quinta-feira, 14 de abril de 2011

Elegance is about the way you cross your legs, not the label or the newest clothes from the latest collection

Raríssimas as vezes eu postei aqui um artigo ou entrevista na íntegra (aka. 'nome elegante e jornalisticamente sofisticado para o processo de ctrl v + ctrl c'). Mais raro ainda (ou inédito no blog?) um post sobre moda, um assunto que sinceramente me interessa bem mais do que eu deixo expressar pelos meus textos aqui no blog.

Mas algumas matérias necessitam ser divulgadas, necessitam ser espalhadas, necessitam ser lidas. Por que então eu acho que a entrevista de Carine Roitfeld para a Spiegel Online International merece isso?

#1: C'est Carine Roitfeld, chérie: Como?! Não sabe quem é ela? (Primeira reação choque + Pensamento 'Em que planeta você mora, dear? Planet Girls?!', Segunda reação: Respira fundo, ajeita a camisa social e vai) Sabe o 'Diabo veste Prada'? Sabe Miranda Priestly (meu sonho é virar um chefe e despachar os meus subalternos+estagiários com um seco 'That's all."), o papel da Meryl Streep? Então, ele foi inspirado em Anna Wintour, a toda-poderosa editora-chefe da Vogue Norte-Americana - uma excelente profissional, com um poder absurdo na mão, que catapultou as vendas da Vogue America para a estratosfera, bla bla bla. Mas que vamos combinar: ainda é a Vogue America - onde que americano é um povo conhecido pelo estilo de se vestir?! (Afinal, EUA é o país disso, disso e disso.) Carine Roitfeld é simplesmente a equivalente de Anna Wintour na Vogue Paris, petit. P-A-R-I-S. Primeiro, ocupou o cargo da principal revista de jornalismo de moda na capital de moda mundial (Paris, dã?!). Segundo, ela conseguiu catapultar as vendas da Vogue francesas em um momento de recessão das grandes editoras e ao mesmo tempo estabelecer a Vogue francesa como a publicação internacional quando se trata de inovação e originalidade em termos de jornalismo de moda. (Impossível comparar a o climinha "Quem Acontece meets Bloomingdale's" da Vogue America com os absurdos promovidos por Mme. Roitfeld na Vogue Paris.). Terceiro, ela é inteligente, ousada, fala merda e literalmente rocks. (Preciso realmente afirmar o quanto eu acho ela foda?). E quarto: assez.

#2: Sentir a essência do que é a moda da perspectiva de uma francesa: Primeiro que 'moda' é uma palavra que não faz sentido para um francês - eles preferem definitivamente usar o conceito de 'estilo'. Segundo, c'est bien: você pode argumentar que franceses não curtem um banho (falando francamente, até hoje eu ainda não encontrei um francês fedidinho - agora, meu querido, dá uma passada no trem ramal Japeri no horário de rush do final da tarde...), que já viu vários turistas de France absurdamente mal-vestidos dando pinta por Ipanema/Copacabana e até que Christian Audigier é francês. (Agora eu fico feliz se você não sabe quem é Christian Audigier: ele é o Cocô Chanel do creyçon fashion style no Primeiro Mundo, sua marca Ed Hardy é absolutamente idolatrada por todas as celebs Z-List Europa e EUA afora e suas roupas tem o maravilhoso pode de te deixar instantaneamente tão elegante quanto um integrante de gang de rua de subúrbio de San Diego. Resumindo: na hora em que chegar a primeira camisa no Brasil, será sucesso de vendas instantâneo.) Mas é inegável que a 'moda' é uma característica fundamental da cultura francesa. E indispensável da cultura urbana parisiense - eu não diria exatamente que os parisienses são os mais bem-vestidos (dentre as cidades que eu conheci na Europa, esse título segue fácil para Estocolmo - os escandinavos em geral tem um senso estético muito apurado para tudo o que envolve 'design', mas os suecos facilmente são os que mais aplicam isso em termos de 'estilo de se vestir': não é somente um 'usar roupas caras', mas um senso de saber escolher, saber combinar itens a primeira vista comuns e construir com o conjunto um visual essencialmente moderno e trendsetter), mas existe algo no jeito de vestir do parisiense em geral que atrai o olhar de qualquer um que visita a cidade. É um estilo clássico, simples, focado em peças básicas com acessórios de impacto, que quase sempre resulta num estilo que poderia ser classificado como 'casual sofisticado'. Descrevendo assim parece algo 'uniforme', eu sei, mas andando por Paris é incrível como você consegue ver isso em estilos/tribos tão absurdamente diversos, do bohemian ao gótico. Tudo relacionado à um equilíbrio: not too much (italiano demais) a ponto de transmitir informação demais sobre você, not way too less (americano por essência) a ponto de o que você vestir não passar impressão/imagem/idéia nenhuma sobre quem você é. Resumindo o paragráfo gigante que eu acabei de escrever: de forma geral, o francês tem uma noção de que moda é uma das formas mais efetivas de passar uma mensagem pessoal para o mundo - e eles pensam sobre isso.

#3: Para relembrar que jornalismo de qualidade consegue transformar um tema que tão facilmente desbanca para a futilidade tipo 'o-novo-preto-da-estação-é-o-oncinha'/'oh-como-somos-fúteis!' em algo realmente intelectualmente interessante de ser lido: Sendo muito sincero, desconheço qualquer meio de comunicação escrito no Brasil que teria a capacidade/coragem de fazer uma pergunta como 'Can anyone who has spent 20 years in the fashion industry still be normal?' e acho que temos que reconhecer: mídia escrita de grande circulação, no Brasil, com qualidade para ser lida deixou de exisitr há muito tempo. Depois que a Folha passou a 'Crise Árabe' inteira ridiculamente traduzindo textos das grandes agências internacionais de notícias e destacou um time de jornalistas/escritores para discutir o BBB, acho que ficou mais do que sublinhado o fim da Folha como um jornal efetivamente com conteúdo. Em fúcsia. E itálico.

#4 Deswegen habe ich fucking Deutsch gelernt: Dois anos indo estudar alemão no CLAC (toda segunda e quarta, as 7h30!) na ilha do Fundão (@For-não-cariocas: Uma ilha longe longe, muito longe, muito muito longe, praticamente com microclima próprio, impossível de se chegar nos horários de rush, onde ficam a maior parte dos cursos ds UFRJ) + 5 anos de Goethe Institut (#1: Para dar uma dimensão da coisa, quando eu comecei a estudar no Goethe a moeda alemã ainda era o marco; #2 Cinco anos aturando os alunos insuportáveis de Germanística, que ficavam competindo quem decorava a declinação de mais prepsições; #3 O curso inteiro dura 10 anos. D-E-Z-A-N-O-S. Deprimente pensar que em 10 anos quem aprendeu inglês consegue praticamente escrever uma tese de doutorado - quem aprendeu espanhol, uma tese de doutorado em estudos comparados da antropologia do século XVII - e quem aprendeu alemão... consegue falar bem alemão.) + 1 ano de Alemanha (Onde primeiro eu me deprimi ao perceber que 7 anos de alemão me ensinaram a basicamente gaguejar em alemão, depois comecei a decifrar razoavelmente o que a maioria das pessoas falavam - já participou de uma reunião de duas horas onde você tinha que escrever uma ata e basicamente conseguiu entender somente o "Bom dia, estamos aqui..."? Eu já. No meu primeiro dia do estágio novo. - e ao final eu conseguia... me comunicar em alemão... mas tinha finalmente entendido que Hitler não ganhou a Guerra porque alguma força superior existe e não deixou o alemão se tornar a língua franca mundial que falar aquela Scheiße de idioma fluentemente somente nascendo na Alemanha.) = Determinado conhecimento do idioma alemão. Por que? Eu também não sei explicar. Mas, sendo muito sincero, ter acesso à imprensa alemã justifica muito desse esforço: a qualidade e a profundidade das matérias dos semanários alemães é impressionante. São páginas e mais páginas (a Spiegel média quase sempre fica pelas 400 páginas) de matérias que vão a fundo em temas relevantes, colunas com especialistas que realmente entendem do tema dando opinões fundamentadas (alemão adora um "Argumentos a favor" e "Argumentos contra" para qualquer assunto) e entrevistas onde os jornalistas não se intimidam nem por um segundo em fazer as perguntas desconfortáveis que todo mundo quer saber as respostas. Obviamente também existe publicação no estilo 'Meia-Hora' na Alemanha (Bild, for sure) e o que todos os elogios escritos acima são para a chamada tríade-de-ouro da mídia impressa alemã (Die Zeit, Der Spiegel e Frankfurter Allgemeine - os dois primeiros publicados em Hamburgo :D). Mas mesmo entre os equivalentes nos outros países europeus (com a exceção do excelente The Guardian - onde eu li e fiquei sabendo dessa matéria através da coluna de Life & Style chamada Fashion Statement), os jornais alemães são insuperáveis. Assim como os automóveis. E a obsessão por pontualidade e eficiência. :D

E agora, chega de introdução e voilá a entrevista com Mme. Roitfeld (muita emoção, muita emoção):

SPIEGEL: Ms. Roitfeld, you were editor in chief of the French edition of Vogue, the fashion and lifestyle magazine, for 10 years. Before that, you worked for 10 years at Gucci alongside then-creative director Tom Ford. Can anyone who has spent 20 years in the fashion industry still be normal?

