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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sobre a difícil arte de criticar

Tenho uma lembrança exata desse momento, logo nos meus primeiros dias de faculdade na Alemanha (Checklist do Projeto “Tornar-o-meu-blog-uma-vitrine-para-mostrar-como-sou-foda-inteligente-AND-jet-setter”: menção ao período em que eu morei na Alemanha + menção ao fato de que eu efetivamente estudei em uma universidade européia: DONE). Era aula de “Interação Cultural” com a professora Iken (o arquétipo da intelectual alemã: alta, vestida com roupas e tons sóbrios, cabelo eficientemente cortado em Chanel, morou por 5 anos em uma comunidade tribal no interior da Namíbia), ela sentada no final da sala de aula e uma aluna alemã (Hanna) na frente fazendo uma apresentação em PowerPoint sobre um texto da disciplina. Apresentação ligeiramente chata, depois de 15 minutos de luta contra o meu permanente sono daquela época (o lado nada legal de frio + falta total de luz solar que é o inverno báltico), batidinhas de madeira muito educadas, aluna agradece e senta.

Frau Iken levanta e diz que quer um comentário de estudante estrangeiro sobre a apresentação. Óbvio que ela aponta para o “aluno de cabelo encaracolado, o com cara de espanhol”. Eu obviamente era o único com cabelo encaracolado naquela maldita sala. Sorriso amarelo no rosto (afinal, uma das piores coisas do mundo é obrigar um estudante a criticar a apresentação de um outro estudante – qualquer comentário menos empolgado do que “Foi ótimo, achei muito bom!” ou com mais do que 10 segundos é passaporte sem volta para o clube dos Rejeitados&Odiados. Eu não queria entrar nesse clube. Eu não tinha amigos naquela droga de cidade, e aquele combo de frio e falta de luz estavam me deixando deprimido.), e eu comento “Foi ótimo, achei muito bom!” e olhei para a professora com aquela cara de “Mi English no es muy good!”. A professora ri como quem diz “Eu te entendo...” e diz que quer a opinião de uma estudante alemã. Escolhe Sarah, uma loirinha com suaves olhos azuis e carinha de camponesa inocente das planícies de Jutlândia. Sarah abre a boca e manda:

- O slide 4 estava mal explicado, o slide 5 estava mal estruturado, o slide 7 foi superficial demais e poderia ter sido bem melhor explicado com os textos que foram indicados para a apresentação, o slide 10 e 12 estavam confusos e não muito claros. No geral ela falou baixo e um pouco rápido demais, mas foi bem interessante a apresentação.

Eu ri nervoso de tão chocado que eu fiquei. Olho para frente e vejo Hanna anotando todas as sugestões da Sarah com a cara mais “Sim, muito bom seus comentários, obrigada!” e voltando para sua cadeira com aquela cara de tranqüilidade de quem não precisa fazer mais uma apresentação. Eu olho ao redor procurando alguém para comentar “BAFÃO! Caramba, você viu isso?!”. Todo mundo com a cara mais normal do mundo. Eu olho para a professora, ela ri e fala que esperava exatamente a minha cara de surpresa. E começa a falar sobre a diferença da forma de criticar entre alemães e latinos.

Depois de algum tempo na Alemanha, óbvio que comecei a pegar o ritmo local (mas claro, quando EU fiz a minha apresentação eu comecei com uma mensagem prévia onde disse “Eu sou latino, eu sou sensível, na minha cultura críticas em 90% dos casos são levadas para o pessoal. Por favor, PEGUEM LEVE!” e todos os alemães riram e obedeceram a minha ordem) e comecei a tentar ficar frio quando passava por situações como essas. Óbvio que nunca consegui 100% - se existe uma pessoa que escuta críticas, leva para o lado pessoal e fica mal com isso, essa pessoa sou eu. Mas só consegui efetivamente ficar bem com isso quando eu peguei a lógica dos alemães nesse aspecto: a crítica sincera é a forma mais eficaz de melhorar algo. E de você dizer que uma pessoa tem capacidade para fazer melhor.

No ano passado, no período imediatamente posterior a um comentário meu em um post do blog do Tony Goés (to be found here) que gerou uma pequena celeuma parecida a que ocorreu nos últimos dias, escrevi um post (this one) no qual eu comentei alguns pensamentos meus sobre como é difícil ter um blog e principalmente lidar com o inevitável: as críticas das pessoas que pensam diferente de você. Relendo o post, ainda percebo que sustento integralmente o que eu escrevi naquela época. Abrir um blog a comentários é praticamente instalar um telhado de vidro acima de você com LED's piscando "Atire aqui". Mas sem os comentários, blogar vira uma via de mão única, sem o inestimável benefício de ter a sua opinião contestada e de te dar a possibilidade de pensar sob óticas novas, perspectivas diferentes.

E quando falo comentários, falo de comentários que analisam o que você escreveu. Todo blogueiro adora escutar elogios, todo blogueiro adora receber comentários positivos e, com o tempo, todo blogueiro perigosamente cria uma necessidade dos comentários elogiosos dos leitores mais assíduos do blog - que obviamente são os que mais se identificam e pensam como você. 99% dos leitores que leram seu blog uma vez e não curtiram não vão voltar a ler o seu blog. Dentro desse 1% que leu, não gostou, ficou puto/ofendido com o que você escreveu e se motivou a apertar o botão de comentários, a esmagadora maioria vai assinar como 'Anônimo' e meter o pau com o objetivo de te ofender pessoalmente. Agora, a pequena minoria que não concordou e que vai meter o pau em você com argumentos válidos, contestando com base no que você escreveu... esse é o tipo de comentário que com certeza faz valer a pena ter um blog. Esse comentário é aquele que vai fazer o blogueiro parar por 1 minuto e pensar "Será que eu realmente podia ter pensado de forma diferente?".

Sinceramente, achei o post do Tony sobre a morte do Bin Laden uma análise rasa e superficial. Parei para ler o post depois de um dia de trabalho + faculdade intenso (como infelizmente a maioria dos meus dias são:  sabe como é, infelizmente não dá para fazer uma ponte aérea "Brasil-Europa" sempre que dá vontade - Checklist do Projeto “Tornar-o-meu-blog-uma-vitrine-para-mostrar-como-sou-foda-inteligente-AND-jet-setter”: menção ao fato de que eu viajei para o Exterior nos últimos meses independente do fato de que somente viajei DUAS vezes para o exterior em toda a minha vida: DONE) e discordei de quase tudo do que ele falou ali. Apertei o botão de comentários e escrevi tudo o que eu pensei sobre o que ele tinha escrito - em muitas linhas porque essa a forma que eu escrevo, relacionando com as coisas que eu já li/escutei/estudei porque foram coisas que eu li e eu veio na hora falar - e enviei o comentário. Sob o meu nome, sob o meu avatar porque foi isso realmente o que eu pensei e porque acho incrivelmente bobo e covarde entrar um blog e enviar uma opinião sob a máscara do "Anônimo" e porque sou inteligente o suficiente para saber o Tony saberia que eu escrevi aquele comentário.

Sobre a resposta do Tony (que gerou toda a discussão) em si, acho que vale muito pouco a pena comentar, ele deixou claro os argumentos e prerrogativas dele num post do blog dele que todo mundo leu e ponto final. Sobre o Tony as blogueiro, tirei cinco minutos do meu dia (quando poderia estar levando 'meia hora de rola' - Anônimo, você nem sabe o quanto faria bem pelo menos meia hora... :D) para comentar sobre aquele post porque achei e acho que ele tem capacidade intelectual de sobra, experiência de vida (que infelizmente eu não tenho - concordo plenamente que muita coisa só se aprende com o tempo: mas não tudo) e leitura de boas fontes o suficiente para ter escrito algo melhor e mais fundamentado. Já entrei em milhares de blogs, leio assiduamente os que estão no meu blogroll e comento nos quais acho que vou ter uma opinião diferente ou concordante sobre aspectos que me interessam e onde sei que o autor pode rebater a altura/mesmo nível. That is it. Foi isso que aconteceu naquele post, concordo quando Lucas T. disse que "Pensei que pela sua idade avançada (sorry, não resisti) fosse kind of imune a certos comentários e "retaliações".", acho que os comentários "Incrível seu texto! Muito bom!!!" redundantes e sinais de uma necessidade de atenção e carência desesperada por parte da figura do leitor que eu não consigo entender e ponto final. Continuarei lendo o blog 'Tony Goés', continuarei comentando nos posts em que eu discordar e achar que vale a pena mesmo falar alguma coisa, continuo achando o Tony um cara interessante por toda a experiência de vida (completamente diferente da minha) e (mais uma vez) ponto final.

Sobre os comentários gongativos em relação ao blog (que obviamente vocês sabem que eu li - e o melhor de todos, seguramente, é o do 'O Gato Comeu' e "...tony sinto que no fundo vc tem um coração, o fernando eu já não sei, parece que ele tem uma calculadora de milhas de viagem no peito." - Lieber, Ryanair é uma empresa onde as comissárias de bordo vendem bilhete de loteria durante o vôo e que tem planos de vender passagens onde os passageiros voarão em pé. Você realmente acha que eles tem programa de milhagem? Mesmo?!), claro que eu fiquei (por cinco segundos - tempo que a minha hiperatividade me permite ficar focado em alguma coisa) chateado, claro que eu repensei sobre a utilidade de realmente blogar e colocar a minha cara a tapa na blogsfera. Óbvio que ler "Não gosto do blog do tal Fernando. Posista, pernóstico, deslumbrado. Prolixo ao extremo. Despreza solenemente a inteligência de quem se interessa pelo que ele escreve." me faz pensar se eu levei o meu blog na direção correta, se realmente eu reflito quem eu sou e o que eu realmente penso no Lost und Found in Translation.

