunami no Japão. Eu também fiquei impressionado com as imagens de satélite das regiões mais afetadas, do tipo "Antes e Depois", mostradas no site do TheGuardian. Eu também fiquei com o coração partido com as imagens das criancinhas japonesas afetadas por toda a inacreditável desgraça da ameaça de meltdown em Fukushima. (Juro que eu sou das pessoas que mais detestam crianças, meu instinto paternal é simplesmente inexistente e sou felicíssimo por ser gay por não correr o risco de ter esse subproduto das relações sexuais chamado filho... mas imagem de criancinha asiática me desmonta. Dá vontade de apertar até dizer chega, dar um Tamagochi e mandar ela ir brincar com os amiguinhos no parquinho. Fofo demais, néam?).

Mas... "Campanha para auxiliar as vítimas do terremoto no Japão"? Mega concerto para arrecadação de fundos para as vítimas do tsunami? Afeganistão doando US$50 mil dólares, Sri Lanka doando US$2 mi + equipamentos de resgate e medicamentos para o Japão?

Alguns pensamentos (cruéis, é claro) vem a minha mente agora:

1) Japão é a terceira maior economia mundial: Sério, o Japão é uma economia tão chique, tão desenvolvida, tão rykah que eles se dão direito de ter deflação, honey. Não sabe o que é deflação? Pausa no texto para você, pessoa moderna e incluída digitalmente jogar a palavra no Wikipedia É quando o preço dos produtos cai porque simplesmente não existe demanda suficiente para atender a oferta (entre outros motivos, claro, mas eu estou dramatizando a teoria econômica para efeitos textuais :D). Em outras palavras, o povinho de olho puxado comprou tanto Toyota, tanta Louis Vuitton e tanto celular Sony que não tem mais o que comprar. (Enquanto você aí ferrado em 17x com muitos juros para comprar aquela mesinha da Tok&Stok feita de madeira compensada...)

2) Japão é o maior welfare state que equilibra qualidade x população atendida: Por que vamos combinar que fornecer hospital, escola, transporte público eficiente, tratamento psicológico (por que desenvolvimento e falta de problema real equals distúrbios psicológicos), moradia decente e estímulos financeiros para as pessoas procriarem para uma população de 9 milhões de pessoas altas, magras, loiras, lindas e suicidas é muito fácil. Outra é você estender esses benefícios para 130 milhões de pessoas.

3) Japoneses são os turistas que mais gastam ao redor do mundo: Todo mundo que já visitou as grandes capitais do mundo sabe – dá muito ódio e inveja ver turista japonês. Eles sempre andam em bando. Mas é um bando diferente dos outros grupos de turistas asiáticos. Nada de casaquinho “Vou pro Pólo Norte” de novo rico chinês. É trenchcoat Burberry, é bolsa Ferragamo, é sapatinho Prada - e tudo isso com aquela pele de porcelana impecável devidamente hidratada com produtos Shiseido. E não é só um: são MUITOS. Todos juntos. Saindo felizes e contentes carregando sacolas e sacolas da Louis Vuitton. Justamente enquanto você sai da H&M carregando uma sacolinha e decide se vai comer no Mac Donalds ou um Döner Kebab na esquina. Mundo injusto. Mundo muito injusto.
P.S.- Fiquei sabendo por um amigo francês uma história de que as lojas da Louis Vuitton em Paris simplesmente recusam-se a vender mais do que duas bolsas da marca para qualquer turista japonês. Segundo ele, mesmo indo de contra às 2542 leis antidiscriminação existentes na França, a Louis Vuitton faz isso como uma tentativa de proteger as filiais japonesas da marca, que em média cobram um preço mais alto pelas bolsas do que as filiais francesas. O que os japoneses fizeram? Já é absolutamente normal para os parisienses serem parados na Champs Elysees por japoneses ensandecidos com centenas de euros nas mãos e implorando para que eles entrem e comprem uma bolsa para eles! (Claro: França não é Escandinávia, e a polícia parisiense já atendeu não-sei-quantos-casos de turistas japoneses que perderam sua grana depois de pararem um estranho na rua e o estranho simplesmente desaparecer com o dinheiro deles.)