Carine Roitfeld: My only drug is a small glass of vodka in the evening, if that's what you're asking. But I was fortunate because -- in addition to the very special world of fashion -- I also had a family, which is something probably rare in this business. I have also been married to the same man, the father of my two children, for more than 30 years. And that has helped me remain relatively normal.

SPIEGEL: For a former Vogue editor in chief, you also look remarkably normal.

Roitfeld: That's part of my newfound freedom. I always wore a tight skirt at Vogue; it was like a uniform.

SPIEGEL: Can you tell us what you're wearing today?

Roitfeld: A no-name T-shirt from Los Angeles, corduroy jeans by Current Elliot and satin shoes I had custom-made in violet. So the glamour's limited to my feet.

SPIEGEL: Does this world of vanity, in which fortunes are spent on trivial things, corrupt people?

Roitfeld: The fashion industry certainly has its obscene sides. The cost of a coat can be obscene. So can the cost of a photo shoot if you're working with a really good photographer. But when I see how good the photos have turned out or even how well the coat was made or how many people worked on it, it's not quite so obscene anymore. Of course, it's not like we're working in a hospital; we don't save lives every month. We just make decisions about skirt lengths, about an inch more or an inch less. That's all.

SPIEGEL: Did that ever seem pointless to you?

Roitfeld: For 10 years, it was a hell of a lot of fun. But, toward the end, it unfortunately got less and less fun. You used to be able to be more playful, but now it's all about money, results and big business. The prêt-à-porter shows have become terribly serious. The atmosphere isn't as electric as it once was, and they now have about as much charm as a medical conference. But it takes just one good fashion show to get things exciting again.

SPIEGEL: If fashion can tell us anything about the age it's created in, what do you think current fashions tell us?

Roitfeld: Today's fashions don't let people dream as much as they used to. Twenty years ago, fashion was a promise -- something that was part of your life and perhaps enriched it, something that reflected a particular era. If you look at advertisements these days, all you see are handbags. They aren't about dreams anymore; customers are buying objects now, not dreams.

SPIEGEL: Is that why you left Vogue in January?

Roitfeld: Ten years is a long time -- and especially 10 years in a gilded cage. They were wonderful years; but, sooner or later, birds want their freedom again.

SPIEGEL: Your French publisher said the time for being provocative and trashy was over.

Roitfeld: I'd put it this way: Fashion needs glamour, provocation and broken taboos.

SPIEGEL: Was it your decision to go?

Roitfeld: Absolutely. And at the perfect moment. The French edition of Vogue had never been more successful, had never had more readers or advertisers. And it had never made as much money. For 10 years, my American publisher, Jonathan Newhouse, let me do what I wanted, even when he thought it might be crazy. But it couldn't have gone on for much longer.

SPIEGEL: Is this the end of era?

Roitfeld: Creativity needs space and a willingness to take risks, but businessmen don't like risk. What's more, designers are coming under more and more pressure. Today, a dress can't just please the women in Paris; it also has to please those in Beijing, Tokyo, Moscow and New York.

SPIEGEL: Is globalization making fashion more boring?

Roitfeld: At the very least, it's leading to a lot of compromise. But globalization is only one factor. Today's designers no longer have to create two collections a year; they have to create four: spring, summer, fall and winter. And some fashion houses also add haute couture twice a year. Who can possibly manage all that? Good designers are artists; they're fragile people.

SPIEGEL: Two of the biggest stars in the Paris fashion world, Britons Alexander McQueen and John Galliano, both left this stage in a very dramatic way. McQueen committed suicide a year ago. And Galliano, the Dior designer, made his exit a few weeks ago after publicly professing his love for Adolf Hitler.

Roitfeld: McQueen's artistic creations always had a very dark side, but his death still came as a shock. After all, it's not like he was alone. He had a big team surrounding him, but it unfortunately wasn't able to protect him.

SPIEGEL: And Galliano?

Roitfeld: I had no idea how unhappy John Galliano must have been. You have to be very unhappy and lonely to praise Hitler in public while completely drunk. The House of Dior has always addressed a range of topics, for example, by having haute couture shows on homelessness where all the models look like people living on the street. But drunkenly shouting "I love Hitler" and calling people in a bar a "dirty Jew-face" is unacceptable. I don't think he really believes what he said; they were simply the actions of a drunk.

SPIEGEL: Are drugs an everyday part of life in the fashion industry?

Roitfeld: No more and no less than they are in other artistic circles. Yves Saint Laurent was the first person to openly admit to being a drug addict. Since I never touched drugs myself, I find it hard to tell whether people are taking them. But, of course, some people do. The industry has become faster and faster. People are constantly fighting jet lag and working through the night.

SPIEGEL: Now that Galliano and McQueen are gone, is German designer Karl Lagerfeld the only one left?

Roitfeld: Yes. Good old Karl. Superhuman Lagerfeld. I don't think he experiences this pressure in the same way. That's why he can put up with it.

SPIEGEL: And no one else can?

Roitfeld: He's not the only one. There's also Nicolas Ghesquière at Balenciaga, Riccardo Tisci at Givenchy, Miuccia Prada and, of course, Tom Ford. And then there are the up-and-coming talents. But they still need time. In a way, we've already seen everything. What else could they hope to invent?

SPIEGEL: And, in any case, copies of their designs soon turn up in Zara and H&M shops.

Roitfeld: Yes. At fashion shows, bloggers sit in the front rows and transmit new looks around the globe. It's all become terribly rapid. You're sitting in Paris, and people in Beijing already know what's going on. It's pretty crazy. But designers are probably really flattered that their looks are being copied.

SPIEGEL: But don't you think that this copying is still a problem?

Roitfeld: I don't see it that way. Fashion stopped being a matter of money a long time ago; it's a matter of taste. These days, even women with less money can dress well. I was always saddened by the idea that elegance was only something for a minority. It's about style. Karl was the first one to understand that. It was very smart of him to design this H&M collection, and very smart of Chanel to allow him to do so.

SPIEGEL: Today, it's mostly wealthy Russian and Chinese women who are buying expensive fashions. People working at many boutiques in Berlin speak Russian.

Roitfeld: That's right. This obsession with particular designers is somewhat strange. I think it's the safest way for these customers to find their feet when they first discover the world of fashion. You can't learn how to be elegant; you can only learn how to avoid mistakes. The rest is instinct. Elegance is about the way you cross your legs, not the label or the newest clothes from the latest collection.

SPIEGEL: Now you're undermining all the sales arguments your own industry makes.

Roitfeld: It's often the case that what a women reads makes her more attractive and more elegant than what she wears.

SPIEGEL: Do French women read more than German women?

Roitfeld: From a very early age, French women learn not to exaggerate. Yves Saint Laurent once said that the purpose of clothes is to make women more beautiful but that a coat must never attract more attention than the woman wearing it.

SPIEGEL: In France, you have a reputation for being the woman who invented "porn chic." Your photos were criticized because they showed young Lolita-type girls, pregnant women smoking and smooching seniors.

Roitfeld: Yes, of course. Fashion has to be given free rein and only a small number of restrictions. I never used any photos that my children shouldn't see; that was my benchmark. The little girls wearing makeup were never naked; it said "No Smoking" under the pregnant woman; and why shouldn't old people kiss? You must be allowed to play. Anything else is terribly boring. I've also painted white models black and later red, which (the French anti-racist NGO) SOS Racisme complained about.

SPIEGEL: Did you find that silly?

Roitfeld: It's absurd to accuse me of being racist. I dedicated an entire issue of Vogue to the black model Liya Kebede. I'm always looking for connections to real life. I once had a series of photos about fur; but, in these politically correct times, you can't even go out on the street in New York or London without getting a pie thrown in your face. The photos showed extras holding up posters of animal rights activists. It was meant to be ironic, but unfortunately not everyone got it. Why can't we wear the animals we also eat, such as sheep and rabbits?

SPIEGEL: You're 56 years old. How difficult is it for a woman to age in the fashion industry?

Roitfeld: Well, during photo shoots, you come across these beautiful 16- or 18-year-old women who have perfect bodies and not a single wrinkle -- but their pictures are retouched. Under these conditions, when you look in the mirror, you have to be happy with yourself, remain young at heart and keep that rock 'n' roll attitude. Otherwise, you won't be able to deal with it.

SPIEGEL: What will you do with your new life?

Roitfeld: I have numerous projects in the works: a book with Karl Lagerfeld, another about my own work, an ad campaign for Chanel and some consulting work for Barneys, the designer fashion store in New York. Who knows? Perhaps I'll become a muse for designers again.

SPIEGEL: So you won't take the place of your former colleague Anna Wintour at the head of the American edition of Vogue?

Roitfeld: That was never seriously under discussion. I like to provoke. I'm very French. In America, they're not even allowed to show a hint of nipple in photos. Anna Wintour is the most powerful woman in the global fashion industry, the first lady of fashion. She's a politician; I'm a stylist. They are two very different jobs. Incidentally, despite all the rumors, she is actually very nice.

SPIEGEL: Do you have any fashion principles?

Roitfeld: I don't change my handbag every season. I believe in the Yves Saint Laurent woman who either has her hands in the pockets of her pantsuit or is holding her lover's hand. She doesn't need a bag.

SPIEGEL: You also always wear high heels.

Roitfeld: Yes, they give you power. You move differently, sit differently and even speak differently.

SPIEGEL: So you never wear flat-soled shoes? Not even when going for a walk?