Mas e daí que eu sou considerado "prolixo ao extremo"? (Momento "Abrindo meu coração": fiquei durante anos grilado com o fato de eu sempre usar muitas palavras e informações para falar sobre qualquer coisa até o dia que, em um date com um russo, eu comentei que adorava Dostoievski e o FDP respondeu "Dá para ver. Você não pára de falar. Eu odeio Dostoievski.". Sorri amarelo, levei o date até o final da noite, deixei o cara visivelmente puto quando falei que queria ir para casa. E continuei lendo Dostoievski e seus calhamaços cheios de frases intermináveis.) E daí, por ser crítico ao capitalismo, eu sou considerado "comunista de butique"? (uma das minhas melhores amigas - uma das pessoas mais inteligentes e brilhantes que eu conheço, uma das poucas que leu Marx, conseguiu entender 5 linhas do que ele escreveu e que eu consigo sinceramente chamar de "comunista" - riu ALTO com essa. Justamente por saber a profundidade e conhecimento que eu tenho sobre qualquer coisa que Marx já escreveu. :D) E daí que eu sou considerado "esnobe" e eu seria "muito sabe-tudo, é muita finesse adquirida que essa gente (nós míseros leitores) não tem, muito conhecimento pronto e acabado, economia, enologia, linguística, história universal..."? (Bem, os posts sobre a minha crise de Mid-20's ou sobre o meu 'desconforto' por eu, na verdade, eu ser suburbano estão ainda no ar.) E daí que eu "endeusaria a minha experiência de intercâmbio na Europa"? (O primeiro post do blog também ainda está no ar e explica muito do que me motivou a começar isso daqui)

No fundo, é como um grande amigo resumiu hoje em um email para mim. "Mas esse é o preço de se expor na internet. Deixar que alguém que só enxerga uma moldura sua te imagine por completo.". E o que eu posso fazer? Convidar cada um dos anônimos a ler os posts que eu linkei acima e meter o pau em cada um deles - com argumentos, bien sur. E that's all.

E continuemos com a programação de sempre.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

The Brazilians are coming!

Em um lindo dia de sol, certo amigo que eu defino como 'luso-americano-equatoriano' (praticamente um Pokemón mistura de americano com origens equatorianas que fala um português de Portugal assustadoramente excelente) embarcou no seu voo do trecho Nova Iorque-Houston por uma famosa companhia aérea americana. Além das usuais famílias de texanos voltando da Big Apple (quando vocês lêem 'família da texanos' vocês não imaginam uma coisa meio família Buscapé-pós-Poço-de-Petróleo, com aquele sotaque mega interiorano, roupinhas de oncinha com decotão, cabelão loiro e muito dourado tinlintintando que nem eu?), businessmen nova-iorquinos indo tratar de negócios relacionados ao petróleo em Houston (por que turisticamente Houston deve ser tão interessante quanto Campinas), a usual horda de latino-americanos a serem reenviados ao sul (devidamente abastecidos de Nike Shoxx e moletons GAP comprados nos Outlets dos States).

Meu amigo vêm ‘walking down by aisle’ quando percebe que ele fora agraciado por um lugar entre uma janela e corredor . Duas mulheres ocupavam os dois lugares, uma mãe por volta dos 50 e uma filha por volta dos 20, deixando o lugar dele vazio. Enquanto ele colocava sua bolsa na bagagem de mão, ele escutou:

Mãe (em bom português): Querida, vem sentar do meu lado.
Filha: Ah não, mãe! Quero ficar sentada aqui no corredor. Não quero nenhum desses americanos chatos atrapalhando a minha saída para o banheiro. O avião está vazio, ele que se manque e vá sentar em outro lugar...

Meu amigo ficou na dele, resolveu bancar a do “No-comprendo-português” e educadamente (em inglês) pediu para sentar no lugar dele. A filha, com um sorrisinho educado-nojentinho se levantou, meu amigo se sentou e abriu a revista de bordo. Nisso elas comentam:

Filha: Ah, americano não se manca, né? Também vou encher o saco dele até ele sair daqui... – Disse pegando a revista de bordo e praticamente jogando na cara do meu amigo– Olha aqui mãe, que bolsa LINDA!

A comissária já tinha percebido que iria rolar merda, veio e ofereceu para o meu amigo um lugar mais a frente. Meu amigo deu um belo sorriso, disse que não e que estava muito confortavelmente sentando NA-QUE-LE lugar. Continuou tentando ler a revista dele. Puto. Realmente muito puto.

Nisso, entrou um grupinho de velhinhos americanos no avião (Primeiro Mundo é assim: hordas de velhinho pelo avião, trem, ponto turístico... Crochê? Joguinho de dama na pracinha? Ficar assistindo televisão em casa? Rá! Velhinho de Primeiro Mundo quer saber de Espanha, Flórida e Caribe!). A filha faz uma cara de nojo e comenta:

Filha: Ai, mãe... Esses velhos vão viajar com a gente? Que nojo... Devem ter tudo cheiro de mijo, que horror...
Mãe: Ai não, eles tão sentando atrás da gente! Não acredito!
Filha: Mãe, vamos ficar até Houston com esse cheiro de velho e mijo atrás da gente?! Vamos reclamar com a comissária?!

Meu amigo decidira que já bastava. Chamou a aeromoça, e educadamente em inglês, comentou que tinha mudado de idéia que achara que era melhor ir para o assento vazio mais a frente.

Filha: Ai, que bom... Finalmente ele se mancou!

Meu amigo levanta, abre o compartimento de bagagem de mão, pega sua bolsa. Olha com a cara mais cínica do mundo para a filha, que se pergunta o que diabos ele olhava nela. E manda:

Meu amigo (em português): Vocês realmente se acham as mais espertas de todas, não é? Claro, porque um americano chato jamais iria falar português. Quanta falta de educação, quanta falta de elegância, quanta demonstração de mesquinharia. Vocês realmente se acham as donas do mundo, não é?

Filha (com vozinha de Patricinha-acuada): Sim, eu me acho sim...

Meu amigo: Pois não o são. Principalmente aqui nos Estados Unidos, queridas – pra nós vocês são assim, ó, desse tamaninho. Não valem absolutamente NADA. Não passam de uma dupla de latinas mal educadas vindas de algum buraco do interior de um país qualquer de Terceiro Mundo, que só porque conseguem pagar uma merdica de passagem internacional , acham que podem agir como se estivessem no quintal da sua casa...

Mãe: Mas...

Meu amigo (interrompendo a mãe): AH, e você, mãe... Cuidado, mas muito cuidado, tá? Hoje você apóia sua filha nesses comentários horríveis que ela fez sobre esses velhinhos aqui. Amanhã, vai ser você deitada numa cama e aí eu quero ver se esse incrível exemplo de educação que você deu para a sua filha na hora em que ela tiver que trocar a sua fralda cheia de merda! Boa viagem para as duas...

Meu amigo se vira a vai para a cadeira dele. A comissária, uma amiga dele, pergunta se estava tudo bem. Meu amigo diz que sim e abre de novo a revista dele. Alguns passageiros, provavelmente de origem hispânica, comentando o que acabaram de ver, enquanto as duas fingem que nada aconteceu.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

It closet


Em idos de 2001, quando eu era apenas um pequeno rapaz campo-grandense (Campo Grande being subúrbio Far-Far-Far Away do Rio, não a capital sul-mato-grossense) do subúrbio do Rio de Janeiro, estudando de um tradicional colégio federal do Rio de Janeiro (meu uniforme era tão 'Baby one more time' feelings :D), provavelmente muito empolgado por estar no meu primeiro relacionamento sério com uma 'pessoa' (adoro quando aquelas caras obviamente gays vão dar entrevistas para Fantástico/Globo Repórter e ficam falando “Mas por que eu gosto de uma 'pessoa'...), provavelmente por estar cansado e triste de repetidamente estar dando balão na minha mãe (“Mas mãe, o pessoal do alemão resolveu marcar um grupo de estudos justamente para sexta-feira às 21h, acredita?!”), provavelmente louco de achar que minha mãe aceitaria 'a verdade' tão facilmente assim, eu resolvi fazer o meu coming-out. Isso mesmo: 16 anos de idade. Enquanto (nessa idade) muitos dos meus amigos gays ainda levavam fé nos seus amassos de matinê com menininhas na Prelude/El Turff, eu já tinha sacado o que eu realmente curtia, já tinha contado tu-di-nho para mamãe (e sofrendo como um condenado por isso – ainda conto a história completa desse acontecimento) e era um leitor costumaz das matérias estilo “10 dicas de como fazer seu homem enlouquecer na cama” das Nova Cosmopolitan e Marie Claire da vida. :D

Talvez por ter feito o coming out tão cedo, talvez por ter pago tão caro e ter que lidar com a frustração potência dois mil de uma mãe paranoica e obsessiva que não media esforços para tentar me colocar no 'caminho certo' (e que provavelmente deveria oferecer treinamento para a CIA e Mossad sobre técnicas de coerção e investigação estilo “O-que-eu-fiz-quando-falei-que-fui-para-tal-lugar”), talvez por ter passado boa parte da adolescência tendo que lidar com o fato de que a minha mãe jamais iria aprovar qualquer coisa de bom que eu fizesse (porque sempre existia a sombra de 'uma certa verdade' que fazia ela dizer que gostaria que eu fosse qualquer um dos rapazes da meu bairro, mas não eu), eu tive que compensar na valorização do fato de que foi bom eu ter sido sincero e ter contado a verdade. Nos piores momentos, onde tudo parecia incrivelmente difícil e eu começava a me culpar por ter sido tão idiota de acreditar que tinha valido a pena ter sido tão sincero tão cedo, eu jogava uma água fria na cara e repetia para mim mesmo que o preço de ter sido verdadeiro era imensurável. Eu não precisaria lidar com essa verdade mais tarde, e logo, quando eu fosse uma pessoa independente e autossuficiente em termos financeiros, minha mãe acabaria entendendo e me aceitando. (P.S.- Ai, esse parágrafo ficou uma coisa tão "Can't take that away"... Foi malz, hein...)