4) Japão é um dos principais mercados de luxo do mundo: Senão for o principal mercado de luxo do mundo. Claro, por motivos de status, as grandes maisons tem que filiais em Paris, Londres, Nova York, Milão... (E claro, na Oscar Freire e Garcia D'Ávila, néam? :D) Mas o principal mercado, considerado o mais estratégico para o sucesso ou derrocada de uma marca, seguramente é o japonês. E do tipo, não é só abrir uma flagship store na Omotesandō em Tóquio e acabou - tem que ser um prédio fodástico, assinado pelo baladérrimo escritório de arquitetura Fulaninho&DeSicranon, painéis de vidro que reclinam conforme o momento zen budista do universo e luzes em LED em toda a fachada emitindo a mensagem “Rykeza, Rykeza”. Afinal, toda aquela história de 'cerimônia do chá' (coloca aguinha no copinho com mãozinha em posição de 'lótus-reverenciando-a-cegonha-desafiadora', deixa descansar por 15 minutos – nos quais você deve ficar absolutamente imóvel sentadinho naquela posição de gueixa em cima daquele tatame duro – reverencia a cegonha-desafiadora de novo, dá um micro golinho e coloco o copinho de volta na bandejinha) reflete o apreço nipônico pela “whole experience”, e para eles comprar um produto de grife é mais do que um mero ato de compra, mas todo um processo simbólico de representação do status ocidental.

Será que realmente o Japão precisa tanto de ajuda assim, hein? Sofrimento humano é imensurável e sempre impossível de ser comparado, sempre tem que despertar o espírito de solidariedade que temos na gente... mas sejamos um pouco mais pragmáticos, não é?

Só para terminar: alguém aí sabe o que foi feito do Haiti, hein?

domingo, 10 de outubro de 2010

Sobre o Brazilian Style

Se “Brasil” fosse uma marca comercial, facilmente seria uma das mais valiosas do mercado atual. Por quê? Vamos fazer um exercício mental: você é uma criatura loira, branca (e com grande probabilidade de ser gordinha - vocês não entendem o dilema que é ir no mercado decidido a comprar maçãs e outras frutinhas sem graça e super faturadas e semelhantes, olhar para a gôndola das maças por €5,00/quilo e olhar para a gôndola dos sorvetes maravilhosos por €1,30... também o quilo, pensar "Tá frio pra caralho mesmo, tô cheio de roupa, ninguém vai notar se eu estiver um pouco mais gordinho.", e mandar pra dentro do carrinho os sorvetes), mora num país onde o início da primavera já significa temperaturas caindo abaixo dos 15°C e quer se matar quando lembra que verão mesmo só dali a 6 meses. Then você abre uma revista, olha para a foto acima e lê sobre o estilo de vida de um povo feliz-bronzeado-sarado-e-botocado (sim, Angela Bismarchi é super conhecida ao redor do mundo, e deve já ter dado entrevista até para a Nepal TV falando sobre a sua cirurgia de reconstituição do hímen) que flana por praias paradisíacas e praticamente sem fim, partying all the time e com o plus de terem a fama de serem ótimos na cama. E esse povo vive num país onde as oportunidades parecem multiplicar a cada momento (em enorme contraste com onde você mora, onde os anos dourados já se foram há muito tempo e "decadência" é a palavra mais usada para descrever a sua sociedade), com uma economia entre as que mais crescem no mundo, mas que ao mesmo tempo mantém um certo grau de civilização (relembrando: pode ser mesmo considerado democrático entre Rússia, Índia e China, hein? Thanks god que pelo menos Tiririca pode ser eleito!).

Impossível conter a euforia e a expectativa, não é? ;)

A questão que me preocupa é até onde nós, brasileiros, acreditamos e entramos nessa imagem que o Brasil anda projetando para o mundo.

O diretor da revista Monocle e colunista do FT, Tyler Brûlé (#1: Sim, o nome é escrito dessa maneira bicha; #2: Sim, ele é bee e é um Pokemón mistura de estoniano e franco-canadense; #3: Morry quando li na Wikipedia que parece que ele “inventou” esses acentos no sobrenome dele), considerado um dos maiores trendhunters (aka. gente que tem como rotina de trabalho viajar de um lado para o outro do mundo comendo, bebendo, vestindo o que ha de bom e de melhor para depois nos dizer o que nós deveriamos consumir) da imprensa internacional atual dedicou toda sua coluna no jornal inglês da semana passada a questão de como “Brazil is good to go”. A primeira vista? Fantástico! Elogios sempre são tão bem vindos e impossível não se sentir um pouco "Ai, pára, vai... Continua elogiando!" quando uma pessoa de fora cita tanta coisa boa sobre o Brasil.

Mas num segundo momento, depois topar acidentalmente com o post da Alexandra Forbes no blog “Boa Vida”, comecei a repensar o artigo. “Sou totalmente da torcida ao favor e fico super feliz quando leio elogios ao Brasil, mas desta vez fiquei meio incomodada... Sei lá, ando enjoada de ler mil e uma matérias estrangeiras puxando o saco da mesma gente, enchendo a bola dos mesmos lugares.” Red Alert: se um blog de estilo de vida já reage "Fasano? Trancoso? Atala? Ainda isso?", hora de o (futuro) economista-chato de plantão sair da bolha dourada e colocar a cabeça para pensar.