Roitfeld: I don't go for a walk very often. I wear flat-soled shoes on vacation, but I also travel in high heels, which is why I'm regularly stopped by customs officials at the airport. Wearing high heels in an airplane is suspicious. Nobody else does that.

SPIEGEL: Do you have any fashion tips for us?

Roitfeld: If you don't want to make any mistakes, buy black clothes. That's always good. And from age 50 on, you can slowly start adding a little beige. That's softer. Every five years, you should take a critical look at your own wardrobe and, if necessary, eventually swap your bikini for a one-piece swimsuit.

SPIEGEL: And, if necessary, eventually stop going swimming altogether?

Roitfeld: There comes a time in your life when you even have to consider that. You should always be one of the best, whatever your age group. That may mean staying away from the beach.

SPIEGEL: Ms. Roitfeld, we thank you for this interview.

Interview conducted by Claudia Voigt and Britta Sandberg

Fonte: Spiegel Online International > Zeitgeist

quinta-feira, 7 de abril de 2011

The Brazilians are coming!

Em um lindo dia de sol, certo amigo que eu defino como 'luso-americano-equatoriano' (praticamente um Pokemón mistura de americano com origens equatorianas que fala um português de Portugal assustadoramente excelente) embarcou no seu voo do trecho Nova Iorque-Houston por uma famosa companhia aérea americana. Além das usuais famílias de texanos voltando da Big Apple (quando vocês lêem 'família da texanos' vocês não imaginam uma coisa meio família Buscapé-pós-Poço-de-Petróleo, com aquele sotaque mega interiorano, roupinhas de oncinha com decotão, cabelão loiro e muito dourado tinlintintando que nem eu?), businessmen nova-iorquinos indo tratar de negócios relacionados ao petróleo em Houston (por que turisticamente Houston deve ser tão interessante quanto Campinas), a usual horda de latino-americanos a serem reenviados ao sul (devidamente abastecidos de Nike Shoxx e moletons GAP comprados nos Outlets dos States).

Meu amigo vêm ‘walking down by aisle’ quando percebe que ele fora agraciado por um lugar entre uma janela e corredor . Duas mulheres ocupavam os dois lugares, uma mãe por volta dos 50 e uma filha por volta dos 20, deixando o lugar dele vazio. Enquanto ele colocava sua bolsa na bagagem de mão, ele escutou:

Mãe (em bom português): Querida, vem sentar do meu lado.
Filha: Ah não, mãe! Quero ficar sentada aqui no corredor. Não quero nenhum desses americanos chatos atrapalhando a minha saída para o banheiro. O avião está vazio, ele que se manque e vá sentar em outro lugar...

Meu amigo ficou na dele, resolveu bancar a do “No-comprendo-português” e educadamente (em inglês) pediu para sentar no lugar dele. A filha, com um sorrisinho educado-nojentinho se levantou, meu amigo se sentou e abriu a revista de bordo. Nisso elas comentam:

Filha: Ah, americano não se manca, né? Também vou encher o saco dele até ele sair daqui... – Disse pegando a revista de bordo e praticamente jogando na cara do meu amigo– Olha aqui mãe, que bolsa LINDA!

A comissária já tinha percebido que iria rolar merda, veio e ofereceu para o meu amigo um lugar mais a frente. Meu amigo deu um belo sorriso, disse que não e que estava muito confortavelmente sentando NA-QUE-LE lugar. Continuou tentando ler a revista dele. Puto. Realmente muito puto.

Nisso, entrou um grupinho de velhinhos americanos no avião (Primeiro Mundo é assim: hordas de velhinho pelo avião, trem, ponto turístico... Crochê? Joguinho de dama na pracinha? Ficar assistindo televisão em casa? Rá! Velhinho de Primeiro Mundo quer saber de Espanha, Flórida e Caribe!). A filha faz uma cara de nojo e comenta:

Filha: Ai, mãe... Esses velhos vão viajar com a gente? Que nojo... Devem ter tudo cheiro de mijo, que horror...
Mãe: Ai não, eles tão sentando atrás da gente! Não acredito!
Filha: Mãe, vamos ficar até Houston com esse cheiro de velho e mijo atrás da gente?! Vamos reclamar com a comissária?!

Meu amigo decidira que já bastava. Chamou a aeromoça, e educadamente em inglês, comentou que tinha mudado de idéia que achara que era melhor ir para o assento vazio mais a frente.

Filha: Ai, que bom... Finalmente ele se mancou!

Meu amigo levanta, abre o compartimento de bagagem de mão, pega sua bolsa. Olha com a cara mais cínica do mundo para a filha, que se pergunta o que diabos ele olhava nela. E manda:

Meu amigo (em português): Vocês realmente se acham as mais espertas de todas, não é? Claro, porque um americano chato jamais iria falar português. Quanta falta de educação, quanta falta de elegância, quanta demonstração de mesquinharia. Vocês realmente se acham as donas do mundo, não é?

Filha (com vozinha de Patricinha-acuada): Sim, eu me acho sim...

Meu amigo: Pois não o são. Principalmente aqui nos Estados Unidos, queridas – pra nós vocês são assim, ó, desse tamaninho. Não valem absolutamente NADA. Não passam de uma dupla de latinas mal educadas vindas de algum buraco do interior de um país qualquer de Terceiro Mundo, que só porque conseguem pagar uma merdica de passagem internacional , acham que podem agir como se estivessem no quintal da sua casa...

Mãe: Mas...

Meu amigo (interrompendo a mãe): AH, e você, mãe... Cuidado, mas muito cuidado, tá? Hoje você apóia sua filha nesses comentários horríveis que ela fez sobre esses velhinhos aqui. Amanhã, vai ser você deitada numa cama e aí eu quero ver se esse incrível exemplo de educação que você deu para a sua filha na hora em que ela tiver que trocar a sua fralda cheia de merda! Boa viagem para as duas...

Meu amigo se vira a vai para a cadeira dele. A comissária, uma amiga dele, pergunta se estava tudo bem. Meu amigo diz que sim e abre de novo a revista dele. Alguns passageiros, provavelmente de origem hispânica, comentando o que acabaram de ver, enquanto as duas fingem que nada aconteceu.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

It closet


Em idos de 2001, quando eu era apenas um pequeno rapaz campo-grandense (Campo Grande being subúrbio Far-Far-Far Away do Rio, não a capital sul-mato-grossense) do subúrbio do Rio de Janeiro, estudando de um tradicional colégio federal do Rio de Janeiro (meu uniforme era tão 'Baby one more time' feelings :D), provavelmente muito empolgado por estar no meu primeiro relacionamento sério com uma 'pessoa' (adoro quando aquelas caras obviamente gays vão dar entrevistas para Fantástico/Globo Repórter e ficam falando “Mas por que eu gosto de uma 'pessoa'...), provavelmente por estar cansado e triste de repetidamente estar dando balão na minha mãe (“Mas mãe, o pessoal do alemão resolveu marcar um grupo de estudos justamente para sexta-feira às 21h, acredita?!”), provavelmente louco de achar que minha mãe aceitaria 'a verdade' tão facilmente assim, eu resolvi fazer o meu coming-out. Isso mesmo: 16 anos de idade. Enquanto (nessa idade) muitos dos meus amigos gays ainda levavam fé nos seus amassos de matinê com menininhas na Prelude/El Turff, eu já tinha sacado o que eu realmente curtia, já tinha contado tu-di-nho para mamãe (e sofrendo como um condenado por isso – ainda conto a história completa desse acontecimento) e era um leitor costumaz das matérias estilo “10 dicas de como fazer seu homem enlouquecer na cama” das Nova Cosmopolitan e Marie Claire da vida. :D

Talvez por ter feito o coming out tão cedo, talvez por ter pago tão caro e ter que lidar com a frustração potência dois mil de uma mãe paranoica e obsessiva que não media esforços para tentar me colocar no 'caminho certo' (e que provavelmente deveria oferecer treinamento para a CIA e Mossad sobre técnicas de coerção e investigação estilo “O-que-eu-fiz-quando-falei-que-fui-para-tal-lugar”), talvez por ter passado boa parte da adolescência tendo que lidar com o fato de que a minha mãe jamais iria aprovar qualquer coisa de bom que eu fizesse (porque sempre existia a sombra de 'uma certa verdade' que fazia ela dizer que gostaria que eu fosse qualquer um dos rapazes da meu bairro, mas não eu), eu tive que compensar na valorização do fato de que foi bom eu ter sido sincero e ter contado a verdade. Nos piores momentos, onde tudo parecia incrivelmente difícil e eu começava a me culpar por ter sido tão idiota de acreditar que tinha valido a pena ter sido tão sincero tão cedo, eu jogava uma água fria na cara e repetia para mim mesmo que o preço de ter sido verdadeiro era imensurável. Eu não precisaria lidar com essa verdade mais tarde, e logo, quando eu fosse uma pessoa independente e autossuficiente em termos financeiros, minha mãe acabaria entendendo e me aceitando. (P.S.- Ai, esse parágrafo ficou uma coisa tão "Can't take that away"... Foi malz, hein...)

Sendo assim, eu confesso que tenho certo bloqueio de entender porque as outras pessoas não fizeram o mesmo. Entender porque pessoas, já autosuficientes, esclarecidas, seguras do que realmente são, não conseguem se assumir e falar “Eu gosto de moda, eu não uso bermuda cargo, eu sou viado”. Ok: eu entendo que cada um é um universo particular de condições, realidades e histórias, blablabla... Mas confesso que a história de alguns amigos desafia a minha compreensão e exigem certa dose de “sorriso amarelo”+“claro que eu te entendo!”, como a história de dois amigos que eu conto aqui abaixo.