Sendo assim, eu confesso que tenho certo bloqueio de entender porque as outras pessoas não fizeram o mesmo. Entender porque pessoas, já autosuficientes, esclarecidas, seguras do que realmente são, não conseguem se assumir e falar “Eu gosto de moda, eu não uso bermuda cargo, eu sou viado”. Ok: eu entendo que cada um é um universo particular de condições, realidades e histórias, blablabla... Mas confesso que a história de alguns amigos desafia a minha compreensão e exigem certa dose de “sorriso amarelo”+“claro que eu te entendo!”, como a história de dois amigos que eu conto aqui abaixo.

O primeiro é um grande e queridíssimo amigo (que espero que não seja leitor do blog! :D). Advogado, bonito, um dos únicos homens cariocas realmente bem vestidos que eu conheço. Mora atualmente no Leblon, foi criado dentro da Jeunesse Dorée de Niteroí (para quem não é do Rio: Niteroí é um cruzamento de New Jersey com Hamptons, cidade da região metropolitana do Rio poder aquisitivo médio mais alto do que a média da cidade do Rio, mas que por um motivo obscuro... tem uma vida noturna e cultural próxima do zero, o que obriga a maioria da sua galera jovem a ter que partir para o Rio em busca de entretenimento nos finais de semana), atualmente completamente independente em termos financeiros dos pais. Enfim: he is got the looks, the brain, the personality. E apesar de “descoberta tardia”, já tem constando no seu currículo alguns bons relacionamentos de médio prazo, histórias realmente sérias (do tipo namorado fixo, que vai a cinema no final de semana, viaja para destininhos românticos em feriadões, etc&tal). Garotas? Segundo as contas dele, a última ficou para uma noite meio embaçada pela vodca no final de 2009, provavelmente em alguma night “Hetero moderninha”, provavelmente com alguma 'Fag Hag' mais atiradinha e entendiada pela viadice dominada pelo lugar. Mas, mesmo assim... a pessoa ainda se define como... “bi”. E simplesmente não consegue vislumbrar a menor possibilidade de, no médio prazo, se assumir realmente como é para família e amigos, e fica naquele estilo de vida estranho de ser uma coisa no Rio, outra coisa completamente diferente em Niteroí.

Desafio maior à compreensão é o segundo caso. O cara é aquele clássico tipão de intercambista que veio da Alemanha para o Rio de Janeiro, ficou deslumbrado pela beleza da cidade, simpatia das pessoas (oi?!) e abertura em termos sexuais e sociais do carioca médio (hein?!) e criou uma relação especial com a cidade (e para quem eu, escutando ele listar todas as 3053 razões pelas quais ele acha que o Rio é muito melhor do que Berlim, somente sorrio pensando “Deixa ele morar aqui 1 ano para ver como ela vai amar tudo isso” e olho para o meu amigo inglês que está pensando a mesma coisa do que eu). Devido ao seu tipão “Sou-loiro-sou-alto-sou-fortinho-Sou-o-que-Hitler-sonhou-pro-mundo” provavelmente passou o rodo em um número considerável de meninas cariocas (que levam a merecida fama das brasileiras mais jogo-duro, mais “não vou dar assim fácil não!” entre os heteros - mas que abrem as pernas para os gringos, afinal... receber bem o turista é uma obrigação de cada carioca, néam? :D) até o inesperado acontecer: ele topar com um menino brasileiro e ploft!: rolar uma atração inexplicável (o “ploft!” fica à cargo da imaginação fértil de vocês). Curto demais o garoto (mas preciso mesmo bancar o Fernando “bonzinho, coelhinho-na-floresta, amo-o-mundo-só-vejo-o-lado-positivo-das-coisas?” com vocês? Não, néam...), mas preciso confessar que sinto demais aquela coisa de “Clássico caso de 'Porque alemães amam brasileiros'”: do alto dos seus 19 aninhos, morenão com corpão, inteligência definitivamente não é o forte (o que me faz suspeitar de... enormes qualidades não aparentes do ambiente de um restaurante ou sala de estar... :D), recém-saído do armário e com aquela idealização do mundo dos relacionamentos tão típica de quem acabou de sair dos 'teen years', tão típica de quem ainda assiste Bridget Jones e outros clássicos ingleses de comédia romântica e super acredita que dá para transportar isso para fora das telas e viverá uma história igualzinha no mundo gay contemporâneo. Os dois juntos chegam a ser uma coisa “Felícia-in-love”, uma coisa “Labrador-pulando-em-cima-do-dono” de tão Te-amo-te-quero-quero-ficar-todo-o-tempinho juntinho-e-coladinho-em-cima-de-você. Eu fico meio mal perto do garoto, porque sinceramente enxergo nele o inocente-romântico-e-cheio-de-ideais Fernando de alguns anos atrás (mentira: eu sempre fui consideravelmente cínico e cético – esses dias encontrei um dos meus antigos diários de adolescência e fiquei cho-ca-do como eu já era mau: eu metia pau nos meus amiguinhos de classe que me zoavam, nos professores, nos meus familiares e até em alguns dos meus amiguinhos menos próximos! Gente, por que eu sempre fui assim? #Criseinternafeelings) e tenho que me controlar ao máximo para não deixar o meu instinto “WAKE UP, SWEETHEART!” vir à tona e chocar o garoto com o fato de que os filmes para adolescentes da Disney e Malhação não  te preparam para o mundo dos relacionamentos gays no Rio de Janeiro contemporâneo (o máximo do meu autocontrole foi quando estávamos num get together, e ele disse para gente que curtia estar em relacionamentos porque relacionamentos são “um tipo especial de conexão com outra pessoa, essa coisa meio 'um fazendo a barba do outro, juntos de manhã depois de uma noite de amor dormindo juntinhos” - eu respirei fundo, segurei a minha cara de “WTF?” da melhor forma que pude, virei a taça de vinho na minha mão goela abaixo e fui acender um cigarro). Enfim, voltando ao caso inicial: o alemão parece ter se apaixonado de verdade pelo cara, os dois decidiram enfrentar um relacionamento a distância monogâmico, o alemão pega a Lufthansa de volta para o Brasil na primeira oportunidade que encontra pela frente, quando os dois juntos é aquela coisa linda, aquela coisa “Born to make you happy”, etc&tal. Por que diabos estou contando essa história? Por que somente esses dias, quando proferi um discurso “Por que nós, gays...” na frente do Deutscher, eu fui saber ficar com caras é uma coisa meio tipo “Ao Sul do Equador não existe pecado” por parte do alemão: o cara é gay no Brasil e hetero na Alemanha. (!!!) Hein?

A minha capacidade rápida de pré-julgar as pessoas definiria esses dois casos como falta de coragem e culhões. A minha proximidade com eles me faz passar a mão na cabeça, e apesar das minhas pontuais tentativas de tentar mostrar que o mundo “Somewhere Over the Rainbow” tem uma riqueza e uma paz de espírito incomparáveis com o mundo dentro do armário, de tentar compreender os motivos e razões de caras tão... prontos para saírem do armário não o conseguirem fazer.

Mas enfim... o que fazer, néam?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A crise dos 25

Certos cientistas defendem a teoria que o ser humano chega ao seu ápice vital por volta dos 25 anos. Um pouco mais, um pouco menos, mas quase sempre por volta dos 25 anos. Seria quando as capacidades sexual, física e intelectual atingem o seu nível máximo. E a partir de quando o organismo começa efetivamente a... envelhecer.

Pessoalmente eu tenho achado essa fase um saco. Primeiro, quando eu penso que com bem menos da minha idade Rimbaud já tinha escrito a maior parte da sua obra essencial, Toulouse-Lautrec já estava pintando fantasticamente e Neymar já tinha dinheiro suficiente para esbanjar com jóias idiotas de grama para jornalistas chatas, eu fico deprimido. Segundo, quando chega aquele pessoal de 40 e muitos mandando um “Ah, tão novinho! Tem tanta coisa pela frente ainda! Você ainda não viveu nada da vida!” bate um pânico meio “Porra, o que aconteceu até agora foi só um teaser?!”. E terceiro, ninguém lembra que essa fase coincide exatamente com a fase de tomar as decisões “que irão determinar o seu futuro por um longo prazo”. O que sinceramente me deprime para caralho. E aí é esquecer a dieta, comprar o Twix, o pacotão de 1kg de Doritos e uma garrafa giga de Fanta Uva (meu gosto para refrigerantes não evoluiu dos 5 anos - quanto mais corante e com mais gosto artificial, melhor) e ficar no sofá obcecado pensando “O que eu faço? O que eu faço?!”

Primeiro foi o intercâmbio – decisão de abandonar estágio onde eu estava, mudar de país por tempo indeterminado, na obrigação de ter que arranjar um emprego, viagem auto-sustentada, “e se der errado?”, “e se eu odiar a Europa?”, ter que voltar ao Brasil, ter que aturar a minha mãe me sustentado por tempo indeterminado – que acabou acontecendo, legal, aprendi para caralho, voltei, me readaptei à bagunça e a fingir que adoro sambinha na Lapa e “jamais consegui viver direito na Europa sem feijão”, conseguir estágio de novo no Brail, voltar para a Zona Sul. Ponto. Parágrafo.

Mas claro, as questões voltam. Os pontos de interrogação se colocam na sua frente. E você se sente como num daqueles programas de auditório, nos quais você tem um tempo determinado para responder uma pergunta. E aí? E aí?

Uma das facetas desse dilema veio bem forte nos últimos dias na parte pessoal. Amizade sempre foi uma das maiores prioridades na minha vida, e sempre me gabei de ter amigos simplesmente foda. Mas desde que eu voltei do meu intercâmbio na Europa parecia que algo tinha se modificado na minha relação com alguns amigos. Eu não sentia mais aquela conexão intensa que outros tempos, que me fazia querer procurar essas pessoas. Parecia que o papo tinha se tornado chato, não havia mais aquela transmissão de idéias e pensamentos que caracteriza uma boa amizade. Eles reclamavam que tudo o que eu sabia fazer era reclamar. E eu tinha vergonha de pensar que eu os achava chatos. MUITO chatos. E limitados. E cabeça fechada para a vidinha de estudante universitário de federal de classe média do Rio. E que tinha muitas saudades dos meus amigos dos tempos de Erasmus.