Muito se fala sobre o choque de se voltar de um país desenvolvido para o Brasil, mas poucas vezes eu li sobre aquilo que se sente ao se chegar lá fora. Como brasileiro, eu posso falar sem sombra de dúvida que o meu maior choque ao chegar em Hamburgo foi aprender a viver numa sociedade classe media. Ao mesmo tempo entender que muito estava agora ali, ao meu alcance financeiro, mas que ao mesmo tempo toda a gama de serviços e facilidades e privilégios que estamos mega acostumados não existe mais. (Meu melhor amigo alemão sempre se impressionava no Brasil com a quantidade enorme de caixas e atendentes em qualquer lojinha e restaurante, com pessoas empacotando suas compras e recolhendo suas bandejas nas praças de alimentação de shoppings, com os inúmeros serviços de delivery - isso inexiste na Alemanha) Adaptar-se a uma cultura "Trabalho humano é importante e caro demais para ser desperdiçado em tarefas tão imbecis / So do it yourself!", ter que pensar numa solução além da "Dá pra contratar alguém para fazer isso?" (juro, que por mais consciente socialmente, mais proto-intelectual economista da UFRJ que eu fosse, eu soltei uma cara de "WHAT?!" a la Marie-Antoinette-sendo-conduzida-para-a-prisão-pré-guilhotina quando a administradora da residência estudantil me deu um balde de tinta branca, pincéis e falou "Você tem dois dias para pintar todo o seu quarto.". Portanto, quatro dias antes de Fernando estar dando pinta no ICE/TGV a caminho da Paris, estava eu numa loja de produtos químicos em Hamburgo tentando transmutar a palavra "aguarrás" para o alemão e com uma mancha de tinta branca nos meus cabelos cacheados que não saía de jeito nenhum.), entender que não adianta se você tem grana para pagar duas, três ou vinte vezes o preço da entrada do clube: você vai ter que esperar na fila e passar pelo door control (que vai avaliar como você se vestiu e não quantos monogramas você expõe - escutar uma hostess falando para a minha amiga em sueco que não aguentava mais negar a entrada de turistas americanos que "achavam que camiseta Christian Audigier, jeans D&G e tênis Nike eram roupas adequadas para uma boate" enquanto nos deixava entrar - eu vestido de C&A brasileira + brechó Hamburgo + sapato, esse sim muito bom - me ensinou que sempre vale a pena tentar se vestir bem) pode ser bem mais difícil do que se parece.

Mas, um dos efeitos de se viver numa sociedade tão classe média (principalmente na Alemanha, onde o esporte nacional favorito - depois de falar mal dos holandeses - é criticar) é voltar chato, extremamente chato. Reclamando da comida, dos preços, das roupas, dos estilos oferecidos. De absolutamente tudo. A famosa síndrome (que o Alex Bez - que aliás, sumiu dos comentários - me alertou) da bicha "Fui-pra-Europa-e-voltei-chata-pra-caralho. 

Em minha defesa: criticar é fácil, o difícil é tentar entender. E como eu adoro escrever muito, esse blog nunca foi muito preocupado com a quantidade de linhas de um post e esse assunto me incomoda, vamos analisar a questão. 

Quando eu trabalhava na Alemanha com trendforecasting uma das questões mais discutidas no escritório (e que as grandes empresas mais buscavam saber) era a formação dos novos padrões de consumo das chamadas nações emergentes. Explicando: os padrões de consumo de uma nação (principalmente ligados aos serviços denominados de "premium") são relacionados com a maturidade da classe média que esse país conseguiu formar. Em linhas gerais, os mercados europeus são considerados "alta maturidade", onde não somente o produto, mas todos os seus "efeitos" são de relevância para o consumidor no processo de decisão de compra (questões relacionadas desde ao consumo verde, consumo consciente até a questão de como esses produtos são produzidos - Nike e a marca alemã Sprit sofreram sérios danos de imagem quando foi divulgado pela imprensa que seus produtos eram produzidos sob condições consideradas desumanas em países de terceiro mundo) e os mercados norte-americanos/japoneses de "média maturidade" (onde, por razões culturais, existe uma grande pressão cultural pelo consumo, um grande "fetiche" pelo produto em si muito mais do que a preocupação com a qualidade e como ele é produzidos - mas onde também as questões relacionadas a um consumo consciente já estão inseridas e ganhando espaço). 

E os países emergentes? Países emergentes são basicamente países com classe média em formação, que saíram de um estado inicial de relativa desigualdade social (no caso brasileiro, relativa é um eufemismo dos mais extremos) e que atualmente vivenciam um período de "ascensão social". E que se reflete nos padrões de consumo: a tentativa ainda é de copiar os padrões de consumo dos países desenvolvidos, com grande fetiche pelo produto em si, e sem nenhuma grande reflexão sobre ele - o que é importa é o status que ele irá me trazer ("Estou usando um esmalte Chanel / Estou vestindo uma calça Diesel - sou parte de uma elite"), muito mais do que questões relacionadas ao custo e qualidade dessa mercadoria ofertada.