O primeiro é um grande e queridíssimo amigo (que espero que não seja leitor do blog! :D). Advogado, bonito, um dos únicos homens cariocas realmente bem vestidos que eu conheço. Mora atualmente no Leblon, foi criado dentro da Jeunesse Dorée de Niteroí (para quem não é do Rio: Niteroí é um cruzamento de New Jersey com Hamptons, cidade da região metropolitana do Rio poder aquisitivo médio mais alto do que a média da cidade do Rio, mas que por um motivo obscuro... tem uma vida noturna e cultural próxima do zero, o que obriga a maioria da sua galera jovem a ter que partir para o Rio em busca de entretenimento nos finais de semana), atualmente completamente independente em termos financeiros dos pais. Enfim: he is got the looks, the brain, the personality. E apesar de “descoberta tardia”, já tem constando no seu currículo alguns bons relacionamentos de médio prazo, histórias realmente sérias (do tipo namorado fixo, que vai a cinema no final de semana, viaja para destininhos românticos em feriadões, etc&tal). Garotas? Segundo as contas dele, a última ficou para uma noite meio embaçada pela vodca no final de 2009, provavelmente em alguma night “Hetero moderninha”, provavelmente com alguma 'Fag Hag' mais atiradinha e entendiada pela viadice dominada pelo lugar. Mas, mesmo assim... a pessoa ainda se define como... “bi”. E simplesmente não consegue vislumbrar a menor possibilidade de, no médio prazo, se assumir realmente como é para família e amigos, e fica naquele estilo de vida estranho de ser uma coisa no Rio, outra coisa completamente diferente em Niteroí.

Desafio maior à compreensão é o segundo caso. O cara é aquele clássico tipão de intercambista que veio da Alemanha para o Rio de Janeiro, ficou deslumbrado pela beleza da cidade, simpatia das pessoas (oi?!) e abertura em termos sexuais e sociais do carioca médio (hein?!) e criou uma relação especial com a cidade (e para quem eu, escutando ele listar todas as 3053 razões pelas quais ele acha que o Rio é muito melhor do que Berlim, somente sorrio pensando “Deixa ele morar aqui 1 ano para ver como ela vai amar tudo isso” e olho para o meu amigo inglês que está pensando a mesma coisa do que eu). Devido ao seu tipão “Sou-loiro-sou-alto-sou-fortinho-Sou-o-que-Hitler-sonhou-pro-mundo” provavelmente passou o rodo em um número considerável de meninas cariocas (que levam a merecida fama das brasileiras mais jogo-duro, mais “não vou dar assim fácil não!” entre os heteros - mas que abrem as pernas para os gringos, afinal... receber bem o turista é uma obrigação de cada carioca, néam? :D) até o inesperado acontecer: ele topar com um menino brasileiro e ploft!: rolar uma atração inexplicável (o “ploft!” fica à cargo da imaginação fértil de vocês). Curto demais o garoto (mas preciso mesmo bancar o Fernando “bonzinho, coelhinho-na-floresta, amo-o-mundo-só-vejo-o-lado-positivo-das-coisas?” com vocês? Não, néam...), mas preciso confessar que sinto demais aquela coisa de “Clássico caso de 'Porque alemães amam brasileiros'”: do alto dos seus 19 aninhos, morenão com corpão, inteligência definitivamente não é o forte (o que me faz suspeitar de... enormes qualidades não aparentes do ambiente de um restaurante ou sala de estar... :D), recém-saído do armário e com aquela idealização do mundo dos relacionamentos tão típica de quem acabou de sair dos 'teen years', tão típica de quem ainda assiste Bridget Jones e outros clássicos ingleses de comédia romântica e super acredita que dá para transportar isso para fora das telas e viverá uma história igualzinha no mundo gay contemporâneo. Os dois juntos chegam a ser uma coisa “Felícia-in-love”, uma coisa “Labrador-pulando-em-cima-do-dono” de tão Te-amo-te-quero-quero-ficar-todo-o-tempinho juntinho-e-coladinho-em-cima-de-você. Eu fico meio mal perto do garoto, porque sinceramente enxergo nele o inocente-romântico-e-cheio-de-ideais Fernando de alguns anos atrás (mentira: eu sempre fui consideravelmente cínico e cético – esses dias encontrei um dos meus antigos diários de adolescência e fiquei cho-ca-do como eu já era mau: eu metia pau nos meus amiguinhos de classe que me zoavam, nos professores, nos meus familiares e até em alguns dos meus amiguinhos menos próximos! Gente, por que eu sempre fui assim? #Criseinternafeelings) e tenho que me controlar ao máximo para não deixar o meu instinto “WAKE UP, SWEETHEART!” vir à tona e chocar o garoto com o fato de que os filmes para adolescentes da Disney e Malhação não  te preparam para o mundo dos relacionamentos gays no Rio de Janeiro contemporâneo (o máximo do meu autocontrole foi quando estávamos num get together, e ele disse para gente que curtia estar em relacionamentos porque relacionamentos são “um tipo especial de conexão com outra pessoa, essa coisa meio 'um fazendo a barba do outro, juntos de manhã depois de uma noite de amor dormindo juntinhos” - eu respirei fundo, segurei a minha cara de “WTF?” da melhor forma que pude, virei a taça de vinho na minha mão goela abaixo e fui acender um cigarro). Enfim, voltando ao caso inicial: o alemão parece ter se apaixonado de verdade pelo cara, os dois decidiram enfrentar um relacionamento a distância monogâmico, o alemão pega a Lufthansa de volta para o Brasil na primeira oportunidade que encontra pela frente, quando os dois juntos é aquela coisa linda, aquela coisa “Born to make you happy”, etc&tal. Por que diabos estou contando essa história? Por que somente esses dias, quando proferi um discurso “Por que nós, gays...” na frente do Deutscher, eu fui saber ficar com caras é uma coisa meio tipo “Ao Sul do Equador não existe pecado” por parte do alemão: o cara é gay no Brasil e hetero na Alemanha. (!!!) Hein?

A minha capacidade rápida de pré-julgar as pessoas definiria esses dois casos como falta de coragem e culhões. A minha proximidade com eles me faz passar a mão na cabeça, e apesar das minhas pontuais tentativas de tentar mostrar que o mundo “Somewhere Over the Rainbow” tem uma riqueza e uma paz de espírito incomparáveis com o mundo dentro do armário, de tentar compreender os motivos e razões de caras tão... prontos para saírem do armário não o conseguirem fazer.

Mas enfim... o que fazer, néam?

segunda-feira, 28 de março de 2011

我々は世界です (金持ち、少なくとも)


Eu sei. Eu também fiquei chocado com as imagens do terremoto + tsunami no Japão. Eu também fiquei impressionado com as imagens de satélite das regiões mais afetadas, do tipo "Antes e Depois", mostradas no site do TheGuardian. Eu também fiquei com o coração partido com as imagens das criancinhas japonesas afetadas por toda a inacreditável desgraça da ameaça de meltdown em Fukushima. (Juro que eu sou das pessoas que mais detestam crianças, meu instinto paternal é simplesmente inexistente e sou felicíssimo por ser gay por não correr o risco de ter esse subproduto das relações sexuais chamado filho... mas imagem de criancinha asiática me desmonta. Dá vontade de apertar até dizer chega, dar um Tamagochi e mandar ela ir brincar com os amiguinhos no parquinho. Fofo demais, néam?).

Mas... "Campanha para auxiliar as vítimas do terremoto no Japão"? Mega concerto para arrecadação de fundos para as vítimas do tsunami? Afeganistão doando US$50 mil dólares, Sri Lanka doando US$2 mi + equipamentos de resgate e medicamentos para o Japão?

Alguns pensamentos (cruéis, é claro) vem a minha mente agora:

1) Japão é a terceira maior economia mundial: Sério, o Japão é uma economia tão chique, tão desenvolvida, tão rykah que eles se dão direito de ter deflação, honey. Não sabe o que é deflação? Pausa no texto para você, pessoa moderna e incluída digitalmente jogar a palavra no Wikipedia É quando o preço dos produtos cai porque simplesmente não existe demanda suficiente para atender a oferta (entre outros motivos, claro, mas eu estou dramatizando a teoria econômica para efeitos textuais :D). Em outras palavras, o povinho de olho puxado comprou tanto Toyota, tanta Louis Vuitton e tanto celular Sony que não tem mais o que comprar. (Enquanto você aí ferrado em 17x com muitos juros para comprar aquela mesinha da Tok&Stok feita de madeira compensada...)

2) Japão é o maior welfare state que equilibra qualidade x população atendida: Por que vamos combinar que fornecer hospital, escola, transporte público eficiente, tratamento psicológico (por que desenvolvimento e falta de problema real equals distúrbios psicológicos), moradia decente e estímulos financeiros para as pessoas procriarem para uma população de 9 milhões de pessoas altas, magras, loiras, lindas e suicidas é muito fácil. Outra é você estender esses benefícios para 130 milhões de pessoas.