Enfim, a fase inicial de readaptação passou (na verdade, com alguns desses amigos nem essa fase existiu), mas com alguns amigos esse sentimento incômodo prosseguiu. E eu não soube lidar com isso, fiz algumas merdas (confesso), e com uma grande amiga em especial a amizade entrou em estado de “on hold”. E mesmo depois de “termos resolvido as coisas”, continuou a sensação de incômodo, de “formalidade informal” que sinceramente não sei se foi ocasionada pela merda que eu fiz ou por algo pior: a grande verdade de que não temos mais nada muito em comum. Nem interesses, nem idéias sobre grandes temas da vida, nem sobre como conduzir a vida. E uma frase da Danuza fica martelando na minha cabeça “Amigos são que nem banco – periodicamente necessitam passar por um recadastramento”. Mas aí então eu relembro dos grandes momentos que vivemos, das viagens e do mega carinho que ela já teve por mim e vem questões de lealdade e de “tentar pelo menos”. Que logo depois são sobrepostas pela pergunta “Quero realmente tentar? Quero continuar insistindo uma amizade verdadeira com amigos que não me entendem?”. Enfim...

E sobre o lado profissional, vieram as famosas escolhas. Passei 6 meses pensando em entrevistas de emprego chatérrimas para finalmente conseguir o sonho dourado de todo estudante de Economia do país: cargo de estagiário (com chances de efetivação!) numa verdadeira multinacional brasileira em um dos setores mais promissores que a Você S/A poderia imaginar. Salário digno (com alguns benefícios), rotina de trabalho motivante, equipe de trabalho legal pra caralho e com o plus do gerente da área simplesmente ir com a minha cara já na primeira semana. E quando sento na minha mesinha, ligo o meu computador com o meu papel de parede já escolhido (muito pode-se dizer sobre a personalidade de uma pessoa com relação no papel de parede que ela escolhe para o seu desktop – o meu era uma foto da estação central de Hamburgo que já usei num post, e do meu colega de trabalho mais próximo era de um carro americano que ele queria terzzzzzzzzzzzzzz) e penso “Tudo indo bem!”, toca o telefone e surprise: uma outra empresa oferece uma vaga de emprego. E-M-P-R-E-G-O. Multinacional européia com escritório no Rio. Dobro do salário, benefícios que me fazem imaginar fazendo a Scarlett O'Hara. Chance de carreira realmente internacional. (A volta dos meus posts de viagem!!!) Usar o alemão no meu dia-a-dia profissional (Atóro quando eu recebo elogios “O seu alemão é tão bom!”, e eu faço aquela carinha de “Ai, pára... Fala mais, vai!”). Flexiblidade de horários do escritório para me permitir terminar a (maldita) faculdade de Economia.

E o que escolher? Qual dos dois caminhos tomar? O que realmente vai me fazer chegar aos 40, olhar para trás e pensar “Eu fiz certo: era isso que eu queria!”? Ou será que momento de reflexão aos 40 é uma das maiores besteiras do mundo, afinal 40 representa quase ainda metade de uma vida inteira pela frente? (Sempre lembro das velhinhas alemãs em estações de trem, com suas malas de viagem, camisetas pólo e aquele ar saudável de quem viajava muito de férias em contraste aos alemães engravatados de 30 e poucos anos, estressados e permanentemente culpados pelo excesso de trabalho e falta de tempo para aproveitar a vida)

Definitivamente a resposta universal aos 20 e alguns anos é: “Não sei.”.

Mas a gente tem outra opção, a não ser continuar tentando?

(Mas lembrando-se: caindo sim - mas carão forever.)

P.S.- Provas, provas, muitas provas.
P.S.2 – Não se preocupem, as escolhas já foram tomadas. :D
P.S.3 – Boring, parte 2. :D

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Um ano

Há exatamente um ano, eu me sentei em frente ao meu laptop Toshibão-velho-de-guerra (que morreu Agosto passado, levando TODAS as minhas originais das fotos dos meus primeiros seis meses na Europa) e olhei para a janela do meu quarto, que dava para o jardim da residência estudantil. O que eu vi? As árvores, com suas folhas em tons de dourados e amarelo e vermelho, mostrando que o outono hamburguês já tinha chegado para ficar. Absolutamente deslumbrante (para mim, até hoje o outono é estação do ano que eu mais prefiro em países temperados. Fuck off! Black Eyed Peas e Stereolove tocando nos Beach Clubs das capitais européias - eu quero é mais andar elegantemente vestido num sobretudo+cachecol num parque com folhas caindo e sentindo os raios de sol tocarem levemente no meu rosto – sem causarem queimaduras de octogésimo grau como acontece no Rio). Mais uma vez eu relembrei de como eu estava longe de casa, de como aquilo tudo era diferente de tudo o que eu já tinha vivido, e o mais importante: de como eu tinha batalhado para ter tido a oportunidade de ter visto aquilo. E o que eu sentia naquele momento? Nada. Absolutamente nada.

Foi nesse instante que eu cheguei à conclusão que tinha que colocar mesmo aquilo para fora. (Não, you nasty readers, não era *aquilo* - até porque, sendo beeeem sincero, *aquilo* era posto para fora com bastante regularidade em terras européias :D). Aquele sentimento de apatia, de “Que bom...”, absolutement blasé... tão típico de alguns amigos super acostumados a viajar inúmeras vezes para destinos internacionais (ainda reviro os olhos para quem tem a coragem de falar “Ai, acho Londres/Paris/NYC so boring...”. Capital mundial não se acha “boring” – no máximo se prefere uma a outra, mas nunca se “Ah, não curti” uma delas. Se você não consegue encontrar algo nada menos do que absolutamente fantástico em cada uma dessas cidades, você não tem cérebro e faz o favor de ir num Orlando Fly&Drive nas próximas férias e não enche o saco!) não podia estar acontecendo comigo. Justamente eu, que (verdade verdadeirissima) planejava aquela porra de viagem desde os meus 6 anos, quando ganhei o meu primeiro atlas mundial (enorme, quase da minha altura) e fiquei fascinado com aquelas páginas cheias de mapas e fotos sobre os mais diferentes lugares do mundo. (Na verdade, esse atlas também me provocou a minha primeira crise “Ninguém me entende!”. Ganhei o Atlas, fiquei todo feliz, levei para o colégio crente que todo mundo iria compartilhar do meu “Que foda!” ao ver aquele livro gigante. Entrei na sala com um sorriso de orelha-a-orelha, falando “OLHA QUE LEGAL O MEU NOVO LIVRO!”. 3 pirralhos vieram, olharam durante 5 segundos e o jogaram no chão. Outro idiotinha ainda ameaçou pisar, só parando quando eu olhei para ele com aquela cara de “Toca seu Conga no meu Atlas que eu arranjo um jeito de arrancar seu pé com aquela tesoura sem ponta, toca!”. Peguei meu Atlas do chão, fui para a minha e Pah! nem confiança. Eles nunca me entenderiam mesmo...) Justamente eu, que tinha ficado quase 2 anos planejando, mandando e-mails para empresas (C sabe como eu suei na minha primeira entrevista de estágio por telefone ainda aqui no Brasil, em alemão!), juntando grana (e aprendido que MUITOS reais viram pouquíssimos euros - e para sacanear, o euro mega desvalorizou durante a minha estadia na Europa. Pode isso?!) e o mais importante: criando coragem para enfrentar aquele monstro que parecia a viagem à Alemanha (amigos, quantas vezes eu falei “Desisto? Vou para o Paraguai mesmo!”?). Justamente eu, que tinha conseguido ir, ver e vencer (o choque inicial do aeroporto de Frankfurt, onde eu passei 30 minutos olhando perplexo para a mulditão saindo dos portões e tive um branco linguístico completo; Berlim, Copenhague, Estocolmo e Londres até então; Estágio numa das maiores empresas alemãs), que não tinha a mínima idéia de quando poderia viver aquilo tudo de novo (Campo Grande fica tão longe da Europa...) e eu... não conseguia ver como era foda estar vivendo aquilo tudo?! Parecia que eu tinha perdido a minha principal característica: o brilho no olhar, a empolgação de viver as coisas pela primeira vez, aquele tipo de deslumbramento fanstástico e saudável de viajar para o exterior pela primeira vez. “O que tinha acontecido comigo?” era o o que eu me perguntava naquele momento.

Eu só sabia que eu tinha que escrever. Se eu achava, naquela hora, que algum iria se interessar pelos textos? Nunca!: a gente nunca começa um blog realmente acreditando que alguém vai se interessar por aquilo que a gente tem pra mostrar. Não sabia se seguia o estilo sucinto-e-antenado do Daniel, a sofisticação em muitas linhas do Thiago ou estilo desbocado-se-você-não-curtiu-my-ass dos relatos de viagem Ana Karina. Não sabia se as pessoas teriam a paciência de ler os meus inevitavelmente longuíssimos textos, com milhões de referências (eu juro: eu escrevo o texto, eu releio, eu tento enxugá-lo... e qualquer tentativa de tirar qualquer parte do texto leva muito mais tempo do que escrever o texto em si, eu encho o saco e posto o texto cheio e voilá) e piadinhas internas. Acima de tudo, não sabia se interessava para as pessoas saber das histórias de um carioca suburbano maluco perdido pelo norte da Europa.

E veio o primeiro post, onde eu fiz uma desconstrução do sonho europeu, do meu sonho europeu (não aguentava mais “Como assim você tá triste?! Você tá na Europa!” quando o que eu mais queria era alguém para falar que me entendia!). O segundo post, onde eu tentei fazer uma análise crítica e ácida da Bratwurstland, bem ao estilo “Eu odeio, mas estou amando esse país!”. O terceiro, onde eu sentei PUTO da vida depois da minha flatmate ter me negado a usar uma panela... e que me gerou o primeiro comentário (de quem? De quem?)!