Retornando ao que eu quero falar: quando se muda de sociedade por uma quantidade considerável de tempo, impossível não "pegar" certas características da sociedade nova e internaliza-las. Sendo uma dessas características o "padrão de consumo", sair de uma sociedade onde o consumidor enxerga o produto ofertado de forma absurdamente crítica (uma das maiores influências na hora da compra para os alemães são as revistas especializadas em comparar produtos e classificá-los por desempenho, qualidade, necessidade e preço - nenhum alemão sai para uma compra maior do que 100€ sem ler pelo menos um artigo na internet de uma dessas revistas sobre o produto que quer e todos os vendedores sempre sabem exatamente listar todas as características do produto que estão vendendo) e voltar para uma sociedade onde o produto é enxergado pelo consumidor como uma chave para aceitação e felicidade dentro de um exclusivo e seleto grupo de escolhidos é no mínimo enlouquecedor, para não dizer frustrante.

E sinceramente, isso me incomoda. A falta de questionamento com o que se consume aqui no Brasil é absurda, principalmente no que diz respeito ao preço. Formação de preços é um tema mega complexo, envolve uma série de outras questões (como, por exemplo, a questão dos impostos), mas o meu objetivo aqui é questionar o ponto de como aceitamos serviços ruins por preços altos. De desde uma Zara (que encaminha o que o Primeiro Mundo não quis consumir - produtos essencialmente de baixíssima qualidade - cobrando preços exorbitantes para ser vendido numa loja onde os vendedores ignoram você e se sentem como parte da elite do "consumer retail" só porque trabalham vestidos de ternos fabricados na Tunísia) até restaurantes (que no Rio de Janeiro, sinceramente, são uma calamidade: uma viagem até SP deixa claro como o atendimento no Rio é nada menos que péssimo, pratos ruins e caros - tudo isso pago com o ar cool tipicamente carioca de quem considera mal educado reclamar de que o serviço foi ruim e decide não pagar os 10%). Consumo, claro, parcelado em 10x no cartão, com taxas igualmente absurdas, mas que no final das contas damos um jeito de pagar e tudo continua exatamente do jeito que está.

Enfim, a leitura do artigo do Tyler Brûlé me faz pensar em que tipo de brasileiros ciceronearam esse cara por aqui, e que tipo de brasileiro ciceronearam vários europeus que eu encontrava pelas capitais européias e que vinham com esse discurso "Brazil is just wonderful / Ipanema is simply THE paradise!", permeados por The Weeks, Reservas, Osklens e Spots da vida. De como realmente, cada vez mais, nos aproximamos daquela imagem do empresário chinês/russo com sua mulher a tiracolo que entra na Louis Vuitton em Paris e pede para descer a bolsa com o monograma mais exposto, mais berrante possível. E como, cada vez mais, eu vejo pessoas ao meu redor pagando preços absurdos e olhando para a minha cara, quando eu reclamo do preço desses produtos, com um certo olhar de "Ou ele é muito judeu, ou isso é síndrome de quem não pode pagar e fica reclamando".

Temos muito mais de Vera Loyola, de nouveau riche do que queremos imaginar. E sinceramente, não quero me conformar com um Brasil onde os serviços, restaurantes e lojas são absolutamente maravilhosos pagando três vezes do que eles custam realmente.

Enfim, tudo se resume a questão de se queremos continuar acreditando que vivemos no lugar mais cool do mundo (e continuar tendo que parcelar absolutamente tudo no cartão, continuar tendo que ir para o exterior para "comer num lugar decente" ou "comprar roupas por preços decentes") ou realmente colocar um pouco dos pés no chão, criar um pouco mais de consciência crítica e quem sabe começar a demandar um pouco mais daquilo que nós é oferecido. (Exemplos? Os infames 10% cobrados por restaurantes e casas noturnas. Gratificação extra é a remuneração por um serviço muito bom - porque o básico necessário, sorry to say, é mais do que a obrigação. Não se sentiu tocado pelo serviço e simpatia do garçom, o prato demorou, o pedido veio errado? Sem 10%, sorriso na cara, obrigado - porque ser educado é fundamental - e ponto final.)

(Enfim, é isso. Opiniões dos leitores, por favor.)

P.S.- Fundamental para a execução desse post também foi a leitura do excelente blog "De Chanel na Laje", principalmente dos posts 1, 2 e 3. Super recomendo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eu juro que eu tento me controlar #2: Glee


Eu sei que metade da blogaysfera vai me matar, mas se o Daniel falou que não gosta de SATC (e o Thiago ousou mencionar que nunca tinha visto um episódio na vida), eu me senti no direito de poder também questionar uma unanimidade.