3) Japoneses são os turistas que mais gastam ao redor do mundo: Todo mundo que já visitou as grandes capitais do mundo sabe – dá muito ódio e inveja ver turista japonês. Eles sempre andam em bando. Mas é um bando diferente dos outros grupos de turistas asiáticos. Nada de casaquinho “Vou pro Pólo Norte” de novo rico chinês. É trenchcoat Burberry, é bolsa Ferragamo, é sapatinho Prada - e tudo isso com aquela pele de porcelana impecável devidamente hidratada com produtos Shiseido. E não é só um: são MUITOS. Todos juntos. Saindo felizes e contentes carregando sacolas e sacolas da Louis Vuitton. Justamente enquanto você sai da H&M carregando uma sacolinha e decide se vai comer no Mac Donalds ou um Döner Kebab na esquina. Mundo injusto. Mundo muito injusto.
P.S.- Fiquei sabendo por um amigo francês uma história de que as lojas da Louis Vuitton em Paris simplesmente recusam-se a vender mais do que duas bolsas da marca para qualquer turista japonês. Segundo ele, mesmo indo de contra às 2542 leis antidiscriminação existentes na França, a Louis Vuitton faz isso como uma tentativa de proteger as filiais japonesas da marca, que em média cobram um preço mais alto pelas bolsas do que as filiais francesas. O que os japoneses fizeram? Já é absolutamente normal para os parisienses serem parados na Champs Elysees por japoneses ensandecidos com centenas de euros nas mãos e implorando para que eles entrem e comprem uma bolsa para eles! (Claro: França não é Escandinávia, e a polícia parisiense já atendeu não-sei-quantos-casos de turistas japoneses que perderam sua grana depois de pararem um estranho na rua e o estranho simplesmente desaparecer com o dinheiro deles.)

4) Japão é um dos principais mercados de luxo do mundo: Senão for o principal mercado de luxo do mundo. Claro, por motivos de status, as grandes maisons tem que filiais em Paris, Londres, Nova York, Milão... (E claro, na Oscar Freire e Garcia D'Ávila, néam? :D) Mas o principal mercado, considerado o mais estratégico para o sucesso ou derrocada de uma marca, seguramente é o japonês. E do tipo, não é só abrir uma flagship store na Omotesandō em Tóquio e acabou - tem que ser um prédio fodástico, assinado pelo baladérrimo escritório de arquitetura Fulaninho&DeSicranon, painéis de vidro que reclinam conforme o momento zen budista do universo e luzes em LED em toda a fachada emitindo a mensagem “Rykeza, Rykeza”. Afinal, toda aquela história de 'cerimônia do chá' (coloca aguinha no copinho com mãozinha em posição de 'lótus-reverenciando-a-cegonha-desafiadora', deixa descansar por 15 minutos – nos quais você deve ficar absolutamente imóvel sentadinho naquela posição de gueixa em cima daquele tatame duro – reverencia a cegonha-desafiadora de novo, dá um micro golinho e coloco o copinho de volta na bandejinha) reflete o apreço nipônico pela “whole experience”, e para eles comprar um produto de grife é mais do que um mero ato de compra, mas todo um processo simbólico de representação do status ocidental.

Será que realmente o Japão precisa tanto de ajuda assim, hein? Sofrimento humano é imensurável e sempre impossível de ser comparado, sempre tem que despertar o espírito de solidariedade que temos na gente... mas sejamos um pouco mais pragmáticos, não é?

Só para terminar: alguém aí sabe o que foi feito do Haiti, hein?

terça-feira, 1 de março de 2011

Dia difícil?

Não dormiu direito devido ao calor absurdo que faz na sua cidade?

Não dormiu direito devido ao calor absurdo que faz na sua cidade potencializado pelo calor absurdo que faz no seu micro-quarto de empregada no Catete/Flamengo (Praia do Flamengo é a rua, mas tamos do lado do Palácio de Catete – portanto mandar Flamengo é bem wannabe, néam?)?

Levou um “samba muleque” do cliente ao telefone hoje?

Levou dois “samba muleque” do cliente ao telefone hoje, quando 1) você estava super certo e 2) sua chefe mandou a clássica “O cliente sempre tem razão”?

Sua amiga do trabalho “suquinho-de-coco-com-maracujá”, não satisfeita de implicar com o seu momento de relax chamado Dunhill, resolveu bancar a eficiente-businesswoman-too-important-to-talk-with-me?

Ficou o dia inteiro enforcado num terno quente pra caralho tendo que fazer a phyna?

Bate aqui e segue a receita de destressar:

- Siga para o supermercado mais próximo (de preferência, algo bem low-cost tipo Redeconomia ou Princesa – afinal, high low nunca sai fora de moda) e compre o arroz branco mais decente que você encontrar, queijo parmesão (pode ser aquele pozinho sintético e amarelo que eles chamam localmente de “queijo ralado” por aqui mesmo) e caixinha de caldo de carne Knorr.

- Toma um banho e escova o dente (porque tomar banho e escovar um dente dá um upgrade em qualquer criatura humana na face da terra).

- Faça a sua melhor receita privada, que no meu caso é Risotto d'Ouef alla Frommagio di Parma (1) francês e italiano é União Europeia, é multiculturalismo, é super in; 2) receita ultra-complexa que consta de basicamente quebrar um ovo no final do cozimento do seu arroz Tio-João, jogar um queijo ralado por cima – afinal, o ovo vai dar uma liga absurda, vai super pegar o gosto de queijo ralado e vai super parecer que você jogou toneladas de queijo para fazer esse singelo prato).

- Abra a garrafa do melhor vinho que você conseguiu encontrar - que no meu caso se resume a um Pinot Noir “Domaine de L'Abbaye” que o BF français deixou na sua última passagem pela região (mas um chileno ou um argentino super cumprem bem a missão... agora, lembre-se: Brasil faz bem cachaça, samba e carnaval – vinho, NUNCA!).

- Agora a parte difícil: tomar vinho em copo de requeijão não rola, néam? Dá um “See you later” para o escorpião que habita o seu bolso, toma um drink a menos na The Week e compra uma taça de vinho legal na liquidação da loja chiquinha mais perto de você ( no meu caso: taça de cristal tcheco da Boêmia por míseros R$19,90. Suspeito que mão-de-obra escrava ucraniana foi utilizada nesse processo de produção, porque essa porra tava barata de mais e a taça faz o característico barulhinho de tlim-tlim que vidro não faz).

- Leva o prato para o quarto, enche a garrafa, dá um Oi para o vizinho tarado que eventualmente pode estar te olhando pela janela e tira a roupa. (Tem que ter alguma vantagem de estar no teu quarto de empregada e não num bom restaurante da sua cidade, néam?)

- Liga no Youtube e coloca “The Look of Love” (mas na versão da Dusty Springfield, poxa!) - a música mais “Phyna Feelings” ever. Até boteco da beira de estrada na Avenida Brasil ficaria chique tocando essa música.

- Delicie-se com o seu prato.

- Termine a refeição com um delicioso Wafer da Limão da Piraquê (1) high low again e 2) RÁ que você vai ter paciência suficiente para me fazer um suflê de chocolate ou creme brulee nessa altura do dia).

- Depois de tudo terminado, toma os últimos goles da sua taça de vinho acendendo um maravilhoso Dunhill. (E foda-se câncer no pulmão, derrame cerebral e 'fumar aumenta as possibilidades da má-formação fetal – morre muita mais gente de stress, não é? Então?).

- Registre tudo isso por escrito. (:D)

- Siga sua para sua caminha, refrescado e relaxado. E durma uma ótima noite de sono...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Fernando goes to São Paulo

Entâo, mêu: Fernando estará indo para São Paulo na próxima sexta para uma viagem de negócios (Ok, "ir para São Paulo" e "viagem de negócios" foi meio pleonasmo, eu sei... :D) e resolveu levar le Monsieur mon BF para um finde por terras emboabas. E a minha missão é transformar a megalópole brasileira num lugar interessante para uma pessoa proveniente de uma das cidades mais simpáticas, receptivas, carinhosas com o turista, cheia de pessoas alegres, bem resolvidas e felizes: Paris. :D São Paulo não tem praia, não tem coqueiro nem gente supostamente simpática sem camisa pela rua (3 motivos pelos quais eu poderia convencer um francês a vir para a América do Sul), logo a missão será árdua.
Portanto, HELP! Conselhos, dicas, ajudas, listinhas de must-see's! Faz séculos que não ando por esse lado da DMZ: quando eu fui aí pela última vez, a Avenida Paulista ainda tinha pedrinhas portuguesas com o formato do estado de São Paulo (aliás: alguém me explica por que isso, hein?) e o Tietê ainda dava uns sustos na população com umas enchentes eventuais. E mesmo depois de 4 dias por aí sempre caminhava para o lado oposto do da Paulista que eu queria ir, afinal todos os prédios da Paulista estão bem alinhadinhos (e até eu descobrir os prédios da Cásper e da FIESP) e achava impossível achar onde eu exatamente estava naquela avenida. Portanto, de alguma forma, a viagem também vai ser um pequeno "Descobrindo São Paulo" para mim também.
Guidelines
Quando: Chegada na sexta à noitinha, volta domingo final da tarde por Congonhas.  
O que eu acho que gostaria de ver: Liberdade (O que tem pra ver lá? Só aquela rua com aquele trecos vermelhos gigantes? Algum restaurante japonês-podrinho-mas-bom-pra-caramba?), Mercado Municipal (o povo fala tanto desse maldito sanduíche com 5kg de mortadela que eu quero finalmente ver como é) e Museu da Língua Portuguesa.
O que eu adoro: cafés de bicha-fina-urbana-e-que-veste-preto-no-verão-e-fala-articulando-as-consoantes-paulistana ali pelos jardins (o Suplicy ainda existe?), restaurantes quase-pé-sujo (sabe, aqueles com o dono no balcão com uma camisa social e um peito peludinho quase todo pra fora?) de culinárias exóticas e esdrúxulas (Tipo Indiano? Coreano?) por preços amigos, cachorro-quente com purê de batata (onde dá pra comer um muito bom?) e aquelas padarias maravilhosas que vocês insistem de chamar de padoca.
O que eu sei que eu não quero ver: Clube Noturno (sei que SP rules nesse quesito, mas sinceramente... dessa vez não, obrigado.), lugar baladinho demais (meaning: Spot, Ritz e semelhantes) e window-shopping-tours pela Oscar Freire (comprar a mesma coisa que dá pra comprar em Paris pagando o valor do produto + o pequenino imposto de importação brasileiro para produtos industrializados não rola, né Chéri?).
Perguntas: 1) Como sair da Rodoviária Tietê em direção a Paulista? (sem o táxi, CLARO!) 2) Como sair da Paulista em direção à Congonhas? 3) Qual a melhor área para ficar, ali perto da Paulista? Algum hotel/hostel bom-bonito-e-barato (lembrem-se que eu já fiquei em hostel de 5EUR em Praga, portanto eu sou fresco e seguro o barranco)? 4) Como eliminar o meu sotaque carioca em 2 dias? 4) Querem um post "Fernando em viagem" episódio SP? :D
Valeu, mêu!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Guess who's back?