E aí veio a vontade de postar cada vez mais, os detalhes da minha vida alemã, deixar registrada cada impressão boba e idiota sobre a minha vida em Hamburgo. E vieram as viagens! Ah, as viagens: porque eu não tive a ideia antes de deixar tudo registrado! Tantas horas de tédio mortal, de solidão, de saco cheio de ficar vendo museu+lojinha+centro cultural. Pra quê companhia de viagem quando se tem um laptop, um continente com ruas seguras, um maço de cigarros (Dunhill Blue, always!), uma mesa de café do lado de fora para se sentar, uma xícara de chá, uma tarde inteira pela frente e leitores interessados no que você tem para dizer?! Lisboa foi tão mais rica, tão mais produtiva do que Londres em termos de memórias e impressões, tanta coisa mais ficou registrada e foi tão legal ler as respostas dos leitores, curtindo a viagem comigo.

E veio a volta ao Brasil, a dúvida se vocês continuariam se interessando pelas minhas opiniões críticas e ácidas, agora voltadas para algo comum e nada exótico para vocês: a minha vidinha de universitário carioca. O questionamento “deveria ou não continuar a escrever o blog?”. (Blogueiros: Quantas vezes vocês já pensaram em dar um fim nos seus blog? :D Eu inúmeras, quase uma a cada dois meses ou quando recebo um comentário gongativo!) A readaptação a vida brasileira, de universitário e estagiário, sem grana, mal com tempo para me dedicar e escrever as inúmeras coisas e projetos de séries textuais para os meus interessados leitores (que eu defino como heteros e bichas chiques e inteligentes!).

Enquanto escrevia esse texto hoje eu passeava pelo blog, abrindo os arquivos, relendo alguns dos meus posts preferidos, relembrando de como eu escrevi cada um deles, tentando ter algum insight, alguma sacada para escrever algo na linha “O Lost und Found in Translation faz um ano, e quem ganha o presente é você!”. Fracasso total: primeiro, porque originalidade passou, mandou um “Oi, me liga bee!” e foi pra Farme. E segundo?

Segundo, posso falar sinceramente? O presente foi meu. Todo e absolutamente meu. :D O privilégio de ter tanta gente fina, elegante e sincera viajando comigo Europa afora, acompanhando as minhas crises existenciais e lendo os meus absurdos posts de viagem é só meu. (Falaí: viagem de trem de Florença a Pisa by Trenitalia comigo é muito mais interessante do que aquela chatura pastelone de Passione, néam?! :D) A felicidade na hora em que eu recebo um comentário inteligente, mesmo que seja questionando 200% do que eu escrevi, mas transparecendo que as minhas palavras fizeram essa pessoa pensar pelo menos 2 minutos, é só minha. E o resgate no brilho no olhar, na busca de ver as coisas sob uma perspectiva diferente, tentando ver como um assunto em potencial para o blog... é só meu.

Então tudo o que eu posso fazer é simplesmente o mais básico do básico.

Obrigado por me lerem, caros leitores. Muito obrigado. :)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Só para deixar registrado

Melhor do que ir para o outro lado do mundo conhecer pessoas que marcam a tua vida é perceber que mesmo depois de 6 meses, mesmo depois de voltar para o outro lado do mundo... a amizade continua a mesma. Com algumas mudanças, claro (God save Facebook!). Mas de alguma forma... mais ou menos igual! :D

P.S.- Esse é o F., Francisco, meu amigo cucaracha-meets-California.
P.S.2- FÉRIAS! E logo logo os posts grande-gigante voltando. ;)
P.S.3- "Alô Wanessa? Atende Wanessa. Eu sei que você taí. Eu preciso falar com você... Por favor me escuta Wanessa!": porque tem música que do nada o nosso HD cerebral resgata do fundo do baú, e simplesmente gruda na tua cabeça, hein?! E claro, nunca é Rachimaninoff, mas sempre esse tipo de música... Sacanagem... (Comentários do clipe: 1) Esse tom loiro-queimado-atendente-de-dentista do cabelo de W is so 90's, néam? 2) Mini-choque em perceber que Dado já foi umidificante algum dia 3) Gente, Faith Hill é embutido nesse clipeám! :D)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Revelações de uma noite de insônia

Afinal, amanhã eu só tenho duas entrevistas de estágio + trabalho SUPER legal sobre o Walras para entregar + 3 textos para resumir e revisar. CARAJOS!

E já que a hora passa e sono não vem, vamos tentando passar o tempo. E como eu passo o meu tempo?

1) Escutando os piores hits da R&B: Oficialmente eu passo longe do popular, amo Air e Phoenix, tenho uma lista de bandas e cantores alternativinhos/rockeiros para mencionar quando quero passar uma imagem foda. Na real? Eu adoro French/Brit Rock. E amo todos esses hits tipo "início de night na Baronetti", sabe? Esses, com um bando de negão americano esfregando um monte de nota de dólar na bunda de umas biscates ou com um bando de negona tudo com o cabelo megalisado se esfregando em outros modelos negros e reclamando do relacionamento. Do tipo, de lembrar coreografia na hora em que eu, loucaço, escuto essas músicas na boate. Vergonha, muita vergonha... (E sobre o 50Cent: eu oficialmente não sou chegado num cafuçu. Mas esse jeitão cafa/gangsta, essa voz rouca, essa atitude "I gonna fuck u like a porn star"... e ainda mais esse cara cantando "Have a baby by me / Baby be a millionaire"! Com esse sorriso, nem precisa ser a millonaire: largo apartamento na Park Avenue e vou ser feliz no Bronx. Com isso TUDO pra mim!).
(P.S.- E como eu fui esquecer de comentar do Ne-yo! Eu acho o cara foda. Você sabe que o cara veio lá de baixo, você sabe que o cara é gangsta, você sabe que o cara era fácil um nada de um estado qualquer do Sul dos EUA. Mas o cara tem um porte, uma elegância absurda que realmente faz acreditar que estilo dá pra se conquistar. Pra maioria dos rappers vale a máxima "Você tira o cara do gueto, mas não tira o gueto do cara!". Pra ele? Você tira o cara do gueto. E transformar ele praticamente num local da Saville Row. Eta negro gato!)

2) Lendo notícias inúteis: quanto tá a SELIC? Não sei. Em quanto a Bovespa fechou ontem? Não faço a mínima idéia. Agora, o caso do goleiro Bruno, acabei de ver que a prisão dele acabou de ser decretada. Anta: podia ter usado a consultoria que o Daniel deu no blog dele e ter ido ser feliz na Suécia, Áustria ou Alemanha. Mas não, quis continuar na farofinha, no sambinha, na peladinha, se FERRÔ mermão. Agora é dar adeus ao Barra Mansions & Condominium e ir ser feliz no Les Residences Bangu Un.

3) Reclamando da vida e falando "Como seria bom se o tempo pudesse voltar" com os amigos online no Facebook: Primeiro, essa na foto é o meu amigo americano-mexicano F, e sim, ele está me zoando (sentiram o detalhe do cachecol no pescoço? :D). Segundo, muita sorte minha que aquele cucaracha mora em Los Angeles: o fuso horário faz com que ele quase sempre esteja online quando eu estou com insônia, e ter o privilégio de ter uma das pessoas que mais conhecem me pra trocar idéia nessa hora da noite é foda. Definitivamente, eu amo esse cara: lindo, designer foda, tira fotografia como ninguém (mas tem uma fotogenia péssima: as fotos não fazem jus à metade do tesão que esse cara é. E olha que eu já vi tudo, de todos os ângulos, com e sem roupa!), farreiro na medida certa. Sabe aquela relação de irmão que você desenvolve com algumas pessoas, e que no final acaba sublimando qualquer questão sexual que pudesse existir? Esse cara pra mim. :D

Acho que vou contar carneirinhos e tentar dormir. Ou pegar o texto do Walras que vai dar no mesmo...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Páginas da Vida... Ups, Facebook

F e T são dois grandes amigos alemães que eu fiz em Hamburgo. T foi o meu primeiro peguete em terras hamburguesas. Lembro como se fosse hoje: eu chegando para uma mega festa num antigo bunker da Segunda Guerra em Heiligengeistfeld, completamente bêbado (meu melhor amigo alemão tinha o péssimo hábito de imediatamente reabastecer todo e qualquer copo vazio na minha mão. Resultado: em qualquer festa, uma hora depois eu já estava completamente insano). Sabe quando você chega todo trabalhado na vibe Pussycat Dolls num lugar? Eu naquela noite. Olhei para um lado, olhei para o outro, encontrei a vítima: T, lindo, corpo perfeito, parado num lugar escutando a música (somente na Alemanha cara gato fica parado, sozinho em boate sem ninguém chegando). Já cheguei todo no charme Katia Flavia, todo no „Hallo, ich ser Fernando, aus Rio de Janeirrro, Brasilien“ (ja falei: a nossa nacionalidade é um asset em terras européias, que como qualquer asset tem que ser bem gerenciado. Pra que fazer a linha da „piranha-latina-um-pouco-acima-da-linha-da-prostituição“? TAO melhor fazer a linha do „latino-inteligente-E-que-fode-bem“. Resultados garantidos. :D). Resultado: uma hora e meia depois estava na cama daquilo tudo, fazendo aquelas coisas, com aquilo tudo olhando para minha cara com cara de “Nossa, que GATO” (e eu pensando “Quanta merda na Galeria Café eu tive que pegar para chegar a ISSO, hein...”). Saímos mais algumas vezes, eu me envolvi com outros (outros meaning metade de Hamburgo), ele se envolveu com outros, começamos a sair como amigos, rolavam umas recaídas mais esporádicas, e no final de tudo acabamos virando aquele tipo de amigo com quem se tem uma intimidade enorme e um carinho fraternal genuíno.