Eu achei Glee uma bosta. Grande bosta. Enorme bosta.

Por quê?

Agudinhos a la “American Idol”: Eu já assisti “Ídolos” (primeira edição, quando foi ganho por um ex-coleguinha de escola meu – daquela droga de escola do Mirabel), eu já assisti “American Idol” e até acompanhei por alguns episódios o “Deutschland sucht den Superstar” (que tinha o equivalente germânico do Serginho – depois de MUITO bronzeamento artificial, como é de praxe das bees pão-preto-com-ovo -, Benny Kieckhäben e apresentado pelo gostosón mor da televisão germânica Marco Schreyl). E sinceramente? Glee soa exatamente igual. Uma bosta só: agudinhos limpos e claros, caretinhas e mãozinhas Whitney/Mariah na hora de cantar, vozes bonitinhas-mas-que-tão-limpinhas-dão-sonozzzzzzzzz. Tipo Yakult: pausterizado demais, sabe?

Historinhas moloídes: Pode ser que eu esteja numa diferente fase da minha vida, pode ser que eu tenha vivido tempo demais em território europeu e me acostumado à pegada cínica e nada inocente das produções de lá, mas... os excluídos que se unem e conquistam um pouco de glória através da música? Garotinha nerd-e-com-beleza-não-óbvia (sempre uma atriz bonita pra caralho disfarçada por um cabelo horrendo + óculos errado) apaixonada pelo gostosão que joga Lacrosse/Futebol Americano? Em 2010? Ainda? Super acreditamos que os principais problemas da juventude americana ainda sejam esses, néam? Imagina se fosse uma produção européia: teria Christiane F. em pessoa dando aula de química (e ensinando aos alunos a melhor forma de sintetizar ecstasy), professora transando com os alunos (gente, num Corujão da vida de tempos atrás eu vi um filme inglês chamado “The History Boys” que tem uma cena entre aluno e professor que entrou fácil para cena mais erótica que eu já vi em filmes na minha vida.), ao mesmo um viado polêmico (cota de viados em filmes regulada pelo governo francês: todo e qualquer filme francês tem que ter ao menos um viado e um casal questionando os valores do casamento e trepando com todos os personagens do filme), estudantes fumando maconha no campo de futebol, árabes planejando explodir o colégio e garotas trocando dicas sobre como fazer abortos. Ah, a juventude européia... :D

Modelinho de série moloíde: Eu, crianças do Cazaquistão, Stalin e Platão devemos todos ter tido traumas no High School (ai da criança que deve ter negado dividir Mirabel com o Stalin: fato que ele deve ter prendido, torturado e feito goulash dos coleguinhas burgueses dos tempos de escola na Geórgia). Mas por que diabos americanos têm essa necessidade de voltar ao tema “High School” todo o tempo? Get over it, caramba! Essa coisa mítica de “Prom Party”, “Spring Ball” e afins chega a dar sono de tão chata que é. Pior é o “efeito Malhação” da coisa: atores de 20 e muitos anos, currículo de piriguetagem maior do que a minha lista corrida de ficantes em Hamburgo, fazendo carinha de santinho e dileminhas “Is he really the special one?”. Saco, saco, saco.

Interpretações musicais dignas de “Jogral Educativo do Educandário Santa Neusinha de Luzilândia”: Sinceramentchy? O antológico momento de vergolha alheia “Barbie Girl” by ‘Love for Johnny’ e ‘Dani for Love’ tá ali, ombrinho com ombrinho com o que eu vi em Glee. Os figurinos e caracterizações realmente são interessantes, mas se lembrarmos que até Zorra Total não faz nem tão feio assim nesse quesito, não dá para dizer “Oh, Puxa! Que maravilha!”. O que foi o episódio da Lady Gaga?! Vocês acreditam que aquele povo teve o topete de suprimir o “I’m a free bitch, baby” de Bad Romance, provavelmente porque algum produtor paunocu pensou o que as adolescentes do Meio-Oeste, fãs de Taylor Salsichas Swift e leitoras de Seventeen, não agüentariam o choque cultural de escutar um palavrão na TV?!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Um ano