Tudo bem, tudo bem... Um mês sem postar. O meu blog passou definitivamente da categoria de ativo (ui!) para aquele vivo-morto no qual o blogueiro parece ter perdido a vontade de brincar com brinquedinho novo mas de vez em quando sente saudade e gasta uns 5 minutinhos com ele. Ou seria o clássico caso de estrelismo da blogsfera, no qual depois que um cara cria um blog, começa a postar enloquecidamente sobre todo e qualquer tema, começa a comentar enloquecidamente nos blogs em que ele super quer constar no blogroll (os educados, como eu, só comentam – os sem noção mandam o clássico “Ai, adorei seu blog! Então estou escrevendo um blog sobre como as Destiny Childs foram importantes para a minha formação de caráter! Passa lá pra comentar, vai!!!!”), consegue um séquito fiel de seguidores que elogiam absolutamente tudo o que você faz (“Realmente, você escreve tão bem sobre qualquer assunto!” ou “Sua opinião sempre é fantástica!”), consegue determinada posição de destaque na blogsfera ele... repensa no porquê ele gasta seu tempo escrevendo quando poderia estar treinando badminton, posta uma mensagem de despedida no blog “Valeu pelos comentários, até a próxima, mas sou importante demais pra ficar escrevendo!” e fica postando feeds engraçadinhos no Facebook?

Juro que queria ter uma razão super fantástica para contar aqui agora. Tipo... sobrevivi uma catástrofe gigante, fiquei em coma esse tempo todo e só agora recuperei todos os meus movimentos do corpo (JAMAIS eu posso ficar paralítico pelo simples motivo de que a minha noção de espaço é uma das piores que eu conheci na minha vida. Andando eu já esbarro, chuto, piso em um monte de coisa – imagina equipado de uma roda de metal cheia de quinas super cortantes?!). Ou que a proximidade de 2011 me fez repensar nas minhas prioridades de vida e no que realmente eu busco dentro do meu “Eu interior” (tipows... eu dentro de mim mesmo, saca?), me fez enxergar que a vida é muito mais do que roupas, viagens e bens materiais e fez decidir largar a faculdade de Economia para viver num mosteiro budista no interior da Índia estudando os vedas e fazendo yoga mmslösmsstanga o dia inteiro (CLARO que isso jamais iria acontecer, porque no exato momento em que eu chegasse na Índia e visse todas aquelas confecções infétidas cheias de crianças filhas de prostitutas trabalhando sob regime semi-escravo, furando e cortando seus frágeis dedinhos para produzir fúteis peças de vestuário por quantias miseráveis....eu lembraria que laranja fica PÉSSIMO em mim, acabaria torrando todo o meu dinheirinho em fantásticas peças e quando uma criança viesse correndo clamando por piedade, eu chamaria o capataz para ela tirar ela de mim porque #1 eu não posso manchar minhas novas roupas de catarrinho e #2 elas precisam continuar realizando um trabalho tão importante, tão fantástico, que gera tanta felicidade na vida de tanta gente!). Ou que eu decidi escrever um livro corporativo de mega sucesso internacional (“Quem mexeu no meu cachecol da H&M?” ou “Pai bem-vestido, Pai cafona”?) e agora passo todo o meu tempo dando entrevistas na Você S&A (aka. Capricho de Executivo) falando em “estimular o capital humano” ou “buscar a sinergia de forças das diferentes competências e business cores da empresa”. Ou que virei comentarista de moda do GNT, atualmente comentando o São Paulo Fashion Week com um recém-adquirido sotaque fashion-tupiniquim (que vem a ser uma mistura do gauchês “Era camponesa/ferreiro na minha cidadezinha de colonização alemã/italiana quando o olheiro tarado me viu, me deu uns pega e me decidiu levar pra SP”, paulistanês “Eu falo gerÚNDIO todo o tempo e fa-lo as pa-la-vras super-merca-das por-que fica su-pe-R so-fis-ti-cado” e um leve toque de carioquês “Porqueám na Globoum só entra queim falám que néam a Fernanda Abreu, e ninguém vive de campanhãm da Carmim e Triton pro resto da vida nãum!), absurdamente discorrendo sobre aquelas lindas e super práticas peças mega originais (A-HAM!) de outono-inverno, completamente adaptáveis ao nosso clima temperado (quem falar que paulistano consome moda inverno e usa sobretudo em julho APANHA, porque toda vez que eu vou nessa cidade no inverno eu vejo a maior quantidade de gorro de poliéster e casaquinho de fleece com estampa da Disney do Hemisfério Sul!).

A verdade é que eu somente trabalhei horrores nesses últimos dois meses. Concentrei no trabalho. Reestruturei minha vida pessoai. Finalmente consegui um lugar para viver no médio prazo (o que para mim, depois do segundo semestre de 2009, significa uns 4, 5 meses? :D) com pessoas razoavelmente sãs e até simpáticas! :D Trabalhei mais um pouco. Fui a praia. Curti o verão carioca (e para ficar bem registrado: ainda continuo odiando o verão, odiando essa temperatura, odiando esse clima abafado e gente torrando a minha paciência falando “Ai, eu adoro o verão! Prefiro passar calor do que frio!”. Primeiro, eu ODEIO não conseguir dormir direito porque ainda sou um fudido e não tenho um ar-condicionado para recriar a Karélia no meu quartinho-sauninha, odeio essa sensação de estar suado o tempo inteiro, de pele suja e colando o tempo todo, como se ao invés de sabão eu tivesse passado Cola Pritt no corpo inteiro. Segundo, eu uso terno – no Rio de Janeiro – para ir trabalhar, e as duas cores que eu tenho disponíves são preto e preto risca-de-giz. E terceiro, toda pessoa que vem com essa frase imbecil sempre tem um ar-condicionado bem fortinho pra ligar de noite e seguramente não cresceu no bairro adjacente de BANGU, onde faz um calor do cão, e praia... RÁ, só lá depois de Jacarepaguá!). Li alguns livros. Escrevi alguns e-mails reclamando do calor infernal que faz no Rio de Janeiro e mostrando ponto-a-ponto para os meus amigos no Norte da Europa porque o inverno pode ser sim muito legal. Enfim, o normal. Nada demais.

Todo blogueiro acaba precisando de um pequeno período de distância para repensar no que escreve. Afinal, quem está aqui não é um jornalista que escreve on demand, mas somente um leigo que decide dividir suas experiências e impressões com o resto do mundo sob a forma de uma página na Internet. Algumas vezes temos muito a dizer, algumas vezes não temos absolutamente nada. Branco total na tela do Word. E sinceramente, o meu blog sempre foi o dos textos grandes, comentários dentro de comentários e uma análise um pouco particular sobre os assuntos. Não consigo fazer texto tipo “Fulaninho lançou tal Cd e eu achei isso e aquilo”. That is not me. Quem me lê espera mais. E produzir esse tipo de texto demanda tempo e inspiração, gente!

Enfim, obrigado pelos comentários de “Vamos atualizar? Obrigado.” (Ri muito quando li esse, confesso!) e estou de volta. Espero. Ou farei o meu melhor. Sinto saudades dessa coisa de parar em frente a uma tela branca e preenchê-la com palavras e pensamentos. Primeiro, eu acho super Carrie escrevendo sua coluna (Posso ver a camera chegando por trás de mim, minha voz falando “Once upon a time, in a steam-sauna called Rio de Janeiro...” e eu com cara de inteligente tomando um Haagen-Dazs tamanho “Panela de Refeitório de Escola Pública”). Segundo... é terapêutico. E terceiro, alguns leitores são como amigos, parte da minha vida, e que fazem falta.