Já F foi o meu rebound guy depois do FDP germânico. (Rebound guy means aquele cara legal, inteligente, bonitinho, bom de cama com quem você sai logo depois de se fuder em algum grande relacionamento. Você fica com ele um, dois meses, trepa trepa trepa até chegar a conclusão de que você não sente nada mais especial pelo cara. Só que nessa altura o cara inevitavelmente vai completamente louco de amor por você, e você claro, vai ligar o cara perfeito por um outro FDP. Life sucks.) Inteligente, grandão, loirão, jogador de tênis compulsivo. Eu adorava ir pra casa dele: o cara preparava uns mega jantares super fodas (enquanto isso, na minha geladeira na residência estudantil: duas garrafas de vinho tinto macedônio vagabundo, mozzarella di bufala de €0,99 do Aldi, Nutella e água. E cozinhar não é um dos meus dotes. Escolha difícil, hein?), depois a gente ficava tomando vinho (não-macedônio), conversando (ou melhor, eu falava e ele escutava. Rebound guy não tem opinião, não tem vida. Ele vive os seus dilemas. E no final ainda te dá apoio), jogando Nintendo Wii (eu tenho um lado nerd SIM, TÁ?). E no final de tudo ainda tinha ainda a cama dele, GIGANTE, com um edredom fofíssimo. E claro, altas partidas de tênis (gente, tênis faz um BEM pra saúde!). Enfim, acabou que eu enjoei, tava confuso demais pela história do FDP germânico, não tava conseguindo me envolver na história (claro: o cara é legal, bonitinho, trepa bem e... a gente não se apaixona. Tem que ter uma merda no meio pra dar uma emoção na história), resolvi seguir em frente. Acabou que com o tempo acabamos virando amigos também, e ainda hoje a gente sempre se fala.

Enfim, F resolve ver que é esse tal de T no meu Facebook, T tem uma irritante capacidade de sair perfeito em TODAS as fotos (odeio muito gente assim), F fica fascinado por T e resolve adicionar T como amigo. F e T fazem comentários engraçadinhos no meu perfil , depois começam a comentar no perfil um do outro, até que resolvem “tomar um café juntos para se conhecer” (gente, mais Hamburgo que isso impossível). Aí que eu agora eu fico sabendo por um deles que eles se encontram, se adoraram, e agora simplesmente são BFF. E claro, que sempre falam do assunto preferido deles: EU. Vocês acreditam que até sobre os meus “golpes sexuais” (que nem golpes são: eu JURO que eu esqueci a chave do meu quarto nas noites em que eu sai com cada um deles!) os dois comentaram?!

Eu fiquei meio com vergonha. Ah, tá, eu sei, eu dormi com metade de Hamburgo mesmo (numa das minhas últimas nights por lá fui para um bar friendly com um amigo/ex-peguete. Chegando lá, surprise: aniversário de um outro ex-peguete! E um dos amigos dele também tinha sido um ex-peguete! E nessa noite acabei jogando charme com um outro cara que acabou se tornando o meu último peguete em terras hamburguesas! Juro, naquela noite eu constatei: ou eu saía de Hamburgo ou eu ia logo ficar sem gente nova pra pegar). Mas poxa, é demais pedir para ter uma vida piranhal privada? Hein?!

(Bem, eles ainda falam que me adoram, que estão morrendo de saudades e que eu faço uma falta danada da vida deles (adoro elogio assim. Tô carente, estressado e sem H&M). Eu também adoro eles. Legal ver que coisas legais sairam de Hamburgo. Eu sei, meloso. Eu tenho esse lado meio "episódio do Chaves de Acapulco").

P.S.- E o meu Facebook tá quase uma novela do Manoel Carlos: amigo do meu namorado francês me adiciona no Facebook. Abro o perfil e voilá: além de ser amigo do meu namorado, o cara é amigo de outro francês que eu cansei de pegar ainda em terras cariocas. #tenso Preparando o meu discurso "Sim, eu fui cortesã, mas hoje eu sou NOBRE, tá?".

terça-feira, 1 de junho de 2010

Um dia

A vida humana é uma grande seqüência de rotinas. Ao redor do mundo, todo dia, todo mundo quase sempre segue a mesma rotina. Acordar, tomar banho, escovar os dentes, tomar café-da-manhã, sair de casa, ir tratar das obrigações diárias que até a mais fútil das vidas tem. Faculdade, trabalho, banco, dentista, comprar uma cafeteira nova para substituir aquela que quebrou, levar o Maltês para a acupuntura, reclamar para o seu analista que a sua vida é uma merda porque você não consegue manter o mesmo lifestyle que tinha no seu ano de intercâmbio na Europa, torrar parte da sua renda na aquisição de um bem qualquer com o nobre objetivo de querer se sentir melhor e mais bonito (jeans premium italiano, tênis creiço da Nike, camisa de seleção de país que você sequer sabe mencionar a capital – whatever, pouco importa. O efeito dessa satisfação de consumo vai durar mesmo só até o momento em que você usar aquele produto e perceber que nenhum modelo ucraniano veio se esfregar em você, que as pessoas não param e se viram quando você passa, que você continua exatamente igual ao que era antes. Publicitários FDP's!), esperar o caminhão da ONU trazer o próximo carregamento de ajuda humanitária, chegar em casa, jantar, assistir TV, dormir. E no dia seguinte, tudo de novo. A vida é uma grande seqüência de rotinas, de ações repetitivas que a gente acaba fazendo quase sempre no automático, com o headphone do iPod no ouvido (eu sei, eu também achei que a minha vida ficaria muito mais über-cool com um produto da Apple. Ledo engano. Acabei comprando um segundo simples e muito menos über-cool Phillips para poder escutar rádio e por não poder mais aturar over-and-over as minhas próprias seleções musicais), sem prestar lá muita atenção no que acontece ao seu redor. Afinal, tanta coisa para resolver, tanta coisa para pensar e time is always money.

E digamos, um dia, você abre a mochila e percebe a merda mor de segunda-feira chuvosa de qualquer morador de metrópole: esqueceu de carregar o seu iPod. Uma longa viagem pela frente, com absoluta e inevitavelmente nada para fazer. Numa viagem, numa cidade estrangeira, quando não se tem nenhuma obrigação chata e sacal da rotina diária pela frente, uma verdadeira delícia: a vontade é de absorver todos os barulhos, ruídos, alertas sonoros, conversas em idioma estrangeiro ao seu redor, pequenas partes do que é a vida cotidiana das pessoas num lugar diferente do seu. Mas na sua cidade, no seu dia-a-dia? O que de novo, de absurdamente interessante e inédito você pode encontrar? Nada, eu sei. A gente acaba tendo que se contentar com a mais normal, mais sacal e mais simples das atividades humanas: observar. E aos poucos, elas acabam ganhando um significado um pouco mais complexo. O cobrador do ônibus exausto, louco pelo fim da jornada de trabalho dele; a criança chata e irritante comendo Fofura e feliz porque está indo visitar os primos; os lindos e isthiluósos modelitos de inverno que proliferam toda vez que a temperatura cai abaixo dos 20C e/ou chove (li isso em algum lugar e repito: quem foi o louco que disse que “no inverno as pessoas se vestem melhor”? Seguramente ele nunca pegou metrô às 5.30h e deu de cara com aquele bando de gente enfiada em moletom, casaco jeans e gorro, praticamente um simulador 3D da FEBEM, néam?). Pessoas. Que até então eram meros obstáculos na calçada, ganham um significado ligeiramente diferente quando a gente tenta imaginar o que elas estão pensando, quem são elas (em outras palavras - Fernando é um louco hiperativo, portanto é melhor nunca deixá-lo sem nada para fazer!).

Sabe aquelas cenas completamente anônimas que você presencia e jamais mais esquece? Um dia eu estava num ônibus na Avenida Rio Branco, aqui no Rio de Janeiro. Também tinha esquecido de recarregar o iPod (ou faz tanto tempo que talvez fosse “comprar pilhas novas para o Discman”). E esperando o ônibus avançar por aquele trânsito caótico, sentado no ônibus, olhando pela janela, o meu olhar para numa mulher. Linda, elegante, absolutamente bem-vestida num trenchcoat, enormes óculos escuros no rosto. Contrastando absurdamente com todo mundo ao redor dela, parecendo buscar algum taxi livre para sair logo dali. E do nada, quando eu menos esperava, uma expressão de dor, uma enorme lágrima desce por uma das maçãs do rosto. Que ela prontamente seca, enquanto concentra todas as suas forças para manter aquela imagem de elegância e formalidade para o resto do mundo.

O ônibus partiu, e eu obviamente jamais saberei o que levou ela àquelas lágrimas. O que ficou foi o sentimento de que a gente não conhece nada sobre o ser humano, sabe? Que a gente projeta uma imagem de nós mesmos, muitas vezes tão trabalhada, tão complexa que... acaba sendo um retrato completamente infiel do que a gente realmente é. Do que a gente realmente sente. E assim, ninguém ao redor percebe o que está acontecendo, as coisas vão seguindo em frente, e uma hora quem sabe elas se resolvam...

Ontem o pai de uma amiga decidiu que a vida dele tinha tido segundas-feiras demais. E resolveu parar de seguir em frente.

O que dizer? Desculpem-me pelo texto meio sem nexo, meio sem encadeamento lógico. Mas é que eu precisava escrever, sabe? Assim que o Fernando funciona quando acontece algo que faz ele pensar muito. Fica irrequieto, e não sossega enquanto transformar isso em comunicação, expressão, de alguma forma. Não quero levantar debate sobre o suicídio, sobre o que leva uma pessoa a cometer um ato extremo desses. Fraqueza, desespero, depressão? Pode ser, quem sabe, mas... não muda nada. Acaba sendo como uma amiga me disse hoje: “Não sei se é um ato de coragem ou covardia extrema. Coragem, por chegar na última conseqüência e chegar a tirar a sua própria vida; covardia por não pensar na devastação que vai ser causada na vida de todo mundo que é importante pra ele”. De qualquer forma, é irreversível. Não pode ser mudado.