Há exatamente um ano, eu me sentei em frente ao meu laptop Toshibão-velho-de-guerra (que morreu Agosto passado, levando TODAS as minhas originais das fotos dos meus primeiros seis meses na Europa) e olhei para a janela do meu quarto, que dava para o jardim da residência estudantil. O que eu vi? As árvores, com suas folhas em tons de dourados e amarelo e vermelho, mostrando que o outono hamburguês já tinha chegado para ficar. Absolutamente deslumbrante (para mim, até hoje o outono é estação do ano que eu mais prefiro em países temperados. Fuck off! Black Eyed Peas e Stereolove tocando nos Beach Clubs das capitais européias - eu quero é mais andar elegantemente vestido num sobretudo+cachecol num parque com folhas caindo e sentindo os raios de sol tocarem levemente no meu rosto – sem causarem queimaduras de octogésimo grau como acontece no Rio). Mais uma vez eu relembrei de como eu estava longe de casa, de como aquilo tudo era diferente de tudo o que eu já tinha vivido, e o mais importante: de como eu tinha batalhado para ter tido a oportunidade de ter visto aquilo. E o que eu sentia naquele momento? Nada. Absolutamente nada.

Foi nesse instante que eu cheguei à conclusão que tinha que colocar mesmo aquilo para fora. (Não, you nasty readers, não era *aquilo* - até porque, sendo beeeem sincero, *aquilo* era posto para fora com bastante regularidade em terras européias :D). Aquele sentimento de apatia, de “Que bom...”, absolutement blasé... tão típico de alguns amigos super acostumados a viajar inúmeras vezes para destinos internacionais (ainda reviro os olhos para quem tem a coragem de falar “Ai, acho Londres/Paris/NYC so boring...”. Capital mundial não se acha “boring” – no máximo se prefere uma a outra, mas nunca se “Ah, não curti” uma delas. Se você não consegue encontrar algo nada menos do que absolutamente fantástico em cada uma dessas cidades, você não tem cérebro e faz o favor de ir num Orlando Fly&Drive nas próximas férias e não enche o saco!) não podia estar acontecendo comigo. Justamente eu, que (verdade verdadeirissima) planejava aquela porra de viagem desde os meus 6 anos, quando ganhei o meu primeiro atlas mundial (enorme, quase da minha altura) e fiquei fascinado com aquelas páginas cheias de mapas e fotos sobre os mais diferentes lugares do mundo. (Na verdade, esse atlas também me provocou a minha primeira crise “Ninguém me entende!”. Ganhei o Atlas, fiquei todo feliz, levei para o colégio crente que todo mundo iria compartilhar do meu “Que foda!” ao ver aquele livro gigante. Entrei na sala com um sorriso de orelha-a-orelha, falando “OLHA QUE LEGAL O MEU NOVO LIVRO!”. 3 pirralhos vieram, olharam durante 5 segundos e o jogaram no chão. Outro idiotinha ainda ameaçou pisar, só parando quando eu olhei para ele com aquela cara de “Toca seu Conga no meu Atlas que eu arranjo um jeito de arrancar seu pé com aquela tesoura sem ponta, toca!”. Peguei meu Atlas do chão, fui para a minha e Pah! nem confiança. Eles nunca me entenderiam mesmo...) Justamente eu, que tinha ficado quase 2 anos planejando, mandando e-mails para empresas (C sabe como eu suei na minha primeira entrevista de estágio por telefone ainda aqui no Brasil, em alemão!), juntando grana (e aprendido que MUITOS reais viram pouquíssimos euros - e para sacanear, o euro mega desvalorizou durante a minha estadia na Europa. Pode isso?!) e o mais importante: criando coragem para enfrentar aquele monstro que parecia a viagem à Alemanha (amigos, quantas vezes eu falei “Desisto? Vou para o Paraguai mesmo!”?). Justamente eu, que tinha conseguido ir, ver e vencer (o choque inicial do aeroporto de Frankfurt, onde eu passei 30 minutos olhando perplexo para a mulditão saindo dos portões e tive um branco linguístico completo; Berlim, Copenhague, Estocolmo e Londres até então; Estágio numa das maiores empresas alemãs), que não tinha a mínima idéia de quando poderia viver aquilo tudo de novo (Campo Grande fica tão longe da Europa...) e eu... não conseguia ver como era foda estar vivendo aquilo tudo?! Parecia que eu tinha perdido a minha principal característica: o brilho no olhar, a empolgação de viver as coisas pela primeira vez, aquele tipo de deslumbramento fanstástico e saudável de viajar para o exterior pela primeira vez. “O que tinha acontecido comigo?” era o o que eu me perguntava naquele momento.

Eu só sabia que eu tinha que escrever. Se eu achava, naquela hora, que algum iria se interessar pelos textos? Nunca!: a gente nunca começa um blog realmente acreditando que alguém vai se interessar por aquilo que a gente tem pra mostrar. Não sabia se seguia o estilo sucinto-e-antenado do Daniel, a sofisticação em muitas linhas do Thiago ou estilo desbocado-se-você-não-curtiu-my-ass dos relatos de viagem Ana Karina. Não sabia se as pessoas teriam a paciência de ler os meus inevitavelmente longuíssimos textos, com milhões de referências (eu juro: eu escrevo o texto, eu releio, eu tento enxugá-lo... e qualquer tentativa de tirar qualquer parte do texto leva muito mais tempo do que escrever o texto em si, eu encho o saco e posto o texto cheio e voilá) e piadinhas internas. Acima de tudo, não sabia se interessava para as pessoas saber das histórias de um carioca suburbano maluco perdido pelo norte da Europa.