Enfim, é isso. Eu voltei.. :)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

All I want for Christmas


Pisa, última parte do meu European Bitch-and-Lonely Tour. Última parte daquele tipo de viagem que você sabe que sempre você irá lembrar como o auge da sua vida (viajar pela Europa, óbvio que iria rolar outra vez - mas com vinte e poucos anos na cara, sozinho, pouco dinheiro no bolso e a incomparável e indescrítivel sensação de first timer, infelizmente nunca mais :D). Ainda sob o efeito Roma (um misto de sentir-se um nada perante toda a história humana bem ali na sua frente, sentir-se em êxtase e do tamanho do mundo pela capacidade absurda de criatividade e realização humana), não necessariamente triste, mas um tanto quanto melancólico. Sentimento natalino? Ficou lá em Frankfurt - os mercados de Natais chic et fashion de Paris não me convenceram, com suas casinhas brancas, luzes azuis e pretenso elegante estilo off-white; muito menos conseguiria sentir qualquer Christmas feeling em Madrid (onde o máximo que dá para conseguir é um hangover feeling).

E lá estava eu, em Pisa, para passar o Natal com uma amiga de uma tia. Família brasileira: rabanadas, peru e tudo mais o que pudesse se adaptado a um Natale Italiano. Inclusive compra dos últimos produtos exatamente no último dia de Natal.

Até aquele momento o Christmas Feeling não tinha batido direito. Vinte e Quatro Natais com verão, calor insuportável, ida à comércio popular para comprar o fatídico modelito para a véspera da Natal, bermudinhas, mais calor insuportável na cozinha enquanto minhas trocentas tias cozinhavam os clássicos de qualquer ceia de Natal (minha tia preferida fazendo a minha all favorite torta de limão) e passar a noite de Natal no jardim da casa da minha avó, reclamando do calor absurdo e fofocando sobre os últimos assuntos da família. E um Natal com frio, neve, roupas de inverno, cachecóis com motivos natalinos, pinheiros genuínos de Natal decorados com luzes brilhantes e coloridas, quentão (clássico do Natal na Europa, com alemães proclamando que é uma tradição natalina alemã, húngaros orgulhosos falando que a sua versão é a correta e franceses tentando terminar a discussão utilizando o argumento que vinho aceitável e bebível inexiste no além-fronteiras de Republique). Claro que ainda não havia rolado a sinapse que aquilo era o Natal.

E lá pelas 13h fomos ao hipermercado comprar os últimos ingredientes para a nossa ceia. Ana, realmente não acreditando que a capacidade de comunicação internacional (assim com a minha cara-de-pau de estabelecer uma comunicação em qualquer idioma) não tinham limites, me delega a tarefa de comprar azeitonas a granel e me deixa na fila enquanto vai procurar outra coisa qualquer.

Enquanto espero a minha vez na fila (esperando na fila - já se via que eu estava completamente adaptado à cultura alemã :D), eu olho ao redor. E vejo um supermercado típico de véspera de Natal: mamas comprando os últimos ingredientes para a ceia, nonas carregando peças enormes de carnes, crianças pentelhando tentando conseguir a última extorsão pré-presente de Natal... Engraçado: tão longe de casa, tão igual à casa...

E bem nessa hora eu sinto um cheiro. Tender assado. Saindo do forno, no setor de pratos prontos. Tender assado. Tender assado. Tender assado. E vem na memória aquela sensação de calor absurda, minha tia gritando "Jesus, que calor é esse!" enquanto coloca o prato saído forno em cima da pia...

E ao meu redor somente famílias italianas gritando. E massas Barilla. E proseccos. E a vista dos Apeninos pelas janelas do supermercado. E mais famílias italianas gritando (deus, como italiano fala alto!).

E no fundo daquela gritaria todo, sons de sininhos. Sininhos natalinos. E uma voz feminina acapella cantando "Iiiiiiiiiiiiii... don't want a lot for Christmas... There is just one thing I neeeeeeeeed...". Cantando que não liga para os presentes debaixo da árvore de Natal, porque só tem uma coisa que ela quer.

Sim. O meu espírito natalino de 2009 decidiu dar as caras num hipermercado nos subúrbios de Pisa com Mariah Carey cantando "All I want for Christmas". O primeiro Natal longe da minha família. Do outro lado do mundo. Num frio do caralho. Sem presentes. Sem tender assado. Sem calor absurdo. Sem presentes. Sem presentes. Sem presentes.

Meia hora depois estourava lindamente o meu orçamento diário de viagem comprando um lindo-mas-inútil-para-o-clima-tropical-do-Rio suéter lilás na Benetton. Uma hora depois começava a chorar ridiculamente num cybercafé administrado por uns paquistaneses assim que a minha mãe atendera o telefone na casa da minha avó e eu escutara aquele som de bagunça que só quem tem família muito grande sabe como é e pensava que estava todo mundo lá, menos eu. Chorei ainda mais assim que liguei para Hamburgo e percebi que o meu amigo mexicano-americano realmente sentia a minha falta naquela noite. E chorei ainda mais (haja lágrima) quando liguei para o francês que tinha conhecido na última noite em Paris (e que me stalkeava desde então) porque estava muito carente e ele tinha reagido muito estranhamente à minha ligação (cette FDP se tornaria posteriormente meu namorado e alvo da chantagem "Você atendeu estranho aquela minha ligação de Natal!", a qual ele pagaria cada franco pela atitude demi-bombe dele :D).

Saí do cybercafé para o carro da amiga da minha tia secando as lágrimas. Ajeitei o cinto do trenchcoat, arrumei meu cachecol de lã de alpaca enquanto ela dirigia às margens do rio Arno. "Com cara inchada, mas elegante" pensei eu. E olhei para a mistura de prédios renascentistas e barrocos na Lungarno Mediceo. E pensei na sorte que tinha. E voltamos para casa, tive meu Natal italiano, passei o dia de Natal mais fantástico da minha vida passeando pelas ruas vazias de Florença (e o resto vocês sabem porque contei aqui no blog).

E o que talvez vocês não saibam é que mais uma vez Fernando foi vítima do late Christmas Feeling. Em pleno horário de almoço do estágio, em frente à vila de Natal do shopping RioSul, olhando toda aquela decoração fake com pinheiros e casinhas de Natal e pensando como ao vivo era tão mais fantástico, mais colorido, mais mágico. Quando na Renner, ao lado, começa a tocar "All I want for Christmas". Thanks Mariah, again. Obrigado por me relembrar da longa lista de pessoas com as quais eu gostaria de estar nessa noite de Natal juntinho, dentro de um chalé qualquer bem no meio dos Alpes. E obrigado por me relembrar que isso é praticamente impossível de acontecer! :)

Lição de Natal aprendida? Não importa o lugar do mundo em que você esteja, você sempre irá ficar deprimido porque aquilo que você realmente quer você não vai ter. :D De desde ao Ferrorama que sua mãe substituira pelo Autorama, Barbie Sonhos de Princesa Rosa substituída pela Susy Veterinária, Jogo Imobiliário substituído pelo idiota Imagem e Ação... Até todos os amigos ao redor do mundo que você gostaria de dar uma abraço bem forte e falar que tem saudades pra caralho deles.

Mas não adianta. Porque todo Natal a gente continua esperando que vai dar certo. Que vamos ganhar o presente que a gente quer. O presente perfeito.

E lá vamos. Colocando o maldito sapatinho na janela. Continuando com a tradição, mantendo a esperança. :D

Feliz Natal para vocês.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Considerando o calor senegalês que tem feito no Rio...

Vocês dão um desconto se eu confessar que ainda estou sentido uma puta falta de Hamburgo?

Inacreditável pensar que logo vai fazer um ano eu voltei (e dois de que eu fui) e ainda toda vez em que eu vejo uma foto dessa... eu me lembro exatamente da excitação da minha chegada na Alemanha. Da aventura que era ir para a rua. De escutar alemão, de ter diálogos em alemão. De pensar "Caralho, estou no Norte da Europa!". De ficar feliz como uma criança idiota toda vez que via neve (e não, morar num país que tem um inverno real não me fez ficar de saco cheio de neve.).

E bate a saudade de vestir aqueles casacões antes de sair de casa, se sentir aquele gelado gostoso no rosto quando se abria a porta da rua, de pensar que tudo aquilo era tão surrealmente diferente do Rio.

(Ok, hora do estudo, só queria compartilhar a foto de um amigo com vocês. :D)

domingo, 28 de novembro de 2010

Weekly Report: Novembro, Semana 49

“Guerra ao Terror” no Rio
Inquestionável: uma das piores semanas que essa cidade já viu. Com eventos como a Copa do Mundo e Olimpíadas se aproximando, a sensação que todo carioca teve foi de humilhação e vergonha por tudo o que aconteceu. Mensagens no meu Facebook pipocando de amigos estrangeiros perguntando como estava a situação na cidade, eu tentando tranquiliza-los que Ipanema ainda era seguro, ao mesmo tempo que em que pensava em toda a minha família espalhada pela Zonas Oeste e Norte e pensava como essa cidade realmente é partida. Os carros de polícia se multiplicando pela cidade, numa escala em que eu jamais vi antes, com os policiais se escondendo atrás dos fuzis e estampando na cara a sensação de insegurança e medo que dominou a cidade. O pânico – que pelas facilidades modernas de e-mails, sites de notícias e twitters – se espalhando pela cidade, com as notícias de empresas liberando os funcionários mais cedo, planos de jantares e get togethers sendo cancelados por “motivos de insegurança” e a preocupação por todos os amigos que moram na Zona Norte.