Qual a lição que fica? De que as pessoas são muito mais do que aquela superfície projetada para o exterior, do que a gente julga que elas são? De que no fundo, todo mundo é um oceano de sentimentos, e que a gente acaba enxergando quase sempre só a superfície?

Talvez de que a vida é importante de ser vivida. De que a vida feliz é importante de ser vivida.

E de como tem sorte quem sabe disso.

terça-feira, 27 de abril de 2010

'Ik denk, dat...': Amigo é importante, porque...

...mesmo quando você chega em casa depois de um dia daqueles, tipo busão lotado, trânsito infernal de manhã, calor infernal já de manhã também, criança gorda+chata atrás de você comendo Fofura (#Momento Non-Carioca Friendly: infétido biscoito/bolacha/whatever, daqueles tipo “isopor amarelo”, sempre disponível num very disgusting sabor tipo Churrasco de Gato ou Cebola Mofada, consumido preferencialmente por crianças monetariamente desfavorecidas pobres, faveladas e semi-faveladas do munícipio do Rio, que tem a curiosidade propriedade de contaminar todo um ambiente com o seu simpático e agradável aroma. Ou seja: não importa que você esteja usando Chanel N°5 ou Prada Infusion Fleur d'Oranger - se tiver um simpático infante consumindo esse produto a menos de 500m de você, o cheiro de Fofura vai grudar em você), única aula do dia inútil na faculdade logo no primeiro tempo (mas que você tem que ir, afinal como grande ser organizado que você é, precisa confirmar se o trabalho é mesmo para a semana que vem... Ou para hoje?!) e... vê que as suas suas lindas, desenvolvidas, ricas (porque não dá para ser pobre de verdade em país norte-europeu. Muito ódio de países com welfare state.) e muito amadas amigas se encontraram em Amsterdã (que era, tipo assim, ali do lado para você também até outro dia) para botar o papo em dia, fazer compras, passear pelos canais e fazer sabe-se lá mais o quê (enquanto a sua vida anda numa animação e aventura tipo “Cara, meu dia foi IRADO hoje: achei uma bibliografia para a minha monografia!!!”) e...
... elas conseguem colocar um sorriso no teu rosto no momento em que você percebe que elas ainda se lembram de te mandar um fofíssimo cartão-postal mostrando que sentem a sua falta. E te chamando de “Bitch”, naturally. ;)

Amigo é bom demais mesmo, néam?

P.S.1- By the way, pequeno díalogo do dia:

Mae: Filho, o que quer dizer “Bitch”?
Eu (com cara mais inocente do mundo): Amigo em sueco, mamãe.

(Hehehehehe)

P.S.2- Alex Bez, querido leitor, manda um e-mail para lostundfoundintranslation@gmail.com que eu te envio todas as dicas do que fazer em Hamburger Town. Jawohl? :)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sábado de sol. No Rio.

Sábado: o dia mais feliz da semana. As loucuras da noite de sexta-feira acabaram de passar, ainda há tempo para fazer a parte dois e depois de tudo isso ainda tem o domingo para se preparar psicologicamente para o marasmo e a rotina da segunda-feira. Mas o que se faz num sábado depende diretamente... de onde você mora!

Em Hamburgo? Sabadão era o dia de colocar toda a vida em ordem (supermercado, Ikea, compras na Spitalerstraße, peguete #1, peguete #2) e se o tempo colaborasse, uma atividade ao ar livre (ou seja, chance de um em um mihao de acontecer. Afinal, saudades de Hamburgo eu tenho muitas, mas convenhamos: o clima daquela cidade era uma Scheiße.). E vai diminuindo expectativa: "atividade ao ar livre" era um piquenique num gramadinho, uma volta no lago e nada mais.

E no Rio de Janeiro? Bem, o meu "balneário decadente" pode ter trilhões de problemas, mas sejamos sinceros: carioca sabe como curtir um sábado. Junta a isso um tempo perfeito + bons amigos + bom papo e voilá: a receita perfeita para um sábado perfeito.
E no último sábado aconteceu a reuniao do trio fantástico dos blogayros cariocas (Chato no Ar, Don Diego et moi). E com a virtual presenca de Herr Introspective/Thiago (Thi: cafuçus da linha Grand Champ - Downtown mandaram saudações!). Daniel já escreveu, Diego já escreveu, entao finalmente aqui vai a minha versao do dia.

Sábado bem carioca, com os clássicos da cidade, sabe? Dia de sol com calor senegalês meets microwave (Rio 40° Graus is so last season... A moda do verão é sensação térmica de 50C!). Almocinho no Frontera (ah, os self-services da Zona Sul que saem pelo triplo do preço daquele chicken biryani num indiano qualquer em Londres. Mas fazendo justiça: o arroz à piamontese e o steak estavam deliciosos.). Praia de Ipanema @ Posto 8,75 (zona de transição entre a galera trendy-hype-cool-"Queridaum, tamos em Ipanema, táam?" e as bomb-bees da Farm of Amoedo). Povo esbanjando u-m-a s-a-ú-d-e, que pelo amor de Our Lady of Gaga! (aliás, pra constar: saúde em Ipanema atende pelo nome de NX37883. Ou era StrongPowerFlex? E muito spinning - só spinning, porque spinning seca, tá?). Discussões sobre as questões existenciais da vida bee moderna: Floripa ou Rio no Carnaval? O loirinho com cara de gringo ou moreninho equipado com função tanque de lavar-roupas?
E depois da praia uma esticada no Läffä, o mais novo representante da kebab-wave que vem vindo nesse verao carioca. Um post-crítico mais detalhado ficou a cargo de Herr Daniel, mas dá para adiantar algumas coisas. #1: A experiência foi digna do nosso beloved Programa Furado (momento "Esse é um blog SP friendly" + comentário interno carioca: última seção do suplemento de final de semana do diário carioca "O Globo", que todo carioca esperto tem o mórbido prazer de ler primeiro assim que recebe o jornal na sexta-feira). #2: Kebab israeli, com laffa ao invés de pao árabe? Não curti não, ficou estraaanho... #3: R$12,90+ mais de meia-hora de espera pelos sanduíches, e quase fica mais fácil e barato pedir para enviarem uns kebabs lá da Turquia via FedEx. E finalmente: #4: taxa de 10% é uma gratificação por um atendimento muito bom (porque bom atendimento é mais que a obrigacao). Acabaram de abrir e ainda estao testando tudo? Que peninha: boa sorte, que aprendam rápido... e não cobrem os 10% enquanto não puderem considerar os serviços dos senhores como minimamente aceitáveis. Fácil assim. Damit einverstanden? (Fernando morou na Alemanha/Fernando ficou mau).

Balanço final do dia: sábado de Hamburgo era bom. Mas sábado de sol no Rio, com Ipanema, o Atlântico e um grupo desses... é ainda melhor! :D

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Meda: Schweinegrippe


Jantar do Erasmus hoje. O que significa, vários grupos de estudantes dos quatro confins do mundo (quatro mesmo - tem uma garota do Bangladesh total adepta do thammygretchismo). Pessoal viajou horrores nos últimos tempos. Chegou outra penca de pessoal no grupo. Resultado: uma grega maluca e um turco já foram diagnosticados com gripe suína. Eventos cancelados, festinhas canceladas, porrada de coisa cancelada.

Duas amigas fazem aniversário, e decidimos que uma gripe suína nao vai parar a gente. Afinal, semestre de intercambio é só um, e a gente tem que aproveitar. Mas o medo de pegar esse troco e ficar 1 semana de molho em casa, sem papai e mamae para cuidar, ter que ir no médico e falar em alemao os sintomas? Phoda que sempre sobra pra mim, o que fala alemao mais razoavelmente no grupo, a tarefa disso. E o medo de cair doente na reta final do meu estágio?

E merda que nao rola nenhum gay friendly no grupo para rolar um home care básico. :( (hehehehe) Bem, até rola, mas é um espanhol alternativo demais (out of Prada world demais para mim). E tem bunda peluda, como ele fez questao de mostrar numa das fotos que ele fez com uma outra estudante de moda. Nojinho. Ou melhor, nojón.

Melhor ir tomar um Apracur, tomar um banhinho de sal grosso, me encher de espumante da Macedonia vagabundo e ir para lá...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Festa de Halloween e não sabe com que fantasia vai?


Hippie? Cowboy? Médico? Tô fora! Porque in mesmo é causar e ainda dar uma de ativista político... heheeh

E coió? O que é coió mesmo, hein? Fiquei desfamiliarizado com esse conceito... ;)

E enfim, quem sabe ainda saio no lucro, néam?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Post pilequinho

Warnung: Uma garrafa vazia de prosecco (vagabundo) italiano se encontra do meu lado, portanto, pode ser que amanhã eu perceba que esse post foi queima-filme demais, e o delete... Enfim, não estranhem o tom do post em si!

Acho que só quem morou no exterior durante um tempo sabe como são aqueles momentos em que bate um sentimento de deprê, de estar fora da sua cultura, longe de amigos que são o seu apoio... Chega um momento que você inevitavelmente se questiona "Será que realmente valeu a pena tudo isso?".

Hoje estava num dia dessas. Não consegui trabalhar direito no trabalho, e junto disso vieram os pensamentos sobre o FDP germânico, de como apesar de tudo o que ele fez sinto falta dele, e de como estar aqui é tão complicado e tão difícil algumas vezes... Enfim, tava me sentindo tristonho, uma merda hoje. Mesmo assim, me forcei a ir para o treino de volleybol com os estudantes alemães aqui da residência hoje. Aprendi aqui na Alemanha que nesses momentos o melhor que você tem a fazer é sair mesmo do seu quarto, se obrigar a fazer alguma coisa que exija interação, e colocar um sorriso falso no rosto.

Enfim, jogamos volleybol e um dos alemães - que eu conheço um pouco mais - me chamou para tomar um vinho mais tarde e jogar conversa fora com o grupo deles.

E sabe quando você entende que todas as merdas e perrengues pelos quais você passa são de alguma forma válidos, porque de alguma forma formam o teu carater, te introduzem a pessoas que te fazem enxergar o seu real valor?