E veio o primeiro post, onde eu fiz uma desconstrução do sonho europeu, do meu sonho europeu (não aguentava mais “Como assim você tá triste?! Você tá na Europa!” quando o que eu mais queria era alguém para falar que me entendia!). O segundo post, onde eu tentei fazer uma análise crítica e ácida da Bratwurstland, bem ao estilo “Eu odeio, mas estou amando esse país!”. O terceiro, onde eu sentei PUTO da vida depois da minha flatmate ter me negado a usar uma panela... e que me gerou o primeiro comentário (de quem? De quem?)!

E aí veio a vontade de postar cada vez mais, os detalhes da minha vida alemã, deixar registrada cada impressão boba e idiota sobre a minha vida em Hamburgo. E vieram as viagens! Ah, as viagens: porque eu não tive a ideia antes de deixar tudo registrado! Tantas horas de tédio mortal, de solidão, de saco cheio de ficar vendo museu+lojinha+centro cultural. Pra quê companhia de viagem quando se tem um laptop, um continente com ruas seguras, um maço de cigarros (Dunhill Blue, always!), uma mesa de café do lado de fora para se sentar, uma xícara de chá, uma tarde inteira pela frente e leitores interessados no que você tem para dizer?! Lisboa foi tão mais rica, tão mais produtiva do que Londres em termos de memórias e impressões, tanta coisa mais ficou registrada e foi tão legal ler as respostas dos leitores, curtindo a viagem comigo.

E veio a volta ao Brasil, a dúvida se vocês continuariam se interessando pelas minhas opiniões críticas e ácidas, agora voltadas para algo comum e nada exótico para vocês: a minha vidinha de universitário carioca. O questionamento “deveria ou não continuar a escrever o blog?”. (Blogueiros: Quantas vezes vocês já pensaram em dar um fim nos seus blog? :D Eu inúmeras, quase uma a cada dois meses ou quando recebo um comentário gongativo!) A readaptação a vida brasileira, de universitário e estagiário, sem grana, mal com tempo para me dedicar e escrever as inúmeras coisas e projetos de séries textuais para os meus interessados leitores (que eu defino como heteros e bichas chiques e inteligentes!).

Enquanto escrevia esse texto hoje eu passeava pelo blog, abrindo os arquivos, relendo alguns dos meus posts preferidos, relembrando de como eu escrevi cada um deles, tentando ter algum insight, alguma sacada para escrever algo na linha “O Lost und Found in Translation faz um ano, e quem ganha o presente é você!”. Fracasso total: primeiro, porque originalidade passou, mandou um “Oi, me liga bee!” e foi pra Farme. E segundo?

Segundo, posso falar sinceramente? O presente foi meu. Todo e absolutamente meu. :D O privilégio de ter tanta gente fina, elegante e sincera viajando comigo Europa afora, acompanhando as minhas crises existenciais e lendo os meus absurdos posts de viagem é só meu. (Falaí: viagem de trem de Florença a Pisa by Trenitalia comigo é muito mais interessante do que aquela chatura pastelone de Passione, néam?! :D) A felicidade na hora em que eu recebo um comentário inteligente, mesmo que seja questionando 200% do que eu escrevi, mas transparecendo que as minhas palavras fizeram essa pessoa pensar pelo menos 2 minutos, é só minha. E o resgate no brilho no olhar, na busca de ver as coisas sob uma perspectiva diferente, tentando ver como um assunto em potencial para o blog... é só meu.

Então tudo o que eu posso fazer é simplesmente o mais básico do básico.

Obrigado por me lerem, caros leitores. Muito obrigado. :)

domingo, 19 de setembro de 2010

I am the master of my fate / The capitain of my soul

Provavelmente se eu estivesse no Brasil em Novembro/Dezembro e tivesse comprado o Horoscopão João Bidu 2010 (aquele com um astrólogo bibíssima na capa, que sua prima/irmã/tia comprava nas viagens de ônibus do final de ano, lia as previsões para o signo dela e encostava logo, porque não tinha nenhuma outra utilidade para ela) teria lido que a definição desse ano para virgem seria “Mudanças”. Porque PATAQUEPARÉU, Fernando empacotando todas suas coisinhas (vocês também sofrem da crise “Sem os meus livros eu não vou para lugar nenhum!” em mudanças? Eu já li aquelas porras, não tem utilidade nenhuma atualmente para mim, mas ver os meus guias de viagem enfileirados na estante onde quer que eu vá me faz sentir um pouco mais tranquilo) já se tornou uma constante nesse ano.