Não tenho muito de novo a acrescentar – afinal tudo foi exaustivamente discutido, analisado e pensado. Mas sinceramente, três coisas me preocupam seriamente nessa questão. E sobre as quais vale a pena debater aqui.

Primeiro, o argumento mais dito e repetido pela classe média carioca nessa semana de “para fazer uma omelete precisamos quebrar alguns ovos”. 30 pessoas mortas não são “alguns ovos”, 30 pessoas mortas não são um efeito colateral necessário de algo que”tinha que ser feito”. São 30 pessoas mortas. Que não sabemos se eram chefes do tráfico, aviões ou gente honesta que levou um tiro dentro de casa tentando se esconder do conflito. Já perceberam que inexistem informações sobre quem eram essas pessoas? São 30 pessoas pelas quais não haverá “Abraço a Lagoa pela Paz” nem advogados processando o Estado porque eram... 30 pessoas, provavelmente negras, moradoras de favela e que por isso são “ovos necessários de serem quebrados” para a garantia da paz no Rio de Janeiro. Que não merecem nem a mínima dignidade de terem seus nomes mostrados ao público. Isso tudo combinado com o discurso clássico de “Direitos Humanos é o caralho” - como se realmente fossemos uma Suécia, onde os policiais ficam inertes por uma variada gama de restrições de ações

Segundo, a nomenclatura de “guerra” para o conflito que aconteceu no Rio. Me chegou via e-mail a excelente declaração do deputado Marcelo Freixo sobre a questão dos conflitos no Rio que vale a pena ser repetida.

... Primeiro, que as imagens, as armas, o número de mortos, tudo isso poderia nos levar a uma conclusão da ideia de uma guerra. Mas, qual é o problema de nós concluirmos que isso é uma guerra, de forma simplista? Não há elemento ideológico: não há nenhum grupo buscando conquistar o estado. Não há nenhum grupo organizado que busca a conquista do poder por trás de qualquer uma dessas atitudes. As atitudes são bárbaras, são violentas, precisam ser enfrentadas, mas daí a dizer que é uma guerra, traz uma concepção e uma reação do Estado que, em guerra, seria matar ou morrer. Numa guerra a consequência e as ações do Estado são previstas para uma guerra. Hoje, inevitavelmente, o grande objetivo é eliminar o inimigo e talvez as ações do Estado tenham que ser mais responsáveis e mais de longo prazo.

Pouco vale a pena acrescentar a esse paragrafo. Talvez deixar registada a minha decepção (mesmo enquanto pirralho que não sentiu na pele o que era Ditadura, mas que todo dia quando entra na faculdade vê os nomes dos estudantes da minha faculdade assassinados pelo Governo Militar escritos numa placa numa das entradas de uma das minhas salas de aula) de ter o Exército e Marinha de volta as ruas, com o apoio popular, sem que as pessoas sequer questionassem coisas como “Forças Armadas não existem para meter em balas em brasileiros” ou sobre o perigo de estimular o orgulho de “Salvador da Pátria” de uma instituição que tomou o governo para si e só foi retirado faz meros 25 anos. E enfim... quem não pelo menos repensar duas vezes o que ouviu durante essa semana pode voltar para a leitura da sua Veja e me taxar de “defensor merdinha dos direitos humanos”.

E por último, a minha eterna crítica a adoração brasileira pelas “soluções práticas e fáceis”. Que nós realmente fossemos idiotas alienados e acreditassemos que o BOPE “iria vencer essa guerra” e que daqui para frente não existisse um bandido sequer, uma bala sendo disparada sequer no Complexo do Alemão e Morro do Cruzeiro – realmente dá para acreditar que essa situação não irá se repetir em nenhum outro morro carioca, em nenhum outro subúrbio brasileiro? Realmente precisa relembrar que essa situação é nada mais do que o pagamento tardio de uma divida social, de um modelo de desenvolvimento que provocou a geração de uma sociedade altamente desigual (again – década de 90, Brasil país mais desigual do mundo, superando qualquer país africano que jamais poríamos nossos pés por questões de segurança), da falta de alternativas e possibilidades de crescimento pessoal para uma massa significativa da população que foi ignorada pelo governo e pela sociedade enquanto elas “não causavam problemas”? Isso não é um jogo de “Counter Strike Rio – Real Life”, no qual quem vence a batalha solta um gritinho de “sou macho pra caralho” e vai tomar seu ovomaltine preparado pela empregada. Isso não é um joguinho de “Call of Duty” no qual o BOPE sai da favela carregando uma criança nos braços, transpirando dever e orgulho de “defender o que é certo” enquanto os favelados jogam flores, orgulhosos de terem sido “resgatados”.

A solução? Não sou especialista em segurança pública, não sou economista especializado em estudos da pobreza e muito menos tenho topete para sugerir fórmulas inovadoras de desenvolvimento urbano e social. O que eu sei? Que tudo começa pela construção de uma Polícia respeitada por toda uma população: da Vieira Souto ao Complexo do Alemão. E o modelo para essa polícia não é Batalhão de Operações Especiais, circulando pelas ruas num panzer blindado com uma caveira com duas armas e uma faca enfiada dentro dela. É uma Polícia eficiente, exata, cirúrgica, que prende, que atira na perna antes de tomar a decisão de enfiar uma bala na cabeça de um negro (lembram do caso do morador do Andaraí que levou um tiro na cabeça enquanto usava uma furadeira elétrica porque o policial do BOPE pensou que era uma submetralhadora? Ah claro... “efeitos colaterais”).

E o pior de tudo? Eu sei que essa polícia não vai existir tão cedo. Porque é mais fácil aumentar o número de recrutas do BOPE, porque é mais fácil meter porrada em morador de favela ao invés de investir em inteligência (no próprio discurso do Marcelo Freixo: sabe onde fica o órgão da inteligência da Polícia carioca? Na Polinter – e agora, cariocas me entendem), porque é mais fácil bater sem perguntar do que ser eficiente e deixar o julgamento nas mãos do Judiciário, como toda sociedade tolerante deve fazer.

E para nós, gays: a solução para esse problema, alternativa a questão de desenvolvimento e inclusão social desse mar de gente favelada e marginalizada, já está acontecendo: o fundamentalismo religioso. O entretinemento, o centro de direitos sociais, a escolinha nessas regiões de favela e subúrbio estão sempre concentradas na figura do Igreja e do Templo Religioso - que quase sempre propaga esse discurso conservador e reaça contra o qual nós temos “lutado”. E na hora em que essas instituições passarem a querer exercer o seu poder de mobilização de massas, o seu poder político... aí bees, vai ser a hora de empacotar as Aussie Bums e camisetas AX e ir morar lá pelas bandas do Primeiro Mundo, porque teremos perdido na “nossa” batalha.

E o Rio
O cheiro do mar. O ar saudável e bronzeado das pessoas. A possibilidade de sempre contar com a praia como programa possível para uma tarde de sol livre. O mar de ressaca quebrando na praia. O sotaque – do carioquês ipanemense até o carioquês suburbano-favelado, todos com seus 's' transformados em 'x' e seus 'r' aspirados. O fato de que não importa o quão decadente economicamente nos tornamos sempre seremos identificados como a síntese, a imagem do país para o mundo. A vista da chegada a São Conrado pela Avenida Niemeyer. As lojas de sucos. Sempre se surpreender com uma vista fantástica e espetacular do Pão-de-Açúcar e do Cristo. O tempo bom e verão quase permanente no clima dessa cidade. Perceber o clima de excitação e de êxtase quando Dezembro chega e sabemos que mais um verão se inicia. Poder escolher entre a Praia ou as ruas internas (e quase sempre o trânsito fluir melhor... pela praia). A síntese de montanhas, cidade, floresta e mar. Sentir na pele o retumbar dos tambores e tamborins durante um desfile de escola de samba. Escutar Bossa Nova em qualquer lugar do mundo e ser automaticamente transportado para 'casa'.

O fato de ter 'Naturalidade: Rio de Janeiro' na minha carteira de identidade e passaporte. E pensar que tudo isso acima faz parte de um estilo de vida. O meu estilo de vida. E que independente do lugar onde eu vá morar, eu quero ter certeza de que tudo isso espera aqui, por mim.

Crise Econômica na Europa
Para todo os que curtem os meus posts “Economics for Bees”, um must read: essa coluna do Clóvis Rossi no Folha Online. Pequena lição de como a Economia realmente funciona. (E claro, estou aberto a perguntas!).

The Bitch is back
E para todos que ficaram inconformados depois que Mr. Daniel e o seu Chato no Ar resolveram pular fora do cyberspace (e se sentiram órfãos de blogs gays cariocas de altíssima qualidade), uma boa notícia: eles está de volta, mas agora sob o título “O Mundo em Meus Olhos”. Sim, queridos: o filho pródigo do Méier está de volta, com seus textos surpreendemente fodas (yes, honey: músculos, good look e inteligência podem conviver numa mesma pessoa!), senão numa pegada mais intimista. Direto para o blogroll, claro.

Agora: todo mundo sabe que o Daniel adora hidden messages, e que o ChatonoAr era ne verdade Chat Noir. Portanto, qual a hidden message de “O Mundo em Meus Olhos”? Algo tipo assim... Tom Zé? :D

(E para o Dan: Welcome back Bitch! Sentimos sua falta!)