Um dos alemães fofamente falou que ele se sente muito feliz de ter me conhecido, por toda a minha cabeça internacional, e pela minha vontade de me integrar e aprender sobre a cultura alemã. Sobre mesmo estando um pouco mais alegre (sou mega fraco para álcool) e cansado, eu continuar insistindo em falar alemão. Que isso mostrava como eu era um cara tolerante, aberto a coisas novas, e que ele achava isso fantástico em mim. E mais uma vez, que ele estava muito feliz de se tornado meu amigo...

Nessa hora o sentimento drama-latino veio, e eu não consegui segurar a lágrima. Lágrima que veio porque eu pensei que em Janeiro eu vou ter que dizer adeus para tantos amigos alemães que eu fiz aqui. Amigos que esperam o sinal ficar verde mesmo que nenhum carro esteja vindo, amigos que acham que 2 minutos já representam um atraso inaceitável... amigos tão alemães, mas que de alguma forma eu conquistei, e me tornei parte da vida deles.... e eles da minha.

Achei que isso merecia ficar registrado num post, porque nesse blog eu meto tanto o pau nos alemães... e precisava registrar a capacidade desse povo, de com poucas palavras, falarem tanto e tocarem tanto o coração de uma pessoa. Afinal, quando alemão fala alguma coisa, eles realmente sentem aquilo, né? :)
Bom perceber que já valeu alguma coisa essa viagem: eu fiz amigos que eu certamente jamais irei esquecer e levarei pelo resto da minha vida. Mas agora, o que eu faço? Eu não quero dizer tchau para eles! E ao mesmo tempo, saudades tantas do amigos que ficam no Brasil...

Viajar realmente é deixar um pedaço do seu coração em cada lugar que você pisa... E ao mesmo tempo que ele se torna enorme, fica cada vez mais difícil montar ele todo... :(

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Wednesday is my new Friday



Se até agosto passado eu tinha um estilo de vida rykah aqui em Hamburgo (morava na casa de um amigo alemao – saudades da máquina de café automática, banheira e estoque interminável de Nutella), quando eu me mudei para a residencia estudantil, o que eu perdi em comforto eu acabei ganhando em badalacao. :) European Student way of Life, YEAH! :)

Toda quarta rola festa no bar de residencia onde eu moro. O de sempre: conversas animadas com pessoas de trocentos países diferentes (ontem rolou inclusive debate sobre como a Europa enxerga o Isla, com os novos amigos iemenitas e tunisianos - gente, acho muito digno ter amigos “iemenitas”! Tao ONU...); Becks, Becks, Becks; dancar “I got a Feeling” do Black Eyed Peas como se o mundo fosse acabar amanha. E ir dormir as 3h. E chegar quinta no estágio com cara de quem foi atropelado por um alce on pills (pior que esse tempo mais frio parece contribuir ainda mais para a sua cara de amassado de manha – óbvio que quando eu chego no trabalho, mando o cao “Ai, esse frio na Alemanha é tao forte para mim” + ”tossinha de crianca do comercial de Vick” para nao ficar muito na cara).

Mas é bem legal. :) Ah, eu vou sentir saudade desses tempos de diversao low cost e high fun da Europa...

Comments:
1 – Beck’s é uma cerveja alema long neck – nada de “desenvolvida por monges trapistas em um mosteiro dos Alpes perto de Garmisch-Partenkirchen” – é cerveja de jovem, estudante, pessoal que nao tem muita frescura com essa história de cerveja (e eles levam isso MUITO a sério aqui..). Bem Leve, em várias versoes manerissimas, perfeita para a night/balada. O vídeo acima é um dos comerciais da marca aqui na Alemanha, e dispensa a traducao para os nao iniciados no idioma-pesadelo de Goethe.
2- Tem coisa mais fofa (e confesso, sexy) do que sotaque frances em qualquer idioma? :) Eta povinho gostoso, mon dieu...

Viu só a prova de que eu estava doente ontem! Cachecol! :)

sábado, 10 de outubro de 2009

O passado continua aqui



Uma das coisas que mais me fascinam na Alemanha é como a história do século XX sai das páginas dos livros e vai para a vida real.
Ontem, fui a casa de um amigo alemão (de uns 30 anos) fazer um pré-night básica antes de sairmos. Vodka vai, vodka vem, Fernando impaciente enquanto o meu amigo ficava naquela conversinha melosa com o novo quase-namorado dele (aquela mesma do tipo "Ai, desliga você primeiro... Ah não, desliga você..." - essa porra realmente é internacional), começo a dar uma folheada em algum dos livros dele. Eu pego um da história da Guerra Fria e começo a folhear mais atentamente. Ele desliga o telefone e pergunta se eu achei o livro interessante. Respondi "Claro" (com vontade de emendar "Honey, eu vou de Vogue a Eric Hobsbawm, tá?") e ele conta "Te contei que eu nasci na Alemanha Oriental, não?".
E o cara me conta a história da família dele: a avó morava em Königsberg, antiga Prússia Oriental. Ao final da Segunda Guerra Mundial, o exército Vermelho começava a avançar em direção ao Oeste, e o pânico tomava conta das populações alemãs na Europa Oriental - depois da matança promovida por Hitler em território soviético, os Vermelhos estavam sedentos por vingança. A avó desse meu amigo participa da operação de evacuação da Prússia Oriental, deixando a pequena vila dela (onde, segundo o meu amigo, nenhum alemão sobreviveu depois da conquista vermelha), e partindo em direção a Alemanha, navegando num mar Báltico cheio de submarinos aliados. Chegando na Alemanha, ela foi para a Turíngia (Alemanha Oriental), o posteriormente vive o drama de viver separada da filha dela, que tinha ido para uma cidade que ficara na Alemanha Ocidental.
E a história do meu amigo em si também não é menos carregada de história: depois de se separar do marido, a mãe dele, que morava também na Turíngia, decidiu tentar escapar para a Alemanha Ocidental. A fronteira húngaro-austríaca tinha sido aberta. Havia uma chance. Sem levar nada a não ser as malas com roupas, sem contar ao ex-marido dos planos - porque, segundo o meu amigo, o pânico da Polícia Secreta alemã era tão grande que era impossível saber em quem se poderia realmente confiar, e caso ela fosse denunciada, ela seria presa - ela decide "passar férias" com os filhos no litoral da Bulgária (para onde eles poderiam viajar sem autorização, por estar dentro do bloco comunista) e de lá pegam um trem para a Romênia e então outro para a Hungria. Já na Hungria, eles pegam um táxi até a fronteira, onde atravessam a pé para a Áustria. E para começar tudo do zero na Alemanha Ocidental.
Por isso que ele fala que toda vez que vê a Queda do Muro em Berlim, ele de alguma forma se emociona e chora. E que sempre quando ele escuta falar sobre refugiados, ele sempre pensa na família dele e como foi difícil começar tudo de novo. Mesmo sendo na mesma Alemanha.
Nessa hora, eu estava com aquela cara de "Como assim?". E depois disso, saímos, bebemos e nos divertimos.
Mas o pensamento de que a Alemanha, mesmo com todas as diferenças culturais, é simplesmente um lugar incrível não saiu da minha cabeça. E de alguma forma, eu relembrei do imenso privilégio que é estar aqui.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Amigo hetero

Amigo hetero é um problema… Do tipo, eu adoro os que eu tenho! Acho super legal e digno me misturar com pessoas que (teoricamente) sao fora do nosso mundinho – para mim sociedade é mista e heterogenea, e todo mundo tem que saber lidar com todos os tipos de pessoa. O complicado é quando o amigo hetero é daqueles gostosíssimos: voce fica naquele dilema “se ficar olhando demais posso dar bandeira”, mas também é foda controlar aquele comentário “Porra, tu é gostoso pacas, hein!”. É poder olhar a vontade, mas tocar que é bom, nada... Díficil..

Meus amigos heteros aqui na Alemanha sao quase todos do Erasmus (ou seja, estudantes de intercambio). E nesse grupo, a leva latina é gostosa pra caralho: os portugueses e o mexicano-americano, SEM COMPARACAO... Fui “adotado” por eles agora, entao já viu: é aquela coisa de testosterona no ar, briga em bar, papo sobre as 395 garotas que se estapeiam para sair com eles, brincadeirinhas joselitas do tipo “o meu é maior do que o seu”. Parece que eu estou tendo o meu estágio no mundo hetero que eu nao tive nos meus tempos de ensino Médio, porque eu era o “excluído do Mirabel”. Legal. Mas nossa, tem horas que é demais (numa daquelas brincadeiras bem joselitas de fingir que está brigando – tudo isso acompanhado por mim fazendo cara de “Sim, vai, continua... Isso... Agarra ele!” – um dos portugas meteu o joelho nas bolas do outro, e o outro está a 5 dias sem poder malhar com as bolas inchadas.  Óbvio que me ofereci para cuidar, né? Mas ele nao quis... Scheiße!).

Resultados disso? Um deles resolveu que iria me treinar agora, e estamos malhando na academia na residencia estudantil onde eu moro. O meu amigo já sacou como me estimular, e fica o treino inteiro gritando “Come on Fernando!!! Do you want to keep being this sissy fag?! Or do you want to be a Tom Ford fag?!”. Ok, o meu condicionamento físico tá melhorando muito. Mas o pescoco hoje tá uma maravilha: to parecendo um robo, tendo que girar o corpo inteiro para falar com alguem do meu lado. :)

E a tentacao fisica de ficar admirando essas coisas o dia inteiro... Ah mein Gott...

(Na foto estao o portuga, um americano e o mexicano-americano. Eles estao FEIOS na foto – infelizmente a única que eu consegui arranjar agora.)

Update na história do estagiário - Senti uma vibe mais YMCA hoje no estagiário, na hora que ele foi me ensinar "como alongar o pescoco para previnir disso acontecer"... :) Meu estágio acaba de ganhar um estímulo a mais! hehehe