Explaining: mamãe resolveu vender a notre maison dans Grand Champ em busca de mais qualidade de vida, cansada da vida “in the Valley” (a Zona Oeste do Rio é na verdade um grande vale entre os maciços que seguem o litoral da cidade e Serra de Madureira. Já deu pra concluir que quando faz calor, o ar quente simplesmente fica PARADO nesse vale, e por isso Bangú é conhecido pelo seu clima temperado e refrescante nos dias de verão... :D) e ir viver na Costa Verde (aquela região que significa muito verde, muita praia e SEMPRE muita chuva). O problema é que ela decidiu isso em menos de um mês (vende a casa antiga/compra a casa nova/muda para a casa nova), com a mudança justamente acontecendo enquanto le français estava no Rio (Quelle Surprise!). Resultado: Fernando empacota todas as coisas para as duas semanas com o francês em Copa, Fernando re-empacota todas as coisas e vai para a casa da tia em Realengo, Fernando encontra um quarto no Humaitá (quarto de empregada my ass - só se empregada for japonesa e anã! Lembram dos micro-cubículos de Beijing? O meu era ligeriamente maior, com um banheirinho daqueles “Eu tomo banho / O vaso e a pia e tudo no banheiro também”), Fernando descobre que o apartment lord é um freak total, Fernando e o apartment lord discutem (com direito a “Você sabe quem é meu pai?!” do cara, eu com a maior cara de “Who cares?” respondendo “Que bom...” - #1: Querido, depois de rodar tanto o mundo, descobrir que aquela “coisinha” que eu peguei numa boate em Hamburgo era editor-chefe de uma revistona alemã, minha melhor amiga sueca era filha do presidente das Províncias Suecas e coisas semelhantes, você realmente acha que eu ainda me impressiono com... currículo?, #2: se eu desaparecer e meu corpo não for encontrado na primeira semana, PLEASE Polícia e passeatas nas ruas com grandes faixas com “O que aconteceu com Fer?!”, hein!), Fernando percebe que é “melhor sair dali”, Fernando asilado politicamente na casa de um amigo inglês no Leblon por uns dias até encontrar um outro quarto para chamar de seu no Rio de Janeiro.

Enfim, tem horas que eu penso como eu consigo ter saco para aguentar tantas mudanças. Tem horas em que eu olho para amigos e primos que ainda moram com os pais, com lençóis limpos e lavados sozinhos e roupas passadas automaticamente por personal escravas (aka. empregadas e mães) e refeições já prontas assim que eles chegam em casa e ENORMES quartos com mesas e estantes e guarda-roupas combinando-e-bonitinhos e... bate uma enorme inveja. Gigante, do-tamanho-do-mundo inveja, dessas pessoas com lençóis cheirando a Comfort e vidas planejadas e estáveis.

Mas aí eu penso que play safe para mim significaria ter vivido NADA do que eu vivi e ter uma vida absolutamente chata. De que o High-Low que a minha vida tem sido até hoje, pra bem ou pra mal, serviu para me obrigar a “pensar fora da caixa”, sair da zona de conforto da qual eu poderia ter me escondido e viver novas coisas, novas experiências. E de que o efeito disso é que cada vez eu vou simplificando o que eu realmente preciso para me sentir confortável, para chamar um lugar de casa: minhas roupas, meu computador, meus cremes (um dos benefícios de namorar um farmacêutico francês: 30 amostras grátis dos melhores produtos da cosmetologia mundial que custariam a minha bolsa de e nstágio se comprados juntos!), meu iPod, meus livros, meus livros de viagem enfileirados em uma estante ou mesa. O resto a gente compra numa Casa&Video/Ikea mais próxima, ou se adapta, ou se acostuma a viver sem.

E tentando criar uma filosofia fernandiana, se há chá (preto, com um pouco de leite – algumas heranças de ter vivido no nebuloso mar do Norte tinham que ficar!), vinho, Nutella e conexão de Internet, então há esperanças, há vida. :D

P.S.- Sim, eu assisti Invictus. E chorei. E torci. E fiquei genuinamente feliz em saber que a África do Sul realmente conseguiu ganhar aquele campeonato de Rúgbi. E me questionei se conseguiria ter o grau de maturidade espiritual para sair de uma prisão de 30 anos pronto para lutar por perdão e reconciliação com aqueles que me oprimiram. E relembrei que motivação é tudo o que realmente importa para o ser humano – independente se venha de um poema, do sexo ou dos meus livros de viagem enfileirados na minha estante.